4. Diga-me que você gostaria de me ver também

Londres trouxa, Natal de 1929

Eu vou morrer. Vou morrer. Vou morrer e vai ser agora. Dor, dor, dor... E é só isso. Tanta dor que me sinto dormente, anestesiado. A mão macia de minha mãe não me consola, então não sei o que vai me acalmar no fim. Meu pai quase entrou em desespero quando tive um ataque de tosse no meio do meu discurso de noivado. Claro que minha mãe soube contornar a situação, explicando para os Parkinsons que era uma simples gripe. Simples gripe... Antes fosse.

Eu gostaria de saber o que meus pais vão falar para Pansy quando eu morrer, inesperadamente, daqui algum tempo. Como vão consolar minha mulher? "Ah, ele teve um infarto com 22 anos de idade" Eu nem deveria me preocupar, até por que eu nem vou mais existir. Nada mais vai existir. Pelo menos para mim. Mas esse incômodo no peito existe, por que o sinto encruado na pele bem aqui. Agora. Pulsando junto com meu coração. Sinto o ar deixando meus pulmões, é difícil respirar.

Minha mãe sai do quarto deixando uma nesga de luz cortar a penumbra. Acho que alguém veio chamá-la. Fecho os olhos de novo. Maldito inverno! Maldito frio! Estou suando mas me sinto congelando. Puxo o ar e solto devagar. Puxo, puxo, mas não o sinto. Só sinto o frio que ele deixa ao sair, mas o ar não parece me adiantar de nada. Aperto os olhos com as mãos, elas escorregam pelo meu rosto suado até meu pescoço. Meu peito sobe e desce inutilmente. Não consigo mais respirar devagar. Não consigo. Eu vou morrer. Vou morrer...

-Draco? – ouço a voz de minha mãe da porta. Não respondo. Não ouso abrir a boca senão o restinho de ar escapa. – Lovegood está aqui.

-Quero vê-la – digo rápido.

-Tem certeza? Eu bem que tentei despachá-la, mas...

-Quero.

Ela volta a descer as escadas. Minha boca está seca e meus pulmões também parecem estar. Ela demora uma eternidade até aparecer com Luna.

-Draco? – dessa vez é Lovegood. Sua sombra azulada se aproxima da cama rápido e se abaixa perto de mim – Feliz Natal! – diz tirando um pedaço de papel colorido do bolso.

-O que é isso? – pergunto, e minha voz sai estranhamente rouca de minha boca.

-Um poema. Quer que eu leia?

-Sim.

Lovegood se senta na beirada de minha cama e desdobra o papel. Vejo sua mão fina e suja de tinta e sinto o ar voltar dentro de mim. Sua voz doce começa a declamar o poema e por um instante me concentro somente em suas palavras:

"Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intacta.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com os teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consome

com o seu poder de palavra e seu poder de silêncio.

Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará a sua forma definitiva

e concentrada no espaço."

LLL¹

-O que achou? – pergunta ela.

-Hum. Gostei muito. Você quem escreveu?

-Foi...

Há um silêncio tenso e fúnebre que não me lembro de ter ocorrido antes. Não quando Luna estava presente. Me remexo incomodado na cama e o gesto me dá vontade de tossir. Ela me observa e isso me incomoda mais ainda. Há piedade em seu olhar. E isso é deprimente.

-Acho que vou morrer – digo de supetão.

-Todos nós vamos – diz Lovegood calma, olhando curiosamente para o teto.

-Acho que estou prestes a morrer.

-Ninguém sabe a hora.

-Lovegood, o médico me deu dois anos de vida.

-Mas ninguém sabe a hora. Muito menos um médico – diz ela com a voz doce. - Ele deveria tentar resolver o problema ao invés de fazer previsões pessimistas.

-Vai me dizer que acredita em milagres?

-Acredito. Mas não é de milagres que precisa. Seu problema é que você se agarra à morte ao invés de se agarrar à vida.

-Não estou agarrado à morte. Apenas a aceitei.

-Tem certeza? Então posso olhar seu caderno?

-Que caderno? – pergunto sem esconder o tom de surpresa na voz.

-O de poesia.

-Eu não tenho caderno de poesia.

-Sei que tem.

-Está ali no criado-mudo – respondo emburrado.

Ela se levanta, abre o móvel e logo depois vejo sua sombra e a sombra opaca do caderno em suas mãos.

-Posso?

-Leia. Mas se eu morrer...

-Você não vai morrer tão cedo. Ainda tem muitas lições para aprender.

-Se eu morrer – digo de forma rude – não mostre esse caderno pra ninguém. Só quero que... que o guarde.

Lovegood senta-se de novo e seus dedos caminham sobre as letras prensadas no papel. Vão e voltam junto com os olhos. Eu apenas observo enquanto ela lê tudo com as sobrancelhas franzidas e sinto sua perna esquentar minhas costelas. Tudo cheira a pinho quando ela está perto. Tudo é calmaria quando Luna está presente. E eu pareço muito errado perto dela.

-Gostei desse aqui – ela fala apontando para uma página quase no fim do caderno.

Desencanto

"Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

- Eu faço versos como quem morre."
D.M.

-Foi um dos últimos que escrevi.

-É angustiante, mas lindo. Dá quase para sentir o mesmo que você. Bom, eu já vou. Melhoras, Draco Malfoy.

A vejo levantar-se e caminhar até a porta com o caderno embaixo do braço. Ela ajeita o cabelo atrás das orelhas e gira a maçaneta.

-Você continua fumando? – pergunta parada no portal.

-Qual é o problema disso?

-Você sabe muito bem. Algum zonzóbulo veio atormentá-lo?

-Não, Lovegood. Nada de zonzóbulos.

-Poderíamos marcar de ir ao cinema qualquer dia desses.

-É, poderíamos – digo cansando de contestar.

-E cuidado com os zonzóbulos.

-Que diabos são zonzóbulos, Lovegood? – pergunto me sentando na cama.

-São uns bichinhos invisíveis que entram nos ouvidos e baralham nosso cérebro – ela fala daquele jeito amalucado.

Fecho os olhos cansado de tudo. De tentar convencer Lovegood de que eu vou morrer logo e de lutar contra meus próprios pulmões principalmente. Afundo a cabeça no travesseiro e tento dormir. Hoje a noite vai ser longa. Quer dizer, hoje a noite está sendo longa. Por que hoje meu dia têm sido só noite. Quem sabe ano que vem eu não melhore? Ou quem sabe se vou mesmo existir ano que vem?

Janeiro de 1930 78.415° e 78.416° cigarros

Recosto-me na fachada de pedra do cinema e espero. Lovegood deve estar quase chegando. Eu queria ver Blackmail, que é o primeiro filme inglês falado, mas Lovegood insistiu em ver Tempos Modernos (que não tem nada de moderno). Eu falei que nós dois já assistimos esse filme e que tem melhores passando, mas ela ainda insiste. Acendo um cigarro e observo a rua enquanto espero. Eu poderia muito bem ir comprar os ingressos, mas tenho esperanças de que eles acabem antes de Luna chegar. Se bem que eu duvido muito, já que ninguém em sã consciência vai querer ver um filme mudo quando se pode ver o primeiro filme falado e assim entrar para a história. Que seja...

O carro dourado dos Lovegood dobra a esquina e esmago o resto do cigarro com o sapato. Quando ele para espalhando água, vou caminhando até lá. Lovegood desce do carro usando uma de suas calças e um casaco de frio enorme.

-Oi, Draco! Desculpa o atraso, tinha um vampiro no nosso sótão que deu bastante trabalho pra sair.

-Vampiro? – pergunto entrando na fila.

-É. Claro que quando ele nos viu ele se transformou em morcego, mas tenho certeza de que era um.

-Sei. Nós vamos mesmo ver Chaplin?

-Sim – ela fala me olhando. Seus olhos azuis brilham e sua boca desenha um sorriso doce. – Vamos comprar pipoca?

-Pode ser. Dois para Tempos Modernos – digo ao caixa. – Ou você não quer?

-Claro que quero. Mas o que eu queria mesmo era um sorvete.

-Lovegood, está frio para um sorvete. Espere o verão chegar e tome quantos sorvetes quiser. E de qualquer forma, não vai dar tempo, o filme já vai começar.

Luna pede uma pipoca para o vendedor e ele dá uma piscadela antes de colocar no saco. Ela sorri de volta e o garoto cheio de espinhas, magrelo, horroroso e atrapalhado derruba o saco quando as mãos deles se tocam. Ele volta a encher outro e paro ao lado de Luna com os braços cruzados. Quem esse abusado pensa que é, afinal de contas? Ele deveria se colocar no lugar dele e apenas nos servir, que parece ser a única utilidade que ele tem. Quando ele estende a pipoca, a pego bruscamente e Lovegood me puxa pela mão até dentro da sala escura.

Só um casal de velhinhos sentados bem na frente e uma mulher gorda e cheia de penas na cabeça esperam pelo filme. Nos sentamos, comemos nossa pipoca, com nossas mãos se tocando ocasionalmente, e rimos quase o filme inteiro. Quando saímos, a luz suave e quente do fim de tarde vem de encontro ao nosso rosto. Ela tira o casaco e caminha abraçada com ele, enquanto ao seu lado eu fumo um cigarro distraidamente. O sol se põe atrás dos prédios e seus últimos raios pintam o Tâmisa de cor-de-rosa e as pedras do chão de laranja. Devagar a noite escorre doce no céu, como geléia de ameixa.

Luna e eu passeamos por Londres apenas aproveitando a cidade e a quentura do ar. À medida que a escuridão cai completamente sobre Londres, nos embrenhamos mais nessa selva de pedra. Eu a deixo em casa e pego o bonde para ir até a minha. Sinto-me leve e gostaria de poder tomar um sorvete agora mesmo. Não sei quantos passeios com Luna como esses poderei fazer, apesar de ansiar cada vez por mais.

Meados de fevereiro 14 dias sem fumar

Da radiola antiga escapa uma música francesa sussurrada e das mãos de Luna traços coloridos que mancham a tela. Recosto-me confortavelmente no divã enquanto a observo criando sua nova obra. Ela tem um pincel reserva sobre a orelha e uma expressão concentrada. (O que é muito espantoso, se formos pensar bem. Afinal estamos falando de Luna Lovegood). Como ela não esboça antes a tela, não faço a menor idéia do que está pintando. Mas é bem alegre e quente. E familiar.

-Quatorze dias sem fumar... – digo apenas por dizer.

-E como está se sentindo?

-Límpido.

Ela volta a pintar enquanto me perco em pensamentos. Estou muito bem acomodado no ateliê de Luna Lovegood. O lugar me parece bem íntimo e me sinto extremamente bem. E agora que parei para refletir, me dou conta do quão estranho isso é. Luna é uma maluca de marca maior que eu nunca daria o verdadeiro valor. E como foi que isso tudo começou? Começou com ela visitando a Mansão Malfoy e toda aquela palhaçada de plataforma 9 ¾. E depois mais uns encontros até eu piorar de vez e aí... Não sei, só sei que por mim está tudo ótimo. Tá certo que eu tive que me esconder bem umas duas vezes por que encontramos conhecidos nas ruas e definitivamente prefiro que não saibam sobre nossa amizade, mas ainda assim está tudo bem.

Um tabuleiro de xadrez descansa sobre a mesa, algumas peças estão tombadas e o jogo parado na metade. Recolho as peças e começo a guardá-las quando Luna para abruptamente de pintar e se vira para mim.

-Draco, tenho uma coisa pra te contar.

-Diga – falo parando com algumas peças na mão.

-Eu vou viajar para estudar.

-Estudar o que?

-Artes. Na Bauhaus – ela fala pondo o cabelo atrás da orelha.

-E isso não é bom? – pergunto, porque ela não está sorrindo.

-Eu vou passar um ano lá. Ou mais, depende de como tudo vai sair.

As peças despencam da minha mão e o som delas batendo contra o chão de madeira perfura meus ouvidos. Olho para Luna sem acreditar, mas ela já está abaixada catando os peões e os colocando na caixa. Me agacho também e catamos as peças pretas e brancas. Nossas mãos se tocam quando vamos pegar a rainha branca e ela me olha nos olhos. Os seus estão terrivelmente úmidos e não sei o que dizer. De repente só quero sair desse maldito ateliê por que não estou mais confortável. Pelo contrário, a gola da minha camisa está apertando minha garganta e minhas mãos suam muito.

Ela fica parada imóvel, com as mãos cruzadas na frente do corpo. Parece um dos cavaletes dessa sala. Mas o quadro sobre ela com certeza não é alegre.

-Quando você vai?

-No começo de março – ela diz se sentando no divã.

-Meu casamento também é em março.

-Se importa se eu não for?

-Claro que não – digo com a garganta seca. – Quer dizer, para você essa viagem é bem mais importante.

Ficamos em silêncio de novo, então me sento ao seu lado. A música ao fundo fica mais alta agora e só a vitrola parece estar viva.

-Então... eu já vou indo. Tenho que mandar fazer meu terno para o casamento.

-Certo – ela diz meio atordoada - Então... Até logo. Eu te levo até o portão.

Atravessamos a sala calados e do lado de fora a neve cai sem piedade no jardim bem cuidado dos Lovegood. Os flocos planam sobre a cabeça de Luna também. Ela fica linda com flocos sobre os cabelos. Isso me lembra dela no carrossel, do cabelo voando para trás e do sorriso brilhante e avoado.

-Draco, não se esqueça dos chicletes. Antes eles do que cigarros.

-Eu sei – falo jogando um na boca. – Quer um?

-Não. Não gosto de hortelã e dizem que algumas fábricas usam elfos como escravos para fabricar os chicletes.

-Adeus!

Ando na rua com as mãos nos bolsos e de cabeça baixa. O vento salpicado de neve bate contra meu corpo e não quero pensar em nada. Só ir para a casa e sumir.

Início de março 37 dias sem fumar

O carro para num sinal de trânsito e Luna aproveita para abrir a janela. Masco um chiclete observando o tráfego hoje. Tudo está calmo. O começo de primavera em Londres é sempre tímido. Ainda chove e faz muito frio, mas o colorido começa a despontar nos jardins. O Sr. Lovegood está sentado no banco da frente ao lado do motorista e Luna, todas as suas malas e eu, atrás.

Quando chegamos a King's Cross, o grande relógio marca quase dez horas. O motorista para o carro e desce para pegar as malas. Descemos do carro e caminhamos até a plataforma 4. Ignoro totalmente que daqui a cinco horas será meu casamento e minha mãe deve estar igual uma louca atrás de mim. Enfio a mão no bolso pela sétima vez para ver se a carta está mesmo aqui. Escrevi na noite passada e sei que não é o suficiente, mas mesmo assim quero entregar. Quase todas as promessas são dívidas.

O impossível carinho

"Escuta, eu não quero contar-te o meu desejo
Quero apenas contar-te a minha ternura
Ah se em troca de tanta felicidade que me dás
Eu te pudesse repor
- Eu soubesse repor -
No coração despedaçado
As mais puras alegrias de tua infância"

D.M.

O trem já está parado, soltando aquela fumaça negra e poluente. Paramos lado a lado olhando para o trem, cada um pensando em coisas diferentes que no fim devem ser quase sobre o mesmo assunto. Os dois Lovegood se abraçam por muito tempo e sem saber o que fazer, apenas fico olhando para o trilho. Até onde isso vai dar? Quando eles se separam Luna olha para mim e sorri. Seus olhos brilham e ela caminha até minha direção. Ela me abraça e seu cheiro, como sempre, me atinge em cheio, entorpecendo-me.

-Luna, eu fiz para você – digo em voz baixa, entregando o envelope pardo.

-Vou guardar para ler no trem – ela fala o colocando dentro de um livro.

-Boa viagem!

-Obrigada. Bom casamento pra você! Eu sinto muito não poder ir, mas eu tenho um presente para você. Pai, - ela diz se virando – viu onde eu coloquei aquele embrulho?

-Não é aquele embrulho verde, não?

Ela tira uma caixa grande de cima de um baú e me entrega. Rasgo o embrulho verde, que já está todo furado, e quando enfio a mão pego em algo peludo. Olho para dentro antes de enfiar a mão de novo, então vejo um cachorrinho olhando curioso para mim. O pego no colo e ele funga o ar cheio de fumaça e sacode as orelhas.

-Um cachorro – digo passando a mão no pelo macio.

-É uma cadela.

-Que seja...

-Luna! – ouvimos alguém gritar.

Quando nos viramos vemos os Potter e os Weasley através da fumaça. A Ex-Weasley, agora Potter (o que não faz muita diferença, já que são dois sobrenomes de muito mau gosto) caminha mais rápido na frente do grupo e quando nos alcança se joga nos braços de Luna. Logo depois vem o Potter-Perfeito com o mini-Potter-Perfeito e a abraça também. Logo estão todos a cobrindo de abraços e desejando felicidades. A Granger faz um discurso sobre aproveitar essa oportunidade pra adquirir mais conhecimento e é nessa hora que penso que seria capaz de vomitar na caixa do cachorro, se ele não estivesse lá dentro. Eles conversam animadamente por uns dez minutos e quando estou quase escapando Luna me chama.

-Não vai me esperar embarcar? – pergunta com sua voz doce.

-Vou. Eu só ia ao banheiro.

-Mas o trem já está partindo.

-Então eu espero – digo.

Masco um chiclete por mais pura falta do que fazer. O trem apita e Luna começa a colocar as malas lá dentro. Todo mundo está a ajudando, então não vou nem me oferecer. O Weasel a abraça de novo e ela sorri contra os cabelos ruivos dele. Luna ajeita o cachecol e vem me dar outro abraço. E esse é o último. Seu cheiro de pinho refresca minhas narinas e seu cachecol felpudo faz cócegas no meu pescoço. Seu cabelo louro dança com o vento e sua bochecha macia está bem apertada junto com a minha.

-Vou te mandar cartas.

-E vai esperar respostas? – pergunto com um sorriso inclinado.

-Claro. Eu estou com seu caderno. Quer ele de volta?

-Não, pode ficar – digo colocando o cabelo longo dela atrás da orelha. – Eu escrevo outros.

-Até logo, Draco.

-Logo? – pergunto.

Mas ela não responde. Sobe no trem e logo depois aparece numa janela. Ela acena para todos, os homens cumprimentam com os chapéus e a Potter com um lencinho. Levanto a mão sem saber ao certo o que fazer. Eu já estava me acostumando com a Lovegood. Ela vai ficar mesmo um ano fora? Será que ela ainda volta a tempo de me ver? O trem começa a andar lentamente e o Sr. Lovegood acena mais freneticamente. A cabeça loira dela entra no vagão e logo depois o trem faz a curva. Só sobra a fumaça e eu. Pelo menos é só isso que sinto.

E é a última vez que a vejo. Nenhuma troca de olhares, nenhum "obrigada", nenhum beijo. Só o adeus silencioso e triste de quem fica. Por que as pessoas sempre se importam mais em contar a história de quem parte do que de quem é deixado para trás. Por que ela vai continuar a vida dela enquanto vou passar pouco que resta da minha me perguntando: "E se não fosse Lovegood? Seria tudo diferente, não é?"

Algumas horas depois

Estou impecavelmente vestido, limpo e penteado. Caminho de um lado para o outro na sacristia enquanto minha mãe não cala a boca.

-Onde arranjou esse cachorro? Isso é coisa da Lovegood! Estava com essa maluca não é? Esse... envolvimento de vocês não é bom, Draco. Sabe o que Dayse me disse?

-O que a Sra. Parkinson disse, mãe? – pergunto entediado.

-Que viu você dois juntos na casa de chá!

-Nossa! – exclamo me fingindo espantado.

-Sabe o que minhas amigas estão falando?

-Mamãe, me deixe descansar só um pouquinho? – pergunto me sentando numa cadeira atrás de uma mesa - Ou então estarei indisposto para cumprimentar todos os convidados da festa. E com certeza você não vai querer que eles tenham uma impressão pior ainda de mim.

-Certo, eu vou ver como estão os arranjos. Mas...

-Eu sei, eu sei.

Ela sai e fecho os olhos um pouco. Meu Deus! Será que não me dão um pouco de descanso? Minutos depois meu pai aparece tempestivamente.

-Draco, está lembrado da conversa que eu tive com você? – ele pergunta sério.

-Estou.

-Constituir família é uma tarefa difícil e que exige muita responsabilidade.

-Eu sei – digo. Tenho vontade de acrescentar "Não é tãão difícil assim, já que você conseguiu", mas não quero encrenca hoje.

-Certo. Aqui estão as alianças – diz tirando uma caixa de veludo verde do bolso.

-Está na hora – diz minha mãe quase cantarolando. – Pansy está tão linda!

Enquanto conduzo minha mãe até o altar, rostos curiosos e desconhecidos nos olham. Ela beija minha testa e vai para o lado de meu pai. Fecham as portas da igreja e a marcha nupcial começa a tocar. Quando elas se abrem, Pansy e seu pai entram pela porta, ambos sorridentes. Ela está toda vestida de branco, um véu lhe cobre os cabelos e metade da testa e ela tem dois pequenos buquês de flores sobre as orelhas.

Pego em sua mão quando é preciso pegar, digo "sim" quando todos esperam por isso e aceito de bom grado o arroz que jogam sobre a minha cabeça. Não é tão difícil assim ser casado. Vejo Pansy cumprimentando os convidados ao meu lado e sorrindo e penso no quão injusto é casá-la comigo. Mas se formos lamentar todas as injustiças, lamentaríamos primeiro as minhas, que são piores e mais importantes. E aí choraríamos as injustiças de todos e esqueceríamos de viver. Prefiro mascar meu chiclete e nos intervalos tentar adivinhar onde será que Luna está agora.


Índice
:

¹ Poema de Drummond, com adaptações.


Set list

The Beatles – Come Together

The Beatles – Here comes the sun

The Beatles – Golden Slumbers

The Beatles – Something

The Beatles – Strawberry Fields Forever

Amy Winehouse – Back to Black

Amy Winehouse – You know that I'm no good

Caso alguém queira, eu tenho todas as músicas de todos os set lists dos capítulos em MP3. Mandem e-mail, coruja, scrap, MP...