Vencendo Etapas

Susan pediu uma melhor de três. É claro que ela tinha que pedir porque o Grande Rei de Nárnia não tinha a menor condição de ganhar aquele desafio! Todos sabiam disso! Todos sabiam que ela era a melhor arqueira de Telmar e dos reinos vizinhos enquanto Peter não passava de um troglodita que só sabia usar uma espada. Aquilo era trapaça! Grosseira, tosca e infantil! Era impossível que os súditos não estivessem vendo aquilo!

Mas é claro que não estavam vendo. Todos idolatravam aquele loiro metido a besta porque ele derrotou Jadis. Até mesmo Edmund não era capaz de duvidar da honra de Peter e ainda que duvidasse não era mais problema dele. O povo ovacionava o Grande Rei, vibrava diante de sua incontestável habilidade. Maldito fosse! Trapaceiro miserável!

Ele a encarou sorrindo satisfeito. A vontade de Susan era estapeá-lo, cravar uma adaga no coração daquele maldito prepotente! Não bastava ter vencido o primeiro desafio, ele a havia humilhado diante de toda Nárnia!

Ela tinha certeza de que ele esperava uma cena. Um escândalo no mínimo, mas Susan não faria isso diante do público. Peter ia sofrer muito ainda, mas seria dentro das paredes de Cair Paravel, onde apenas a corte poderia testemunhar o maior acesso de raiva já protagonizado por ela. Enquanto isso ela apenas reverenciava o Grande Rei e acenava magnânima para os súditos.

Ele ofereceu o braço a ela para conduzi-la novamente até o palácio. O estomago de Susan revirou só de pensar em tocá-lo, mas ela aceitou pelo bem de sua imagem. Aquele casamento estava com os dias contados, só que a princesa se recusava a sair desta história como vilã. Peter era um trapaceiro. Pois bem, não haveria trapaça que o ajudasse nas duas tarefas restantes.

Peter aproveitou seu momento tanto quanto pode. Estava satisfeito e aliviado. O plano funcionou melhor do que ele poderia imaginar a princípio e apenas duas tarefas o separavam de Susan.

Ele podia sentir a raiva e a indignação emanando dela. Sabia que sua amada estava furiosa e que logo promoveria uma cena, mas nada mudaria aquele fato. Ele havia vencido de acordo com as regras dela. Susan nunca mencionou nada quanto à trapaça, por tanto era uma vitória legítima.

Uma vez dentro de Cair Paravel o Grande Rei se preparou para o início dos berros. Entretanto, a raiva não veio em forma de avalanche de insultos como ele esperava. Susan estava até muito controlada para seus padrões.

Ela o encarou de forma severa, atirou a tiara que usava contra a parede, fazendo Peter se encolher. Por um segundo ele jurou que ela tentaria estapeá-lo, não que fosse surtir qualquer efeito. Ele preferia quando as agressões eram físicas a quando ela gritava. Susan não era tão forte e ele podia simplesmente segurá-la até a crise passar.

- Você! – ela disse num tom baixo e surpreendentemente assustador – Seu trapaceiro barato! Traidor! Eu acreditei na tão falada honra do Grande Rei Peter, O Magnífico! Olhe só pra você! Não é nem um pouco melhor do que um ladrãzinho!

- Se bem me lembro, minha senhora disse que eu deveria vencê-la numa competição de arco e flecha, mas não disse que eu deveria jogar limpo pra isso. – ele disse rapidamente e o que recebeu foi o primeiro vaso que ela encontrou pela frente em direção à sua cabeça loira.

- TRAPACEIRO! – ela berrou outra vez.

- Por que está tão desesperada, milady? – ele perguntou fingindo inocência – Venci apenas um desafio. Faltam dois.

- Tem razão. – ela disse se recompondo – Ainda faltam duas tarefas e desta vez suas trapaças não vão servir de nada.

- Sou todo ouvidos. – ele disse confiante – Qual a próxima tarefa?

- Desta vez não vai conseguir. – ela disse segura – Somente Aslan poderia salvá-lo. Pode acreditar. Não vai conseguir nem em um milhão de anos.

- Diga logo do que se trata. – ele não se deixou abalar.

- Vai ter que conseguir uma estrela. – ela disse serena e um tanto arrogante.

- Como disse? – Peter arqueou uma das sobrancelhas. Susan alargou o sorriso.

- Eu quero uma estrela. – ela repetiu – Quero ver que trapaça vai ajudá-lo a realizar esta tarefa.

- Tem minha palavra de que não trapacearei. – ele disse humildemente – E vou conseguir sua estrela. Guarde minhas palavras, milady.

- Talvez em seus sonhos. – ela revidou.

- O amor nos dá asas, senhora minha. – ele disse solene – Usarei estas asas para buscar no céu um de seus infinitos faróis.

- Filosofar não vai te levar a lugar nenhum. – ela disse arrogante e ele sorriu indulgente.

- Talvez não leve. – ele concordou por um momento e então lançou a ela um olhar curioso – Acho que mereço algum tipo de prêmio por minha primeira vitória.

- Só vai receber alguma coisa quando vencer todas as etapas. – ela replicou imediatamente.

- Ainda acho injusto, milady. – ele disse se aproximando dela de forma intimidadora. Susan tentou se afastar, mas antes disso Peter a enlaçou pela cintura.

Ele colou o corpo dela junto ao seu e tocou-lhe a face alva com a ponta dos dedos, sentindo o calor e a textura delicada da pele. Susan tentou afastá-lo, mas era inútil. Peter se inclinou sobre ela e sem qualquer aviso ela a beijou pela primeira vez.

Para o Grande Rei foi como pisar no País de Aslan e receber as bênçãos do Grande Leão. O sonho mais preciso, seu desejo mais antigo. Susan se debatia nos braços dele, mas Peter não permitiu que ela o deixasse, ao invés disso forçou a passagem de sua língua por entre os lábios carnudos dela para poder explora a boca de sua esposa de forma mais apropriada.

Ele a prensou contra uma das colunas da sala onde estavam, frustrando assim qualquer tentativa de fuga da parte dela. Susan se viu impotente diante da presença maciça dele e não teve outra saída se não permitir que ele usufruísse de sua pequena vitória. Achou que acabaria desfalecendo no meio do caminho, ou que Aslan teria piedade dela e a mataria a qualquer momento, mas nada disso aconteceu.

Esperou até que ele se desse por satisfeito e encerrasse o beijo. Peter se afastou dela e tinha a esperança de que ela permitisse que o Grande Rei a contemplasse por alguns segundos. É claro que isso não aconteceu.

Susan lhe deu um tapa sonoro na cara e assim que ele se afastou ela saiu correndo aos prantos em direção aos seus aposentos, onde poderia se refugiar por um tempo. Peter ficou parado, meio extasiado, meio martirizado por tê-la feito chorar. Se apenas um beijo dela era capaz de deixá-lo em tal estado, ele mal podia esperar para tê-la por inteiro.

Uma estrela...Sua amada Susan desejava uma estrela. Aslan mais uma vez o favorecia diante da adversidade. Esta tarefa seria ainda mais fácil do que a anterior.

Quando rapaz, Peter tinha um grande amigo chamado Caspian, filho do falecido Duque do Ermo do Lampião. No mesmo ano em que o Grande Rei foi coroado, Caspian partiu para as Ilhas Solitárias, onde se tornou governador e homem de confiança do soberano.

O grande amigo e companheiro de farras e diversões acabou se casando por lá e Peter ainda tinha a carta onde Caspian descrevia sua noiva em detalhes. Peter não se lembrava do nome da jovem, mas sabia que era filha de Ramandu e era exatamente ai que estava a solução de seu problema.

Ramandu era uma estrela aposentada. Ele não brilhava mais, mas sua filha conservava todo viço e todo esplendor dos astros. Tudo o que Peter teria de fazer era escrever ao amigo Caspian e convocá-lo à corte juntamente com sua esposa. O Grande Rei poderia até mesmo tornar a Filha de Ramandu uma dama de companhia da futura rainha.

Enquanto Peter se encarregava de escrever ao amigo, Susan havia se trancado no quarto e proibido até mesmo a entrada de suas damas de companhia. Se jogou aos prantos sobre a cama, sentido ódio de si por não ter sido capaz de impedir que aquele ser desprezível a beija-se.

Se pudesse, ela arrancaria seus lábios para nunca mais ter de se lembrar da sensação de ser beijada por ele. Queria entender de onde vinha tamanha repulsa, tamanho ódio quando Peter se esforçava constantemente para agradá-la.

Sempre que pensava nisso sua cabeça doía de forma vertiginosa e ela sentia ainda mais raiva dele. Era um ciclo vicioso insuportável, muito pior do que qualquer sentimento ruim que ela pudesse imaginar.

Se apenas um beijo foi capaz de deixá-la naquele estado de desespero, ela teria de bolar algo ainda pior para a próxima tarefa. Ela estava certa de que Peter iria falhar em encontrar uma estrela para ela, mas mesmo assim era melhor prevenir. Susan não queria sequer pensar no que seria dela caso ele vencesse a aposta.

Na verdade, ela nem se quer cogitava essa idéia. Preferia morrer a se deitar com ele e ter de suportá-lo pelo resto da vida. Peter sabia disso e tinha tanto medo de que ela levasse a promessa de suicídio adiante que havia proibido que ela mantivesse qualquer objeto cortante dentro do quarto. Além disso, ela só podia falar com suas damas de companhia e os mensageiros reais que ele enviasse a ela por qualquer motivo. Ele tinha medo que alguém fornecesse a ela uma ampola de veneno.

Não importa como, Susan daria um jeito se por um acaso Peter vencesse o desafio. Aslan teria de mostrar alguma misericórdia para com ela. Não era justo uma pessoa sofrer tanto apenas porque o Grande Rei de Nárnia havia sido acometido de uma grave demência que ele insistia em chamar de amor.

Era um amor doentio de qualquer forma. Um que a mataria asfixiada dia após dia. Um amor tão inexplicável quanto o ódio que ela sentia por Peter.

Edmund ofereceu o braço à princesa e a conduziu até a Sala do Conselho. Como esposa do rei telmarino e futura rainha, era esperado que Lucy estivesse presente em todas as seções do Conselho dos Lords. Ela não deveria dizer nada, pois a autonomia de poder de uma rainha telmarina era bem restrita, ao menos em público.

O mais comum é que a rainha agisse como uma conselheira em âmbito particular, longe dos olhos dos nobres. Todos sabiam que convencer a soberana era o meio mais fácil de conseguir a aprovação de alguma lei, ou liberação de alguma verba, por isso o Conselho sempre se dividia em dois grandes grupos. O partido a favor da rainha e o partido contra, que se ocupava de criar intrigas e espalhar boatos que tinham por finalidade anular um casamento real, ou decapitar a pobre senhora.

Edmund estava particularmente preocupado com esta primeira aparição de Lucy na sala do conselho. Principalmente porque já havia se tornado um fato público que ele não a chamava para seus aposentos e tão pouco passava a noite nos dela. Para os que desejavam o rompimento de relações com Nárnia, para os revoltados pelo não casamento de Susan com o filho do Tisroc, e para aqueles que simplesmente adoravam uma boa intriga, isso seria um prato cheio. Tudo o que Edmund poderia desejar naquele momento é que ninguém soubesse da condição dela, do contrário ele seria praticamente obrigado a devolvê-la para o irmão e declarar uma guerra.

Havia explicado a ela no momento em que foi buscá-la. Lucy parecia nervosa e seria uma tola se não estivesse. O grande ponto a favor dela é que a princesa sabia se portar, todos os narnianos a amavam e todos os telmarinos que tiveram a oportunidade de vê-la tinham opiniões elevadas a respeito dela. Entretanto, Edmund ainda não tinha sido capaz de avaliar o quanto ela compreendia de política.

Entraram na Sala do Conselho juntos e Edmund a conduziu até o trono que ela ocuparia e em seguida sentou-se ao lado dela. Lucy encarou os presentes fazendo o possível para demonstrar um rosto sereno e simpático.

A seção foi iniciada e em menos de meia hora tudo começou a ficar muito claro. Lord Sopespian, um dos maiores tumultuadores e trapaceiros que já tiveram a chance de pisar naquela sala, parecia determinado a romper relações com Nárnia com base na alegação de que o Grande Rei Peter ainda não havia cumprido sua parte do acordo.

A notícia do desafio de Susan já havia chegado aos ouvidos de Edmund, mas para os demais súditos foi dito que a demora no cumprimento do acordo estava se dando graças aos grandiosos planos para o casamento real que Peter havia bolado. É claro que Sopespian não se deu por satisfeito com aquela explicação e estava tão ansioso por ver a aliança desfeita que suas atenções se voltaram para Lucy.

Edmund captou todas as pistas ao longo do discurso inflamado de Sopespian. Ele tinha um informante e este informante era alguém próximo de Lucy, o bastante para que o dissimulado soubesse do real impedimento para a consumação do casamento. Lucy parecia cada vez mais nervosa ao lado dele e, sem que se desse conta disso, Edmund se pegou segurando a mão dela discretamente, numa tentativa de acalmá-la.

- Insisto, meu senhor. Entregamos à Nárnia a mais bela princesa do mundo e ainda assim somos tratados com pouco caso. – Sopespian insistia em tagarelar – Além do mais, que vantagem tal acordo nos trouxe?

- Honrado Lord Sopespian... – para espanto de todos Lucy se levantou de sua cadeira e começou a falar. Edmund ficou perplexo pelo impulso dela, mas não teve coragem de interferir uma vez que todos haviam voltado suas atenções para ela – Entendo suas preocupações e compartilho de seu desejo de construir o melhor futuro possível para Telmar. Entretanto, acho que está sendo precipitado ao levantar tal discussão neste momento.

- E por que minha senhora diz isso? – Sopespian lançou um olhar predatório a ela. Lucy não se abalou.

- Nárnia ofereceu a Telmar uma noiva também, o que coloca ambos em pé de igualdade no acordo. Além do mais, o senhor desconhece o espírito dedicado de meu irmão. Eu mesma tive a chance de ver os planos para o casamento e a coroação de minha "irmã", Susan. Afirmo que tais planos demandam tempo e logo logo tudo caminhará para o tão esperado desfecho. – Lucy disse segura, causando um burburinho entre os presentes.

- E como tal desfecho pode ocorrer quando um rei não divide a cama com sua rainha e, principalmente, quando a rainha ainda não pode dividir a cama com seu rei, posto que é uma criança? – Sopespian pronunciou em alta voz e a comoção foi generalizada.

Lucy recuou um passo. Aquilo era de mais. Estavam desmoralizando não apenas a ela, mas a ele também! Ele era um rei e para todos os efeitos era sua esposa quem estava sendo atingida por aquele complô ridículo e Edmund não tolerava insubordinação.

- BASTA! – Edmund disse de forma firme, de um jeito que ninguém ousava contestar – Lord Sopespian, devo lembrá-lo que a princesa Lucy pode não ter sido coroada ainda, mas continua sendo minha esposa! Até que se diga o contrário, ela será respeitada por todos os membros deste conselho como se rainha fosse!

- Mil perdões, meu senhor. Eu apenas salientei um fato. – Lord Sopespian se inclinou numa reverência breve.

- Então aconselho que reavalie aquilo que chama de fato. – Edmund retrucou ainda mais sério. Ele se virou para Lucy que o encarava com um misto de gratidão e alivio. Ainda não havia acabado. O conselho precisava ser silenciado e o rei não deveria deixar margem para contestação. Ele caminhou até a princesa com passos firmes. Lucy não entendeu o que ele pretendia fazer e quando se deu conta já era tarde.

Ele a enlaçou pela cintura e puxou o rosto dela para junto do seu. Ela sentiu sua boca ser encoberta pela boca dele e logo a língua de Edmund demandava passagem. Involuntariamente, ela deixou que seus dedos se perdessem nos cabelos escuros dele. Nunca pensou que ser beijada por alguém pudesse ser algo tão surreal, nem tão...Bom.

Edmund se afastou dela por um momento e a encarou nos olhos. Se pudesse ele pediria desculpas por um ato tão repentino, mas aquele não era o melhor lugar para isso. Então ele se virou para o conselho.

- Nenhum homem beijaria uma criança desta maneira. – ele disse sério encarando todos os presentes – Este, senhores do conselho, é o tipo de beijo que um marido compartilha com sua esposa. É algo que apenas amantes fariam e, por tanto, não ouvirei mais qualquer acusação leviana contra minha senhora, tão pouco ouvirei às especulações sobre o que se passa em nosso leito conjugal. Esta seção do conselho está encerrada.

Ele ofereceu o braço a ela novamente e a conduziu para fora da sala. Enquanto caminhavam pelos corredores do palácio o silêncio entre eles era constrangedor. Lucy não deu uma única palavra e era melhor assim. Edmund precisava falar com ela, mas se queria mantê-la em Telmar e manter o acordo com Nárnia, então teria de ser uma conversa sigilosa.

Ao chegarem à porta dos aposentos dela ele pediu permissão para entrar. Lucy concedeu permissão, ainda que estivesse terrivelmente constrangida. Uma vez dentro da ante sala dos aposentos e sem a presença de nenhuma das damas de companhia, ele podia falar.

- Eu sinto muito pelo que aconteceu na Sala do Conselho. – ele disse passando a mão pelo rosto. Sentia-se exausto – Mas veja bem, minha senhora. Sua atitude foi um tanto incomum para uma consorte real de Telmar.

- Esperava que eu ficasse calada enquanto aquele homem, aquele Lord Sopespian, insultava a mim e meu irmão? – ela questionou imediatamente.

- Não, minha senhora. – ele respondeu calmo – Já tive a oportunidade de comprovar por mim mesmo que milady não é mulher de se calar diante de uma ofensa. Entretanto, tenha em mente que aquele homem deseja romper relações com Nárnia. Sopespian teria lucrado imensamente se Susan tivesse sido entregue a Calormânia e como isto não aconteceu e nenhum dos casamentos foi validado ele ainda tem esperanças de conseguir isso. Ele vai atacá-la sempre que possível e vai continuar até virar todo Conselho contra minha senhora. Eu não terei alternativa se não mandá-la de volta.

Lucy levou a mão à boca. Não havia se dado conta da fragilidade de sua condição até aquele momento. Por mias que ela não gostasse de Edmund, ou pelo menos não ao ponto de apreciar a idéia de estar casada com ele, a princesa sabia que Peter ficaria arrasado se tivesse de desfazer o acordo e perder sua noiva. Lucy preferia cortar o próprio braço a causar sofrimento ao irmão.

- O que vai acontecer agora? – ela perguntou apavorada – Vai me mandar embora? Vai declarar guerra ao meu país? – os olhos dela se encheram de lágrimas e Edmund se sentiu mal por despejar tudo aquilo sobre ela.

- Não fique assim. Ainda não chegamos a este ponto e eu tenho um plano. – ele disse rapidamente numa tentativa de acalmá-la – Eles questionam o fato de que o casamento não foi consumado e por tanto não é válido. Muito bem, minha senhora dividirá a cama comigo pelo menos três vezes por semana e isso deve bastar para mantê-los calados.

- Como? – Lucy deu um sobressalto – Impossível!

- Eu sei, eu sei! Nada vai acontecer, eu garanto. – Edmund disse logo – Vai ser escoltada pelas damas até meus aposentos e vai passar a noite lá. Dormiremos na mesma cama, mas eu não vou encostar em você. Ninguém poderá dizer que não dividimos um mesmo leito, mas também ninguém saberá que nada acontece dentro do quarto.

- Mas Lord Sopespian sabe da minha condição. – a voz dela era chorosa, com uma pitada de pânico – O que podemos fazer quanto a isso?

- Acredito que uma de suas damas pode ter sido subornada. – Edmund disse seguro – Proponho que troquemos todas. Posso apontar uma lista de nomes de boas damas, de famílias leais a mim. Lady Jill seria uma boa supervisora para elas. Vocês têm quase a mesma idade, imagino que devem ter mais em comum do que isso.

- Eu estraguei tudo, não é? – ela abaixou a cabeça diante dele. Sentia-se péssima por causar tantos problemas e odiava pensar que não era bem vinda – Eu iria embora, se isso não fosse deixar meu irmão tão descontente. Seria tão mais simples desta maneira.

Agora as coisas estavam ainda mais delicadas do que ele poderia imaginar. Ele não queria que ela fosse embora, ela seria sua rainha eventualmente e isso já era algo certo. Edmund não poderia dizer que morria de amores por Lucy, mas ao menos ele gostava do espírito dela. Tinha opinião, mas não era histérica como Susan, era delicada, sem ser submissa e...Santo Deus, a idéia da camisola ainda não tinha saído da cabeça dele!

Não. Ela era a esposa dele e assim permaneceria. Não devolveria Lucy para Nárnia, nem em mil anos. O povo merecia uma rainha como ela e ele merecia vê-la usando aquela camisola!

Num impulso ele permitiu que seus dedos tocassem o rosto dela e o acariciassem. Fez seu melhor para sorrir e parecer confiante, mas aquilo não era algo que Edmund estava habituado a fazer. Ele nem mesmo se lembrava da ultima vez que teve de consolar uma pessoa.

- Não estragou não. – ele disse de um jeito tranqüilo e confiante – Só precisa se lembrar de uma coisa. Quando estivermos na Sala do Conselho, guarde suas opiniões até que estejamos sozinhos, ai pode me dizer o que pensa de tudo o que ouviu. Muito provavelmente vamos discutir várias vezes, mas eu estarei sempre disposto a ouvir aquilo que você pensa e, se possível, me valerei de seus conselhos.

- Obrigada pelas margaridas. – Lucy murmurou de uma forma tímida – E me desculpe por todas as barbaridades que eu disse no início.

- Eu também não fui muito hábil. – ele disse constrangido – E me perdoe por chamá-la de mentirosa.

Acho que posso dizer que foi ai que as coisas começaram a melhorar para Edmund e Lucy. Eles não eram exatamente apaixonados um pelo outro, mas pelo menos estavam construindo uma relação de confiança. Lucy passou a achá-lo mais desajeitado do que arrogante, e Edmund passou a enxergá-la mais como uma mulher respeitável do que como uma criança estúpida.

Naquele mesmo dia as damas de companhia de Lucy foram substituídas e Lady Jill passou a ser a camareira chefe. Aquele era o início de uma bela amizade entre a futura rainha e a esposa de Lord Tirian, mas até então pouco se sabia a respeito disso.

Após o jantar, Edmund se retirou para seus aposentos e mandou que Lucy fosse levada até ele. Como de praxe, as damas da princesa a acompanharam até a porta da alcova do rei. Lady Jill lançou a sua senhora uma piscadela encorajadora antes de Lucy entrar.

Uma vez lá dentro, as portas foram fechadas e ela seguiu sozinha até o quarto onde Edmund dormia. O lugar era iluminado por poucas velas e havia uma lareira acesa. As paredes feitas de pedra deixavam o ambiente sempre frio, mesmo no verão, e durante a noite o rei gostava de manter a lareira acesa. As cortinas pesadas eram de um azul escuro, bordadas com prata, assim como as cortinas da cama. O leito era de ébano entalhado, maior do que a cama que ela ocupava.

Lucy caminhou timidamente pelo quarto, sem saber o que fazer ou o que pensar. Edmund estava sentado em uma poltrona perto de uma das janelas quando notou a presença da princesa. Ele se levantou e caminhou até o leito e Lucy entendeu que devia fazer a mesma coisa.

Deitaram as costas na cama e ficaram encarando o teto por longos segundos de silêncio. Pareciam duas múmias em seus sarcófagos e estavam nervosos de mais para se quer cogitar a hipótese de se movimentarem.

- Há alguma maneira de isso ficar ainda mais constrangedor? – Lucy perguntou de um jeito lamurioso e Edmund não conteve o riso.

- Se você usar a camisola, com certeza ficará. – ele disse rindo.

- Não está ajudando! – ela retrucou tensa.

- Me desculpe. – ele disse já mais controlado – Bem, tente encarar de uma forma mais positiva. Quando for de verdade, e não uma farsa, minha senhora não ficará tão desconfortável na minha presença.

- Céus! Por um acaso sabe consolar alguém? – ela se revoltou e se virou para encará-lo. Edmund estava rindo ainda.

- Não. Nunca precisei fazer isso antes. – ele disse enquanto a encarava. Os cabelos dela estavam soltos e o rosto corado. Os olhos sempre expressivos pareciam mais vivos do que nunca e a boca...Inevitavelmente ele se lembrou do beijo que havia roubado mais cedo.

- O que está olhando? – ela perguntou confusa.

- Nada... – ele sacudiu a cabeça de leve – Eu só estava notando que...Você fica bonitinha com raiva. – ela virou de costas pra ele e se cobriu com as mantas até o pescoço depois disso.

- Boa noite, meu senhor! – resmungou contrariada.

- Boa noite, minha senhora. – ele fez o mesmo que ela.

E aquele era o início de uma das noites mais mal dormidas da história de Telmar. E que Aslan ajudasse o rei Edmund a não sonhar com a rainha Lucy e sua camisola.

Nota da autora: E como prometido, eis aqui o capítulo. Constrangimentos a parte, agora começa a verdadeira tensão do negócio. Peter está perdendo a paciência com Susan. Quanto tempo será que o Grande Rei agüenta? Edmund está começando a descobrir que ter Lucy na cama é algo no mínimo...Interessante. Então, por hoje é só. Espero que gostem e comentem.

Bjux

Bee