Capítulo IV
Ainda que já houvesse dormido em piores condições, a noite passada naquele sofá minúsculo deixara Kanon dolorido e lhe propiciara um sono repleto de interrupções.
Maldito Saga! Quem lhe dava o direito de ficar com aquela cama gigante e macia só para ele?
Kanon se levantou entre gemidos de dor e quando sentou-se no sofá, ainda enrolado no lençol que o cobrira precariamente, bocejou. Será que aquele folgado ainda dormia? Claro, numa cama daquelas só um louco se sujeitaria a madrugar.
- Ora, finalmente acordou!
Só um louco como Saga estaria acordado e bem disposto numa hora daquelas. Nada como uma noite bem dormida, não era mesmo?
- Hunft. - bufou Kanon, olhando com mal humor para o gêmeo.
- Bom dia para você também. - replicou Saga, com um sorriso. - Podemos conversar agora ou você prefere estar mais acordado?
Sem dizer nada, Kanon apenas se levantou do sofá, praguejando ao quase tropeçar no lençol e sumiu dentro do banheiro, batendo a porta com força atrás de si. Saga não evitou uma risada contida.
Na noite anterior, ele tivera uma surpresa ao saber que o templo realmente continuava o mesmo e que só havia um quarto e uma cama. Athena não poderia ter providenciado um lugar para Kanon dormir? Ela não esperava que... que eles dividissem a mesma cama!
Antes que o irmão pudesse se aproveitar da situação, Saga pegara um lençol, voltara para a sala e parara diante dele, que ainda contemplava o desenho.
- Você vai dormir aí. - dissera, jogando o lençol no colo de Kanon.
O mais novo não respondera, apenas ficara olhando para Saga.
- O que foi? - perguntara Saga depois de algum tempo, incomodado com o olhar.
- Como assim, "você vai dormir aí"? - ele levantara-se e postara-se diante do gêmeo, os rostos tão próximos que um movimento mínimo seria necessário para um beijo. - Eu vou dormir agarradinho com você!
- Nem... nem pense nisso! - exclamara Saga, dando dois passos para trás. - Não ouse entrar naquele quarto!
E saíra em passos decididos, voltando para o quarto e trancando-o duplamente: a chave e com seu cosmo.
Fora assim que Kanon tivera de passar a noite no pequeno sofá, se lamentando por não poder se aconchegar naquela cama enorme e confortável e por não poder dividi-la com Saga e quem sabe, matar de uma vez por todas aquela curiosidade sufocante que se avolumava dentro dele.
E lá estavam em plena manhã, após sua primeira noite sob o mesmo teto. Kanon estava com um mal humor daqueles e mesmo jogar água fria contra o rosto umas três vezes não melhorou sua expressão, seu ânimo ou mesmo o sono que sentia. Quando saiu do banheiro estava tão irritado quanto quando entrara ali e fuzilou Saga com o olhar mais uma vez, ao encontra-lo na cozinha.
- Algum problema? - perguntou Saga, com um sorriso levemente cínico.
O gêmeo apenas bufou e puxou uma cadeira, sentando-se despojadamente nela e cruzando os braços. Se antes sentira vontade de agarrar Saga, entre outras coisas, agora sentia vontade de chutá-lo. Ele tivera uma noite maravilhosa naquela cama aconchegante, acordara absurdamente cedo e de bom humor e estava com aquele sorriso detestável no rosto. Tudo aquilo era irritante!
- Ei, o que teremos para o café? - perguntou enfim, quando o aroma da refeição que Saga preparava estava irresistível demais para ser ignorado e fazia com que a barriga dele roncasse.
- O que você terá eu não sei. Só sei do meu apetitoso café-da-manhã que...
- Custa você dividir comigo? Somos irmãos, afinal de contas.
- Ah! - Saga voltou-se para ele, com as mãos na cintura. - Muito conveniente como agora nós somos irmãos!
Kanon já estava sentindo seu humor melhorar e abriu um sorriso.
- Bem, mas se você quiser nós podemos ser namorados como antes...
- Nós nunca fomos namorados, que fique bem claro!
- Não? - arqueou a sombrancelha, o sorriso ainda sustentado no rosto. - E quanto aquilo de "se eu pudesse namorar um outro cavaleiro, queria que fosse você"?
Kanon teve a leve impressão de que seu irmão corara diante da lembrança.
- Oras! Eu tinha quatorze anos quando disse aquilo e de mais a mais, nós não chegamos a ter compromisso nenhum. Há uma grande diferença entre querer algo e fazer algo.
- Hm... então você até quer me beijar, mas não tem coragem de fazer isso?
Saga pareceu ultrajado.
- Eu nunca disse isso! - esbravejou. - E você deveria parar com essas idéias absurdas! Por Athena, Kanon, nós somos irmãos gêmeos!
- E...? - deu de ombros, com legítimo ar de pouco caso.
- E daí que isso seria incesto! Como você não percebe o quanto isso é bizarro?
- Por que seria bizarro? Eu gosto de você, você gosta de mim... o fato de sermos irmãos é só uma confusão do destino, fazer o quê?!
- Confusão do destino! - agora ele parecia lívido. - E como assim, "você gosta de mim"?
- Saga...
- De onde você tira conclusões tão ridículas? Você acha que...
- Saga...
- ... Que só porque é um maluco e pensa que sente isso por seu próprio irmão e porque somos gêmeos...
- Saga...
- ... Eu sinto a mesma coisa? Isso é...
- Saga!
- O quê?!
- A comida tá queimando.
A comida não só estava queimando, como um fogaréu se erguera atrás de Saga, que ainda olhava para o irmão, sem associar as palavras. Foi quando finalmente se deu conta do cheiro que pairava em toda a cozinha e voltou-se para o fogão, tendo um trabalho para acabar com as chamas.
Quando tudo o que restou foi a fumaça e o cheiro de queimado que ainda pairava no ar, Saga voltou-se enfurecido para Kanon.
- Está vendo o que você fez? Agora se quiser ter um café da manhã é bom que você vá implorar a Saori, pois daqui você não terá nem uma migalha!
- Claro, maninho querido... você quem manda!
E com uma falta de vergonha que era típica dele, Kanon saiu num instante da cozinha e não apareceu até que passasse da hora do almoço.
oOo
O silêncio pairava no Terceiro Templo. Saga estranhou que Kanon não houvesse retornado ainda e que não o encontrara em lugar algum. Será que ele se ofendera tanto assim? Na verdade quem deveria estar realmente ofendido por aquela discussão era Saga e no entanto, lá estava ele se preocupando com a ausência do irmão.
Sentou-se no sofá e viu que o caderno de desenho do gêmeo ficara esquecido ali. Pegou-o e começou a folhear, reconhecendo nas datas marcadas no rodapé das folhas e no amarelado das páginas a relíquia daquilo. Encontrou em algumas páginas as tentativas frustradas de Kanon ao desenhar os Cavaleiros de Ouro. Poucos haviam ficado parecidos, mas ainda assim Saga conseguia ver quem Kanon tencionara desenhar. E ao virar mais algumas páginas deparou-se com o que deveria ser o próprio retrato. Ele só o soube quando viu que seu nome fora escrito logo acima do desenho. O garoto de cabelos médios e olhos donos de uma seriedade única não lembravam em nada a imagem de Saga quando jovem, entretanto, naquele mesmo olhar sério havia um brilho que era a única coisa que poderia se aproximar de sua figura. Aquele brilho muito lembrava o que sempre estivera no olhar de Kanon.
Pegou-se olhando o desenho mais recente, em que ele e o gêmeo se beijavam e repetiu mentalmente que aquilo era absurdo. Como Kanon podia sequer pensar em algo assim? E num instante rápido e insano, Saga também o fez. Imaginou como seria e se repreendeu no momento seguinte, largando o caderno no sofá e erguendo-se dali.
Ele e Kanon ainda não haviam tido a conversa planejada e já passava da hora de terem-na. E onde ele estava?
Foi para o quarto, pensando que era melhor aproveitar que estava sozinho para ver se havia alguma forma de acomodar o irmão melhor. Não era justo que ele usufruísse da magnifica cama enquanto Kanon dormia no minúsculo sofá.
Quando adentrou o aposento, que estava escuro, teve uma surpresa. Lá estava o outro cavaleiro, serenamente adormecido e enrolado no lençol de uma forma tão delicada e infantil que Saga não conteve um sorriso.
Era Kanon e aquilo era tão típico dele!
Após tantos anos, seria natural que eles não soubessem muito um sobre o outro. Quando jovens, haviam sido privados de uma convivência mais próxima e tudo o que podiam saber era o que confessavam um ao outro, através daquela parede. Além disso, haviam crescido e tanta coisa mudara. Mas Kanon estava ali adormecido, os cabelos azuis se espalhando e contrastando com o branco do lençol e do travesseiro e a despeito de suas formas e traços, ele poderia ser confundido com aquele garoto que fora há treze anos.
Por que Saga sentia uma sensação estranha que lhe fazia sentir as pernas fracas diante disso?
Tomando cuidado para não fazer barulho, saiu do quarto sorrateiramente. Quando o irmão acordasse, eles poderiam conversar. Não havia tanta pressa para isso. Não uma urgência que o fizesse tirar um anjo de seu sono.
oOo
Um bocejo longo cortou o silêncio e antes que Saga tivesse tempo de se voltar, sentiu braços serem jogados em torno de seu pescoço. Ergueu o olhar e lá estava Kanon atrás do sofá, com um sorriso de orelha a orelha, o cabelo despenteado e os olhos levemente inchados pelas horas de sono.
- Ora, aí está, bela adormecida!
- Hm... que horas são? - ainda com uma mão alcançando o peito do irmão, ele usou a outra para coçar o olho.
- Passa das seis. - respondeu Saga, fechando o jornal que estava em seu colo e afastando a mão boba do gêmeo que já começava a mover-se perigosamente em torno do mamilo direito dele, ainda que por cima da camisa.
- É... eu dormi mesmo. - quase na velocidade da luz, ele saltou para o sofá, sentando-se mais perto de Saga que o necessário. - Você está mais calmo, maninho?
- Não me chame de maninho.
- Por que não, maninho?
- Porque eu odeio a entonação que você dá a essa palavra.
- Puxa, quanto ódio no coração. - ele se inclinou sutilmente. - Como devo chamá-lo então? De "meu amado"?
Aquele sorriso descarado fazia Saga ferver de raiva e sentir vontade de rir a um só tempo. Exasperado, soltou um longo suspiro.
- De Saga. Me chame apenas de Saga, está bem?
Kanon pareceu considerar.
- Apenas Saga não soa bem, meu amado maninho.
O olhar divertido e provocante desta vez só causou raiva em Saga e ele se conteve para não bater em Kanon.
- Nós temos de conversar, Kanon. - disse finalmente, como se explicasse algo para uma criança.
O mais novo colocou os braços atrás da cabeça e recostou no sofá, de forma despojada. Cruzou as pernas e respirou ruidosamente, antes de perguntar:
- E sobre o quê?
Foi difícil para Saga conter a vontade que teve de matar o gêmeo.
- Primeiro: eu não tenho cara de empregada. E se você acha que eu tenho, está enganado. Por isso não espere que eu faça o seu café-da-manhã, lave sua roupa ou coisa do tipo.
- Nunca, nunca maninho, eu sei me virar! - sorriu.
Saga ignorou – ou ao menos tentou – o fato de que Kanon insistia em chamá-lo daquela forma.
- Segundo: como você sabe, por enquanto só há uma cama nessa casa. E nem no meu pior pesadelo eu irei dividi-la com você.
- E no seu sonho mais erótico?
- Portanto, - frisou a palavra, ignorando o comentário anterior. - podemos alternar até que a situação seja solucionada. Um dia eu durmo no sofá, no outro você e assim por diante.
- Para que se torturar nesse sofá se podemos compartilhar a cama? Eu prometo não fazer nada que você não queira. - disse sugestivamente.
- Terceiro: pare com essa história! O que aconteceu no passado ficou lá. Nós somos irmãos, agora temos plena consciência disso e o que achávamos que sentíamos era tolice e já acabou! Eu o perdoei por seus erros, espero que tenha perdoado os meus e encerra nisso. Podemos ser bons amigos novamente e é só.
Depois de um silêncio breve e todavia, incômodo, Kanon olhou diretamente nos olhos do irmão. Era quase como olhar no espelho.
- Saga, você não sente nenhuma vontade? Nem mesmo curiosidade? Tudo aquilo que desejamos fazer quando não sabíamos quem e o que nós éramos... você não quer mesmo tentar agora?
Ele parecia falar a sério e isso era absurdo! Como Kanon podia agir como se fosse natural? Era errado, anormal e bizarro! Não, Saga não queria tentar aquilo. Não tinha a menor vontade. Não sentia curiosidade. Não... não sentia. De verdade! Ele não... Deuses! Por que ele não conseguia se convencer daquilo? Ele não queria! Ou queria?
- Eu não... é óbvio que... não! - levou as mãos as têmporas, em desespero. - Por Zeus Kanon, por quê você não esquece isso? Para quê essas idéias loucas?
- Só... - mais uma aproximação sutil e perigosa. - um beijo, maninho. Vai ser suficiente para eu saber. Para nós sabermos.
Os lábios próximos o suficiente para roubar aquele beijo implorado. O hálito morno quase entorpecente. Os olhos, hipnotizantes demais. Saga não devia! Não queria saber como seria. Era... era profano!
Afastou-se quase quando já seria tarde demais. E com as faces afogueadas, levantou-se de um pulo do sofá.
- Esqueça! - exclamou, de costas para o gêmeo e a voz saiu com um leve tom trêmulo. - E você vai dormir no sofá de novo hoje!
Era como um castigo a uma criança desobediente. E a garantia da proteção que as quatro paredes do quarto e a fechadura trancada a cosmo lhe dava.
Kanon apenas sorriu.
oOo
