Quarto Tiro -Undivided
Yo ho, yo ho, a pirate's life for me
We kindle and char, inflame and ignite
Drink up, me 'earties, yo ho
Yo ho, yo ho, uma vida de pirata pra mim
Nós colocamos fogo e biscateamos, inflamamos e carbonizamos
Esvazie seu copo, companheiro, yo hoA noite começou clara. O ar estava leve e as nuvens estavam longe, quando uma onda mais forte bateu no casco e trouxe um sobressalto para Shaka, que limpava o cano de sua pistola. Shura passava do lado e viu partes da arma cair no chão. Aquilo nunca tinha acontecido. Ele se benzeu e resolveu ficar bem longe da amurada. Nenhuma peça da arma de Shaka jamais caíra no chão; só podia ser mau presságio.
De fato, Afrodite foi o primeiro a gritar quando um trovão desceu bem perto da embarcação.
Uma movimentação apocalíptica começou no convés.
Ikki se apressou em descer do mastro, salvando sua cacatua, que batia as asas, desesperada. Alguém correu entre a garoa para chamar o capitão. A chuva apertou e mais um raio reluziu no mar.
Milo chegou imponente e desesperado. Uma tempestade não se formava do nada! Algumas ordens foram gritadas e o controle pareceu novamente dele. Afrodite saiu do timão e deixou Milo comandar quando as gotas engrossaram e começaram a machucar a pele. O navio ficou à deriva quando as velas foram recolhidas para evitar danos.
Ikki foi mandado de volta ao topo do mastro para tentar descobrir a origem das nuvens ou o fim delas. Quando ele chegou lá e se agarrou em algumas cordas para não ser levado pelo vendaval, viu a chuva mais estranha que jamais vira. O caos cobria o navio e apenas ele. Vinte jardas de distância, o mar estava calmo e o céu límpido. Uma onda forte chacoalhou o Antares e ele quase caiu.
"Capitão!" ele gritou de lá de cima. "O mundo está acabando aqui!"
Milo não ouviu grande coisa, mas tinha certeza que aquilo não era nem anormal, de tão forte e repentino.
Sabia que haviam provocado a fúria de Posseidon.
"Eu já estive nessa cidade antes..." suspirou Dohko quando as cordas foram jogadas para prender o navio ao cais.
"Perdão?" disse Camus.
"Nada, capitão." Encarou as ruas calçadas por um segundo. "O Senhor vai mandar uma carta à Rainha?"
"Não. Não há nada para relatar, nenhum tipo de avanço."
"Essa cidade é maior, capitão. É provável que encontremos alguma coisa aqui."
"Assim espero."
Sim, encontraremos dor para o meu peito.
Tudo havia acontecido há algum tempo e não parecia tão vivido quanto ontem. Às vezes podia jurar que estava de volta à sua juventude; garrafas vazias de bebida se espalhavam pelo quarto e quase podia sentir o cálido corpo sobre o seu. Às vezes nem se lembrava da cor do cabelo que tanto gostava de acariciar.
Nem mesmo seu rosto...
Ele era como um fantasma de uma época esquecida de sua vida.
Mas quando bebia muito dO Sagrado Rum, o rosto delicado voltava com força de sua memória, o importunando dias a fio; e antes que percebesse, estava batendo a cabeça na garrafa para tentar apagar os traços assombrados.
Nem sabia se ele estava vivo.
Fora há tanto tempo...
Tinha acabado de aportar no Caribe. Tinha lá seus dezoito anos aventureiros e achava que se tentasse, o mundo o coroaria e a vida seria rosa. Se lembrava de pisar no chão daquele mundo novo pela primeira vez. Firmou bem os pés no chão e inspirou fundo o ar com cheiro de peixe, quando alguém que passava atrás o empurrou com o cotovelo e quase deixou sua sacola cair no meio do mar de pernas. Achar um lugar para morar foi mais fácil do que pensara. Estalagens ofereciam quartos a preços bons para qualquer um com uma moeda no bolso, e ele tinha algumas.
Na calma da tarde, aproveitou para conhecer o porto e observar o mar, tingido de laranja pelo Sol que ia embora. Algumas pessoas passavam, aprontando tudo para o movimento noturno. Ele viu alguns homens cercando uma figura de corpo esguio e cabelos longos. A Justiça dentro de si se contorceu e o cutelo que um dos homens sacou não o impediu de ir defender a senhorita.
"O que homens sem valor como vocês estão fazendo ameaçando essa donzela?"
Os presentes se viraram para ele, tentando saber quem seria o imbecil de tentar proteger a vida alheia. Sua donzela olhou-o com desprezo e ele percebeu que se enganara a respeito do salvamento, ali era um cavalheiro que estava sendo ameaçado por alguns bandidos.
"Some daqui, seu retardado" disse a ex senhorita indefesa.
"Mas eu vim ajudar!"
"Me ajude pulando no mar."
Levando dois grandes tapas em sua Justiça interior, ele suspirou. Fora amor à primeira vista.
Os malfeitores não tiveram chance contra a pistola que foi apontada para seus rostos. Alguns saíram correndo achando que poderiam salvar suas vidas. Dois puxaram mosquetes e um terceiro acendeu uma granada de mão, que logo deixou cair e rolar até o mar ao ver o escuro do cano da pistola apontado bem para seu nariz. Um dos que seguravam o mosquete descobriu que não havia balas em seu pente e se arrependeu de não ter batido em retirada antes.
Agora era um contra um e um espectador perdido e interessado.
Algumas gaivotas levantaram vôo quando eles finalmente atiraram. A bala da pistola foi parar no meio do peito do que segurava a espingarda, desviando o rumo do outro tiro no último segundo. A outra, passou voando entre os dois, ferindo o braço do espectador abismado. Ele caiu com o susto e bateu a cabeça no chão.
O dono da pistola escondeu-a de volta entre as roupas e se aproximou do corpo do homem que tentara assalta-lo. Vasculhou o mais rápido possível, até achar um saquinho com algumas moedas. Nada mau para um ladrão. Andou até o corpo desacordado do salvador e fez o mesmo, procurando por dinheiro.
Ele acordou com as mãos leves revistando suas roupas e logo pensou que um cavalheiro tão nobre, que derrota bandidos tão maus, estaria acordando-o para agradecer e cumprimentar-lhe pela coragem. A primeira coisa que fez foi convida-lo para tomar uma bebida na estalagem que estava hospedado.
Foram andando pelas ruas da cidade, se perdendo e depois achando o caminho, em um delicioso monólogo. Descobriu que ele se chamava Shion, morava há alguns anos na região e trabalhava como marinheiro quando algum capitão precisava escalar tripulação. Tinha voltado de uma viagem há poucos dias e ainda não tinha lugar para ficar, quando prontamente convidou-o a dividir as despesas de seu recém adquirido cantinho.
A bebida correu solta entre os dois, e antes que percebesse, havia achado alguém para confessar tudo que sentia entalado. Foi inevitável, assim como tudo que acontecera em sua vida. Eles dormiram juntos e aquilo parecia tão óbvio. Quando acordou sentiu o calor de outra pele em contato com a sua e uma poça de rum no lençol. Sabia que era assim que queria passar o resto de sua vida.
Foi quando o tempo começou a correr rápido demais. Logo já estava trabalhando em um navio, ao lado de Shion, sempre mudando constantemente, nunca se fixando em uma cidade ou uma tripulação. O dinheiro que entrava não era muito, mas os gastos eram com um quarto, bebida e um pouco de munição, vez ou outra.
Conforme iam ganhando experiência, os salários iam aumentando, mas sua frieza em situações desesperadoras fez com que fosse muito mais requisitado que Shion. Logo já tinha altos postos nos navios, contrastando com o outro.
Tudo era muito perfeito, quando finalmente acabou.
Foi um dia quente de Sol, e quando acordou tropeçou numa garrafa vazia e em suas roupas espalhadas. Estava respondendo uma requisição para um alto cargo em uma embarcação britânica, quando Shion simplesmente disse que tinha uma oferta melhor em outro navio. Era uma embarcação pirata e sua Justiça saiu muito ferida desse confronto.
Tentou falar com o capitão do navio, mas não podiam oferecer um alto salário a um marinheiro apenas porque pedira. Ele fez de tudo, pensou em desistir do emprego, implorou, usou tudo que sabia. Mas Shion foi embora. E ele fora também.
Ele caminhou a passos largos pela rua. Alguém em uma janela o chamou de bonitão, mas fingiu não ter ouvido. Sentia que ia encontrar alguma coisa naquele dia. Finalmente.
Entrou em um lugar qualquer e pediu um copo de alguma coisa. Começou a observar as pessoas ao redor, pensando que qual talvez saberia de alguma coisa útil. Um copo bateu com força em alguma mesa e as conversas silenciaram um pouco. Sua bebida chegara, mas estava mais interessado no garoto que subira na cadeira e parecia pronto para gritar suas frustrações para quem quisesse ouvir.
Balançou a cabeça. Assim que o menino abriu a boca percebeu que estava bêbado havia muito tempo.
"Como tiveram coragem de fazer isso comigo?" Todos que estavam conversando acharam mais divertido presenciar a cena de sofrimento alheio. "Sabem quem eu sou? Eu tenho dinheiro, eu tenho poder! E me fazem andar pela prancha!"
Camus olhou para o estado dele. As roupas estavam úmidas e as pontas gastas; seu corpo tinha cheiro de mar e a pele tinha um pouco de sal. Nos cabelos bagunçados, mas ainda deixando transparecer que foram bem cuidados, uma solitária alga marinha se enrolava. Ele realmente parecia que tinha passado alguns dias no mar, boiando com as sereias. E o Sol havia fritado o que poderia haver atrás daquele rostinho bonito.
Alguns indiscretos no canto cochichavam e riam do rosto revoltado.
"Riam! Riam quando o Antares atacar suas casas, matar suas mulheres e roubar seus bens!"
O mais mórbido dos silêncios se instalou lá. Todos já tinham ouvido histórias sobre aquele navio.
Camus engasgou e toda a bebida que estava em sua boca voltou para o copo. Antares? Como aquele menino sabia coisas assim?
"Agora vocês ficam quietos, não é? Têm medo. Tenham medo quando o capitão olhar nos seus olhos e cuspir na sua cara: pule. Tentem ser corajosos aqui. Mostrem para todos que sabem atirar com uma pistola. Joguem suas pistolas no mar e implorem clemência quando virem o Antares. Vão precisar mais que eu. Fiquem longe daquele escorpião, o veneno dele é forte. Riam."
Ninguém se atreveu a dizer nada. Um gato foi chutado em algum lugar lá fora e seu miado foi ouvido distante.
"Têm medo de mim também? Como enfrentarão seus fantasmas assim?" Ele respirou o mais fundo que conseguiu. "Meus fantasmas são reais, sabiam? Eles velejam na velocidade do vento e matam quem encontram pela frente. Desgraçados. Eu, Julian Solo, sobrevivi e conto a história. O Antares é uma grande porcaria, comandado por um psicótico e uma tripulação sádica!"
Quando terminou de gritar, muitos perceberam que seus queixos estavam caídos e fecharam a boca.
Camus juntava dois e dois. O menino era um Deus qualquer e tinha escapado vivo do Antares. Sabia muita coisa e parecia perdido, afinal, só um imbecil se embebedaria e sairia gritando num lugar como o Caribe. Um homem truculento, com pose de dono do mundo, se levantou e foi em direção ao garoto. Ele foi mais rápido e logo estava ao lado de Julian, que se equilibrava em uma cadeira, puxando a manga de sua roupa.
"Senhor Julian, seu pai está preocupado com o senhor! Finalmente eu lhe encontrei!"
Ele baixou o olhar para o homem que nunca vira na vida. Tinha certeza que seu pai morrera há muito tempo. Quem aquele doido era?
"Eu não conheço o senhor, cavalheiro."
"O senhor está bêbado, senhor Julian." Camus puxou com mais insistência. Desde quando um garoto bêbado tinha tanta força de vontade? "Vamos voltar para casa."
Casa era uma palavra que queria muito ouvir.
Sob o olhar de todos que estavam no lugar, e mais alguns curiosos que chegaram depois, ele deixou o corpo escorregar para os braços de Camus, que o pegou meio assustado.
"Casa..." sussurrou.
"É isso aí." Ele sentiu todo o peso do garoto adormecido em seus braços e lutou para coloca-lo de um jeito fácil de carregar. "Casa."
Tão estranho como tinha começado, a tempestade parou, dando uma última chacoalhada de aviso no navio. Ela queria dizer uma última coisa antes de partir, que só estava indo e deixando o barco intacto por ordens maiores, que quando o Antares cruzasse com ela de novo não teria nenhuma sorte.
Milo entendeu bem o recado. Estava agradecendo aos céus por não ter perdido nenhum membro da tripulação e não terem sofrido nenhum dano no navio. Jurou que nunca mais se meteria com nenhum capitão que não tinha medo dele.
Alous, povo! Não me matem! O.O
Eu sou completamente inocente. A culpada é a abelha (vide meu blog). Mas o Dohko também tem um pouco de culpa.
Vocês viram? O Julian está vivinho para ajudar o Camus! Como se eu fosse matar aquele pedaço de mau caminho. O.ô Eu não tenho coragem de matar nenhum personagem, tenho o coração fraco. Mas torturar já é outra coisa...
Apenas alguns avisos, o Isaak me confirmou os tapa olho e eu já estou importando direto do Caribe. Quem quer um?
Muitos thanks para quem deixou reviews, eu fico sempre muito feliz com elas! Como a Mestra Calíope fez, eu de seguidora fiel copio: respostas das reviews no meu blog, já que o ff anda temperamental. (canceriano, hein?)
www (ponto) harbour (ponto) weblogger (ponto) com (ponto) br
Espero que tenham gostado e não se chateado com as partezinhas do Shion e do Dohko.
E assim que eu conseguir mover a mão esquerda, ou quando eu não agüentar o Julian me importunando eu começo o próximo capítulo.
K, Venez, Dani, Thamis, Calíope e Bon Jovi, esse capítulo é pra vocês!
5 de Maio de 2005
Saga XD
