Capítulo 4
— Severus, é você?
— Sim, mãe, eu cheguei.
— Não vai sair hoje com sua amiga?
— Não, acho que está ocupada.
— Você poderia trazê-la para cá uma noite dessas. Gostaria de conhecê-la.
Severus suspirou:
— Você já a conhece.
Eileen o encarou, as feições enigmáticas.
— A menina Evans? Ainda, Severus? Depois de todo esse tempo?
— Sempre, mãe.
— Veja bem: eu não estou me metendo. Eu só tinha a impressão de que você estava saindo com uma outra moça, não a mesma mulher.
Severus preferiu não responder. Eileen completou:
— Não vejo motivo para desfazer o convite. Agora que nos mudamos daquele lugar horrível, podemos receber convidados. Traga-a para jantar, se ela quiser vir sem o marido, é claro.
— É claro. Vou passar o convite. Haverá algum problema se o filho dela comparecer? Harry tem 1 ano e cinco meses.
Eileen fez uma falsa careta de surpresa.
— O Menino-Que-Sobreviveu em pessoa na minha casa? Será que meu coração vai aguentar?
Severus tentou disfarçar o riso. Não por causa da ironia da mãe, mas por esse lado astuto dela. Desde a morte de Tobias, Eileen tinha se mostrado mais sarcástica e arguta a cada dia. Severus suspeitava que sua mãe sempre fora assim, mas esse lado ficara sufocado durante os anos de tristeza e opressão sob o reinado de terror que era o seu casamento.
— Severus, por favor: lembre-se do que eu lhe disse. Ela pode se arrepender e querer voltar para o marido. E eu odeio pensar o que isso faria a você.
— Não se preocupe, mãe. Eu sei o que estou fazendo.
E ele sabia que seu coração estava em paz com isso. Eileen sorriu e beijou seu rosto.
— Feliz Natal, filho.
— Feliz Natal, mãe.
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Lily tinha uma forte intuição de que ela deveria pressionar James a tomar mais cuidado, pois a ameaça continuava. O cativeiro de onde ele fora resgatado estava vazio, e ele tinha ficado encapuzado. Não era capaz de identificar seus agressores. E ele tinha sido muito agredido.
Por isso, contra seus instintos, Lily não pressionou o marido. Afinal, eram os feriados. Os Weasley organizaram um almoço e quase toda a Ordem da Fênix estava lá. A ausência de Frank e Alice foi muito sentida, mas ela pôde rever seu grande amigo Remus Lupin. Ele se reuniu a Sirius e James. Ninguém mencionou Pettigrew.
Embora a reunião tivesse sido agradável, Lily não achou nada agradável as discussões nos dias seguintes. As brigas com James eram constantes, sempre pelos mesmos motivos: bebedeiras constantes, ausência contumaz, abandono dela e de Harry. Ele reclamava que passara por uma experiência traumática e precisava espairecer com Sirius.
As brigas não passavam de discussões acaloradas até James mencionar Severus. Lily ficou indignada:
— O que tem Severus a ver com o que estamos falando?
Ele fez troça:
— Severus tem tudo a ver com isso tudo. Severus é seu amigo, não é? Eu sei que você se encontra com Severus nas minhas costas. E ainda arrasta Harry!
— Você não tem direito de escolher meus amigos!
— Eu tenho direito de decidir com quem meu filho anda! E eu não quero Harry se metendo com aquele Snivellus!
— Pelo amor de Merlin, James! Pare com essa rixa de meninice! Ao contrário de suas previsões, Severus não virou seguidor do Lorde das Trevas!
— Pois ainda acho que esse seu Severus é um dissimulado!
Harry, que estava brincando no quarto, entrou correndo:
— Sev'rus! Sev'rus!
James gritou:
— Está vendo? Ele já até aprendeu o nome do novo papai!
— Pare de falar bobagens! Severus sempre respeitou meu casamento! Você é que nunca se interessou em investir no nosso relacionamento!
Ao sentir a tensão na sala, Harry começou a chorar. James gritou:
— Cala essa boca, menino!
— Não grita com ele!
Tudo aconteceu muito rápido. Antes que Lily pudesse evitar, James ergueu a mão e deu um tapa tão forte no menino que o desequilibrou. A criança caiu no chão.
Aquilo foi a gota d'água.
Lily correu a pegar Harry em seus braços gritando:
— Seu covarde! No meu filho você não encosta a mão! Se quiser bater em alguém, bata em mim, mas não bata nele!
— Ah, você quer apanhar? Então toma!
PAF!
O tabefe doeu mais na alma do que no rosto, notou Lily. Num reflexo, ela puxou a varinha e lançou:
— Petrificus totalus!
Harry ainda chorava quando James caiu no chão, petrificado. Lily não perdeu tempo: usou a varinha.
— Empacotar!
Com as malas prontas e logo encolhidas, Lily chegou perto de James e procurou manter a voz calma para não assustar Harry ao dizer:
— Não sei se vou querer ver você de novo, James. Não nos procure.
Sem olhar para trás, ela segurou Harry com firmeza e Aparatou com a intenção de nunca mais voltar.
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— Desculpe, desculpe... — Lily não parecia ser capaz de parar de chorar. — Mas... Eu jamais pensei que ele fosse capaz...
Molly Weasley passou uma xícara a ela, dizendo:
— Você não tem do que se desculpar. O que James fez foi imperdoável.
— Mas você tem cinco crianças em casa, uma delas de só alguns meses, e eu venho lhe trazer meus problemas...
— Bobagem. Você e Harry são muito bem-vindos. Bill e Charlie já voltaram para Hogwarts, e vocês podem ficar no quarto deles.
— Não sei como agradecer.
— Pare de pensar nisso. Vou consultar Dumbledore sobre um lugar seguro para vocês. Um onde James não os encontre.
— Não basta os seguidores do Lorde das Trevas nos perseguirem. Agora preciso me proteger contra meu próprio marido.
— Que barbaridade!
— E é bom mandar alguém ver James. Eu o deixei petrificado.
— Vou mencionar isso a Dumbledore... Mas só bem mais tarde. Deixe que ele sofra um pouco.
— Foi tudo tão rápido. E Harry ficou tão assustado...
— Mas ele agora está ótimo. Veja como ele brinca com Roniquinho. Os pequenininhos se recuperam muito rapidamente, que Merlin os abençoe. Olhe, por que não descansa um pouco? Eu coloquei uma poção calmante bem fraca no chá. Não se preocupe.
— Merlin, ainda estou tremendo. Molly, o que eu vou fazer?
— No momento, minha querida, eu sugiro que você esqueça isso. Se quiser, pode me ajudar com o jantar. Ou com os gêmeos. Percy se cuida praticamente sozinho.
Lily teve que enxugar as lágrimas e sorrir, mesmo com todo o peso que carregava. Ela seguiu Molly, que levou a filharada para junto dela, na cozinha, a fim de preparar o jantar.
Para Lily, nada poderia ser mais terapêutico do que a noite passada na Toca, com os Weasley. Harry também se divertiu muito com a garotada de cabelo vermelho, até os mais velhos que ele. Claro que ela não dormiu direito à noite - se é que dormiu, com as lembranças das agressões e abusos de James. Harry também acordou com pesadelos. O pobrezinho ainda tinha trauma do ataque de Você-Sabe-Quem e agora o próprio pai causava tramas, pensou Lily, desgostosa.
Quando ela desceu para preparar o leitinho quente matutino de Harry, Molly já estava de pé, fazendo a mamadeira da pequena Ginny. Ao lado dela, Arthur, de roupão, e, ao lado dele, Dumbledore, em trajes de um tom roxo muito vivo, combinando com o chapéu de pompom. Harry riu para Dumbledore.
— Bom dia, professor — cumprimentou Lily. — Desculpe tê-lo feito acordar tão cedo.
— Bom dia, Lily. Espero que tenha descansado bem. E eu já estava de pé mesmo, então não foi trabalho nenhum. Mas acho que precisamos conversar, minha criança.
— Sim, claro. Deixe eu cuidar de Harry e então conversaremos.
Molly se ofereceu.
— Posso dar a mamadeira de Harry também, e Arthur cuida de Ginny. Aí vocês poderão conversar.
Lily sentou-se na sala dos Weasley e jamais imaginou que fosse capaz de desabafar com seu velho diretor. Dumbledore informou que, em caráter de emergência, ela e Harry podiam ficar em Hogwarts. Ele também disse que James se arrependeu do que fez e gostaria de pedir desculpas. Tudo que Lily podia dizer era que não podia falar com ele por enquanto.
Naquele mesmo dia, ela e Harry se instalaram em Hogwarts. Lily ainda não sabia o que fazer dali para frente. Ainda magoada com o marido, ela gostou da chance de brincar na neve com Harry. Com tanta segurança, os dois mal podiam curtir brincar do lado de fora. Lily também estava de olho no comportamento de Harry. Apesar das mudanças constantes, o menino parecia feliz, ainda que um pouco grudado à mãe. E o pequeno certamente não se incomodava com a quantidade de novos babás que de repente eram voluntários para tomar conta dele.
Lily é que não estava nada feliz. Ela pedira a Dumbledore que não deixasse James vê-la por enquanto, ao menos até que ela se acalmasse. Dumbledore insinuara que outras pessoas gostariam de vê-la, como Severus, por exemplo — ele até já mandara uma coruja para ele. Mas Lily não podia ver Severus naquele momento. Não enquanto aquela situação com James estivesse sem resolução. Ela tinha uma decisão a tomar. Lily não era pessoa de fugir de decisões difíceis, mas seu coração estava muito dolorido. Ela amava James, mas sabia que não conseguiria viver com alguém capaz de perder a cabeça ou incapaz de controlar o quanto bebia.
Sirius tentou falar com Lily, mas ela não o recebeu também. Afinal, Sirius era praticamente cúmplice das bebedeiras de James. Se houvesse algum tipo de disputa entre Sirius e Lily, James sempre tomava o partido de Sirius. Agora ele estava tentando dar uma de intermediário, quando na verdade ele era parte do problema.
E parte do problema era também o fato de que Lily sentia o seu casamento por um fio. Merlin sabia o quanto ela amava James. Nunca houvera mais ninguém para ela, ninguém em quem ela pensasse, em quem ela visse como um amante. Até Severus voltar para sua vida.
Lily não podia se enganar: o gesto dele, respeitando seu casamento num momento em que ela poderia confundir coisas, servira apenas para aumentar o respeito e admiração dela. Como ela não vira antes que Severus era um homem tão bom? Harry também gostava dele, e Lily sabia que seu filho era um ótimo juiz de caráter.
Ao andar por Hogwarts, levando Harry pela mão, Lily se pegava voltando às memórias de seu tempo de menina, quando Severus e ela eram amigos quase inseparáveis. Até aquele dia horrível no quinto ano. A mágoa que ela tivera de Severus naquela ocasião era grande. Lily podia ser compreensiva, mas ela podia ter um gênio forte quando queria. Por isso ela se afastara de Severus. Estranhamente ou não, foi quando James entrou em sua vida.
Ela não tinha certeza, mas gostava de imaginar que talvez tivesse tido influência na reviravolta que a vida de Sev tinha tomado a partir daquele episódio. Ele se afastara dos colegas, até sofrera discriminação dentro de sua própria casa. Ela soubera disso tudo, mas não conseguira perdoar Severus até depois de deixar Hogwarts.
Não deixava de ser irônico que Severus voltara às boas graças com Lily quando James mais uma vez caíra em desgraça. Não era uma inversão de valores. Era um retorno ao começo, quando eles tinham 11 anos e entraram em Hogwarts, e James Potter era apenas um babaca arrogante enquanto Severus era um amigo querido e próximo. Afinal, eles se conheciam desde os oito ou nove anos.
Mas seria isso suficiente para ela dar uma reviravolta na própria vida? E quanto a Harry? O menino tinha direito a crescer ao lado do pai. Era inegável que Harry era louco por James e vice-versa. Ainda que eles se separassem, não seria justo deixar o menino longe do pai. A logística de uma separação parecia ser uma coisa tão distante, quase uma fantasia.
Mas havia um desejo muito grande de ficar longe daquele homem que usara violência contra ela e seu filho. Lily faria qualquer coisa para proteger Harry, até morrer por ele. Mas não morrer assim, abatida por um homem covarde. Não, ficaria viva justamente para proteger Harry do próprio pai, se fosse preciso.
E nada disso necessariamente tinha algo a ver com Severus. Mas Lily se sentia um pouco impelida a pensar em Severus nessa equação. E por quê? Estaria ela tentada a aprofundar seus sentimentos por Severus? Ela não queria tomar nenhuma decisão, não queria levar nada adiante antes de resolver a situação com James.
Por isso ela simplesmente pegou Harry, agasalhou-o o máximo que pôde e deixou Hogwarts. Foi para Budleigh Babberton, ter uma conversa definitiva com o marido.
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Ao voltar ao sobrado, com Harry firmemente alojado em sua cintura, Lily pensou que não tivera quase tempo de aproveitar a nova casa. Infelizmente, a casa não tinha lembranças felizes. Era provável que, se ela se acertasse com James, pedisse para mudar-se daquele local — a terceira mudança em pouco tempo.
A casa estava quieta, mesmo que ela não tivesse feito muito barulho ao entrar. Na verdade, a casa estava em silêncio total, mais do que simplesmente vazia. Lily franziu o cenho.
James não parecia estar em casa. Frustrada, Lily procurou não perder de vista os aspectos práticos de sua vinda. Subiu até o quarto de casal, disposta a pegar mais alguns objetos pessoais.
Jamais, em toda sua vida, ela imaginava ver uma cena como a que encontrou assim que abriu a porta.
No quarto com feitiços silenciadores, Lily viu duas mulheres desconhecidas montadas em cima de James e Sirius. Não havia dúvidas sobre o que estava acontecendo ali. Ao abrir a porta, ela de alguma maneira rompera o feitiço, e os sons repentinos só fizeram aumentar o choque.
Talvez ela tenha gritado, talvez tivesse sido um som do feitiço se quebrando. O fato é que James ergueu a cabeça e perdeu a cor em seu rosto ao vê-la.
— Lily!...
O pequeno Harry gritou, sorrindo:
— Papai!
O pai, porém, não deu atenção ao garoto. A moça saiu de cima dele, o outro casal também interrompeu o que fazia. James tentou se cobrir com o lençol.
— Oi, Lily! — Sirius sorriu. — Quer se juntar à gente?
Ele estava bêbado, obviamente. Lily sequer se deu ao trabalho de responder. James se dirigiu a ela:
— Lily, não é o que parece.
Finalmente a moça parecia ter reencontrado a voz.
— Nem tente, James. Isso é adeus.
Ela deixou o quarto, James atrás dela gritando:
— Não! Não! Lily, espere!
Com o rosto banhado em lágrimas, Lily desceu as escadas, segurando Harry, que ameaçava chorar. Ela ainda ouviu uma das mulheres protestar:
— Ei, eu espero receber pela hora toda!
Ela quase tinha alcançado a porta quando um feitiço a fechou. Lily gritou:
— James, abra a porta!
Ele terminou de descer as escadas, ainda se enrolando no roupão.
— Não! Você vai me ouvir.
— E o que você vai dizer? — Ela foi impertinente, fazendo troça dele, mesmo entre lágrimas. — Que essa é sua prima de longe e que vocês perderam o controle da lareira e ficou quente demais no quarto? Ou alguma coisa igualmente ridícula?
— Lily, por favor...
— Não, James, eu estou farta! Você não respeitou nosso filho, nosso casamento. Você trouxe mulheres para nossa casa e para o nosso quarto! Na verdade, para a nossa cama! E Harry viu isso tudo!
Ele ficou vermelho, tornando-se irritado:
— Bom, essa não era minha intenção!... Por que você não avisou que vinha?
— Devo avisar quando pretendo entrar na minha própria casa? James, desista. Agora deixe-me ir. Harry e eu sairemos de sua vida, e você ficará livre para receber suas, er, primas, o quanto quiser!
— Não! Espere! — James assumiu um ar arrogante, aquele que Lily mais odiava dos tempos de Hogwarts. — Você não vai me abandonar.
— Como pode dizer isso?
— Oh, você pode ir embora agora. Mas você vai voltar. Você nunca vai me deixar, Lily. Sabe por quê?
— Tente me dizer!
— Você me ama demais. Eu também amo você. Você até pode ir, mas você vai voltar. Não vai ter coragem de me viver sem mim, o que eu provavelmente mereço, mas você me ama, Lily.
— Como você ousa...?
Ele a interrompeu:
— Oh, você vai voltar cheia de ameaças, esperando que eu banque o arrependido, dizendo que a próxima vez será para valer, que eu não posso tratá-la dessa maneira, mas você nunca vai me deixar de verdade. Nós nos amamos, fomos feitos um para o outro. Todos dizem a mesma coisa.
Lily apertou Harry contra si, tentando acalmá-lo e a si mesma. Ela tremia de indignação. James interpretou o silêncio dela como uma cumplicidade.
— É tão bom quando você acredita no que eu digo. E eu amo você de verdade. Sério, Lily. Mas se você algum dia me deixar, eu vou atrás de você e vou trazer você e Harry de volta para casa, que é o lugar dos dois. Então, você pode ir, esfrie a cabeça um tempo, e depois pode voltar. Eu perdôo você.
A última frase foi como uma gota d'água. Lily puxou a varinha numa fração de segundo e lançou:
— Petrificus totalus!
James tombou, petrificado pela segunda vez pela própria mulher. Harry indagou:
— Papai?
Lily ainda estava de varinha em punho quando respondeu:
— Papai está doente, querido. Vamos buscar um médico para ele. Ele não está bem.
— Dodói?
— Isso, dodói. Vamos rápido, para o médico vir tratar do papai.
Ela deixou a casa e Aparatou o mais breve possível de volta para Hogwarts, o coração mais do que despedaçado, imaginando o quanto do que ela dissera a Harry era verdade.
James estava mesmo doente. Devia estar.
