Capítulo IV
Quinze minutos depois – Alojamentos.
Kimberly chegou com uma expressão estranha. Pareceu estranha, desanimada.
Baby viu quando ela apareceu. Também estranhou quando a viu com essa expressão. Certo, era natural vê-las cansadas, mas aquilo parecia ainda pior.
- Boa noite. - cumprimentou num tom sem entusiasmo.
- Boa noite. - pausa, o tempo de perceber a mudança – O que foi, querida? Que cara é essa?
- Ahnn... eu não estou nos meus melhores dias... ando meio cansada.
- Imagino. Era pra ser uma semana e durou só três dias.
- Foi, e também são outras coisas. Veio um monte de problemas que achei que já tinha resolvido...
Kimberly ia começar a falar quanto Schimmdtt interrompeu-as.
- Chegou tarde, Kimberly.
- Desculpe. Eu estava longe daqui e tinhas coisas a resolver.
- Humm... certo, vá para seu quarto. Amanhã vamos começar cedo.
- Tá. - acatou a ordem como se fosse uma criança obediente – Boa noite.
Gunthar ficou ali até que Kimberly saísse.
- Ah, essas meninas...
- Coitada... - Baby deixou escapar – Ela parece muito cansada
- Assim que for possível ela terá mais tempo. Por enquanto é muito importante que mantenha este ritmo. - pausa, meio sisudo, como o habitual mas ao mesmo tempo paternal. - Boa noite, Baby.
- Boa noite, senhor.
Kimberly passou pelo corredor na ponta dos pés. Entrou no quarto que dividia com mais três meninas, mas que estava vazio. Suas colegas de quarto não foram chamadas. Elas teriam horário mais flexivel, pra não dizer férias. Isso porque o treinamento de quem iria competir seria rigoroso e diferenciado. Estariam ali apenas oito meninas, e eram treinadas naquele ginásio pelo menos vinte.
A porta estava aberta quando Schimmdtt passou.
- Senhor? Quem vai ficar nesse quarto?
- Vai dividir com Leslie Reynolds. Mas ela parece que não vai chegar hoje... está viajando. Tenta dormir cedo porque vamos treinar duro. Estamos numa fase muito importante. Descanse.
- Certo.
Ele seguiu pelo corredor e Kimberly fechou a porta.
Começou a tirar as roupas da mala e colocá-las no lugar de sempre. Depois sentou-se na cama sentindo-se cansada mesmo sem ter feito esforço.
O quarto já estava escuro. Perfeito para quem tinha dificuldades pra dormir, do jeito que gostava, mas sabia que não iria conseguir. Não daquela vez: as conversas com Trini tinham despertado sentimentos que julgara ter ficado em segundo plano e agora causavam-lhe ansiedade.
"Tommy... me perdoe... era a minha chance..." pensava, tentando acalmar sua consciência, que agora exigia uma outra atitude. Durante todo aquele tempo, mesmo amando-o, acreditava piamente na sua atitude. Tinha certeza de que escolhera o caminho correto. Tudo tinha mudado.
Agora, sozinha, com privacidade suficiente para não ser interrompida, começou a chorar. Chorou o que deveria ter chorado há anos, e sem o ombro consolador de Trini para acalmá-la ou aconselhar. Por Tommy, pelo seu passado de ranger, pela rigidez que agora dominava sua vida... por tudo. Não por arrependimento, e sim por saudade.
Decidiu pôr um fim naquela história. Era a única que podia fazer isso. Finalmente lhe ocorrera que uma iniciativa sua poderia mudar tudo.
Sentou-se a escrivanhia. Pegou algumas folhas de papel e começou a escrever uma carta.
"Tommy: acho que vai estranhar receber uma carta minha depois de tanto tempo, mas..."
Não queria pensar nas palavras que iria usar. Certas verdades não podiam ser contadas usando meias palavras. Não queria correr esse risco. Estava escrevendo como se quisesse convencer primeiro a si mesma, mesmo que fosse para Tommy.
Terminou de escrever. Não quis reler para não perder a coragem. Não queria recuar. Ficou surpresa foi com o tamanho. Rapidamente dobrou as folhas e pôs no envelope.
Como se fosse um movimento totalmente mecânico e calculado escreveu os endereços e colou os selos. Fez o mais rápido que pôde, evitando assim a possibilidade de acabar desisitindo.
Quando terminou, contemplou o resultado por algum tempo. A cabeça sendo invadida por milhares de pensamentos. Examinou a aparência do que estava em suas mãos: um envelope comum, num papel comum, totalmente padronizado, mas que levava coisas importantes. Que levaria verdades vitais, que afetariam três pessoas. Três por estar considerando Katherine: das últimas vezes que ouvira falar de Tommy os dois estavam praticamente namorando. Isso a afetaria de qualquer forma porque sabia de seu interesse por ele.
Pensou que talvez fosse injusto que algo tão comum e padrão quanto uma carta levasse algo tão precioso, mas acabou lembrando do modo que terminara o namoro. "Será da mesma forma" pensou. "Não pode ser de outra maneira."
Colocou a carta dentro de um livro, com a ponta pra fora para não esquecer. Depois foi para a cama. Estava cansada demais e precisava dormir para aguentar o que viria no dia seguinte.
"Preciso acabar com isso tudo... essas mentiras não podem continuar" pensou, enquanto o sono não vinha. "Tommy não merece o que estou fazendo com ele".
Continua...
