Pov Emma
Bem feito, Swan. Balançando a cabeça, Emma sentou na frente do computador. Primeiro o seu cachorro derruba a sua vizinha no quintal dela. Depois, nossa atrapalhada heroína irrompe pela casa dela, sem ser convidada, e começa a acariciar-lhe as pernas. Para encerrar com chave de ouro, ela insulta a integridade dela e insinua que ela está usando seu filho para tentar conquistá-la.
Tudo isso numa única e divertida tarde, pensou com desgosto. Era de admirar que ela não a tivesse chutado para fora da casa, em vez de simplesmente bater-lhe com a porta na cara.
E por que agira de maneira tão estúpida? Experiências anteriores, era verdade. Porém, este não era o âmago da questão, e ela sabia.
Hormônios, concluiu com um meio sorriso. O tipo de hormônios enfurecidos que combinavam mais com uma adolescente do que com uma mulher adulta.
Ela havia olhado para o rosto dela naquela cozinha, sentindo-lhe a pele sob sua mão, aspirando o perfume serenamente sedutor que Regina exalava, e a desejara. Com desespero. Por um momento atordoante, havia imaginado nitidamente como seria arrebatá-la daquela cadeira enfeitada, sentir aquele rápido estremecimento em reação enquanto devorava-lhe os lábios.
Aquele instante de desejo tinha sido tão intenso que ela precisava acreditar que havia alguma força externa, algum plano ou enredo capaz de confundi-la de maneira tão avassaladora.
O caminho mais seguro, concluiu com um suspiro. Culpar Regina por tudo isso.
É claro que ela teria sido capaz de descartar a coisa toda se não fosse pelo fato de que, no exato instante em que a fitara nos olhos, enxergara a mesma ânsia sonhadora que estava sentindo. E sentira também o poder, o mistério e a sensualidade incontida de uma mulher pronta para entregar-se.
Sua imaginação costumava alçar altos voos, ela sabia. Porém, o que vira, o que havia sentido, foram extremamente reais.
Por um segundo, apenas um segundo, as tensões e desejos fizeram com que todo o ar vibrasse como as cordas de uma harpa. Então ela se afastara. Ela não tinha nada que ficar seduzindo a vizinha em sua cozinha.
Agora, era bem provável que tivesse destruído quaisquer chances de conhecê-la melhor, justamente quando percebera o quanto queria conhecer a srta. Mills.
Pegando um cigarro, Emma segurou-o entre os dedos enquanto analisava várias maneiras de redimir-se. Quando a luz se fez, foi tão simples que ela riu alto. Se estivesse procurando o caminho para o coração de uma linda mulher, o que não era exatamente o seu caso, não poderia ser mais perfeito.
Contente consigo mesma, mergulhou no trabalho até a hora de buscar Henry na escola.
Pov Regina
- Idiota, convencida.
Regina desabafou sua raiva amassando com um pilão. Era muito satisfatório estar amassando alguma coisa, mesmo se fossem inocentes ervas, e transformá-las em pó. Imagine só. Como Swan se atrevia a pensar que ela era... uma oportunista, decidiu, com desprezo. Como se a achasse irresistível. Como se estivesse pendurada numa janela, esperando que seu príncipe encantado, no caso princesa aparecesse. E para que pudesse seduzi-la, prendendo-a numa armadilha.
Era muita ousadia.
Pelo menos ela tivera a satisfação de mostrar-lhe a porta da rua. E se bater a porta na cara de alguém fosse algo avesso à sua personalidade, bem, naquela hora foi maravilhoso.
Tão maravilhoso, na verdade, que ela nem se importaria de repetir a dose.
Era uma pena que ela fosse tão talentosa. E não podia negar que era uma excelente mãe. Estas eram virtudes que Regina não podia deixar de admirar. Tampouco podia negar que ela era atraente, que possuía um magnetismo sensual e uma pitadinha de timidez misturada com doçura, juntamente com aquele toque misterioso de uma mulher indomável.
E os olhos... aqueles olhos incríveis que eram capazes de tirar o fôlego, quando focalizavam em Regina.
Regina praguejou baixinho e amassou a pasta com mais força no pilão. Não estava interessada em nada disso.
Talvez tivesse havido um instante, na cozinha, quando ela lhe tocou a pele com tanta delicadeza e sua voz bloqueou todos os outros sons, em que ela se descobriu atraída.
Tudo bem, excitada, admitiu. Mas isso não era nenhum crime.
No entanto, ela conseguira apagar a sensação bem depressa e, por ela, isso estava ótimo.
A partir daquele momento, pensaria nela apenas como sendo a mãe de Henry. Iria mostrar-se distante e superior, nem se isso a matasse, e amigável apenas até o ponto em que facilitasse seu relacionamento com o menino.
Regina gostava de ter Henry em sua vida e não estava disposta a sacrificar esse prazer por causa de uma antipatia básica e muito bem justificada pela mãe dele.
- Oi!
Havia um rostinho travesso espiando pela fresta da porta. Toda raiva que Regina estava sentindo desapareceu no mesmo instante, só de ver aqueles olhinhos sorridentes.
Regina deixou o pilão de lado e sorriu para o menino. Imaginou que deveria estar grata por Emma não permitir que o desentendimento entre eles impedisse a visita de Henry.
- Bem, parece que você sobreviveu ao primeiro dia de escola. A escola sobreviveu a você?
- Hu-hum. O nome da minha professora é sra. Farrell. Ela tem cabelos grisalhos e pés grandes, mas é boazinha, também. E fiquei conhecendo Marcie, Tod, Lydia, Frankie e mais um monte de crianças. De manhã nós...
- Uau! - Regina começou a rir, levantando as duas mãos. - Acho melhor você entrar e sentar-se, antes de fazer o relatório do dia.
- Não consigo abrir a porta, porque estou com as mãos cheias.
- Ah. - Regina foi até a porta e abriu-a. - O que você tem aí?
- Presentes. - Com um suspiro cansado, Henry deixou um pacote na mesa. Depois, mostrou um enorme desenho a giz de cera. - Hoje nós tivemos de desenhar. Eu fiz dois desenhos, um para a mamãe e outro para você.
- Para mim? - Emocionada, Regina aceitou o colorido desenho num grosso papel pardo, que lhe evocou as próprias lembranças da escola. - É lindo, meu raio de sol.
- Olhe, esta aqui é você. - Henry apontou uma figura de cabelos pretos. - E Quigley. - Ali estavam os traços infantis, mas muito bem-feitos, que retratavam um gato. - E todas as flores. As rosas, as margaridas e os cris... não sei o quê.
- Os crisântemos - Regina murmurou, com os olhos molhados.
- Isso mesmo. - Henry continuou: - Eu não conseguia lembrar de todos os nomes. Mas você disse que iria me ensinar.
- Sim, eu vou ensinar. É muito lindo, Henry.
- Eu desenhei mamãe na casa nova, com ela parado no terraço porque é o lugar que mais gosta. Ela pregou o desenho na geladeira.
- É uma ótima ideia. - Regina foi colocar o desenho na porta do refrigerador, prendendo-o com os pequenos ímãs.
- Eu gosto de desenhar. Minha mãe desenha muito bem, e disse que mamãe Ruby desenhava melhor ainda. Então, acho que é de família. - Henry pegou a mão de Regina. - Você está brava comigo?
- Não, querido. Por que estaria?
- Mamãe me contou que Max derrubou você e quebrou os seus vasos. E que você se machucou. - Ele olhou para o arranhão no braço de Regina, depois beijou-o solenemente.
- Desculpe-me.
- Está tudo bem. Max não fez de propósito.
- Ele também não mastigou os sapatos de mamãe de propósito, nem a fez falar palavrões. Regina mordeu o lábio segurando o riso.
- Tenho certeza que não.
- Mamãe gritou com ele e Max ficou com tanto medo que fez xixi ali mesmo no tapete. Então ela começou a correr atrás dele pela casa inteira, e foi tão engraçado que eu não conseguia parar de rir. Ela disse que vai comprar uma casinha de cachorro, por lá fora, e eu e Max vamos morar nela.
Regina perdeu toda esperança de tentar levar a conversa a sério, e começou a rir enquanto abraçava o menino, pegando-o no colo.
- Acho que você e Max iriam divertir-se muito na casinha de cachorro. Mas, se quiser salvar os sapatos de sua mãe, quem sabe eu posso ajudar você a treiná-lo?
- Você sabe fazer isso? Pode ensinar Max a fazer truques?
- Ah, acho que sim. Veja. - Regina mudou Henry de posição em seu colo e chamou Quigley, que dormia embaixo da mesa da cozinha. O gato acordou relutante, esticou as patas dianteiras, depois as traseiras, e adiantou-se. - Muito bem, sente. - Exalando um suspiro felino, ele obedeceu. - Levante. - Resignado, Quigley ergueu-se nas quatro patas e chutou o ar, como um tigre de circo. - Agora, se você der o seu salto, talvez ganhe uma lata de atum no jantar.
O gato parecia debater a ideia consigo mesmo. Então, talvez porque o truque não fosse nada se comparado com uma lata de atum, deu um pulo para o alto, girou num salto mortal e aterrissou sobre as quatro patas. Enquanto Henry ria e aplaudia, Quigley lambeu a pata com modéstia.
- Eu não sabia que os gatos podiam aprender truques.
- Quigley é um gato muito especial. - Regina deixou-o no chão e foi fazer um agrado no gato. Ele ronronou alegremente, esfregando o nariz na perna dela. - A família dele está na Irlanda, como parte da minha.
- Ele não se sente sozinho?
Sorrindo, Regina afagou a cabeça do animal.
- Nós temos um ao outro. Agora, que tal um lanche enquanto me conta sobre o resto do seu dia? Henry hesitou, tentado.
- Não sei se posso, porque está muito perto da hora do jantar e mamãe... Ah, já ia me esquecendo! - Correu de volta para a mesa a fim de pegar o pacote embrulhado num vistoso papel listrado. - Este é para você, foi a mamãe quem mandou.
- Foi a sua... - Num gesto inconsciente, Regina cruzou as mãos por trás das costas. - O que é?
- Eu sei. - Henry sorriu, os olhos brilhando de animação. - Mas não posso dizer, senão estrago a surpresa. Você precisa abrir. - Pegou o pacote e empurrou-o para ela. - Você não gosta de presentes? - Perguntou ao ver que Regina mantinha as mãos firmemente presas atrás das costas. - Eu adoro ganhar presentes e mamãe sempre dá presentes bons.
- Estou certa que sim, mas...
- Você não gosta da minha mãe? - O lábio inferior do menino tremeu um pouco. - Está zangada com ela porque Max quebrou seus vasos?
- Não, não estou zangada com ela. - Não pelos vasos quebrados, ao menos. - Não foi culpa dela. E é claro que gosto dela... Isto é, ainda não a conheço muito bem e... - Sem saída, Regina decidiu, e esboçou um sorriso. - Só fiquei surpresa de ganhar um presente sem ser meu aniversário. - Para agradar a criança, pegou o pacote e balançou-o. - Não faz barulho - disse, e Henry bateu palmas e pulou.
- Adivinhe! Adivinhe o que é!
- Ahn... Um trombone.
- Não, um trombone é muito grande. - A excitação fazia o menino agitar-se. - Abra! Abra para ver o que é!
Era a reação de Henry que fazia seu coração bater um pouco mais rápido, Regina pensou. E a fim de acalmá-lo, abriu o pacote com um floreio.
- Ah!
Era um livro, um livro infantil de tamanho grande, com uma capa branca. Na frente havia a ilustração de uma mulher de cabelos negros usando uma coroa reluzente e um manto azul esvoaçante.
- "A Rainha das Fadas" - Regina leu o título. - Por Emma Swan.
- É novinho em folha! - Henry exclamou. - Ainda nem está para vender, mas mamãe recebe as cópias antes. - Passou a mãozinha delicada sobre a capa. - Eu disse a ela que parece você.
- É um lindo presente - Regina falou, suspirando. E muito esperta. Como ela poderia continuar irritada com ela, depois disso?
- Ela escreveu uma coisa para você, na parte de dentro. - Impaciente demais para esperar, Henry abriu a capa. - Olhe, está aqui.
Para Regina, esperando que um conto mágico tenha o mesmo efeito que uma bandeira branca. Emma.
Ela sorriu. Foi impossível evitar. Como alguém poderia recusar um pedido de trégua tão encantador?
Pov Emma
É claro que Emma estava contando exatamente com isso. Enquanto empurrava uma caixa que estava no caminho, olhou pela janela da cozinha na direção da casa ao lado. Mas não estava espionando, assegurou-se.
Imaginava que levaria alguns dias para Regina se acalmar, mas pensou que poderia dar um passo de gigante na direção certa. Afinal, não queria que nenhum antagonismo perdurasse entre ela e a nova amiga de Henry.
Voltando para o fogão, diminuiu o fogo do frango que estava cozinhando e começou a amassar as batatas para fazer um purê.
O prato preferido de Henry, pensou enquanto ligava a batedeira. Ela podia fazer purê de batatas todos os dias, durante um ano inteiro, e o menino não iria se queixar. Mas era evidente que cabia a ela variar o cardápio e certificar-se de que ele tivesse uma alimentação variada e saudável.
Emma despejou mais leite na vasilha e fez uma careta. Tinha de admitir que, se havia uma parte da maternidade que ela desistiria de bom grado, era a pressão de decidir o que iriam comer, dia após dia.
Não se incomodava de cozinhar, mas sim de escolher diariamente entre carne assada ou cozida, frango ou costeletas de porco, além de todas as outras coisas. Levada pelo desespero, começara a colecionar receitas, secretamente, na esperança de acrescentar alguma variedade ao cardápio.
Certa vez ela até pensara seriamente em contratar uma pessoa para cuidar da casa e das refeições. Tanto sua mãe quanto sua sogra estavam pressionando-a a fazer isso, e depois entregaram-se a mais um combate sobre como escolher a pessoa mais adequada para tal função. Mas a ideia de ter uma pessoa estranha dentro de casa, alguém que gradualmente acabaria encarregando-se da criação do seu filho, a fez desistir.
Henry era seu, cem por cento seu. Apesar das decisões sobre o jantar e das compras no supermercado, era assim que ela queria que fosse.
Enquanto acrescentava uma generosa colher de manteiga às batatas cremosas, Emma ouviu os passinhos correndo no terraço.
- Chegou na hora garoto. Eu já ia assoviar para chamá-lo. - Ela virou-se, lambendo o purê no dedo, e viu Regina parada na porta, com a mão pousada no ombro de Henry. Os músculos de seu estômago ficaram tão tensos que ela quase se encolheu. - Olá!
- Eu não pretendia interromper - Regina começou. - Queria apenas agradecer o livro que você me deu de presente. Foi muito gentil de sua parte.
-Fico contente que tenha gostado. - Emma percebeu que estava com um pano de prato amarrado na cintura, e tirou-o. - Foi a melhor oferta de paz em que pude pensar.
- E deu certo. - Regina sorriu, encantada ao vê-la lidando com as panelas no fogão. - Obrigada por pensar em mim. Agora, é melhor eu sair do caminho para que você termine o seu jantar.
- Ela pode entrar, não pode? - Henry já estava puxando-a pela mão. - Não pode, mamãe?
- É claro. Por favor. - Emma afastou outra caixa de perto da porta. - Ainda não acabamos de desempacotar nossas coisas. Está demorando mais do que eu pensava.
Levada pela educação, e pela curiosidade, Regina entrou. As janelas ainda estavam sem cortinas e algumas caixas acumulavam-se no chão de cerâmica colorida. Porém, arrumados no balcão azul, havia um pote para biscoitos no formato do coelho de Alice, um bule de chá do Chapeleiro Maluco e um açucareiro em forma de ratinho. A porta da geladeira fora transformada numa galeria de arte, repleta dos desenhos e pinturas de Henry, e o filhote de cachorro dormia num canto.
Não era bem organizada nem arrumada, ela pensou, mas sem dúvida aquela casa já era um lar.
- É uma bela casa - Regina comentou. - Não é de admirar que tenha sido vendida tão depressa.
- Quer ver o meu quarto? - Henry agarrou-lhe novamente a mão. - Eu tenho uma cama com um teto cheio de estrelas igual ao céu, quando está escuro elas brilham e também tenho montes de bonequinhos.
- Você pode levar Regina lá em cima mais tarde – Emma intrometeu-se. - Agora está na hora de lavar as mãos.
- Está bem. - Henry lançou um olhar de súplica para Regina. - Não vá embora.
- Que tal um pouco de vinho? - Emma ofereceu assim que o filho saiu correndo. - É uma boa maneira de se selar uma trégua.
- Tudo bem. - Os desenhos farfalharam quando ela abriu a geladeira. - Henry é um artista e tanto. Achei lindo o desenho que ele fez para mim.
-Cuidado, ou vai acabar empapelando as paredes com os desenhos. - Emma hesitou, com a garrafa na mão, perguntando-se onde teria guardado as taças de vinho, ou se nem as tirara da caixa. Uma rápida busca nos armários deixou evidente que não havia tirado. - Será que você concorda em tomar um chardonnay num copo do Pernalonga?
Ela riu.
- É claro que sim. - Esperou que ela a servisse e ergueu o copo para o dela... que era do Patolino. - Bem-vinda a Storybrooke - disse, brindando.
- Obrigada. - Quando Regina levou o copo aos lábios e sorriu-lhe por sobre a borda, Emma perdeu o rumo dos pensamentos. - Eu... Você mora aqui há bastante tempo?
- Minha vida inteira, com idas e vindas. - O aroma de frango e a alegre bagunça na cozinha eram tão familiares que Regina relaxou. - Meus pais tinham uma casa aqui e outra na Irlanda. Agora eles passam muito mais tempo na Irlanda, mas meus primos e eu continuamos por aqui mesmo. Zelena nasceu na casa em que mora. Killian e eu nascemos na Irlanda, no Castelo Mills.
- Castelo Mills.
Ela riu um pouco.
- Soa um tanto pretencioso, não é? Mas trata-se realmente de um castelo, muito antigo, muito bonito e bem distante. Pertence à família Mills há séculos.
- Nascida num castelo na Irlanda - ela refletiu em voz alta. - Talvez isso explique porque na primeira vez em que a vi pensei... bem, há uma rainha das fadas bem ali no quintal vizinho, atrás da cerca de rosas. - O sorriso desapareceu e Emma falou sem pensar. - Você me deixa sem fôlego.
Regina parou em meio ao gesto de levar o copo aos lábios, que se entreabriram, de espanto e confusão.
- Eu... - Bebeu um gole, enquanto aproveitava para pensar. - Imagino que faça parte do seu dom para escrever ficar imaginando fadas nos arbustos, elfos no jardim, feiticeiros nos topos das árvores.
- Pode ser. - Regina exalava um perfume delicioso enquanto a brisa que trazia traços do seu jardim e indícios do mar penetrava pelas janelas. Emma aproximou-se, surpresa e um tanto feliz ao ver o alarme nos olhos dela. - Como vai o arranhão, vizinha? - Com delicadeza, passou a mão em torno do braço dela e deslizou o dedo para cima, até sentir o pulso bater na parte interna do cotovelo. Fosse lá o que estivesse afetando-a, provocava o mesmo efeito nela. Ela sorriu. - Ainda dói?
- Não. - A voz dela enrouqueceu, surpreendendo-a. - Não, é claro que não.
- Você ainda está com cheiro de flores.
- A sálvia...
- Não. - Emma levou a outra mão até o queixo dela. - Você sempre tem este perfume de flores. Flores silvestres e brisa marinha.
Como ela fora parar ali, de costas para o balcão, com o corpo dela roçando no seu, os lábios tão próximos e tentadores que ela quase podia sentir o sabor?
E ela queria sentir, mais do que tudo no mundo, com uma força que afastou todo e qualquer pensamento de sua mente. Devagar, mantendo os olhos nos dela, levou a mão até seus ombros.
E assim seria o beijo, ela pensou. Forte e louco, desde o primeiro instante.
Como se quisesse assegurá-la disso, Emma pegou uma mecha de seus cabelos e enrolou-a no dedo. Estava quente, como ela sabia que estaria, quente como a luz do sol. Por um instante, todo seu ser concentrou-se no beijo que viria, no prazer indescritível que lhe traria. Seus lábios estavam quase colados nos dela, a respiração de ambas se mesclava, e foi então que ela ouviu os passos de Henry descendo a escada.
Emma afastou-se como se Regina a tivesse queimado. Incapazes de falar, ficaram apenas se olhando, atônitas pelo que quase acontecera e pela força que as impulsionara uma a outra.
O que ela estava fazendo? Emma perguntou-se. Agarrando uma mulher na cozinha, com o frango na panela, o purê de batatas esfriando na pia e seu filho prestes a irromper pela porta?
- Eu já vou embora. - Regina deixou o copo de vinho no balcão, temendo que o derrubasse. - Pretendia ficar apenas um minuto.
- Regina. - Ela virou-se, bloqueando a passagem para o caso de ela decidir disparar para fora. - Tenho a impressão de que o que acabou de acontecer não combina muito com as nossas personalidades. Interessante, não acha?
Ela ergueu os solenes olhos avelãs para ela.
- Não conheço a sua personalidade.
- Bem, não tenho o costume de seduzir mulheres na cozinha de minha casa, enquanto Henry vai lavar as mãos. E, certamente, não tenho o hábito de desejar uma mulher desde o primeiro momento em que a vejo.
Regina desejou ainda estar segurando o copo. Sentia a garganta seca, ardendo.
- Imagino que esteja esperando que eu diga que acredito em você. Mas não acredito. Um misto de raiva e desafio brilhou nos olhos de Emma.
- Neste caso, vou ter de provar, não é?
- Não, você...
- Minhas mãos estão limpinhas, limpinhas. - Totalmente inconsciente da tensão que fervilhava no ar, Henry entrou na cozinha correndo e pulando, erguendo as palmas para a inspeção. - Por que preciso lavar as mãos se não vou comer com os dedos?
Com um esforço imenso, Emma afastou-se de Regina e deu uma torcidinha no nariz do filho.
- Porque os germes adoram xeretar nas mãos dos garotinhos e também no purê de batata.
Henry sorriu.
- Mamãe faz o purê de batata mais gostoso do mundo. Não quer experimentar? Ela pode ficar para o jantar, não pode, mamãe?
- Desculpe, mas tenho de...
-É claro que ela pode. - Refletindo o sorriso do filho, mas com algo bem mais perigoso nos olhos, Emma olhou para Regina. - Nós adoraríamos que você ficasse. Temos bastante comida. E acho que seria uma boa oportunidade de nos conhecermos melhor, antes de...
Ela nem precisou perguntar "antes" do quê. Estava bem claro. Mas, por mais que tentasse, não conseguia fazer com que sua irritação sobrepujasse o rápido fluxo de pânico e excitação.
- É muita gentileza sua me convidar - disse, com uma calma admirável. - Eu bem que gostaria, mas... – Sorriu para Henry, ao ouvir o gemido de desapontamento. - Mas preciso ir à casa do meu primo para cuidar dos cavalos.
- Você me leva algum dia, para que eu possa vê-los?
- Se sua mãe concordar... - Regina abaixou-se e beijou o rostinho fofo de Henry. - Obrigada pelo desenho, meu raio de sol. Eu adorei. - Dando um passo cauteloso para trás, olhou para Emma. - E obrigada pelo livro. Sei que vou adorar. Boa noite.
Regina não saiu correndo, embora admitisse que não estava apenas saindo, mas fugindo. Ao chegar em casa deu a Quigley o atum que prometera e trocou de roupa, vestindo calça e uma camisa grossa a fim de ir para a casa de Killian.
Estava precisando pensar um pouco, decidiu enquanto calçava as botas. Pensar seriamente. Pesar os prós e contras, considerar as consequências. Sentiu vontade de rir, ao pensar em como Zelena giraria os olhos para cima e a zombaria da prima.
Regina sempre conseguia ver e simpatizar com ambos os lados de um argumento. E isso complicava os problemas, tanto quanto os solucionava. Mas neste caso ela tinha certeza de que, se clareasse os pensamentos e mantivesse a calma, chegaria a uma conclusão.
Talvez estivesse realmente atraída por Emma. E o aspecto físico era completamente sem precedentes. Ela já sentira desejo antes por uma mulher, mas nunca algo assim, tão rápido, agudo e urgente. E isso geralmente significava uma dor mais forte e profunda.
Sem dúvida, era algo para se considerar. Franzindo a testa, pegou um casaco e desceu as escadas.
Sim, ela era uma mulher adulta, sem compromissos, sem laços e perfeitamente livre para acalentar a ideia de ter um relacionamento com uma mulher igualmente adulta e livre.
No entanto, Regina sabia como os relacionamentos podiam ser devastadores, quando as pessoas eram incapazes de aceitar as outras pelo que eram.
Ainda debatendo consigo mesma, ela saiu da casa. Não devia nenhuma explicação a Emma. Não tinha nenhuma obrigação de fazê-la compreender a sua herança, como tentara, anos atrás, com Robin. Mesmo se acabassem se envolvendo, ela não precisaria lhe contar nada.
Regina entrou no carro e saiu da garagem, com os pensamentos indo e voltando.
Ela não estaria enganando-a se omitisse alguns fatos a seu respeito. Era uma forma de proteção, conforme aprendera anos atrás de uma forma dolorosa. E era tolice até considerar este aspecto, quando ainda nem decidira se queria ou não se envolver.
Não, isso não era verdade. Ela queria. Era mais uma questão de decidir se podia dar-se ao luxo de envolver-se.
Afinal, ela era sua vizinha. Se o relacionamento não desse em nada, seria bastante desconfortável continuarem vivendo tão perto uma da outra.
Além disso, tinha de pensar em Henry. Regina já estava gostando muito do menino. Não queria arriscar-se a perder aquela amizade e afeição pensando apenas em seus próprios interesses. Interesses puramente físicos, aliás, ela pensou enquanto seguia pela estrada sinuosa ao longo da costa.
Era verdade que Emma poderia lhe oferecer algum prazer físico. Não duvidava disso, nem por um momento. Porém, o preço emocional seria alto demais para todos os envolvidos.
Seria melhor, muito melhor para todos os envolvidos, se ela continuasse sendo amiga de Henry e mantivesse uma distância segura da mãe dele.
Pov Emma
O jantar havia terminado, os pratos estavam lavados. Houvera uma sessão de adestramento com Max, não muito bem-sucedida, embora ele acabasse sentando se o puxasse pela cauda. Depois, muita bagunça e água esparramada no banheiro e uma brincadeira num jogo de tabuleiro, para agradar o filho. Depois a história a ser contada na cama e o último copo de água a ser solicitado.
Assim que Henry dormiu e a casa ficou em silêncio, Emma deu-se ao luxo de tomar um whisky no terraço. Havia uma pilha de formulários em sua escrivaninha, o dever de casa dos pais, que precisavam ser preenchidos como parte da matrícula de Henry na escola.
Ela faria isso antes de dormir, decidiu. Mas aquela hora, aquela hora escura, silenciosa, quando a lua quase cheia começava a nascer, era toda sua.
Podia observar as nuvens que se juntavam no céu, prometendo chuva, o som hipnótico do mar batendo nas pedras, o tagarelar dos insetos na grama que ela teria de cortar muito em breve, o perfume das flores noturnas.
Não era de admirar que ela tivesse comprado a casa logo depois da primeira visita. Nenhum lugar no mundo a deixaria tão calma, nem lhe daria uma sensação tão grande de paz e conforto. E ela havia apelado para sua imaginação. Os ciprestes de formatos místicos, as plantas exóticas que cobriam as encostas, aquelas extensões de praia vazias e quase sempre misteriosas.
A beleza celestial da mulher que morava ao lado.
Emma sorriu consigo mesma. Para alguém que não costumava sentir nada além de um leve interesse por uma mulher, há mais tempo do que conseguia se lembrar, ela estava sendo inundada, agora.
Levara muito tempo para esquecer Ruby. E, embora não fosse mais uma conquistadora inveterada, certamente não ficara sozinha naqueles últimos anos. Sua vida não era vazia e ela já era capaz, depois de muito sofrimento, de aceitar o fato de que teria de vivê-la.
Estava bebericando o whisky, desfrutando o simples prazer da noite, quando ouviu o carro de Regina. Não que estivesse esperando por isso, Emma assegurou-se enquanto olhava no relógio. Porém, não conseguiu disfarçar a satisfação de ver que ela estava chegando cedo, cedo demais para ter saído num encontro com alguém.
Não que a vida social dela fosse problema seu.
Não podia avistá-la entrando com o carro, mas, como a noite estava calma, ouviu a porta bater. Então, momentos depois, escutou-a abrir e fechar a porta da casa.
Pousando os pés descalços no piso do terraço, tentou imaginá-la andando pela casa. Indo para a cozinha. Sim, a luz acendeu-se e Emma a viu passar pela janela. Subindo a escada. Mais luzes, embora ela achasse que parecia o brilho de uma vela, contra o vidro escuro, e não de uma lâmpada. Minutos depois, ouviu o leve ressoar de uma música. Acordes de uma harpa. Suaves, românticos e um tanto tristes.
Por um breve segundo avistou a silhueta dela em uma das janelas. Pôde ver claramente a sombra esguia e feminina enquanto Regina tirava a blusa.
Mais que depressa, bebeu um gole de whisky e afastou os olhos. Por mais tentador que fosse, não podia rebaixar-se ao ponto de se tornar uma voyeuse. No entanto, descobriu que estava ansiando por um cigarro e, pedindo desculpas ao filho, tirou o maço do bolso.
A fumaça encheu o ar, acalmou os nervos. Emma entregou-se ao prazer, ouvindo a música da harpa.
Um longo tempo se passou, antes que ela entrasse em casa e fosse dormir, com o barulho da chuva batendo no telhado e a lembrança dos acordes da harpa flutuando na brisa noturna.
