Capítulo III- Avareza
Pingos gelados de chuva caíam em sua pele como se facas potentemente afiadas estivessem sendo cravadas pouco a pouco em seu corpo. Ana-Lucia tiritava de frio, encolhida em seu projeto de barraca. Era tarde da noite, e os chuviscos anunciavam junto com o vento forte trazido pela maresia, uma tempestade que estava por vir.
Ana-Lucia observou o teto de lona da barraca, vários rasgos no plástico estavam provocando a infiltração. Poderia dar um jeito de consertá-los, mas não debaixo daquela tempestade que não tardava. Tentou ignorar os respingos, imaginando que não iria passar daquilo, se encolhendo ainda mais no interior da barraca, de modo que conseguisse aplacar um pouco do frio que sentia.
Entretanto, quando ela começou a se acostumar à situação, imaginando que as coisas não poderiam ficar ainda piores, o vento forte levou de vez a precária cobertura de sua barraca, deixando-a completamente desprotegida, à míngua.
- Oh shit! Shit!- ela bradou, tentando proteger suas coisas do aguaceiro que começava a desabar.
Algumas outras barracas também tiveram prejuízos, mas ao contrário de Ana-Lucia seus moradores pareciam estar mais preparados para a chegada da tempestade. Por isso mesmo, sequer prestaram atenção ao tormento dela, enquanto desesperadamente tentava reerguer o que havia sobrado de sua barraca. Decididamente, Ana-Lucia precisava de ajuda, olhou ao seu redor procurando alguém que pudesse lhe dar uma mão, seu amigo Eko ou quem sabe Jack, mas não viu nenhum dos dois no acampamento. Avistou Kate ao longe, reforçando a lona de sua barraca com pedras para que o vento não a levasse, mas esta, ao perceber que Ana-Lucia lhe observava limitou-se a dar-lhe um olhar de indiferença.
Bufando de ódio, a latina concentrou sua atenção na própria barraca, mas o estrago já estava feito. Charlie passou correndo com um enorme pedaço de lona em frente à sua barraca. Ana o chamou:
- Hey Charlie, será que você pode me ajudar um momento?- ela indagou, começando a ficar completamente ensopada com a chuva.
- Desculpa Ana, mas não é uma boa hora! Preciso reforçar a entrada da barraca da Claire ou o bebê vai se molhar.
E dizendo isso, ele afastou-se rapidamente. Ana-Lucia apertou os lábios, chateada, percebendo que não teria outro remédio a não ser consertar sua barraca sozinha a qualquer custo, não queria dormir ao relento no meio da chuva. Estava tão compenetrada em sua tarefa, que não percebeu que Sawyer a observava, divertido. Ficou vendo-a perder a cabeça, tentando fincar as estacas outra vez na areia e tentando improvisar um novo teto com o pedaço de lona que o vento não tinha levado, até que resolveu deixar o aconchego de sua barraca para ajudá-la. Caminhou até ela em meio à chuva, e disse debochado:
- Ô sem-teto, está precisando de ajuda?
Ela ergueu os olhos negros furiosos para ele, e respondeu, orgulhosa:
- Não preciso de ajuda nenhuma!
- Ah é?- ele retorquiu, sarcástico. – Está bem, mas vê se da próxima vez constrói uma casa de tijolos, vai ficar mais difícil para o lobo mau destruí-la com seu sopro. Boa sorte com sua barraca!- ele saiu caminhando bem devagar, murmurando para provocá-la: - Minha nossa! Esta noite está tão fria, tenho pena de quem for ficar nessa chuva, vai congelar até os ossos!
Ana-Lucia soltou uma respiração profunda, enxugando o rosto molhado pela chuva com as costas das mãos. O chamou de volta: - Sawyer!
Ele deu um sorriso cínico e voltou-se novamente para ela:
- Chamou, docinho?
- All right, eu preciso de ajuda, não quero passar o resto da noite na chuva.- ela admitiu. – Por favor, me ajude com a barraca!
- Certo, eu poderia fazer isso, o problema é que a sua barraca está em frangalhos, florzinha, não tem como conseguirmos arrumar isso antes que a tempestade desabe de vez.
Ana-Lucia franziu uma sobrancelha:
- E o que você sugere?
- Eu sugiro que você venha ficar comigo na minha barraca.
- Não sei se será uma boa idéia.- ela hesitou.
- E por quê? Por acaso está com medo que eu te jogue no chão, arranque as suas roupas, transe com você e depois roube a sua arma?
- Mas é claro que não!- ela respondeu, ríspida. – Até porque se você encostar um dedo em mim pode perder a esperança de propagar a espécie algum dia.
- Nossa, quanta agressividade!- disse Sawyer, dando de ombros, mais debochado ainda. – Fique tranqüila, Lulu! Sua castidade estar segura comigo!
Ela ia dar-lhe uma resposta, quando Sawyer a cortou:
- Deixa as respostas grosseiras pra depois, vamos logo, o vento está despenteando os meus belos cabelos loiros e eu não estou gostando de ficar ensopado!
Rapidamente, ela e Sawyer começaram a recolher suas coisas e os dois rumaram para a barraca dele. Chegando lá, Sawyer foi logo dizendo:
- Se vai morar comigo, ainda que provisoriamente, teremos que estabelecer três regras fundamentais.
- Por mim!- ela respondeu dando de ombros, empilhando suas coisas em um canto da barraca dele.
- Certo! Então para começar, nada de bagunça no meu apê, tipo roupas e outros objetos espalhados, pode não parecer meu bem, mas eu sou um cara organizado.
- Ok!- ela concordou.
- Regra número dois, a mais importante de todas, nunca, jamais mexa nas minhas coisas sem permissão!
- Já acabou?
- Mas é claro que não, eu disse que tinha três regras.
- E qual seria a terceira?
- Não desobedecer em hipótese alguma as outras duas regras, caso contrário irá haver punição.
- Punição?
- Exato, punição. Esse castigo consiste no meu direito de violar a sua regra!
- Como é?- ela indagou erguendo a sobrancelha, provocante. – Vai me "violentar" se eu desobedecer alguma de suas regras?
- Não!- ele respondeu. – Mas vou te dar umas boas palmadas para aprender a não me desobedecer.
Ana-Lucia caiu na risada, não acreditando em nenhum momento que ele fosse capaz disso, Sawyer no entanto ficou sério, e falou:
- Tire a roupa!
- O quê?- Ana questionou.
- Tire essa roupa ou vai ficar doente, e eu não estou afim de ir buscar o doc no meio da tempestade se algo acontecer com você!- Sawyer respondeu, tirando a camisa.
Ana levou as mãos à camiseta branca, erguendo-a até o umbigo, Sawyer tinha razão, se continuasse com as roupas encharcadas poderia pegar uma pneumonia. Sawyer tinha seus olhos fixos nela, o que lhe causou certo embaraço. Por isso, ela não hesitou em dizer:
- Vire-se!
- Deveria?- ele perguntou, maroto. – Até parece que eu nunca vi esse seu corpinho delicioso.
- Não importa!- ela bradou. – Vire-se, Sawyer!
- All right!- ele concordou um tanto frustrado, virando de costas para ela.
Ana-Lucia se despiu rapidamente, procurando uma roupa seca em suas coisas. Estava de costas, só de calcinha, revirando sua mochila, quando Sawyer perguntou:
- Já posso virar?
- Não!
Mesmo com a negativa dela, Sawyer se arriscou a dar uma olhadinha e ele sentiu o sangue indo parar em uma parte perigosa de sua anatomia ao vislumbrar as curvas nuas dela. Pigarreou, tentando quebrar a tensão, ao mesmo tempo em que voltava seus olhos novamente para a frente:
- Quer café? Eu o fiz um pouco antes da chuva, ainda está morno.
- Aham!- ela respondeu, finalmente encontrando algo seco para vestir. Não ficou muito feliz porque a única peça seca se tratava de uma camisola de algodão azul, fina que desenhava-lhe os contornos do corpo curvilíneo. Imaginou que teria problemas em dormir usando apenas aquela camisola.
- E agora, já posso virar?- Sawyer voltou a perguntar, segurando uma caneca cheia de café nas mãos.
- Pode, já estou vestida.- ela respondeu, incerta se a palavra "vestida" seria o termo mais adequado.
Sawyer quase deixou cair a caneca de café ao vê-la vestida daquele jeito. Seus olhos foram direto para a visão dos seios arrepiados de frio, marcando o tecido fino da camisola.
- Nossa!- ele murmurou sem conseguir se conter.
Embaraçada, Ana-Lucia soltou os cabelos negros úmidos do rabo de cavalo que usava, e falou ríspida:
- Hey, nada de gracinhas!
Sawyer nada disse, entregou a caneca de café a ela e pôs-se a tirar as calças.
- O que está fazendo?- ela perguntou temerosa, vendo que ele se despia.
- Estou tirando a roupa para dormir! Por que, isso faz alguma diferença para você?
- Diferença nenhuma!- ela respondeu, pousando a caneca de café em uma mesinha de madeira improvisada. – Como vamos dormir?
- Na cama!- Sawyer falou deitando-se só de cueca em algumas almofadas empilhadas no chão com um cobertor, formando uma cama relativamente confortável.
- Juntos?
- Mas é claro, Analulu ou está achando que vou te ceder a minha cama e dormir no chão?
- Eu durmo no chão!- ela disse.
Sawyer balançou a cabeça negativamente, e respondeu:
- Por Deus, mulher! Não vou encostar um dedo em você, anda vem logo pra cá e aproveita que estou disposto a dividir o cobertor com você, está muito frio para dormir no chão.
Temerosa, Ana-Lucia deitou-se ao lado dele na cama. Sawyer puxou o cobertor por cima deles, cobrindo-os. Ana-Lucia ficou afastada o máximo que pôde do corpo dele e por causa disso puxava o cobertor para si, descobrindo-o. Irritado, Sawyer puxou o cobertor de volta, deixando-a descoberta. Ficaram nessa coisa de toma lá, dá cá por alguns segundos, até que Sawyer pegou uma tesoura nas suas coisas e cortou o lençol ao meio, virando para o outro lado. Aana-Lucia puxou a sua parte do cobertor e virou-se também. Um de costas para o outro, perderam-se em seus próprios pensamentos.
O corpo quente de Sawyer tão próximo ao seu estava deixando Ana-Lucia em parafuso. Era incrível como se sentia quando estava perto dele, jamais pensou que um dia se sentiria assim por Sawyer. Borboletas dançavam em seu estômago, refletindo a ansiedade que ela sentia em ser tocada por ele outra vez, mas jamais admitiria isso. Quando Sawyer a chamou para ficar com ele em sua barraca, tudo o que pensou foi em como iria reagir à presença constante dele. Até aquele momento estava conseguindo manter a frieza, mas por quanto tempo? Fechou os olhos pensando nisso e acabou adormecendo.
Sawyer, ao contrário dela, não conseguiu pregar os olhos. Era muito estranho ter a companhia de uma mulher ao seu lado na cama depois de tanto tempo sozinho. Era verdade que tinham dividido a cama da escotilha por uma noite, mas de certo não havia sido a mesma coisa. Naquela vez, Ana estava debilitada e Sawyer muito preocupado com sua recuperação. Mas agora, a situação era completamente diferente, na opinião dele, Ana esbanjava saúde, e ficava difícil fechar os olhos para isso. Sawyer a desejava muito, depois de desfrutar do corpo dela na selva, ele ficou ansiando por mais, queria amá-la com calma, explorar seu corpo pouco a pouco, levá-la ao limite, ouvi-la novamente gemer o nome dele, e fechar os olhos de prazer como havia feito na floresta.
Estava ficando muito excitado, e isso não era bom, se continuasse desse jeito iria agarrá-la nos próximos minutos. Fechou os olhos tentando desanuviar os pensamentos impuros que teimosamente lhe vinham à cabeça, chegou até a contar carneirinhos, mas parou quando um dos carneirinhos se transformou em Ana-Lucia vestida de lingerie branca, lançando olhares maliciosos para ele. Os pensamentos vinham sem controle, e a presença dela ao seu lado não estava ajudando em nada, só piorava as coisas. A certa altura, ele quase perdeu a compostura quando num gesto espontâneo, ela esparramou seu corpo na cama, enroscando suas pernas nas dele. Sawyer tentou retomar o controle e se desencaixar dela, mas não deu certo, adormecida, Ana-Lucia se moveu sobre o corpo dele causando-lhe espasmos por todo o corpo.
Receosa, sua mão direita acariciou os cabelos dela, e Sawyer aspirou o perfume natural deles, deixando envolver o rosto em uma mecha. A outra mão foi parar nos quadris dela, tocou-a muito levemente, pois temia que ela acordasse e quebrasse o momento. Ana-Lucia moveu-se outra vez, trocando de posição, durante o movimento, um de seus seios escapou da camisola, ficando à mostra.
- Linda!- Sawyer murmurou acariciando o seio dela levemente, apertando o bico.
Ana-Lucia soltou um gemido baixo ante o contato da palma da mão quente dele em seu seio, inconscientemente instigando Sawyer a apertá-lo mais. Foi ao sentir os toques mais duros, que despertou, os olhos arregalados para ele, confusa:
- O que está fazendo?- indagou arrumando a alça da camisola no lugar, o corpo formigando por causa das carícias de Sawyer.
- Eu...você...não...- Sawyer não soube o que responder estava muito embaraçado com a situação.
Levantou-se da cama e vestiu as calças rapidamente.
- Aonde você vai, Sawyer?- Ana perguntou, não estava zangada com ele, apenas surpresa.
- Eu preciso dar uma volta!- ele limitou-se a dizer.
- Mas está chovendo!
- Por isso mesmo, preciso de um banho frio!
Ele deixou a barraca e Ana-Lucia jogou-se na cama, muito agitada. Mordeu os lábios, queria ter tido coragem suficiente para pedir-lhe que ficasse e fizesse amor com ela até cansar.
- Sawyer...- murmurou, fechando os olhos outra vez, tentando voltar a dormir.
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A tempestade que caíra durante a noite, deixara o clima da manhã com um friozinho agradável, o que convidou a maior parte dos sobreviventes a permanecerem em suas barracas, envolvidos no aconchego dos cobertores. No entanto, uma manhã friorenta para Kate tinha outro efeito. Ela não sentia vontade de ficar em sua barraca dormindo, mas sim de caminhar pela beira da praia sentindo a brisa leve emaranhando seus cabelos soltos e lançando arrepios por todo seu corpo.
Estava sentada, afundando os pés na areia molhada aconchegante quando foi abordada por Jack que acabara de chegar à praia vindo da escotilha.
- Pelo jeito as pessoas hoje amanheceram com preguiça!- ele comentou, vendo que a maioria ainda dormia.
- Todo mundo menos eu!- ela disse, sorrindo, enquanto enterrava os pés ainda mais na areia.
- Afundando outra vez?- ele perguntou, divertido, sabia o quanto ela gostava de fazer aquilo, porque lembrava a infância ao lado da mãe.
- Hum, você sabe que eu gosto.- ela respondeu, doce. – Você quando pequeno não tinha também alguma brincadeira de que gostasse muito com sua mãe?
Jack sorriu:
- Eu poderia fazer uma lista! Mas a melhor de todas, sem dúvida, era fazer cócegas!
Kate voltou os olhos verdes para ele e viu uma expressão maldosa em seu rosto.
- Não Jack, não...- ela preparou-se para correr, sabia o que ele ia fazer.
Jack largou a mochila no chão, não resistiu a oportunidade de brincar com ela e saiu correndo em seu encalço. Kate tinha muito pique para correr, assim como ele, e sabia que a brincadeira duraria muito tempo se um dos dois não desistisse, por isso deixou-se ser pega. Jack caiu com ela no chão e começou a fazer-lhe cócegas nas dobrinhas dos braços e na barriga, Kate ria muito tentando se desvencilhar das mãos dele.
- Ai chega, Jack! Não agüento mais!- ela tinha lágrimas nos olhos de tanto rir.
Ele parou de fazer cócegas nela e limitou-se a ficar sentado olhando para o horizonte. Kate disse:
- Tem uma coisa que eu queria fazer hoje.
- O quê?- indagou Jack.
- Colher morangos perto daquela gruta que fica depois da cachoeira. Amanheci com desejo de comê-los.
- Tem morangos lá?
- Aham! Quer vir comigo?- Kate perguntou, ansiosa por uma resposta positiva.
- Eu adoraria, mas prometi ao Locke e ao Sayd que iria ajudá-los com umas armadilhas para conseguirmos carne, você sabe comida enlatada da escotilha enjoa.
- Eu sei, por isso quero ir até a floresta pegar morangos, comer algo diferente pra variar.
- Se continuar com esses desejos, daqui a pouco vai me convidar para atravessar o mar e ir até o Macdonald's mais próximo comprar um cheeseburger.
- E por que não Jack?.- ela respondeu, marota.- Que importa o que vamos fazer? Desde que estejamos juntos.
Jack ficou surpreso com as palavras dela, ficou alguns segundos formulando uma resposta, porém quando ia dizer Sawyer apareceu, sem camisa, sujo de areia e com cara de sono. Kate começou a rir ao vê-lo daquele jeito.
- O que foi que aconteceu, Sawyer? A tempestade acabou com você ontem?
- Antes fosse a tempestade.- Sawyer respondeu. – Foi a Ana-Lucia.
O sorriso de Kate se desvaneceu ao ouvir aquilo. Jack fez uma expressão de dúvida: - A Ana-Lucia? Como?
- Aquela tempestade de ontem destruiu a barraca dela, achei de dar uma de bom samaritano outra vez e a convidei para ficar na minha barraca, mas vocês sabem como ela é, impossível ficarmos no mesmo recinto sem brigar, por isso acabei trocando a barraca pela areia da praia.- disse Sawyer, omitindo o real motivo pelo qual não passou a noite inteira em sua barraca.
- Então vocês não dormiram juntos? Quero dizer, na barraca?
- Que pergunta é essa sardenta? Eu não acabei de dizer...
Jack ficou chateado, vendo que outra vez Kate se preocupava com um possível relacionamento entre Sawyer e Ana-Lucia. Resolveu ir cuidar de seus afazeres.
- Jack, aonde você vai?- perguntou Kate quando o viu se afastar.
- Eu tenho algumas coisas pra fazer e como te disse ainda vou ajudar o Locke e o Sayd com as armadilhas, então vou indo! Convide o Sawyer para pegar morangos com você!
- Pegar morangos?- questionou Sawyer sem entender.
- È, eu o convidei para ir comigo pegar morangos atrás da gruta, depois da cachoeira, mas ele como sempre está muito ocupado. Você quer ir?
- Ah, eu adoraria ficar colher morangos e até o chantilly com você, sardenta, mas estou exausto, a Lulu vai acordar e eu vou aproveitar para dormir.
- Ela vai ficar na sua barraca muito tempo?
- Eu não sei. Por que?
- Por nada.- disfarçou Kate, ultimamente vinha sentindo muitos ciúmes de Sawyer, e para falar a verdade, de Jack também, sentia ciúmes dos dois e não gostava de ver Ana conversando com nenhum deles, a tinha como uma ameaça no acampamento, decididamente não "engolia" a policial.
Resolveu insistir para que Sawyer fosse com ela, não o queria perto de Ana-Lucia.
- Vamos Sawyer, por favor! Vai ser divertido!
- Sardenta, eu não estou com vontade.- ele retorquiu.
- Em outros tempos você imploraria para me acompanhar no que quer que fosse.- ela reiterou, esperando que suas palavras o convencessem.
- Está bem, sardenta! Eu vou com você! Espere só um pouco enquanto eu visto uma camisa.
- Eu vou preparar uma mochila com água e frutas pra gente levar.- disse Kate, contente, correndo para a despensa da praia.
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Sawyer entrou sem fazer barulho na barraca, imaginando que Ana-Lucia ainda estivesse dormindo, porém encontrou-a de pé, totalmente vestida, amarrando os cabelos.
- Acordada tão cedo?
- Eu vou correr um pouco.- ela respondeu sem olhar para ele.
Se agachou e pegou a mochila com seus pertences, depois de correr pretendia tentar armar sua barraca outra vez.
- Pra onde você está levando isso?- ele perguntou vendo-a pegar a mochila.
- Sawyer, obrigada por ter me cedido sua barraca ontem, mas vou dar um jeito na minha...
- Hey, por que essa pressa toda? Nada disso, não se estresse com a sua barraca, deixa pra lá por enquanto, pode ficar aqui o tempo que quiser.
- Mas Sawyer...
- Eu estou falando sério, pode ficar. O que aconteceu ontem...-ele hesitou vendo qual seria a reação dela ao ouvi-lo tocar nesse assunto, mas Ana-Lucia nada disse, por isso ele continuou: - O que aconteceu ontem, não vai acontecer mais, me desculpe.
- Então está bem!- assentiu Ana-Lucia largando sua mochila no chão. – Eu vou correr!
Antes que ela saísse da barraca, ele advertiu:
- Mas as regras continuam valendo!
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- Se com essa armadilha não conseguirmos pegar um porco pro jantar, eu não me chamo mais John Locke.
Sayd sorriu ao comentário de Locke, adorava estar envolvido nesse tipo de coisa, ajudava a manter sua cabeça no lugar, e não ficar pensando o tempo todo em Shannon. Jack também gostava de participar dessas coisas, mas em seu íntimo estava arrependido de não ter ido com Kate para a floresta colher morangos e ainda por cima disse a ela que chamasse Sawyer para acompanhá-la. Às vezes se sentia um estúpido, gostava de Kate e não entendia porque não dizia isso a ela, talvez porque não tivesse certeza de seus sentimentos. Kate era muito arredia e ele tinha medo de que se esse contasse a ela como se sentia, provavelmente fugiria dele. Esteve perto de revelar seus sentimentos a ela na noite em que foram sozinhos para a floresta, porém a chegada repentina de Michael acabou estragando o momento e eles nunca mais tocaram no assunto.
- Pronto, agora é só esperar!- disse Locke.
- Pra mim, essa é a parte mais chata!- falou Jack. – E já que terminamos as armadilhas, eu vou voltar pra praia.
Locke e Sayd concordaram. Os dois ficariam de vigia para ver se a armadilha tinha dado certo. Jack estava ansioso para voltar para a praia, a fim de saber se Kate já tinha voltado da floresta com Sawyer. Como não queria sair perguntando para todo mundo se a tinham visto e dar bandeira, aproveitou que Ana-Lucia estava sentada em frente à barraca de Sawyer brincando com Vincent e como quem não queria nada, disse a ela:
- E o Sawyer?
- Eu não sei, não o vejo desde de manhã.- ela respondeu.
- A sua barraca foi bastante prejudicada pela chuva de ontem.- comentou Jack, tirando a mochila das costas e sentando-se ao lado dela.
- Bastante!- disse Ana, com um sorriso triste. – Agora eu tenho que morar de favor com o cowboy por uns tempos.
- Acredito que será uma experiência interessante.- gracejou Jack.
- Ah sim, muito!- disse Ana-Lucia, rindo. – A primeira noite já foi bastante confusa.
- Por que?- perguntou Jack, sem entender.
- Deixa pra lá!- ela disse, sem dar maiores explicações.
Jack, porém, não se deu por vencido, estava curioso a respeito do que acontecia entre Sawyer e Ana-Lucia, principalmente porque Kate fazia questão de tocar nesse assunto sempre que podia. Por isso, perguntou a Ana-Lucia exatamente como ela havia feito com ele, questionando-o sobre Kate, há algumas semanas atrás.
- Então me diz, o que acontece entre você e o Sawyer?
Ana-Lucia quase engasgou com a manga que estava comendo. Detestava falar de seus sentimentos, principalmente os que tinham a ver com Sawyer, os quais nem ela ainda tinha conseguido entender.
- Não acontece nada!- respondeu dando de ombros, tentando enrolar Jack com essa resposta.
- Não acontece nada? Ora vamos Ana, praia legal, você é bonita, ele é um cara bem apanhado, ilha deserta, as coisas funcionam assim não é?
Ana-Lucia riu, mas não respondeu nada. Nesse momento, Sawyer retornava à praia com Kate, os dois riam muito, estavam sujos e carregavam cestos cheios de morangos. Algumas pessoas correram até eles, empolgados, querendo um pouco da fruta. Sawyer cuidadosamente tinha guardado alguns na mochila para dar à Ana. Ao vê-la conversando animadamente com Jack, ficou aborrecido e se dirigiu imediatamente para lá. Kat também não gostou de ver o médico conversando com Ana-Lucia, por isso acompanhou Sawyer.
- O que é tão engraçado?- Sawyer perguntou, ríspido o que surpreendeu Jack e Ana-Lucia.
- Por que todo esse mau humor, Sawyer. Eu vi que você e a Kate colheram muitos morangos, devem ter passado o dia inteiro fazendo isso.- alfinetou Jack.
- Eu trouxe alguns pra você, Jack!- disse Kate, lançando-lhe olhares de ódio para Ana-Lucia que a ignorou.
- Então você passou o dia inteiro colhendo morangos com a "sardenta"?- Ana-Lucia debochou.
Sawyer deu as costas pra ela e adentrou sua barraca, estava morto de ciúmes.
- Credo, o que deu nele?- indagou Paulo que vinha chegando com Nikki e Hurley.
Jack e Ana-Lucia deram de ombros. Kate sentou-se ao lado de Jack. Paulo sugeriu, estava com um baralho nas mãos.
- Vamos jogar?
Todos concordaram, e começaram uma animada partida de pôquer. Kate fazia questão de ganhar de Ana-Lucia, não queria perder para ela em nada. Estavam tão entretidos com o jogo de cartas, que se assustaram ao ouvir Sawyer esbravejar de dentro de sua barraca:
- Ana-Lucia, venha aqui agora mesmo!
O grupo voltou sua atenção para ela, Ana-Lucia fez cara de quem não sabia de nada e levantou-se da roda, muito irritada. Quem Sawyer achava que era para gritar com ela daquele jeito? Entrou na barraca decidida a dizer umas verdades para ele quando se surpreendeu ao senti-lo agarrá-la com tudo.
- O que está fazendo?- esperneou.
Mas Sawyer a segurou com toda a força e caiu com ela na cama, posicionando-a sobre seus joelhos e em seguida, por mais absurdo que parecesse, encheu-lhe o traseiro de palmadas. Ana-Lucia gritou:
- Ai! Você enlouqueceu?
- Está tudo bem Ana?- perguntou Jack do lado de fora depois de escutar o grito dela.
- Está Jack!- Ana respondeu, não queria que ninguém soubesse o que estava acontecendo dentro da barraca.
Sawyer deu mais uma palmada no traseiro dela. Não a estava machucando de fato, mas Ana-Lucia ficou irada com o abuso dele.
- Posso saber por que está fazendo isso?
- Você desobedeceu a uma das regras.
- E qual foi?
- A de que não podia mexer nas minhas coisas sem permissão, pensei ter sido claro em relação a isso!
- No que eu mexi, Sawyer?- ela questionou perdendo a paciência.
- Você mexeu nos meus livros,eles estão bagunçados!
Ana-Lucia o empurrou, livrando-se dele antes que ele resolvesse dar mais palmadas no seu traseiro.
- Eu mexi sim, pensei que não fosse se importar, são só livros, eu queria passar o tempo. Você sumiu o dia inteiro, ficou perambulando pela floresta com a Kate!- ela estava desabafando naquele momento o que sentira durante o dia inteiro longe dele, sem saber aonde tinha ido.
- Não mude de assunto! Você não deveria ter quebrado as regras!
- Òtimo, eu quebrei as regras, o que pretende fazer agora? Já me deu as palmadas!
Sawyer respirou fundo,estava muito tenso.
- Vai me expulsar da barraca só porque é um avarento e não sabe dividir nada com ninguém?
- Não, eu não vou te expulsar! Vou apenas quebrar a sua regra!- ele disse, ríspido, agarrando-a pela cintura.
- Me solta, Sawyer!- Ana-Lucia disse, batendo no peito dele.
- Ana, eu vou entrar!- disse Jack do lado de fora.
- Vai procurar o que fazer doc!- esbravejou Sawyer.
- Eu estou bem, Jack!- gritou Ana.
Ela voltou seus olhos para Sawyer e antes que pudesse dizer qualquer coisa sentiu os lábios dele esmagados contra os seus. Sawyer a apertava com toda força enquanto a beijava selvagemente, sem deixá-a respirar, parou somente para dizer:
- Você violou as minhas regras, eu violo as suas. Só deixo você depois que eu te possuir de novo, bem fundo...
Ana-Lucia gemeu às palavras lascivas dele, mas não ia se entregar assim, estavam todos lá fora tentando entender o que estava acontecendo.
-Se você quer me ter de novo, cowboy, vai ter que merecer! Porque agora, eu não vou te dar nada!- ela sussurrou no ouvido dele antes de empurrá-lo com toda força de cima delae sair da barraca quase correndo.
Sawyer disse consigo, respirando com dificuldade, tentando retomar o controle:
- Avarenta!
Continua...
