Capítulo 04

Draco acordou e reconheceu, antes de mais nada, o cheiro.

Macela. Madeira. Lavanda. Estava na cama de Potter.

Ele suspirou, abrindo os olhos e encarando o ambiente simples, mal mobiliado, banhando na luz do sol de fim de tarde. Potter provavelmente o havia dado algum calmante sem perceber novamente. Aquilo o deixava levemente irritado, mas entendia por que ele fazia isso.

Se levantou, afastando as cobertas, e percebeu que já não usava as vestes do hospital. Havia dormido no hospital quando o sol nascia, depois de passar toda a noite conversando com Potter, e agora acordava ali. De certa forma era bom não estar no hospital. Estava cansado de hospitais.

Conhecia o caminho para o banheiro no fundo do corredor. Dois quartos, uma suíte, um banheiro. Queria conhecer o resto da casa. Ao que parecia, aquela seria sua casa também por um tempo.

Ele não tinha mais casa. Não tinha mais pais. Não tinha mais dinheiro. Não tinha mais nome. Não tinha mais nada.

Ele tinha um filho. E um irmão.

Jogou água gelada na nuca e respirou fundo enquanto o arrepio corria seu corpo. Ele estava ferrado.

- Draco? - a voz levemente alterada em alarme soou na outra ponta do corredor. Ele sorriu pensando que finalmente, depois de tantos anos de tentativas vãs, agora ele conseguira incutir medo a Potter.

- Banheiro. - respondeu, ouvindo a própria voz rouca, e entreabriu a porta para que o outro o visse enquanto terminava de lavar o rosto.

- Tem toalhas no armário, tome um banho. Fiz almoço para nós.

E de repente ele percebeu que estava faminto. Ele desejava comer de uma forma que não desejava nada há muito tempo. E aquilo era quase bem vindo. Era como voltar a sentir.

Harry estava sentado sobre a outra cama do quarto, lendo um jornal. Sobre a cômoda havia uma bandeja com um prato que fumegava, provavelmente mantido aquecido por magia.

- Achei que havia feito almoço para nós. - comentou, percebendo que havia somente um prato, se apoderando dele e sentando-se sobre a própria cama para comer.

- Eu comi enquanto você tomava banho. - Harry explicou – Como se sente?

- Bem. - o loiro deu de ombros, saboreando a comida simples – Gostaria que você parasse de me dopar.

- Só se você prometer que da próxima vez que sentir vontade de se matar, vai falar comigo primeiro.

- Eu estava desesperado, Potter. - Draco o encarou, sério.

- Agora não está mais? - Harry o examinou com atenção, os olhos verdes pesando sobre ele.

- Qual é a minha situação? - Draco se sentia estranhamente calmo. Nada havia mudado desde a última vez que acordara naquela casa, mas a ideia de se matar lhe soava absurda naquele momento.

Ele se sentia seguro. Inexplicavelmente seguro.

- Você está saudável, indo para o terceiro mês de gestação. O bebê está bem também, se desenvolvendo como o esperado. Financeiramente, todos os seus bens foram tomados pelo governo. Você teria direito a uma pequena herança em nome da sua mãe, mas ela está bloqueada até que a sua situação legal seja definida.

- E qual é minha situação legal? - ele perguntou, parecendo desinteressado enquanto comia.

- Eu havia dado meu depoimento ainda durante o julgamento dos seus pais. Seu caso estava em análise. Quando você deu entrada no hospital, eles apressaram o julgamento porque você não tinha para onde ir quando saisse. Você foi condenado, mas a sentença ainda não foi oficializada porque eu assumi a paternidade do seu filho. Pelo que eu entendi, eu não posso te defender no tribunal porque agora eu tenho interesses pessoais no caso, mas, por outro lado, parece que ninguém quer colocar o conjuge de Harry Potter na prisão.

Os olhos de Draco se ergueram do prato para encarar o moreno à sua frente, ele não o olhava, os olhos verdes estavam perdidos no chão e ele brincava com as dobras do lençol na cama, como se estivesse embaraçado com algo.

- Você não é meu conjuge. - Draco constatou.

- Não. Mas o fato de eu assumir seu filho vazou para a imprensa e eles nos casaram por conta própria. E, aparentemente, esse fato é a única coisa que está impedindo o Wizengamot de te mandar para Azkaban. - Harry o encarou, sério – Eu não vou desmentir isso, Draco, porque não quero que você seja preso. Eu disse que vou cuidar de você e do seu filho e, se eu precisar oficializar essa união para te proteger, eu faço.

- Você não precisa fazer isso. - Draco disse, sério, mas voltou a sentar encolhido sobre a cama.

- Se você for preso, Draco, nessa situação, provavelmente vai perder a criança. E você vai estar junto com seu pai. Sozinho. O que você acha que vai acontecer? - o loiro escondeu o rosto contra os joelhos em um gesto de desespero – Eu não vou deixar isso acontecer. Eu não quero que isso aconteça.

Harry se ergueu da própria cama e se sentou ao lado do loiro, tocando seu braço para fazê-lo olhar para ele.

- Isso não precisa ter valor para nós dois, mas eu quero me casar com você. Por favor, me deixa fazer isso. Vai ser só o começo para que você possa ser realmente livre. E você merece essa liberdade, Draco.

- A gente sempre pode se separar. - o loiro disse, como se tentando afirmar algo para si mesmo.

- Claro. - Harry afirmou, vendo os olhos incertos o encararem em cinza.

- Eu aceito.

o0o

A cerimônia foi no jardim dos fundos da casa de Harry.

Draco não sabia que havia um jardim nos fundos, ainda mal conhecia a casa de Harry quando ela se tornou legalmente também sua – ou ao menos enquanto estivessem casados. Granger e Weasley foram as testemunhas de Harry, Loovegod e Longbotton as suas. Eram os únicos presentes, além do mestre de cerimônias que oficializou legal e magicamente a união. Harry havia perguntado a Draco se ele queria chamar alguém, Draco negou. A cerimônia foi rápida, mesmo considerando que tiveram que parar duas vezes porque Draco estava passando mal com o perfume de Luna.

E então ele estava casado.

O loiro parou sentado em um toco de madeira jogado sobre a grama ao pé da única árvore do pequeno jardim e ficou olhando a luz do sol bater no anel dourado que Potter insistira em lhe dar. Era de ouro, simples e sem inscrições, bem discreto. Granger o havia explicado que é um costume trouxa trocar anéis em casamentos, e Harry insistiu nisso ainda que ela o tivesse explicado que o elo que o anel representa para os trouxas se torna mágico entre os bruxos.

- Você está melhor? - a voz sobressaltou o loiro, que se voltou para encontrar Harry vindo da casa.

- Sim. Todos já foram?

- Sim. Ron e Mione nos chamaram para jantar, mas achei que você não ia querer ver comida tão cedo. - Draco deu um pequeno sorriso com o comentário, mas se incomodou um pouco com a situação.

- Potter, você não precisa deixar de fazer coisas com seus amigos só porque eu estou aqui. Não quero me tornar incômodo.

- Harry. - o moreno se abaixou ao seu lado, ficando na mesma altura que ele – Se vamos fingir que somos casados, melhor me chamar assim. - o loiro concordou com a cabeça – E eu não queria ir. Estou cansado também.

Draco concordou com a cabeça e, quase como se estivesse implícito nas palavras, os dois se ergueram e seguiram para o quarto juntos.

o0o

Havia um berço no quarto, e isso o assustava.

Draco já não gostava daquele quarto. Nos últimos dias – que haviam se tornado semanas rapidamente –, ele havia saído pouco dali. Ia ao banheiro cada vez com mais frequencia, mas a casa era somente uma série de cômodos vazios, e Potter também não saía muito, então aquele era o melhor lugar para se estar, apesar de sua principal atividade ser olhar para o teto e tentar imaginar qualquer solução melhor para a sua vida a não ser estar ali.

Mas quando a cama de Potter foi substituída pelo berço, aquele quarto parecia ter se tornado um pesadelo. Draco não podia dizer que gostava da companhia de Potter, mas havia se acostumado com ele. Ele era silencioso e ficavam pouco juntos, e isso bastava. Mas, aparentemente, Potter também não tinha muito o que fazer, e começou a pintar a casa de forma trouxa. Depois de terminado, surgiram lustres. Um sofá de três lugares na sala e uma mesa para duas pessoas na cozinha. E então o berço.

O berço era a maior concretização de que teria um filho até agora. Ele tinha enjoos, sua barriga parecia inchada, mas só. Nenhum outro sinal de que havia um ser crescendo dentro dele e que logo sairia para o mundo, mudando sua vida. A enfermeira que Potter contratara vinha periodicamente examiná-lo e dizia que estava tudo dentro do esperado, recomendando uma dieta mais rígida, e ainda assim Draco não pensava muito no filho.

Ele não pensava em aborto, como chegara a pensar em meio ao desespero ainda na enfermaria do castelo, quando o medo se misturava com o pavor e os primeiros sinais de que poderia, sim, estar esperando um filho de seu pai o faziam querer vomitar mais do que o enjoo matinal. Agora dependia somente da vontade de seu filho viver, e ele viveria. Ele teria aquela criança. Mas não havia nenhum elo, nenhum sentimento materno, nenhuma ideia de que ele era, evidentemente, seu. Ou ao menos até surgir o berço e com ele a imagem de um bebê deitado nele. Um bebê que choraria, que o chamaria de pai, que ele precisaria pegar em seus braços, que teria que escolher um nome.

O seu filho.

Ou o filho de Harry Potter, como o moreno havia tão gentilmente oferecido.

E então Draco percebeu que a possibilidade de não vê-lo chorar, não ter ninguém que o chamasse de pai, não pegar aquele ser que crescia dentro de seu corpo em seus braços, não ter o direito de escolher o seu nome o apavorava tanto quanto as imagens que aquele berço lhe dava.

E ele decidiu que não queria mais ficar naquele quarto, pensando sozinho. Mas decidiu também que, da próxima vez que a enfermeira viesse, perguntaria se já dava para saber se era menino ou menina.

-:=:-

NA: Cara, o estado do Draco nesse capítulo é tão... desolador ._.

E eles estão casados, olha só que fofo XD

Espero que gostem, xuxuzes!

Até o próximo!

Beijos