CAPÍTULO IV

Eneas voltara do exterior do covil, nesse momento estava parado adiante de Ágata, ambos aguardavam que Nurin despertasse. O crepúsculo já havia passado, mas a garota demorava a levantar. Lentamente as pálpebras de Nurin foram movimentando. Em piscadas sucessivas ela finalmente se acostumou com a escuridão sem precisar modificar seus olhos já mágicos. Ágata se adiantou com Eneas em seu encalço.

– Nurin, precisamos conversar...

A árabe se levantou e seguiu com os mais velhos até a galeria dos adormecidos, Nurin deveria se alimentar e precisavam sair. Acompanhou-os caminhando até a beira da toca de lá passando a saltar de galho em galho, testando as habilidades da nova amaldiçoada, até chegarem à mata densa e fechada aonde raramente os noturnos iam nesse inicio de noite, precisavam de sangue fresco e tentavam encontrá-lo à beira das estradas. Eneas, sentou-se desconfortável sobre um braço grosso de árvore, abrindo espaço para que as duas companheiras também se acomodassem. A brisa soprava gelada, a umidade era grande naquele trecho de floresta. Eneas começa o questionamento.

– Nurin, nesta noite, mais um adormecido despertou... ele foi encontrado ao anoitecer engalfinhado a um dos nossos vampiros. Estava morto, o amaldiçoado. O humano resistiu um pouco mais aos nossos ataques... Nurin, ele era um bento... um novo bento! – Eneas acomodou-se melhor sobre a árvore e voltou a fitar as duas mulheres. – E mais, temos notícias de que uma criança despertou durante o dia, achamos que poucas horas após o amanhecer... ela causou certos ferimentos em dois noturnos e partiu. Um dos feridos morreu. Só pode ter despertado benta, aquela criança. Em duas semanas acordaram três bentos! Três! Se continuar nesse ritmo eles terão bentos capazes de destruir nosso covil em um mês. E só desse Rio de Sangue!

Nurin permaneceu calada. Olhava direto nos olhos de Eneas. Ágata bufou em um determinado ponto do silêncio que se seguiu.

– O que mais você sabe, criança? Você veio de uma das fortificações... o que mais dizem as pessoas?

Nurin permaneceu calada, como se ordenasse os pensamentos. Passados alguns minutos Eneas puxou um embrulho de dentro do casaco, estendendo-o a Nurin. O rádio amarelo e pequeno aparecia à medida que ele afastava o pano que o envolvia.

– Reconhece isso, criança? – seus olhos mel estavam fixos em Nurin, esboçavam certo espanto.

Nurin ensaiou um choramingo, mas fitou Ágata com o rosto duro e se conteve, começando a explicar entristecida.

– Esse rádio era da minha mãe, roubei e levei até o mulo...

– Você entregou-o a um mulo... mas quem me deu foi um vampiro, para que você precisaria levar esse aparelho a um mulo? – Eneas questionou inocentemente.

Ágata sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha, será que Nurin... Abalada, fitou a criança.

– Fale, Nurin, o que você quer dizer com "levei até o mulo"?

Com se hesitasse em falar, Nurin abaixou novamente a cabeça.

– Eu fiz um trato com ele...

– Como assim você fez um trato com um mulo? Eles são ignorantes e fracos. O que um mulo poderia trazer de benefício a você, nem era uma vampira na época em que... – Ágata parou de discursar.

Eneas olhou de uma para outra começando a juntar as peças do quebra-cabeça. Moveu-se irrequieto no galho, aguardando o desfecho da história de Nurin.

– Eu fiz um acordo com ele, entregaria o milagre ao vampiro mestre dele, se... se...

– Você despertou humana... – Eneas disse frio em impassível.

– Se ele me desse a vida eterna...

Ágata imaginou como Orali deveria estar se sentindo... Amava tanto aquela filha e a garota a havia abandonado. A não-vida não era para qualquer um... muitos despertava assim ao longo dos trinta anos, e alguns faziam novas crias. Mas até mesmo os que já despertavam vampiros não suportavam as noites amaldiçoadas, ou não sabia como enfrentar suas dificuldades. Aquela garota era frágil e tinha muito que aprender para sobreviver sozinha numa necessidade.

– Espere um pouco, você sabe o nome do vampiro ou do mulo que o servia? – com a negativa de Nurin, prosseguiu. – Sabe ao menos como ele era?

– Moreno e franzino, era um homem que devia ter sessenta e cinco anos na Noite Maldita. – Nurin estava de olhos baixos, não tinha coragem de encarar Eneas.

– Ah! Dirceu, tinha que ser... é fraco e obtuso demais, até para conseguir informações tem que "vender" a maldição... E ainda abandonou a própria cria... naquela noite... você havia sido... criada, naquela noite.

– Quando você me encontrou e me trouxe para o covil...

– Por que a maldição? Garota, isso não deixa nossas vidas mais fáceis! Se escondendo do sol! Temendo o fogo e a prata! Será que você não via? Não, nenhum humano enxerga... A vantagem que vocês têm! Durante o dia o mundo é de vocês, sem divisões... Muitos covis podiam ter perecido se as habilidades mentais humanas fossem um pouco mais desenvolvidas.

– Eu queria conhecê-la! – Nurin disse apontando um dedo para Ágata. – Queria saber como ela era, onde ela estava. Minha mãe me contou tanto sobre ela... eram histórias tão lindas sobre sua vida. Falou de Lin Hao! E como eram companheiras nos dias do hospital... Na aldeia não se tinha nada! Tudo que fazíamos era plantar e tratar de animais durante o dia e nos escondermos num buraco fortificado muito fundo durante a noite... Para que os vampiros não nos alcançassem... Apenas isso... durante vinte e dois anos... Tudo o que fazia diferença na minha vida era as histórias da minha mãe, de como ela conheceu Ágata num momento tão duro... tão difícil... Passei a amar Ágata como minha mãe! Desejava ver o mundo com a liberdade de que vocês desfrutavam! Liberdade que os humanos não têm! Ela não a considera má, como os outros consideram os vampiros feras com tanto ódio!

– Criança, nós somos feras! – Eneas esbravejou de seu local. – Nurin arregalou os olhos e se encolheu junto às folhagens. – Mas... não a culpo... você é humana... foi humana... todos nós um dia fomos. Da forma como vivemos hoje, cada um tem seus desejos. Já vi muitos tentando alcançá-los. – Eneas se levantou sobre a galhada, guardava o radinho amarelo dentro do casaco. – Espero que você tenha fibra para levar adiante o seu. Agora é impossível voltar atrás.

Ágata acompanhou a trajetória do companheiro de volta ao covil. Aquela garota tinha vendido a própria vida para ir atrás dela. Agora estava amaldiçoada para todo o sempre, para viver como ela... ver o mundo que ela, Ágata, poderia ver... Mas que mundo? Ágata nunca saíra da área do esconderijo. O mais longe que fora foi Nova Belo Horizonte. Fitou a garota encolhida nas folhagens, que fantasias aquela mente de criança poderia ter tecido sobre ela? Sentia-se responsável por Nurin, mais que nunca, ligada a ela. Sabia que não deveria, que não tinha culpa, mas sentia-se responsável. Levantou-se agora voltada para o caminho que Eneas havia traçado, passou alguns minutos observando o lento movimento dos galhos ao vento. Nurin estava imóvel aos seu lado, ainda sentada em meio as folhas. Virou-se e estendeu a mão para ela.

– Vamos. Temos um covil para alertar.

Nurin abriu um largo sorriso, duas lágrimas de sangue desceram por suas bochechas redondas deixando um rastro tinto. Lembrou-se de Orali, de como ela lhe acolhera durante sua "doença".

As duas vampiras, de mãos dadas, cruzaram velozmente a mata em direção ao covil. Eneas devia estar esperando-as à entrada.