Esse capítulo pode ser um pouco sombrio para algumas pessoas, pois em certa parte ele abordará um assunto que alguns podem considerar desconfortável... mas é pelo bem da trama, então estejam avisados.

Boa leitura!


Todas aquelas guerras o haviam mudado. Você não sobrevivia a algo assim e saia a mesma pessoa que era antes disso. Era uma impossibilidade física e química. Sobreviver várias vezes à morte mudava você em todos os aspectos. A pessoa que você foi está a sete palmos do chão e após passar por todas essas experiências surgia alguém novo. Alguém mais velho, mais sábio e muito mais distante, que passa a se importar cada vez menos com as coisas. Hachiman Hikigaya já havia estado em inúmeros campos de batalha, assim como já havia presenciado e cometido grandes barbaridades que ficariam para sempre em sua memória.

Ele nunca teve alguém para conversar sobre isso, e foi somente depois de alguns anos vendo as merdas mais variadas no mundo que ele percebeu o quanto seria bom se ele tivesse alguém para ouvi-lo, pois guardar tudo isso dentro de si mesmo enquanto continuava lutando era uma verdadeira tortura. Por muito tempo ele só queria alguém para desabafar, alguém para ouvir a porra dos seus problemas, mas como sempre em sua vida essa pessoa nunca apareceu – ela não existia.

Hachiman dá um soco no saco de pancadas pendurado na sua frente; o seu punho se conecta com o objeto em um golpe satisfatório.

Em sua primeira participação oficial num combate, que foi na Guerra Civil da Somália, ele matou uma criança.

Ele segue dando vários socos no saco. Três golpes, um chute cruzado, uma esquiva.

Um garoto que ao invés de estar brincando como uma criança japonesa de sua idade faria, estava portando uma AK-47. Hachiman ainda não sabia que era uma criança, pois as crianças-soldados usavam os mesmos uniformes e se pareciam muito com o resto do exército inimigo. E para estimar a idade de alguém, você precisa dar uma boa olhada neles.

Depois de atingir o soldado no peito, ele foi averiguar o inimigo morto e percebeu que era uma criança. Ela não devia ter mais do que doze anos de idade. Aquele soldado que apontou a arma e atirou na sua direção era uma maldita criança que mal chegara na adolescência.

Ninguém falava sobre essas crianças.

Aquele foi o único momento em que Hachiman hesitou num combate, mesmo que fosse somente por um milissegundo. Mas ele se lembrou do seu treinamento e dos seus subordinados, que ele queria proteger não importando o custo. Ele também se lembrou da primeira regra em combate que havia aprendido na Academia de Oficiais: Se um inimigo está em uma zona de combate, armado e disposto a causar dano, é o seu dever moral e por necessidade de sobrevivência pessoal e do esquadrão, eliminar aquele inimigo com força total e requerida, independentemente da idade ou sexo, para continuar a seguir instruções.

Então tudo o que ele poderia fazer era derrubar uma lágrima por aquela criança, pois no campo um segundo de hesitação pode e geralmente era uma vida sendo perdida.

E mesmo sabendo de tudo isso, Hachiman se desculpou... mesmo sabendo que a palavra 'Desculpe' não era o suficiente. Me desculpe por isso acontecer com você, garoto. Sinto muito que o mundo seja esse grande mar de merda e lamento por esse ser o caminho que o destino reservou para você, mas alguém tem que morrer... e eu não tive escolha.

A guerra é o inferno. Não há heróis, vilões, assassinos nem vítimas, apenas pessoas morrendo todos os dias até que alguém nos diga para pararmos ou até que você desista.

Hachiman golpeia novamente o saco de pancadas, com os seus punhos realizando movimentos nítidos e precisos. Depois de uma sequência de golpes bem executados, ele parou.

Ele pega o objeto que sempre foi a sua parceira de treinamento com as mãos, respirando fundo e apoiando a testa contra ela.

Apesar dos contras, Hachiman amava fazer parte do exército. Desde criança ele nunca se viu sendo um escravo corporativo, trabalhando em algo chato e estúpido como qualquer outra pessoa. O seu antigo eu queria ser um patético 'dono de casa', mas depois daquele incidente ele quis ser mais do que isso; ele quis satisfazer o seu ego e fazer pela primeira vez na vida algo por si mesmo, e o exército oferecia essa possibilidade, pois ali ele teria respeito, honra e senso de orgulho que a maioria das pessoas nunca terá experienciado em sua vida. Também foi ali que pela primeira vez em sua vida ele teve algo mais próximo de uma família, onde a camaradagem, a amizade e o amor misturados com o humor, o medo, a raiva e o respeito que ele nutriu com os seus subordinados e colegas oficiais fizeram dessa época o melhor momento de sua vida, e ele daria tudo para continuar no exército, seja nas unidades regulares ou nas forças especiais.

E apesar de desenvolver inúmeras características sociais, Hachiman ainda era uma pessoa levemente antissocial. Ele ainda era bastante seletivo ao interagir com as pessoas. E depois de vários anos negando para si mesmo ele descobriu que era uma pessoa muito egocêntrica, mas também percebeu que não havia nada de errado em ser assim. O Hachiman de agora apenas preferia ignorar as coisas que não lhe importavam e tirar um sarro da merda do mundo em que vivia.

Hachiman fecha os olhos; as pontas nuas dos seus dedos seguravam o tecido ligeiramente áspero que cobria o saco. Suas mãos seguraram firmemente o objeto enquanto ele levava um momento para respirar. Quando esse momento passa, seus olhos se abrem e ele se move do descanso para uma onda viciosa de ataques em menos de um batimento cardíaco. Com os dentes cerrados, ele se move em torno do saco de pancadas como se o chão estivesse queimando os seus pés.

Nesse momento ele lembrou do dia da sua formatura na Academia Nacional de Defesa do Japão, onde ele era o único oficial que não tinha nenhum familiar presente para assistir a sua condecoração... e o sentimento misto de raiva, tristeza e decepção que Hachiman sentiu naquela hora nunca seria esquecido por ele enquanto estivesse vivo.

Hachiman se afasta do saco de pancadas e começa a tirar o esparadrapo dos punhos. Após jogar o objeto no lixo ele atravessa o tapete e mergulha as mãos no pó de giz, limpando-as. Ele se vira para as barras que se estendiam pelo corredor da academia e pula facilmente para pegar uma delas. Ele começa a fazer uma série de flexão de braços na barra fixa.

Kazuko Kawakami. Esse é o nome da garota que mostrou a Hachiman um dos pouquíssimos eventos na vida que ele aprendeu a desfrutar: o sexo. Na primeira vez deles, ambos tinham 17 anos e eram recrutas no Programa de Jovens do Exército Japonês. Ele lembra até hoje da aparência dessa garota: Kazuko tinha olhos cor de âmbar, cabelos vermelhos que iam até a sua cintura, seios de tamanho médio e uma pele branca que era bastante macia mesmo para uma garota. Ela é mesmo japonesa? ele tinha pensado quando a viu pela primeira vez. A personalidade dela era semelhante ao da garota mais velha da família Yukinoshita que ele teve o desprazer de ter conhecido, mas Kazuko era muito mais provocante, além de ser bastante competitiva e de ter uma atitude de nunca desistir de nada, e juntando esse comportamento duvidoso dela com o fato dos hormônios de Hachiman naquela época estarem no seu auge... eles acabaram na rota eroge, e definitivamente tinha sido uma grande experiência. Como será que ela está hoje em dia? Ele pensou com nostalgia, desta vez no presente.

Depois de concluir cinco sets de 30 repetições cada, ele cai de pé, estica os ombros, olha em algum ponto distante dentro da academia e, em seguida, dobra o pescoço e pula novamente. Ele solta um pequeno grunhido depois de agarrar a barra.

Hachiman não teve muitos arrependimentos na vida. Os arrependimentos eram inúteis na maior parte do tempo, pois era apenas uma reflexão inútil sobre o passado, além de somente adicionar mais problemas a um prato já cheio deles. Mas após todo esse tempo ele ainda sentia um pouco de remorso pela sua infância e adolescência que foram uma verdadeira merda: bullying, indiferença dos familiares, paranoia, ansiedade social, introversão, raiva, abuso emocional, baixa autoestima e algumas outras merdas. Hachiman tinha superado todos esses problemas, mas em raros momentos ele ainda se sentia triste, vazio e irritado por coisas que aconteceram há anos atrás, e isso era um outro fardo que ele iria carregar pelo resto da vida.

Depois de 250 flexões, ele finalmente salta no tapete abaixo das barras e começa a se alongar. Hachiman se agacha para flexionar as suas costas e o seu quadril, que estavam levemente doloridos. Seus alongamentos se tornam flexões e com cada movimento ele cerra os dentes e olha para o suporte que segura as barras.

É oficial: eu retomei esse costume de merda. Malditos monólogos, por que vocês não me abandonam? Hachiman pensou enquanto dava um pequeno sorriso.

Ficando de pé duas horas após o início de seu treino, e com o seu corpo brilhando de suor, ele finalmente terminou. Sacudindo as mãos, ele faz uma pausa em um banco e drena a última gota de uma garrafa de água. Recolhendo as luvas e a fita, ele sai da academia do prédio e pega outra garrafa de água enquanto se dirige para o seu apartamento recém-comprado, que ficava naquele mesmo edifício.

Ele ainda teria que voltar a casa de seus pais naquele dia para pegar as suas malas de volta, mas tudo o que ele precisava nesse momento era de um bom banho.


Enquanto dirigia o seu Nissan GT-R por Chiba, Hachiman se lembrou o porquê de gostar desse lugar.

A região não é nem muito quente e nem muito fria, e às vezes cai um pouco de neve na região, mas você nunca terá que limpar ela pois o volume não é tão grande como em outros lugares do planeta. A prefeitura também contava com praias belas e pacíficas, montanhas, florestas, grandes lojas, uma zona rural tranquila em uma direção e uma das grandes cidades cosmopolitas do mundo na outra.

Chiba é a principal porta de entrada para o Japão, e muitas das coisas mais atraentes ditas para o mundo como sendo de "Tóquio" estão na verdade em Chiba, incluindo, mas não se limitando a Disneylândia, o Salão Internacional do Automóvel e muitas outras variedades de entretenimento de classe mundial.

Ele chegou ao seu destino e estacionou o carro na frente da garagem da casa de seus pais. "Pegue as suas malas e dê o fora daqui rápido, cara feia."Hachiman murmurou para si mesmo antes de sair do carro e andar em direção a porta. Ele tocou a campainha e em seguida falou no interfone.

"Kaa-san, é o Hachiman. Eu vim pegar as minhas malas." Ele disse e após alguns segundos a porta se abriu, mas a pessoa que estava ali não era quem ele esperava.

Foi a sua irmã mais nova que abriu a porta, e ela congelou quando viu o rosto ligeiramente familiar do seu irmão mais velho.

"O-onii-chan...? É... é mesmo você?" Komachi perguntou choramingando enquanto caminhava lentamente em direção a ele.

"Há quanto tempo, Komachi." Hachiman disse com um sorriso enquanto encurtava a distância entre eles.