InuYasha pertence à Rumiko Takahashi.
CAPÍTULO 4
UM CONVITE - E OS SENTIMENTOS ESCONDIDOS DENTRO DELE...
"Quando são derramadas tantas lágrimas,
Quem sabe se todo coração fique honesto.
Quando os pensamentos de alguém são percebidos,
Poderia ser bastante para todo coração."¹
Sozinha.
Era assim que se encontrava a dominadora dos ventos. Em seu pequeno "lar", sentia-se tão só, que, às vezes, tinha vontade de berrar aos quatro cantos. Juntou as mãos sobre o peito sentindo o ansiado coração bater, cadenciadamente.
"O que mais posso querer? Sou livre, e meu coração bate enfim neste meu corpo"lembrou-se de Naraku e deu um riso malicioso. "Maldito, teve exatamente o que merecia... Pena que Kikyou não viveu pra ver..."deu uma risada. "Será que estou enlouquecendo? Rindo sozinha?"
Apesar de suas andanças pela região, amizades realmente não eram seu forte... Exceto Kaede e Shippou, não poderia realmente dizer que tinha amigos. E nesta primavera não iria seguir o vento, porque a velhota parecia realmente doente...E por mais que fizesse, não conseguia deixar de se preocupar sobre ela...
Quanto a um companheiro ou coisa que o valha...Ela não estava bem certa de querer tanto ou ser querida a este ponto. E lembrou-se de um certo yokai de longos cabelos prateados e olhos dourados... Dele podia se esperar tudo, menos que a procurasse com uma intenção digna e decorosa, segundo as palavras de Kaede. Não pra ela, claro. Deu outra gargalhada. Não devia esperar muita coisa. Não havia muito pra ela. Pelo menos, não neste mundo...
Riu até que coisas estranhas escorreram pela alva face.
Lágrimas.
Tocou o próprio rosto, surpresa. Desde que ela se vira livre de Naraku era a primeira vez que isto acontecia... "Então, estas são minhas... lágrimas... não sabia que as tinha..." provou o gosto delas. "Salgado... como a água do mar... bem diferente de mim... Sou tão insípida quanto pareço?" Jogou-se pra trás, deitando-se sobre o surrado chão de sua varanda, olhando pra o céu que começava a pontilhar-se de estrelas. Respirou fundo, mas as gotas salgadas continuavam a jorrar, como se viessem de uma fonte inesgotável...
Encolheu-se sobre o próprio corpo, que era tão frágil e tão forte ao mesmo tempo... Estava fria aquela noite, mais do que se poderia esperar de uma noite primaveril. Chorou até soluçar, e uma sonolência viera visitar-lhe os sentidos.
Ainda piscando, viu um vulto inclinar-se sobre ela. Imaginou que estivesse sonhando. No entanto, o calor da mão em seu rosto fez a imprecisão desvanecer-se, dando lugar a uma Kagura muito disposta, pondo-se de pé. Abriu o leque, uma das boas coisas que o maldito lhe deixara.
— Não vim lutar com você, Kagura. — falou o estranho.
Ela ainda piscou algumas vezes, antes de reconhecê-lo e abaixar um pouco a guarda. "Sesshoumaru?"
Ele continuou fitando-a. Os orbes dourados emitiam uma luz que ela conhecia, que já vira outra vez. Viu-o levar a mão até o nariz afilado, e novamente fitá-la como se estivesse confuso.
"Que coisa! Uma expressão neste rosto de gelo..."
— O-o que... O que você quer aqui? — ela conseguiu sorrir, a uma distância segura dele. — Sesshoumaru?
Silêncio.
Nem mesmo ele sabia o que fora fazer ali. Viera norteado pelo aroma dela, que lembrava o de Naraku, mas, talvez por ele ter sido aniquilado, era algo intrínseco dela, agora. Sua própria fragrância...Que o inebriava e fazia perder a cabeça, tão próximo a ela... e que ele ignorava de propósito...
Flash
— Senhor Sesshoumaru! — falou Rin, já uma bela mocinha. — Por que estamos indo novamente para o leste? Não vamos voltar antes do verão pro castelo? Deveríamos avisar à senhora, ela ficará preocupada com o senhor...
Ele não respondeu, e a menina voltou sua atenção para as flores que colhia avidamente, seguida pelo sapo feioso. "Té mesmo a criança acostumou-se a não ter resposta de mim...", pensou, dando um meio sorriso...Ergueu a majestosa cabeça e aspirou novamente o ar.
"Por que estou seguindo-a?"
O fato era que desde que a revira, no rio, perto da vila aonde viera deixar Rin, não conseguira evitar pensar a seu respeito. Isto o estava incomodando. Estivera a beira de cometer uma atitude insana, por duas vezes... Tocou a testa com a mão.
"Por que estou fazendo isso?" A resposta era evidente, mas ele fazia questão de não analisá-la.
"Eu, Sesshoumaru, correndo atrás de uma..." trincou os dentes "... de uma mulher qualquer..." Apertou ainda mais os dentes. "Não, ela não é uma mulher comum!" Ela ousara destratá-lo, desafiá-lo sem medo das implicações de seus atos! Ela não se acobardou nem um momento. E, embora não admitisse, a admirava. Mesmo sendo cria daquele ser execrável, saíra bem a si mesma. Foi covarde por não tentar matá-lo ela mesma, porém soube buscar ajuda... Mas isto fora há muito tempo atrás...Agora, estava livre...
Viu que entardecia. Virou-se pra Jaken.
— Cuide de Rin. Não se afaste desta caverna. — estreitou os olhos. — Não a perca de vista.
— S-sim, S-senhor S-Sesshoumaru!
E desaparecera da frente do pequeno ser.
Fim do flash
Ela permanecia na defensiva, embora percebesse que ele realmente não tinha esta intenção. Cruzou os braços, repetindo a pergunta sem resposta.
— E então, Sesshoumaru? O que faz aqui?
Deu um passo em direção a ela.
— Você esteve chorando. — falou.
— Isto não é da sua conta. — retorquiu, passando a mão rapidamente pela face. "Droga! Elas ainda estão aqui!"
Aproximou-se dela, que ainda conjeturava o porquê das lágrimas e de Sesshoumaru estar ali. Quando se deu conta ele já estava parado à sua frente. Ergue o rosto para ele. E, imergindo nos olhos dourados, as lágrimas voltaram, deixando-a desesperada.
"Que irritante, como posso mostrar-me tão fraca..."
Virou-se de costas, sentindo-se realmente fraca, apoiando as mãos na mureta.
— Seja lá o que foi que veio fazer, vá embora. — um soluço escapou dos lábios entreabertos, fixando o leque na faixa em sua cintura. "Parem, parem já de sair!" Falava internamente com as próprias lágrimas. — Pare de bisbilhotar a minha vida! E cuide da sua!
No entanto, ele continuou parado às suas costas, pensativo. Refletia sobre o fato dela estar chorando. "Pranto..." Por que um yokai forte como Kagura choraria? Uma fraqueza humana tão miserável... "E o que está sentindo neste momento, Sesshoumaru? Não é senão um tipo de fraqueza?" Gritava-lhe a consciência, que descobriu que tinha. Apertou a mão esquerda com força. Por que teria...
Negligenciando os pensamentos conscientes, passou o braço ao redor dos ombros estreitos dela, trazendo-a pra junto de si.
Ela arregalou os olhos escarlates, surpresa, ao sentir as costas baterem contra o peito dele. "O que está fazendo?"
— Você não deve choramingar o tempo todo. — A voz saíra mais macia do que calculara. — Yokais não demonstram este tipo de atitude, ainda mais frente a um mais forte que ele.
Kagura abaixou a cabeça, encostando o queixo no braço que a segurava firmemente. Pensava em sua vida, por isso chorava. Mas como explicar este tipo de sentimento a alguém que normalmente nem sequer piscava, que sempre teve tudo que quis? Fraca. E neste momento questionou-se quando é que fora realmente forte... Não que quisesse ser, não tinha este tipo de ambição. A maior que tinha já fora realizada...Sentiu o coração disparar ao dar-se conta da estranha situação em que se colocava. E isso a angustiou ainda mais...
Por alguns instantes, era como se o silêncio fosse a única coisa, além de seu coração irresponsável a bater freneticamente. Não havia o que dizer. Ela agradava-se em ter alguém por perto, para aliviar sua solidão, sentir-se protegida e ele...
Ele queria satisfazer a sua cobiça, e ficar ali, com Kagura, a mestra dos ventos... Fechou os olhos, como lutasse por dentro. Lutava contra o próprio orgulho. Provavelmente, neste caso, perderia. Já deveria saber que as maiores pelejas que tivera foram consigo mesmo.
Sentiu uma gota quente de lágrima sobre seu braço, tirando-o de suas reflexões por alguns instantes.
— Por que está chorando, Kagura? — inquiriu ele.
— Eu não sei! Acha que se eu soubesse já não teria feito parar? — respondeu, malcriada, enxugando o rosto nas mangas do quimono, irritada e surpresa com a preocupação dele.
— Isto não é algo com que se possa lutar, não é? — continuou Sesshoumaru. — Se fosse, você, com certeza, teria vencido.
Ela deu um meio sorriso. "O que ele está fazendo? Tentando me confortar?".
— É, pode ser. — girou o corpo, ficando de frente para o yokai de cabelos prateados, que ainda tinha o braço sobre seu ombro. — E por que está aqui? — seu olhar era uma interrogação.
Sesshoumaru ficou pensando no que responder. Fleumaticamente, respondeu:
— Vim vê-la.
Sentiu se rosto colorir-se de vermelho. Viera...Vê-la? Ah, não podia ser! "Não, não e não! Por que? Por que este sentimento estranho abocanha meu estômago e... Oh,... Sesshoumaru?"
Ele tocou sua face, resvalando o dedo pelos lábios entreabertos dela. Mas não repetiu o ato de seu último encontro. Ao contrário, apenas virou-se de costas e foi embora. Era melhor assim. E depois não se arrependeria.
Ela ficou abismada.
— Hei, Sesshoumaru.
Ele não respondeu, apenas olhou-a por sobre os ombros. n. da a. aquele olhar 43 meio de lado, já saindo... indo embora... louco por você! Que desperdício... rs
— Você... — não acreditava que diria aquilo. Maldito coração! Por que batia tão descompassado impedindo-a de falar normalmente! — Você é bem-vindo para vir aqui... se quiser, é claro...
— Eu sei.
Que presunçoso! Quem ele pensa que é? Ela apenas tentara ser... educada...Afinal, não via praticamente ninguém, exceto quando ia até a vila...
— Maldição! O que quer dizer com isso?
— Que não preciso de sua permissão pra vê-la.
— Você está muito presumido do que pode e não pode em minha casa, Sr. "Eu-posso-tudo-que-quiser". — a despeito de sua aparente irritação, ela sorrira. Um sorriso simples, que, mesmo de relance, o prendeu.
— Hunf! — "é melhor eu ir, antes que, realmente, não consiga mais voltar". Refletiu, enquanto sumia pelo caminho à sua frente.
E, já próximo à caverna onde deixara seus protegidos, sentiu algo martelando em seu peito. "Isto não deve acontecer. Não quero mais ninguém em minha vida... me perturbando...".
— Maldita yokai! — resmungou, arreliado com as novas oscilações dentro de si.
Continua...
1- Tradução livre e adaptada do pirmeiro verso da música "Every Heart Minna no Kimochi", de BoA. (encerramento do anime InuYasha)
Olá! Um capítulo novo, após longo e tenebroso verão...XD! Bem, eu espero que esteja bom.
Editado e postado em 27/01/2007. Por Lady0Kagura.
