Capítulo Quatro: Consertando


"A idade não tem importância, a menos que você seja um queijo." (Billie Burke)


Lucy correu para casa, o coração batendo forte. Deixou os sapatos para trás enquanto subia as escadas que levavam para o segundo andar. Parou em frente à mesa de cabeceira em que se encontrava a chave de Leão. Estendeu a mão para agarrar o puxador da gaveta.

Fez uma pausa. Deteve-se. Recolheu os dedos, olhando ao redor, procurando se acalmar. Plue ainda dormia sobre o colchão, imóvel.

Seu corpo todo vibrava de excitação. O sentimento começava a perturbá-la. Sentia que o entusiasmo estava nublando os seus pensamentos. A reflexão logo trouxe à tona o receio. Vacilou na sua decisão. Tinha ainda as palavras de Natsu em sua cabeça, impulsionando-a. Tinha também a voz da sua própria consciência, repreendendo-a. A batalha mental repentinamente se tornou tão intensa que ela sibilou, sentindo uma pontada aguda na cabeça.

Esfregou a têmpora, seguindo para a poltrona. Sentou-se. Respirou fundo.

Meditou: fora em busca de conselhos para não precisar lidar sozinha com a situação. Portanto, era justo que deixasse as suas restrições para trás. Por outro lado, não podia tomar uma decisão equivocada, levada pela empolgação ou pelo furor ou onda de auto-confiança que se permitiu sentir após aquela saída inesperada.

Precisava... precisava... ah, Deus. Não sabia do que precisava, concluiu, jogando-se contra o encosto do móvel, exausta.

Colocou a situação sob uma balança. Analisou os prós e os contras óbvios. Não se importava tanto com os bebês, com um homem que acordasse ao seu lado. Queria amor, sim. Amor do tipo que fazia os seus joelhos tremerem, os seus pêlos se arrepiarem e que fizesse desaparecer todo pensamento coerente. Queria um amor como o que tinha com Loki: ardente, porém constante. Mas arriscaria todo o seu futuro para isto?, perguntou-se.

Fechou os olhos. Inspirou. Usou a sua imaginação. Por um momento, foi como se tivesse Leo ali, à sua frente, em toda a glória guerreira. Os cabelos vermelhos, o terno, o sorriso torto. Todo o seu corpo vibrou, ganhou vida de repente. A imagem foi o bastante para fazê-la decidir.

Levantou-se, correndo na direção da mesa de cabeceira. Agarrou a chave. Declamou a invocação.

Esperou. Nada aconteceu.

Em princípio, ficou chocada. Logo concluiu que Leo tinha poder suficiente para conter o chamado. E que, conseqüentemente, não queria vê-la.

Jogou-se na poltrona outra vez. O cabelo caiu contra os seus olhos com aquele movimento. Bufou, estirando o lábio inferior. A chave começava a esquentar na sua mão, fazendo-a soltá-la. O ruído provocado pela sua queda sobre o carpete foi quase ininteligível.

Podia compreender, pensou, sentindo os olhos se encherem de lágrimas. Podia compreender o fato de ter sido rejeitada. Havia demonstrado uma quantidade de sangue-frio digna de um ditador no seu último encontro. Jogara baixo, porque sabia que Loki não desistiria enquanto não pensasse que ela não queria fazê-lo. Os seus motivos foram egoístas, mas em parte também foram nobres. Apesar disso, estava pagando o preço das suas escolhas, como tudo na vida.

Deixou algumas lágrimas caírem. Chorou silenciosamente por algum tempo. Logo se sentia melhor.

- Desculpe, me desculpe, Loki – sussurrou, a voz embargada e rouca, e não se importou em secar as bochechas úmidas.

Cerrou as pálpebras, de repente exausta demais.

LEÃO&LEÃO

No dia seguinte, começou a procurar por um mago estelar que estivesse disposto a tomar conta do amor da sua vida.

LEÃO&LEÃO

Sentou-se em frente ao espelho. Observou a própria imagem. Havia olheiras sob os seus olhos, mas nada que não pudesse ser disfarçado com um pouco de maquiagem. O motivo era óbvio. Embora Natsu não houvesse lhe perguntado, ele logo percebeu o rumo dos acontecimentos pela sua expressão. Poucos minutos depois, estava sendo paparicada e pajeada como uma rainha.

O sentimento de pena que suscitava em seus companheiros a enfureceu. Fazia com que se sentisse patética.

Sacudiu a cabeça, empurrando aqueles pensamentos para longe, e usou a toalha para enxugar os cabelos úmidos.

Para aquela noite, Jet e Droy prepararam uma festa surpresa. Era aniversário de Levy. Erza comentou algo sobre Lily e Macao estarem estimulando Gazille a se declarar. E, ainda que a perspectiva de uma festa não parecesse animadora, não queria perder nada daquela noite importante.

Invocou Áries. Plue era uma ótima companhia, mas não podia manter um diálogo funcional, e necessitava de uma conversa, não um monólogo.

- Lucy – Áries cumprimentou e sorriu, cheia de satisfação ao ser chamada. Por ser um espírito mais fraco, Lucy raramente pedia a sua ajuda em batalhas. E, uma vez que não gostava de abusar da sua boa vontade, tampouco a convocava para ajudá-la em tarefas mais básicas. Não queria repetir os mesmos erros de Karen Lilica.

- Áries, me ajuda a pentear o cabelo? – pediu Lucy, estendendo-lhe a escova, a qual foi imediatamente tomada. Virou-se de frente para o espelho da penteadeira, observando o Espírito Estelar pelo reflexo. – Você sabe que eu normalmente não a chamaria, mas preciso conversar.

- É claro, mestra – concordou Áries, a voz melodiosa. Parecia distraída com a tarefa que lhe fora dada. – Eu gosto de lhe fazer companhia.

Lucy conteve o riso. Áries era uma fofa. Tão simpática e educada. Não era à toa que Gray sempre corasse na presença dela. O rostinho claro e os olhos dóceis eram capazes de fazer cativo qualquer homem. Usá-la como uma arma parecia quase um pecado.

- Vou a uma festa hoje à noite – comentou, distraída, começando a cuidar da maquiagem. Agarrou o delineador. – É aniversário de Levy e haverá uma festa surpresa.

- Ah – Áries fez um som de prazer, saltando no lugar. – Eu adoro festas de aniversário! – comentou. – O bolo e os balões coloridos! É tão divertido – franziu as sobrancelhas. – Gostaria que comemorássemos o nosso aniversário também. Mas acredito que acabaria por se tornar aborrecido, após algum tempo.

Lucy não lhe respondeu. A referência à idade das estrelas acabou por minar um pouco mais o seu humor e ela se focou em espalhar o delineador pelo olho.

Perceptiva como era, Áries logo notou a gafe. Mordeu o lábio, preocupada com o silêncio da sua dona, e ainda a penteou por mais um ou dois minutos, sem pronunciar nenhuma palavra, até que chegasse por si própria à conclusão de que devia tentar conversar sobre a situação.

- Ehh, Lucy-san – chamou, hesitante. A escova permaneceu imóvel um instante. Não sabia como abordar o assunto. – Sobre Leo... – murmurou.

- Está tudo bem – Lucy não a olhou, mas deu um sorriso triste. – Após tudo o que eu disse – encolheu os ombros, a voz de repente impassível. As emoções sumiram dos seus olhos. – Depois de todas aquelas mentiras e idiotices que eu disse, não me surpreende que ele não queira atender ao meu chamado. Eu estou triste, mas não estou surpresa.

A reação de Lucy preocupou Áries. Estava acostumada aos arroubos de raiva, de amor, às sensações intensas. Os sentimentos que fluíam para ela através do laço eram sempre coloridos, cheios de fagulhas. Agora, com ainda mais força do que alguns meses atrás, a escuridão voltara a deslizar da maga para os Espíritos Estelares.

- Leo apenas está sendo Leo, princesa – ela se apressou em dizer, tentando atenuar a sua tristeza. – Orgulhoso e rebelde. Como sempre.

Lucy riu, sem vontade.

Fitou-a pelo reflexo. Áries tinha uma expressão de inquietação intensa.

- Você é muito doce em tentar me consolar – disse, a voz gentil. – Aprecio o gesto. Mas eu tomei as minhas próprias providências – admitiu, estendendo a mão para agarrar um batom, o qual verificou a cor. Começou a procurar por um que a agradasse, distraída.

- Que... que providências? – Áries passou a língua pelos lábios, nervosa.

Lucy hesitou. Ainda não havia contado a ninguém sobre os seus planos. Em sua própria defesa, alegava que não podia obrigar Leo a continuar a seu serviço, se ele não queria fazê-lo. Negar-se a atender ao seu chamado só podia significar que não queria mais vê-la. Compreendia a sua decisão. E também compreendia que não poderia mantê-lo preso ao Outro Plano, uma vez que gostava tanto da Terra. Por isso tomara as decisões que tomara.

Não queria prender a ela alguém que não gostaria de estar ali.

- Eu vou quebrar o nosso contrato, é claro – Lucy encolheu os ombros, suspirando. A idéia ainda a machucava. – Encontrei um mago estelar da LamiaScale, amigo de Leon e Sherry. Ele possui Libra e Peixes. Prometi-lhe Leo. Sinto ter que separá-los outra vez, Áries, mas não acho que seja justo privar Leo da diversão do mundo terreno. Desculpe-me.

LEÃO&LEÃO

Lucy riu alto.

Em uma tentativa de animar o seu humor, Kana convidara Hibiki para a festa de Levy. A decisão a enfurecera, a princípio. Logo, ela concluiu que gostava o suficiente da presença de Hibiki para relaxar. E baixou a guarda. Deixando-se levar, divertiu-se.

Caminhavam agora pela rua vazia, iluminada pelos postes. Em poucos minutos pararam em frente à residência de Lucy, sobre a soleira da porta. O capacho pinicou os seus dedos. Ela tinha os pés doloridos de dançar e se livrara das sandálias há algumas horas. Como o perfeito cavalheiro que era, Hibiki se prontificou a segurá-las e a primeira coisa que fez ao chegarem foi estendê-las de volta.

- Obrigada – Lucy agradeceu, ainda risonha. – Eu o convidaria para entrar, mas é bastante tarde e a minha vizinha é uma fofoqueira.

Apontou discretamente para a casa ao lado, cuja luz estava acesa, e ambos visualizaram sem dificuldade a silhueta de uma matrona gorda que os espiava por entre a fresta da cortina. A imagem fez com que Hibiki sorrisse, sacudindo a cabeça.

- Eu vou ficar em Magnólia esta noite – ele disse. – Talvez nós pudéssemos sair amanhã?

Em outro momento, ela teria facilmente percebido a ansiedade em sua voz. Hibiki era bonito o suficiente para não precisar correr atrás de uma garota que o agradasse. Para o seu azar, porém, Lucy se mostrara muito difícil de persuadir. E as suas recusas só faziam aumentar o desejo que ele sentia.

Ela deslizou a língua pelo lábio, pensativa, e logo concordou.

- É claro – disse, baixando o rosto para procurar a chave dentro da pequena bolsa que levava. – Eu vou sair em missão com Erza e Gray às 18h, mas até lá sou toda sua – ergueu a cabeça, piscando os olhos na sua direção, um sorriso mole e agradável.

Hibiki a observou por um longo instante.

Lucy sentiu o seu coração acelerar. Suas palmas começavam a suar. A adrenalina correu por entre as suas veias, tornando-a plenamente consciente do que aconteceria a seguir. Observando mais atentamente o rosto masculino que tinha à frente, de repente se percebeu muito ansiosa por um beijo.

Ergueu o queixo, facilitando a proximidade, e respirou profundamente. Cerrou as pálpebras.

Quando a boca de Hibiki encostou-se à sua, por um instante foi como se ocorresse uma explosão em seu peito, fruto do desejo pelo novo, fruto da vontade de experimentar. Nos segundos contíguos, porém, a efusão desapareceu, porque o beijo de Hibiki vagarosamente extinguiu as borboletas do seu estômago.

LEÃO&LEÃO

Lucy fechou a porta atrás de si, o corpo tenso.

Sentia-se tremer. Já não tinha estabilidade psicológica. Rapidamente chegou à conclusão de que estava estragada. Fora permanentemente avariada para o amor. E por mais que se obrigasse a afastar os pensamentos, a se concentrar no momento presente, as emoções desapareciam no instante em que provava. Provava um novo aroma masculino, um novo toque de mãos, um novo beijo.

Largou as sandálias sobre o chão, caminhando descalça até a cozinha. Precisava de uma bebida forte, como uísque ou vodca. Na falta delas, porém, optaria por um copo de leite quente. Era o segredo infalível da sua babá, durante a infância, para fazê-la dormir depois de um dia ruim. Embora aquele não houvesse sido ruim, os minutos anteriores haviam sido suficientemente desagradáveis para fazê-la sentir falta de um colo amoroso.

Foi quando sentiu a explosão de energia às suas costas. O que sempre acontecia quando um Espírito Estelar cruzava o portal por conta própria.

- Você não fez – a voz de Loki soou então, cheia de fúria e rancor. Ela se voltou para olhá-lo, surpresa. O corpo dele tremia. Os punhos estavam cerrados. Os olhos dourados pareciam faiscar sob a luz fluorescente da cozinha. – Eu posso admitir que você flerte e finja sair com aqueles bastardos, mas você nãovai se apaixonar por um deles, Lucy.

Ela ficou imóvel, observando-o. Estava chocada.

Ademais disso, desesperadamente saudosa. Até mesmo suscitar a sua repulsa parecia satisfazê-la. Não se importava com as bochechas coradas de ira ou com o desprezo veemente e apaixonado com que pronunciava as suas palavras. Queria-o. Necessitava dele. E não sabia como por tantos sentimentos reprimidos em simples palavras.

- Os sentimentos que vinham de você, aquela... aquela... ansiedade – ele cuspiu, cheio de asco. – Ela quase me fez vomitar!

Lucy desviou os olhos, obrigando-se a agir.

- Você não quis me ver – disse, baixo. Seguiu até o armário, agarrando uma xícara. – Presumi que esse fosse o sinal.

- Você não quis me ver por longas semanas. Por que eu deveria simplesmente vir correndo ao primeiro chamado? – Loki ainda continuava com mágoa e raiva, de modo que pronunciava mais pausadamente do que normalmente faria.

A pergunta retórica a enfureceu. Lucy sabia que não havia agido corretamente. Dali alguns anos, talvez tomasse decisões diferentes. Mas ainda era jovem, não havia amadurecido completamente. Exigir a nulidade de equívocos era absurda. Existia um longo caminho até a perfeição, um que talvez nunca terminasse. E uma vida demasiado curta para percorrê-lo. Era humana, tinha o direito de agir como uma.

Tinha tantos medos e preocupações. Temores egoístas, como pobreza e feiúra e mesmo um corte de cabelo ruim, e milhares de preocupações distintas, desde ao pagamento das contas de supermercado até com relação à saúde e felicidade dos membros da sua guilda. Era temperamental, mudava constantemente de idéia. Se achava que estava certa, logo concluía que estava errada. Se de repente tinha uma certeza imutável, logo mudava de idéia.

Tudo aquilo, os erros, os medos, o humor, era normal, natural. Fazia parte do processo de crescer.

Depositou a xícara vazia sobre o balcão próximo à geladeira e se virou para olhá-lo.

- Você é lindo, Loki – disse, exasperada. – Você é lindo, forte. Ficará eternamente jovem. Nunca precisará se preocupar com o aluguel de uma casa ou com um seguro de vida. Daqui a sessenta anos, você continuará o mesmo: lindo, forte, jovem. Não sabe o que é conviver com a idéia de que morrerá. Não sabe o que é fazer parte do universo: nascer, se desenvolver, morrer. É como se estivesse num mundo à parte, o seu mundo, o Outro Plano.

As lágrimas começaram a subir aos seus olhos conforme a frustração aumentava. Ela não queria lhe dar o prazer de vê-la chorar, mas acreditava que a última conversa que tiveram havia sido rápida demais para que expusesse suas aflições. Quem sabe ouvindo, ele entendesse.

- Eu vou envelhecer, Loki – bateu no peito, o lábio tremendo. – Meus cabelos vão ficar brancos, minha pele vai enrugar. Talvez eu tenha catarata. Talvez eu tenha artrite, reumatismo, osteoporose. Um dia, eu não vou mais poder andar sozinha, não vou mais poder tomar banho sozinha. Eu sei que você me ama, eu acredito nos seus sentimentos. Mas você me ama agora, enquanto eu sou jovem, enquanto eu sou bela. Quando eu tiver sessenta, você já não me verá com os olhos de um amante, mas com os olhos de um simples... um simples companheiro.

Um pouco da fúria dele amainou diante da sua declaração. A tempestade que havia em seus olhos se recolheu.

- Como você acha que eu me sinto, sabendo que irei perdê-la, enquanto continuarei aqui para sempre? – perguntou, a voz macia.

Lucy sorriu, infeliz.

- Ah, Loki, a vida de um humano é irrisória para você. A dor será longa, sim, mas ínfima se comparada à vastidão da eternidade – disse, escorando-se contra o balcão. Limpou as bochechas úmidas. – Chamá-lo foi a coisa mais difícil que eu já fiz. Foi mesmo mais difícil do que romper com você. Porque significava aceitar que um dia eu perderia o seu amor. Para o tempo.

Ele adiantou-se a abraçou. Ela amoleceu contra o seu peito. A proximidade fez o seu corpo responder de modo imediato.

- Eu nunca vou deixar de amá-la, Lucy – Loki murmurou ao pé do seu ouvido.

Lucy rodeou o seu tronco com os braços, sorrindo tristemente.

- Eu vou acreditar que não – sussurrou, de modo que ele não pudesse ouvi-la. – Eu vou acreditar que não.


N/A: Demorei. Ando meio ocupada. O fim do semestre está aí e eu tenho uns 4 trabalhos finais pra fazer (DEUS, ODEIO TRABALHOS FINAIS). Enfim, eis o capítulo. Os mocinhos fizeram as pazes. Claro, ainda houve algum drama. Afinal, uma fanfic de drama precisa de drama.

Basicamente, é isso. Pretendo fazer mais um capítulo, tipo um epílogo. Feliz, é claro. Romântico, também.

A idéia de Apaixonando era retratar esse dilema temporal que existe entre os dois. Já li vários fanfics LokiLucy, inclusive em espanhol, mas nunca nenhum autor abordou de maneira consistente esse empecilho, que, querendo ou não, é um dos tópicos mais importantes do relacionamento humanoxespírito. Então foi algo mais... experimental. Até porque eu ando sem tempo para fanfics demasiado elaboradas ou grandes.

Fica aquele abraço e até o último capítulo! Comentem ;)