Alegoria – expressão virtual que transmite b para significar a. Chamado de modo quase errôneo de 'entrelinhas', mas são dois significados interligados com uma relação de interdependência. Ex: "Ela dizia que me odiava, mas seus olhos brilhavam de paixão ao me ver"

Para toda a regra há uma exceção, dizem por aí. Há também um grupo de céticos que diz que isso é uma regra e que, portanto, há uma exceção para ela também.

Bom, eu não seria a exceção para essa primeira regra se ela realmente existisse.

Meu fascínio por letras, por linguagem e por escrita era devidamente marcado pela minha característica metódica de escrever listas de modo engraçado sobre meus afazeres, e enumerar de modo ainda melhor qualquer coisa que eu achasse interessante e digna de atenção. E essas coisas passavam desde um simples tom de uma folha no outono – minha estação preferida de longe, e na qual estamos agora – até uma lista dos possíveis nomes que a minha gatinha poderia ganhar.

Mas nada podia ser perfeito, mesmo na mais bonita das luas de mel. E uma dessas era exatamente o que eu vivia com as palavras, sem interrupção alguma.

Tirando o que é conhecido como 'alegoria'.

Podia passar pela enumeração, porque era divertido fazer as palavras virarem brinquedos comigo e me obedecerem para me indicar o que eu precisava. A personificação era deliciosa de se lidar – até porque eu tinha a certeza absoluta que minha gata sorria para mim – e a ironia só mais um dos milhares de artifício que qualquer ser humano tinha para brincar com os outros. O eufemismo era a arma dos professores, e a metáfora uma maneira divertida que eles encontravam de nos colocar para cima ou para baixo.

Eu gostava de todos esses recursos de verdade. E entendia cada um deles como ninguém. Claro, havia alguns que eu não era muito fã, como o circunlóquio e a hipérbole – embora, claramente, eu fosse hiperbólica -, mas eu conseguia suportá-los e compreendê-los.

Não ser objetivo era uma coisa, mas dizer uma coisa quando quer falar outra é algo particularmente inadmissível, ao mesmo tempo em que é interessante.

Eu gostava de jogar. Gostava de pegar nas entrelinhas e tentar adivinhar o que uma pessoa realmente queria dizer quando pego num corredor escuro com alguém do sexo oposto. Gostava de deixá-las acreditar que eu não fazia idéia de que elas me enganavam e que, no fundo no fundo, estavam morrendo de vontade de me matar por dar-lhes uma detenção.

Mas eu não era adepta disso. Dizia exatamente o que queria dizer.

OoOoOoOoOoOoOoO

"Ruiva"

"Quer que eu te chame de 'moreno', James?"

"Adoraria. Pode começar agora, por favor"

Ela me olhou com ceticismo e desviou os olhos dos meus, baixando-os para a abóbora cantora que estava em suas mãos. Havia sido mal enfeitiçada e cantava músicas natalinas ao invés de soltar lendas aterrorizantes de Halloween.

"Você é inacreditável" ela soltou, andando com a abóbora – 'Jingles Bells, Jingle Bells' – em direção a um canto do salão principal, onde estava Flitwick. O professor, diferentemente da gente, não parecia ter problemas em controlar suas corujas "O que é?"

Eu sorri, sem responder nada de imediato, e a segui pelos caminhos livres do salão. Para tudo quanto é lado, abóboras sorriam, bruxinhas à lá trouxa dançavam e corujas falsas piavam.

A excitação de trinta de outubro.

"Estava com saudade de ouvir sua voz" respondi, piscando-lhe o olho de forma exagerada. Ela não pôde impedir um sorriso de surgir em seu rosto, mesmo fazendo de tudo para contê-lo ou, ao menos, não mostrá-lo a mim "Vamos, dialogue"

"Eu falo sério, James"

Eu fiz biquinho "E o 'moreno'?"

Ela revirou os olhos e parou de andar, endireitando o corpo para que ficasse totalmente de frente para o meu. Uma de suas sobrancelhas acobreadas estava arqueada na minha direção como se me desafiando, perdendo-se na franja ruiva que delineava seu rosto.

"Pense bem, podíamos ser um casal que, ao invés de nos chamarmos de 'mô' e 'docinho' nos chamaríamos pelo tom do cabelo" eu continuei, sorrindo ao ter mais um revirar de olhos como resposta. Cruzei a pouca distância que nos separava e, com a mão passando por seus ombros, recomecei a caminhada "Não seria propriamente uma inovação, mas uma quebra aqui em Hogwarts, ruiva"

Lily mordeu o lábio inferior, mas não riu – ao contrário com um movimento de ombros expulsou minha mão de onde estava e, mais uma vez, parou de andar para me olhar.

Eu sabia que era irresistível, mesmo para ela.

"Você vai me dizer por que me chamou..." deu uma pausa devido a um grito cantante por parte da abóbora "... ou vai ficar por aí, falando nada com nada?"

"Ruiva, ruiva" fingi repreender, divertido "Aprenda que eu nunca, na minha vida, falei nada com nada. Sou totalmente baseado em fatos"

Ela riu um riso leve "Exemplo?"

"Eu poderia passar o dia listando. Mas posso começar por..." calei minha boca quando ouvi o som da voz meio irritante de Mcgonagall me chamar de algum ponto á esquerda, virando-me por cima do ombro para ver onde ela estava. Quando vi seu olhar sobre mim e o movimento de sua mão, voltei-me novamente para Lily e soltei um sorriso falsamente acanhado "À noite, talvez"

Soprei-lhe um beijo e ainda tive tempo de ver seu sorriso de despedida antes de me virar, andando em direção ao dever que me chamava.

"Fale, doce dama" brinquei, sorrindo, pegando sua mão e a beijando "O que a senhora quer desse seu fiel súdito...?"

"Isso não vai te livrar da detenção, Potter" ela me disse, mesmo que sorrindo e com os olhos brilhando pela brincadeira "Até porque, se fosse fiel, me escutaria e não andaria pelos corredores às três da manhã"

"Estava zelando pela sua condição" eu repliquei, ainda mais divertido, e pisquei-lhe o olho "O que nos leva à pergunta sobre o que você estava fazendo às três da manhã num corredor deserto em meio a uma guerra"

Ela soltou um sorriso e deu uma batidinha em minha cabeça.

"Nada de me contestar, James" disse, ainda sorrindo e afastando a mão que estava na minha, rápida. A conhecia bem desde que eu usava fraldas, e sabia que ela não era dada a afeições "Preciso que vá à sala da monitoria e pegue o planejamento que a Evans fez"

Eu pensei em perguntar por que ela não pedia isso para a dona do planejamento, mas calei minha boca ao perceber que seria divertido ver como era realmente uma de suas listas. Então, sorrindo de maneira exageradamente galante, curvei meu corpo e fiz-lhe uma reverência antes de virar e sair do salão.

OoOoOoOoOoOoOoO

Eu sabia reconhecer o caráter feminino de longe.

Uma das minhas muitas habilidades, devo te dizer. E era bastante útil na hora de confiar a alguém um segredo, ou na hora de pedir a alguém que faça alguma coisa para mim.

Mais ou menos como a dádiva do sexto sentido, mas com melhorias. Nunca me decepcionei.

Então, acho que é justo dizer que, infelizmente, minhas amigas são um pouco usadas por mim. Tenho uma amiga para segredos – Mary – uma amiga para compras – Alice – e ninguém serve tanto quanto Marlene para criar planos diabólicos de como matar meninos sem que ninguém desconfiasse da gente. Emmeline era a melhor para conselhos de tudo quanto é tipo e, enquanto Dorcas é a incontestável reparadora de corações partidos, Sophia é a cupido do grupinho.

Mas eu não ficava só nos estudantes. Minha mente totalmente clara e receptiva a fatos passava pelas mães que, às vezes, tínhamos que levar até o Salão Principal para alguma festividade ou à sala do diretor porque seu filho quebrou duas ou três regras que mereciam mais que um mês de detenção pela ruptura. Também ia para as funcionárias do Ministério que passavam por aqui para dar notícias muito mais consistentes aos professores sobre a guerra lá fora e, só de olhá-las, eu era capaz de dizer quem estava fingindo ou não.

Mas as minhas preferidas, talvez pela convivência, eram as professoras. E, delas, Mcgonagall ganhava de longe.

Desde onze anos, eu gostava de observá-la. Diferentemente das outras alunas, não senti medo dela – ao contrário, me dava uma certa satisfação a linha de expressão que tinha em seus lábios trincados – e consegui admirá-la sem o malefício da covardia.

Foi com grande respeito e – por que não? – carinho por ela que eu passei a ter certeza de que seu coque puxado fortemente para trás e seus olhos sempre brilhantes não eram somente aparência para que ela fosse temida pelos alunos. Minerva também tinha o andar duro, pesado, e ninguém poderia simplesmente fingir totalmente com tantos detalhes.

Mas, lá no fundo, eu sabia que parte daquele brilho era para a gente e que, portanto,nós também éramos motivos de sua diversão bem disfarçada.

Foi por isso que, depois que deixei a abóbora – 'Good times for Christmas' – e a vi sorrindo um sorriso de canto para o nada, eu tive que seguir seu olhar para ver o que a divertia tanto.

James Potter saía para os corredores.

"Pronto, aqui está, Srta. Evans"

Eu virei meus olhos para o professor de feitiços e, com um meio sorriso, peguei a abóbora – 'Há 600 anos...' – e comecei a andar na direção em que as outras estavam para colocá-la lá. Mas no meio do caminho, as portas se abriram e, de lá, Dumbledore fez um aceno com a varinha.

Tudo o que não tinha mais erros estava no lugar. As abóboras nos cantos, as corujas voando entre os poleiros altos, as bruxas do tamanho do Pequeno Polegar fazendo algumas traquinagens nos cantos. Os cálices para as bebidas, o balcão improvisado – mas lindo, como tudo em Hogwarts – e a decoração do chão, que se estendia mesmo com alguns objetos fora do lugar.

Eu poderia oferecer isso à mamãe no Natal.

OoOoOoOoOoOoOoOoOoO

Dois sonserinos mandados para a detenção, um encontro com Madame Norris e um feitiço para fazer Amos tropeçar depois, eu finalmente havia chegado na sala da monitoria. Estava como sempre, vermelha e dourada – era, segundo Minerva nos dissera com tanto orgulho no começo do ano, a primeira vez desde Faraday e Michaels que isso acontecia – e imaculadamente arrumada.

Não fosse o cantinho da mochila da Lily.

Curiosidade me tomando por completo – Lily deixando algo bagunçado era inimaginável, e olha que eu era capaz de imaginá-la em situações que ninguém mais consegue – fui até lá, pé ante pé como se fosse um criminoso ou perseguidor de um.

Mas ouvi um miadinho.

"Ah, então é você" eu sorri para a gata que tinha dado a ela, ajoelhando-me sobre apenas um dos joelhos enquanto a chamava com a mão e com um meio assovio. Ela veio, sem hesitar, e colocou o narizinho na ponta do meu indicador antes de roçar o corpo na minha perna e me fazer cair "Sua dona é uma pessoa bem organizada, sabia? Não vai gostar muito de ver as coisas dela assim".

Ela só me olhou de volta, como eu tinha certeza que faria, mas desviou os olhos quase dourados para ver o que antes havia bagunçado voltando magicamente ao lugar. Não gostou muito disso; remexeu-se entre as minhas mãos e, assim que teve uma patinha branca livre, me arranhou.

Arisca como a dona.

"Certo, tudo bem. Bagunce as minhas coisas, se conseguir fazer um trabalho melhor que o meu" eu apontei a minha mochila enquanto, com um aceno de varinha, trazia a de Lily para mim. Abri sem nem pensar que as coisas femininas – principalmente uma que recebe um pouco da raiva de Lily por ter que ser aumentada magicamente todas as vezes em que é utilizada – poderiam ser quase aterradoras e, logo de cara, vi um rolo e pergaminhos.

Dever de Poções, sobre os efeitos positivos que o Veritaserum poderiam trazer numa sociedade em guerra como a nossa. Algumas anotações antiqüíssimas de Adivinhação que ela fizera e estava revendo para ver se encontrava alguma lógica naquilo – sim, ela me contara – em conjunto com um pergaminho apenas com frases soltas e malucas da nossa professora. Um ou dois deveres de Transfiguração e, finalmente, as listas.

Uma sobre 'Como fazer Marlene calar a boca', em conjunto com a tal Mary Mcdonald. Outra sobre 'como fazer Alice chegar à maioridade com um galeão no bolso que seja'. Uma sobre as vantagens de ser auror – ela via bastante e, por um momento, me permiti sentir mais orgulho dela do que já sentia – e outra sobre as vantagens de nunca contar isso à sua família trouxa.

A antepenúltima, só para não tornar as coisas meio clichês, era dos afazeres para o Halloween, já quase tudo feito. E a penúltima em si era uma outra lista, dessa vez de possíveis nomes para o novo animalzinho dela.

Eram nomes interessantes. E observações interessantes também – ela escrevia bem demais, e fazia as coisas meio que parecerem exageradamente reais – que, eu sabia, ela fazia só para não deixar essas listas algo tão metódico quanto ela.

"Você vai ter nomes bons, se depender da sua dona. Ela só tem que se decidir" eu voltei a chamar a gata e, sem desviar os olhos da lista, afaguei seu pêlo branco "E, sabe, isso é meio difícil".

Ela olhou para mim como se entendesse.

"Por isso que eu vou ter que ajudar"

OoOoOoOoOoOoOoOoOoOoO

"Snowie"

Certo, eu estava totalmente absorta em meus pensamentos sobre como as drogas dos morceguinhos iam se encaixar acima da mesa dos professores quando ouvi esse sussurro em meu ouvido.

Era de imaginar que eu pulasse.

"James!"

"Ruiva" ele me cumprimentou de volta, divertido, piscando-me um olho castanho esverdeado de volta "Sentiu minha falta nesses cinco minutos?"

Eu não respondi, uma expressão totalmente infantil no rosto e com a plena consciência de que eu estava sendo ridícula com isso ao mesmo tempo que sentia que não podia evitar de jeito nenhum deixar um biquinho aparecer nos lábios.

Eu odiava ser assustada.

"O-que-é?"

"Poxa, você não ouviu?" ele imitou minha reação e também fez um biquinho nos lábios, parecendo mais manhoso que eu "Eu gostei de Snowie"

Estava pronta para abrir minha boca e perguntar do que ele falava quando me toquei que era sobre o presente que ele me dera. Por um momento, uma quase vergonha subiu – ele saber das minhas listas era uma coisa, outra completamente diferente era ele pensar que tinha alguma coisa relacionado com ele nelas – mas, depois, passou.

Esperei a raiva, mas ela não veio também. Esperei a irritação, mas tudo o que senti foi uma pontadinha mínima, lá no fundo, pela qual eu não gritaria, não choraria e nem armaria um escândalo.

Eu tinha que escrever uma lista sobre o porquê de algumas coisas terem mudado desse jeito.

Não que eu gritasse com ele antes. Só pelos corredores, quando ele aparecia do meio do nada e me roubava um selinho para, depois, sair correndo dos meus feitiços. Ou, talvez, quando ele me assustava por trás e me dava um beijo na bochecha, as mãos firmes em minha cintura e só desfazendo o aperto quando eu virava para fuzilá-lo com um olhar raivoso.

Mas, fora isso, eu não gritava. Não era uma garota suficientemente hiperbólica, como Petúnia dizia, para fazer uma cena e me fingir de afetada enquanto uma platéia surgia. Eu era mais do que gritos, tinha certeza – eu era 'frases'. Respostas prontas ou que se formavam rápido na minha cabeça soltas para quem quisesse ouvir. E tudo com o melhor tom e delicadeza e veneno, só para interessar ainda mais quem decidisse parar para ver o show.

Por isso, pigarreei a garganta e esperei que a resposta viesse.

Esperei.

Esperei.

Esperei mais um pouco, e tudo isso não passou de uma fração de segundo.

Mas ela não veio.

"Eu espero" resolvi dizer antes que ele percebesse a demora "que isso não queira dizer que você fez o que eu acho que fez"

"Ver a sua lista sobre os nomes a serem dados para ela? É claro que eu vi" ele respondeu, sem se abalar, e tenho certeza que não deu a mínima para o meu olhar venenoso "Minnie me pediu que pegasse a lista que você fez para o Halloween" e apontou para a professora, que realmente segurava o meu pergaminho com borda desenhada, como se fosse a prova de um crime "Eu peguei. E a culpa não é minha por você não separá-las"

"Você devia ter me pedido"

"Você estava muito preocupada com uma abóbora cantante, ruiva"

"Você não tinha o direito de mexer nas minhas coisas"

"Mas eu não olhei. Eu chamei com um Accio" ele deu uma pausa e, por um segundo, eu acreditei nele. Mas James, como muitos, foi traído pelo olhar – o castanho era intensificado pelo brilho esverdeado, meio sapeca "Elas estavam entrelaçadas"

A boa e velha dissimulação atrás da nova alegoria.

"James..."

"Certo, eu menti" ele disse, rindo de leve, quase baixo "E não pensei em não ler por um segundo, ruiva. Foi convidativo demais"

Eu não disse nada, emburrando um pouco mais a expressão, bufando de tal modo que alguns fios da minha franja fossem para cima e voltassem para minha testa.

"Mas, de qualquer jeito, desculpe" ele cedeu antes de mim, sorrindo um sorriso de canto exatamente do jeito que eu gostava desde o ano passado "Eu sei que não devia ter lido"

Eu pensei em negar e franzir o cenho com um pouco mais de irritação do que a que eu sentia, mas não consegui. Então, pensei em dar as costas depois de balançar a cabeça em reprovação, mas nem meu pescoço nem meus pés conseguiram esboçar o movimento que eu queria.

Eu até estava meio surpresa, quer dizer.

Convivia há seis anos e dois meses com James, e desde dois anos atrás ele me perseguia dia e noite com cantadas cada vez mais engraçadas e divertidas. Sussurrava no meu ouvido, tocava minha cintura com as mãos, entrelaçava nossos dedos e passava o braço por meus ombros. Ele me fazia soltar sorrisos secretos com suas palhaçadas e suas respostas irônicas e superiores aos sonserinos, às vezes me fazia rir com os gestos de descaso que fazia para quem não gostava e os modos exagerados para Mcgonagall, como se ele fosse um cortesão de Henrique VIII e ela a rainha ou a princesa.

Eu esperava tudo dele. Sorrisos, risos, olhares estreitados e sobrancelhas arqueadas, toques quase ousados de mãos e selinhos – nada mais que isso, embora algumas vezes ele só tivesse resolvido tirar a língua de perto da minha porque a minha varinha estava na cintura dele – roubados. Tudo isso, claro, porque eu já tinha visto, e não só comigo.

Mas um pedido de desculpas? Só para Dumbledore, e olhe lá.

"Snowie" eu pesei a opção, deixando o nome pender em meus lábios "Mas os olhos dela são cor-de-âmbar"

Eu achei que ele fosse demorar a digerir minha reação, mas o aumento de seu sorriso foi imediato.

"É, mas acho 'Amber' um nome muito humano" ele me disse, pela primeira vez me fazendo pensar sobre isso. Por mais bonita que fosse a cor de seus olhos, seu nome seria mesmo muito humano "Eu gostei do variante francês que você escolheu, mas..."

"Achou 'D'ambre' sério demais para a carinha fofa dela?" eu interrompi, mais alegrinha por discutir sobre a coisa mais fofa do mundo. E, quando ele sorriu em concordância, eu permiti que o sorriso se alastrasse para meus olhos também "E não gostou dos outros?"

Ele negou, ainda sorrindo.

"Snowie, então" cedi, fazendo-o soltar e soltar um "Yes!" brincalhão "Agüenta por mim aqui?"

James arqueou uma sobrancelha "Para?"

"Vou trazer Snowie para cá"

Ele abriu um pouco mais o sorriso e bateu continência, mas se aproximou de mim ao invés de abrir espaço para que eu passasse. Vi-o se aproximar e, de imediato, senti meu corpo se retesar por ele estar tão perto de mim.

"Beijo de amigo" ele disse, baixo, mas sem ser um sussurro. Inclinou o corpo na minha direção e, desviando da minha boca devagar, beijou a parte baixa da minha bochecha "Já que não posso te dar um beijo de namorado"

Seu tom era maroto, divertido,e sua boca que antes se delineava num sorriso me soprou um beijo quando ele começou a se afastar de mim.

Eu tive que forças meus pés a começarem a andar.

OoOoOoOoOoOoOoOoO

Eu gostava de quando Lily me olhava.

Ela estreitava os olhos antes de anuviá-los, o verde não deixando de brilhar nem por um segundo. Às vezes, ela arqueava a sobrancelha como eu sempre fazia, e dava um sorriso de canto que proporcionava um brilho extra ao seu olhar.

E, portanto, fazia de tudo para que ela me olhasse, de qualquer jeito possível. Mesmo quando eu estava em detenção e ela soltava um olhar reprovador, eu sorria e gostava. Ou, então, quando ela fazia aquele olhar de 'Como você pode ser tão criança?' e meneava a cabeça de um lado ao outro, o lábio inferior mordido enquanto o verde parecia irritado. Também me relanceava olhares de indiferença, do tipo 'Você poderia estar usando aquela sua capa que eu não sei que existe que estaria igual para mim', mas esses rareavam como os outros dois, e davam lugar aos meus preferidos: os olhares sapecas que ela me destinava quando me via fazendo alguma palhaçada com os professores; os olhares de aprovação quando me via realizar com precisão uma tarefa da monitoria, ou seu olhar de meia surpresa quando, ano passado, me viu pegar o pomo.

Ela me olhava de qualquer jeito, então. Seja para desaprovar, para aceitar, para dizer que estava tudo bem ou para me ignorar. Não importasse o sentimento, eu sabia que ela sempre me olharia e que eu sempre gostaria disso.

Mas, mesmo assim, foi uma surpresa quando ela me devolveu o olhar depois de uma frase um pouco solta soprada em seu ouvido. Eu não esperava, de jeito nenhum, que ela mantivesse os olhos fixos nos meus por tanto tempo, mesmo depois de me ver andando de costas e devolvendo o olhar com intensidade.

Surpresa maior foi o que eu vi nele.

Como ele veio, eu esperava diversão. Esperava uma resposta espirituosa e um sorriso de despedida. Esperava até ironia, talvez surpresa e um quê de 'Pode sonhar, Potter', ou ainda um revirar de olhos como quem me ignora e um virar de corpo para encerrar a conversa.

E foi isso que ela fez. Virar o corpo e não dizer nada, quer dizer. Mas, para mim, mesmo que eu seguisse suas costas, seus olhos verdes ainda estavam ali, fixos nos meus, com a mesma intensidade, a mesma curiosidade e o mesmo desejo.

Eu sorri. Eu tive que sorrir antes de me virar e fingir fazer alguma coisa. Porque, eu tinha certeza, Lily Evans podia ser tudo, mas não era dissimulada quando sabia o que queria. Nunca dizia alguma coisa quando, na realidade, queria dizer outra.

Eu não precisava de palavras para saber que a resposta em seus olhos foi verdadeira.

OoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoO

Depois de muuuuuuuuuito tempo, aqui estou eu de novo. Espero que gostem desse capítulo - alguém aqui sabia que 'alegoria' é uma figura de linguagem? - e que me perdoem pelo atraso superatrasado que eu tive (algumas pessoas quase me mataram via e-mail XD)

Até a próxima - e, dessa vez, espero que seja logo mesmo X)