Disclaimer: Nem as personagens nem a música de fundo deste capítulo são minhas. Beijosmeliguem.
Anata no Koe
A sua voz
Capítulo 4
Música: Non photo blue (Pinback)
Para Mary Marcato
Era hora para estar no trabalho, mas Kinomoto Sakura preferiu voltar para a casa e esfriar a cabeça. Tinha se passado meia hora pelo menos depois da discussão com Syaoran quando decidiu ir para a estação de metrô. Sim, era melhor voltar para casa, mesmo com a parentada que tinha lá incomodando, e resolver assuntos pendentes. A nova onda zen no mundo é se livrar dos fantasmas do passado. Era encarar os medos e ficar mais seguro diante das coisas que você julga que são seus pontos fracos.
Por causa disso, chegou e foi direto ao quarto. Lá, abriu a porta do armário e, mais lá em cima, afastou uma caixa de sapatos. E depois outra. E mais outra. Por fim, precisou ficar na ponta dos pés num banco e puxar uma caixinha de madeira trabalhada lááá no fundo do armário.
Segurou-a firme. Olhou a tampa. Observou os desenhos de cerejeiras gravados na madeira em tom de rosa desbotado por causa do tempo. Soprou para tirar a poeira da madeira e... pensou.
Tinha mesmo que abrir aquilo?
Sentou-se no chão, num espaço bem limpo em cima do tapete branco do quarto, e abriu a caixinha. Sentia-se como Pandora, claro. Tudo que ela mais temia poderia sair de lá e devastar o mundo dela. O mundo que já foi parcialmente abalado com o retorno de alguém.
A pessoa responsável por aquela caixa.
Sakura ficou ali, sentada sobre as próprias pernas, por pelo menos vinte minutos. Ela nem se deu conta do tempo que passou. Não se interessou por isso. Só pensava na decisão que precisava tomar.
Abriu a caixa.
Mais um momento de silêncio.
Havia ali algo que ela queria esquecer. Lembranças de uma época que ela achava que era feliz e, depois, se deu conta que foi apenas início de uma fase de angústia e decepção.
Isso acontece quando você gosta demais de alguém. E, de repente, descobre que não seria mais a mesma pessoa.
Tirou de lá várias fotografias. Nelas, duas crianças – um menino e uma menina – estavam marcados pelo tempo. Antes as fotos com certeza tinham um tom mais colorido, mas agora... um forte desbotado pendendo para o amarelo predominava a maioria. Sakura mal conseguia se reconhecer nelas... muito menos o rapaz nas fotos.
Era Li Syaoran, com onze anos.
Os dois eram amigos de infância. Foram colegas de classe. Frequentavam todos os lugares juntos. Os dois tinham até mesmo ciúme se um deles arranjasse outro amigo. Ou amiga. Nessa época, Sakura não conhecia ainda Tomoyo, a garota que mais a ajudou a superar grande parte dos problemas pessoais, como a insegurança e timidez.
Olhou mais algumas fotos.
Nelas, aparecia Syaoran e ela nos melhores momentos, como as competições escolares, desfiles, ensaios... Havia uma fotografia de uma peça teatral – ele, de joelhos, Sakura sentada. Quase não reconhecia a cor do vestido... Era azul, não era? E do que era mesmo a apresentação? Ele era algum príncipe ou algo do tipo? Isso foi há anos... e ela não lembrava.
Se ela não lembrava, imagine Syaoran... Foi nessa época que ele deu um anel para ela. Disse que seria de compromisso. Compromisso entre eles, ainda crianças, para que nunca se separassem.
Gostava tanto dele, foi – assim achava – o primeiro grande amor que sentiu por alguém que não fosse da família, não era nada fraternal... mas quando percebeu isso, todos esses sentimentos, Syaoran já estava de malas prontas pra ir com as irmãs para Hong Kong, onde passaria, a princípio, quatro anos com a família.
E Sakura esperou os quatro anos passarem, para ver que ele havia esquecido dela. No último dia dos 1.460 que esperou, ela chorou e viu o tempo que havia perdido. Não fizera nada de especial, não fizera novos amigos, ficou apenas esperando... e sem um retorno.
Resolveu um dia guardar todas as lembranças dele. Tudo que pudesse fazer lembrar que conheceu alguém de quem gostava muito. Colocou tudo numa caixa de madeira e deixou escondido no canto mais escuro do guarda-roupa, de tal forma que ela só conseguiria mexer novamente se fizesse enorme esforço, como subir na cadeira, ficar na ponta dos pés e esticar o braço.
Uma vez contara a Tomoyo sua história, o que a levou a toma a estranha decisão de guardar tudo de uma vez. Talvez acreditasse que um dia aquela pessoa voltaria e poderiam ficar juntos... Mas Tomoyo dissera que isso seria em último caso. Recomendou que Sakura voltasse a viver, que procurasse alguém especial, que fizesse novas amizades, fizesse cursos, saísse... Enfim, que vivesse o tempo que ela havia perdido.
Mas agora ele voltou...
-Não por causa de mim... – ela murmurou, fixando o olhar na foto desbotada.
Num ato totalmente consciente, ela rasgou a foto. Não apenas aquelas, mas todas que estavam dentro da caixa. Lembrou dos últimos acontecimentos, de tudo que abalou a tranqüila vida que tinha até o reaparecimento de Li Syaoran.
- Mas que droga... – resmungou ao olhar o chão e ver todas as fotografias rasgadas, como um imenso quebra-cabeça. Era possível, com um pouco de paciência e fita adesiva, unir os pedaços e ter a imagem de volta.
Mas, claro, ela não queria mais isso. Pegou cada pedaço rasgado e jogou tudo no lixo.
Na cesta dos recicláveis, claro.
Ficou olhando o que fizera, todo o lixo acumulado, até escutar o telefone tocar. Ela olhou o display na secretária eletrônica e reconheceu o número. Por isso atendeu.
-O que foi, Yamazaki?
-Você viu o capítulo de hoje da novela?
-Que novela?
-Ora, qual mais? A que nós dublamos. Ou pelo menos dublávamos, porque teve uma cena lá que Chiharu teve que te substituir porque você sumiu. Deveria ver, foi muito quente. Chiharu é muito boa no que faz. As falas também, claro.
Se fosse outra ocasião, Sakura teria gritado e desligado o telefone na cara do colega. Mas percebeu que o telefonema era para animá-la. Ele estava preocupado com ela... Um lado de Yamazaki que ela não conhecia, além dos lados travesso, tarado e mentiroso. Ela riu alto, riu tão espontaneamente que o colega ficou em silêncio do outro lado e esperou pacientemente que ela parasse.
-Desculpa... – disse, por fim, tentando parar de rir e limpando os cantos dos olhos por onde escorreram algumas lágrimas de riso – Não sabia que Chiharu-chan me substituiria muito bem.
-Você tá brincando, né? Ela é ótima, em todos os sentidos. Ela também sabe dublar muito bem.
Novamente, ela riu. Yamazaki não sabia ser sério nem uma única vez. Até na hora de ajudar alguém sem ânimo ele sabia fazer rir.
-Quer sair pra beber alguma coisa? – ele perguntou por fim – Chiharu e Tomoyo também vão. Vamos só jogar conversa fora e beber.
-Oh... – ela estava mesmo tocada com a sensibilidade dos colegas – Eu não bebo, mas vou com vocês...
-Eu bebo por você. – Yamazaki se ofereceu – Mas tenta dar uns goles também. Quem sabe o capítulo da bebedeira do capítulo passado possa servir de inspiração. Aí todo mundo acorda sem roupa amanhã e ninguém vai trabalhar.
Tudo que Sakura fez foi sorrir com a ideia.
Li Syaoran aprendera a apreciar o silêncio na época que ainda morava com as irmãs. Ou seja, até há poucas semanas.
Nascera em Hong Kong. Para quem não sabe, essa ilha fica ao sul da República Popular da China, foi colônia britânica e é bastante conhecida por ser um lugar onde os ocidentais se sentem mais em casa. Apesar de estar localizado no extremo oriente, Hong Kong parece uma grande metrópole americana, com seus arranha-céus gigantes, seu porto e sua população que vive de moda, dinheiro, turismo e muitos negócios. Morou com as cinco irmãs, único homenzinho da família, e às vezes sofria nas mãos dela. Ou melhor: CENTENAS de vezes. As ocasiões nas quais se meteu eram dignas de livro – como ser travestido pelas irmãs; ser a criança mais procurada do distrito no dia em que dormiu debaixo da cama para se esconder das irmãs e não deu mais sinal em casa; fugiu dos controladores de metrô da cidade porque trocou o passe sem saber com a irmã mais velha... Depois de passar por tais situações numa idade ainda inocente, ele, mais velho, ria dos fatos. A época sentia saudades do Japão e dos amigos. Em Hong Kong conhecera muita gente, mas ninguém em especial o prendeu por lá... no Japão pelo menos as pessoas não obrigam ninguém a se vestir de um jeito estranho. Você pelo menos tem a liberdade de usar a roupa mais estranha que tiver. Os outros escolhem por você? Nunca.
Levantou-se e escolheu um CD da estante. Leu as faixas e pôs para tocar. Era um CD de uma banda americana. Isso o ajudaria a pensar melhor no últimos acontecimentos, quando pensava que se livrara do barulho de Hong Kong e encontrava balbúrdia no Japão.
E precisamente por causa de Kinomoto Sakura.
Sentou-se novamente e ficou escutando alguns versos. Um deles prendeu a atenção dele:
I think about you some.
Where to put you?
All the backed up data for a raining time.
Sim. Finalmente voltara para Tokyo. Agora poderia pensar com mais tranqüilidade na menina que povoava os pensamentos durante a infância. A infância no Japão foi uma época realmente divertida, foi quando conheceu Sakura e se sentiu mais seguro como pessoa do que quando esteve no estrangeiro. Ou melhor, no país natal, pois Syaoran não era japonês.
E agora pensava no que Kinomoto dissera... Na promessa dele.
Que promessa era aquela a qual ela se referia?
Don't do this man
There's another one off behind
Breaking down the door without warning.
Relembrou a infância. Kinomoto e ele viviam grudados, brincando, conversando… Não se lembrava, claro, do que conversavam na época. E se ele tiver feito alguma promessa, tipo, casarem e terem cinco filhos? Como ele ficaria?
Não que Sakura não fosse bonita – ela ficava tão encantadora quando corava nas cenas mais quentes da dublagem – e não merecesse alguém como ele como companheiro, mas a questão era...
Era o quê mesmo?
I get the same result.
We get the same effect.
Não, não, não. Ele, Li Syaoran, era uma pessoa honrada demais. Essa situação não poderia continuar daquela forma. Tinha que manter o bom caráter, a reputação mais limpa que roupa lavada.
Por isso decidiu que...
Os pensamentos foram interrompidos por causa do telefone. A princípio, achou melhor ignorar. Mas a pessoa insistiu uma, duas, três vezes. Depois de um sexto toque cairia na secretária eletrônica.
A pessoa, no entanto, não quis falar. Desligou antes que ouvisse a mensagem e o sinal.
O rapaz deu um suspiro. Seria demais se fosse Sakura implorando descilpas numa hora daquelas. Ela bem que poderia estar se remoendo de culpa por... por... por... por conta do quê, mesmo? Ah, sim, por acusá-lo de não ter caráter para cumprir as próprias promessas. Decidiu que...
O telefone tocou de novo e ele ficou bastante apreensivo. Foi só pensar nela que isso aconteceu. Esticou o braço e agarrou o fone:
- Alô?
Segundos se passaram. O rapaz revirou os olhos com imenso desprezo.
-Cerveja agora, Yamazaki?
Outros segundos se passaram. Ele deu um sorriso irônico.
-Tá, sei. Pode me enganar que eu gosto.
E desligou o telefone,
Um minuto se passou.
I get the same result.
We get the same effect.
Alguém – certamente Yamazaki – ligou de novo.
Syaoran atendeu antes que tocasse outra vez.
- O que foi agora?
Yamazaki falou algo que fez o chefe arregalar os olhos.
-Vou praí agora. Segura a Chiharu até eu ver essa striptease!
Desligou, pegou o casaco e simplesmente saiu correndo, sem pensar em mais nada.
O lugar menos apropriado do mundo para um show de striptease protagonizado por Chiharu era um dos restaurantes mais respeitados pela cidade. Syaoran parou em frente ao prédio e ficou olhando a entrada. Ele não era da cidade e não sabia da fama dali, mas deu logo para perceber que havia alguma coisa errada. Deu duas voltas no quarteirão e – sim, o nome do restaurante estava ali na fachada em letras curvadas gravadas em dourado, com um recepcionista de terno na entrada colhendo os nomes das pessoas que chegavam, pessoas chegavam em carros que Syaoran só tinha visto pela tevê.
Se Yamazaki o mandou para aquele lugar de propósito, o rapaz teria que limpar a gaveta amanha para outra pessoa pegar.
Sim, Li estava de mal humor. Queria muito ver a colega sem roupa, e acreditou em Yamazaki. Ele, Li Syaoran, o rapaz de caráter limpo, gentil, cuidadoso, calmo, ele – sim, ele mesmo – foi enganado de forma inescrupulosa por um subalterno.
Alguém ia pagar muito caro os salgadinhos de amanha.
Por fim, deu um suspiro e deu um rápido olhar sobre si mesmo. Não estava o símbolo da elegância, mas também não estava com a cara daquele pedinte da outra esquina, que o perseguiu com uma canequinha de latão por conta de algumas moedas chinesas que deixou para ele.
Resolveu entrar. Ia perguntar ao "tio" de terno da entrada pelos colegas.
Don't do this man
There's another one off behind
Breaking down the door without warning.
Se estivesse no lugar certo, então tudo bem. Pediria apenas uma garrafinha de água porque talvez só isso custasse metade do salário do mês que vem. Se não... ainda teria dinheiro no próximo mês para pagar o aluguel do apartamento.
- Boa noite... – o rapaz começou educadamente ao se aproximar da entrada, na qual o Sr. Terno recepcionava os clientes – Gostaria apenas de saber se estou no lugar certo. Um amigo meu me ligou e... – lembrou sobre a falsa notícia – marcou aqui neste restaurante com algumas colegas...
- O seu nome é? – ele falou num péssimo sotaque de japonês tentando fazer que sabe falar francês.
- Li Syaoran. Acho que está em nome de Yamaz...
-O senhor pode entrar. Mesa sete. – ele abriu a porta do restaurante – A garota está esperando lá dentro há cerca de vinte minutos.
Garota?
Curvou a cabeça e conseguiu reconhecer, por cima do ombro do recepcionista, a figura da pessoa que ele realmente não estava... adequadamente arrumado – no sentido de estar barbeado, perfumado, bem vestido e penteado – para vê-la e assim poderem conversar amigavelmente.
Entrou, tao em silêncio quanto possível, e murmurou baixinho:
-Sakura...
