RICKON
Ainda era jovem. Apenas um pouco mais velho do que o irmão quando virou rei, ainda assim, Rickon sabia que já havia vivido mais do que a maioria das crianças nascidas antes do grande inverno, e visto mais do que a maioria dos velhos, talvez até mesmo mais que a Velha Nan. Por sorte, não se importava demais com coisa alguma.
Entretanto, sentado no salão reconstruído de Winterfell, ficou receoso, sem saber direito o que estava sentindo, e o mero pensamento de reencontrar Bran era assustador demais, mesmo para ele, um selvagem. E talvez, por causa disto. Ele havia ouvido falar muito de novo senhor da Floresta. Não um herdeiro qualquer do norte, ou um garoto mortal fingindo-se de forte, mas um verdadeiro senhor, rei disto e daquilo, de onde os olhos vêem e muito além. Ouviu coisas boas, coisas sobre árvores que envolviam os Outros e os tragavam de volta para terra, mas também ouviu coisa ruins, assustadoras, coisas como crianças que desapareciam sem explicação, mesmo depois do grande inverno, e de ofertas feitas a um deus menino.
Talvez fosse mentira, talvez fosse verdade, ele não saberia dizer.
Em seguida lembrou-se um pouco de Robb. Ele amava Robb. Lembrava-se dele tão grande e tão alto quanto qualquer gigante, e lembrou-se do irmão prometendo voltar. Mentiroso. Ele se foi. Derrotado em um casamento vermelho, coisa desonrosa, quebra de velhas tradições. Uma morte cruel e pecaminosa. Ao menos morreu perto de Vento Cinzento, e pelo que ele sabia da ligação dos Starks com os lobos, era uma coisa boa. Não ter que seguir sozinho.
Era tudo o que se lembrava. Tentou muito tempo se lembrar de Arya, mas Arya não gostava de perder tempo com o bebê Rickon, era fascinada demais com os irmão mais velhos. Ele não poderia culpa-la, ele também era. Quando pensava em Arya, pensava em uma garota qualquer suja de lama que as vezes brincava de espadas com ele. Ele também a amava, mas ela nunca soube disso. E ele pensou que ela nunca saberia, até descobrir que estava viva. E se de Arya, a lembrança era confusa, sobre Sansa, ela simplesmente não existia.
Vira a irmã a alguns anos atrás, pouco depois do grande inverno. Ele era... linda. E quando a olhou, frente a frente, teve uma lembrança da mãe. Ela era tão parecida que lhe doía olhar. Mas quando a viu... ela era tão diferente quanto alguém pode ser. Ela não acreditou em quem ele afirmava ser, até que Cão Felpudo apareceu ao seu lado. Quando ela teve certeza, ele poderia jurar, ela se transformou. Era como um cubo de gelo virando água. E então ela lhe sorriu, de maneira que Rickon soube que tinha que abraça-la. Não chorou, porque era um homem, mas lembrou-se do menino perdido em um ilha anos atrás e ficou feliz por ele.
Naquela noite ela apareceu em seu quarto, deito-se do seu lado, e cantou uma canção de dormir a muito esquecida até que ele dormisse. Na manhã seguinte, ela já não estava mais lá.
Sonhou algumas vezes com Jon, nunca soube o porquê. Jon era bom para ele, mas a mãe sempre dizia que eles não eram irmão, e quem diria que no fim ela estava certa? Era engraçado pensar nisto agora. Jon, o bastardo. Jon, o rei.
A coisa sobre Jon, era que ao contrário das irmãs ele nunca se afastou de Fantasmas e os dois eram tão um quanto Rickon e Cão Felpudo. Ele também havia visto Jon pouco depois de tomar Winterfell, ele havia olhado para ele e o abraçado, mas algo nele lhe deu arrepios.
Morte.
Foi a primeira coisa que lhe veio a cabeça. E como se soubesse o que ele estava pensando, Jon lhe sorriu tristemente.
_ Não tenha medo. O fogo pode derreter o gelo, mas demora muito para se derreter uma muralha.
Rickon nunca entendeu realmente o que o irmão lhe disse aquele dia. Mas fantasma lhe lambeu o rosto, e os lobos gigantes brincaram como bebês recém chegados em Winterfell. Jon lhe fez Senhor de Winterfell, Senhor Supremo do Norte e Protetor do Norte, assim como deve ser. E então ele lhe bagunçou os cabelos e Rickon ficou extremamente embaraçado, porque ninguém, desde que fugira de Winterfell, havia feito isto com ele. Todos os empregados ficaram em silêncios, e até mesmo seus Irmão de Guerra, Rock e Storn, colocaram a mão sobre suas adagas bem afiadas. Mas Rickon riu, e toda a tensão se desfez.
_ O que andou fazendo Rickon, as pessoas tem medo de você? É verdade que faz ensopado com os homens que perdem para você?
Eles riram ao mesmo tempo.
_ Só dos mais fortes. As pessoas também tem medo de você.
O irmão lhe sorriu, e talvez somente ele naquele salão repleto de nobres e selvagens, soube o que realmente Jon sentiu. Uma tristeza tão profunda e sombria que faria o coração mais duro lamentar.
_ E em pensar que éramos seis*.
Rickon não se lembrava de quando as coisas eram boas, mas ele acreditava que talvez fosse mais ou menos assim. Ele tinha uma casa e um lobo, a velha Osha estava cada vez mais velha, e as garotas brigavam para entrar na sua cama e agora estava prestes a encontrar cinco irmãos.
Sorriu para si mesmo, fechou os olhos e repousou a mão sobre a adaga enquanto pensava no sabor de um ensopado de guerra que havia aprendido a fazer em Skagos.
As vezes, velhos hábitos são muito difíceis de serem mudados...
Obs: * frase do livro, éramos seis. Eu não resisti, mesmo sendo livros completamente diferentes, eu não posso evitar em comparar a queda dessas duas famílias.
Aproveitando, quero agradecer por comentarem. :)
Electra de Lioncourt: Bem, obrigada. Ela (a Melisandre) é esse tipo de pessoa não é? Principalmente depois que eu li o POV dela do livro, toda, "eu sou a dona da verdade". Fora que, ela não percebe que é uma simples mortal. Rsrs. Mas, é todo um ponto interessante, o dela.
Kizy Malfoy : Sei como vc se sente. Eu também amo o Tyrion , sem dúvida um dos melhores personagens (tanto na série quanto nos livros). Mas eu gosto dessa Sansa má. Acho realmente que ela vai fazer coisas bem ruins de agora em diante, e posso ver, totalmente, ela tetando matar a Tyrion só para ser viúva. (não que ela vá conseguir de verdade, hah!)
