IV
As grandes sensações de dor ou de prazer pesam tanto sobre o homem, que o esmagam no primeiro momento e paralisam as forças vitais. É depois que passa esse entorpecimento das faculdades, que o espírito decompõe as sensações como em um sonho, trazendo de volta a realidade.
Foi o que me sucedeu; e não sei se no dia seguinte trocaria a voluptuosidade lenta e infinita de minhas recordações ainda recentes por outra hora da febre ardente que na véspera me prostrara nos braços de Virgínia. Mas então não me lembrava que a vendo, todos os meus desejos, que eu supunha extenuados, iam acordar de novo, tigres famintos da presa em que uma vez se tinham cevado.
Estava no teatro lírico, onde o acaso me colocara junto de um moço com quem havia feito conhecimento na sociedade e cujo nome não me acode agora. Em falta de outro, lhe darei o de Cedrico.
Esperando que se levantasse o pano, corríamos ambos com o binóculo pelas ordens de camarotes, que se começava a encher. É um regalo semelhante ao do gastrônomo, que antes de sentar se à mesa belisca as iguarias que vão se ostentando aos olhos gulosos. A comparação me agrada; porque realmente nunca senti essa gula de olhar que devora com uma fome canina, como quando contemplava uma multidão de mulheres bonitas. Cada uma delas me emprestava uma forma sedutora, um encanto, um contorno para a estátua ideal que a imaginação moldava, aperfeiçoando a capricho.
À medida que fazíamos alguma descoberta astronômica, ou na região dos planetas de primeira e segunda ordem, ou entre as nebulosas da última esfera, comunicávamos ao companheiro, que imediatamente assestava o telescópio. Começavam então as competentes observações sobre o astro. Já tínhamos examinado algumas constelações ou grupos de estrelas brilhantes e dois ou três planetas superiores, discorrendo Cedrico sobre a sua órbita, os seus satélites e o ponto da elíptica em que se achavam. Tínhamos encontrado no fundo de um camarote a cauda luminosa de um cometa; finalmente estudávamos um aerólito ou estrela cadente, conjeturando sobre as causas prováveis do fenômeno atmosférico financeiro.
- Aí está a Virgínia, disse Cedrico. Na segunda ordem, quarto camarote depois de vésper.
Assim havíamos batizado um planeta que se recolhia infalivelmente entre nove e dez horas da noite.
Esqueci me de dizer que a ópera começara; as nossas observações podiam fazer se então em céu desnublado. Vi Virgínia sentada na frente do seu camarote, vestida com certa galantaria, mas sem a profusão de adornos e a exuberância de luxo que ostentam de ordinário as cortesãs, ou porque acreditem que a sua beleza, como as caixinhas de amêndoas, cotam se pelo invólucro dourado, ou porque no seu orgulho de anjos decaídos desejem esmagar a casta simplicidade da mulher honesta, quantas vezes defraudadas nessa prodigalidade.
Não me posso agora recordar das minúcias do traje de Virgínia naquela noite. O que ainda vejo neste momento, se fecho os olhos, são as nuvens brancas e nítidas, graciosamente combinando com o lento movimento de seu leque; o mesmo leque de penas que eu apanhara, e que de longe parecia uma grande borboleta rubra pairando no cálice das magnólias. O rosto suave e harmonioso, o colo e as espáduas nuas, nadavam como cisnes naquele mar de leite, que ondeava sobre formas divinas.
A expressão angélica de sua fisionomia naquele instante, a atitude modesta e quase tímida, e a singeleza das vestes níveas e transparentes, davam lhe frescor e viço de infância, que devia influir pensamentos calmos, senão puros. Entretanto o meu olhar ávido e acerado rasgava os véus ligeiros e desnudava as formas deliciosas que ainda sentia latejar sob meus lábios. As sensações amortecidas se encarnavam de novo e pulsavam com uma veemência extraordinária. Eu sofria a atração irresistível do gozo fruído, que provoca o desejo; e conheci que essa mulher ia se tornar uma necessidade, embora momentânea, da minha vida.
- E uma bonita mulher! Disse ao meu vizinho, com um ar de indiferença para disfarçar a minha emoção.
- A mais bonita mulher de Londres e também a mais caprichosa e excêntrica. Ninguém a compreende, disse Cedrico.
- Conheço a apenas de vista; porém disseram me que é uma boa moça, muito amável...
- Oh! Posso falar a este respeito. Fui seu amante quatro meses.
- E por que a deixou? Aborreceu se?
- Não a deixei. É seu costume; um belo dia, sem causa, sem o mínimo pretexto, declara a um homem que as suas relações estão acabadas; e não há que fazer. Podem oferecer lhe somas loucas, é tempo perdido. Também no dia seguinte, ou no mesmo, daí a uma hora, toma outro amante que não conhece, que nunca viu.
- Todas são assim, com pouca diferença; ninguém sabe qual é o fio que faz dançar essas bonecas de papelão.
- Nem tanto. Há mulheres, que, ou por interesse, ou por amizade, ou mesmo por hábito, se inquietam com a idéia de que seu amante as abandone; mas para esta é absolutamente indiferente. Tem dias em que está de um humor insuportável: fica uma estátua, e não há forças humanas que possam arrancar daquela massa inerte um sorriso, uma palavra, um movimento. Se o homem não possui grande dose de paciência para sofrê la calado, ela fecha lhe a porta muito delicadamente, e manda lhe dizer pela criada "que tenha a bondade de deixá la tranqüila para todo o sempre". E uma vez dito, não volta.
- Para quem tem direitos adquiridos, parece me um tanto forte!
- É o seu engano, continuou o Cedrico. A Virgínia não admite que ninguém adquira direitos sobre ela. Façam lhe as propostas mais brilhantes: sua casa é sua e somente sua; ela o recebe, sempre como hóspede; como dono, nunca. Na ocasião em que o senhor a toma por amante, ela previne o de que se reserva plena liberdade de fazer o que quiser e de deixá lo quando lhe aprouver, sem explicações e sem pretextos, o que sucede invariavelmente antes de seis meses; está entendido que lhe concede o mesmo direito.
- Ao menos há reciprocidade!
- Não lhe pede nada, nem sequer doces em tempo de festa, ou sorvetes quando está no teatro. Nunca a vi bordar em malhas transparentes um desses desejos disfarçados com que as mulheres iscam à generosidade de seus apaixonados. Se indagam do seu gosto a respeito de algum objeto que lhe destinam, desconversa e não responde; aceita friamente o que lhe dão, e nada mais. Ora, com uma mulher desta natureza, que não oferece a mínima ocasião de prestar lhe um serviço e ganhar lhe a amizade ou a gratidão, é possível ter direitos adquiridos?
- Há de sofrer com isso! . . . Tenho a visto duas ou três vezes, sempre vestida simplesmente. Não traz um brilhante; entretanto que outras, que não a valem, andam cobertas. Repare! . . .
- Qual! Não é essa a razão! Nunca lhe faltam amantes; sei de grandes fortunas de Londres que se dariam por felizes se ela se decidisse a arruiná las. E para não ir muito longe, embora não seja rico, caso ela ainda quisesse...
- Ah! Então as suas relações estão cortadas?
- Inteiramente; e de uma maneira célebre. Vou lhe contar. Passeávamos numa noite de luar claro como dia; vendo minha mulher na janela, escondi me involuntariamente no fundo do carro com receio de que me reconhecesse. Era inútil, porque estava distraída olhando para o mar. Entretanto Virgínia, por maldade, mandou ao cocheiro que parasse, saltou do carro, e esteve muito tempo, em pé, na grade, voltada para minha casa. Eu não sabia o que fizesse, compreende bem; não queria mostrar me, e tinha medo de um escândalo. Felizmente ela foi caminhando, e a alguma distancia mandou parar um tílburi que passava; o carro a tinha acompanhado; chegou se à portinhola e disse me: "Não gosto de gente que se esconde, meu senhor. Vá olhar para o mar, ao lado de sua mulher; é mais inocente e mais poético. De amanhã em diante não nos conhecemos". Debalde quis impedi la, meteu se no tílburi; e o cocheiro, que tinha um excelente animal, logrou me: foi me impossível segui los. Voltei nessa mesma noite e nos dias seguintes à sua casa, e achei sempre a porta fechada para mim; até que me recebeu para dizer me com toda a macieza e doçura, que eu supunha ter comprado a chave de sua casa, e por isso ia me restituir o preço de uma venda que ficara sem efeito. Saí para não voltar mais!
- Arrufos! Se não a procurasse, ela o mandaria chamar no outro dia. É sempre a sombra do provérbio chinês: segue quem a foge.
- São águas passadas. Estávamos falando da simplicidade de seu trajar. A razão é outra; é pura avareza.
- Como! Não disse que ela não se deixava levar pelo interesse? Não compreendo. Uma mulher que rejeita ofertas brilhantes e leva o seu escrúpulo a nunca pedir, nem mesmo uma coisa insignificante... Essa mulher não pode ser avarenta! O senhor conserva algum ressentimento, disse eu sorrindo.
- Ora! Replicou ele encolhendo os ombros. Não faltam bonitas mulheres. Mas esse desinteresse de Virgínia é um cálculo, e um cálculo muito fino. Uma mulher que pede, marca o preço de sua gratidão ou do seu amor; a mulher que não pede é um abismo que nunca se enche! Tenho experiência destas coisas.
- Em todo o caso, ainda que ela fosse de uma mesquinhez sórdida, as jóias não se gastam com o uso.
- Se ela as vende!
- Não é possível!
- Também eu duvidei por muito tempo, mas tive a prova. Há aqui um Sr. Collin que fez sociedade com ela; tudo que lhe dão, até roupas, é imediatamente reduzido a dinheiro. Virgínia deve ter por aí em casa do Kutcher ou do Watson seus trinta a quarenta contos.
- Guarda para a velhice, se lá chegar.
A tecla que vibrara em nosso espírito ressoava tão melodiosamente, que o pano descera sobre o primeiro ato do Hernani, sem darmos por isso. O Cedrico me parecia conservar vivas saudades de suas relações com essa moça, que ainda o interessava apesar de tudo. Quanto a mim, todas as excentricidades e defeitos que atribuíam a Virgínia, ao passo que a faziam descer na minha estima, davam lhe um sainete de originalidade e um picante sabor que me excitava. O vício também tem sua beleza e sua atração, como a virtude; a diferença é que no âmago do fruto os lábios encontram terra e cinza em vez de polpa deliciosa.
Há de ter reparado em que me desse por desconhecido de Virgínia; é hábito meu, desde que entrei no mundo, não admitir os estranhos à intimidade de minha vida, ainda mesmo quando se trata de objetos sem conseqüência. Só dispo a minha alma entre amigos.
Como já lhe disse, suspeitava que Virgínia devia assistir à ceia, para a qual Blaise me convidara, na quinta feira, jantando no Hotel Europa. Naquela ocasião quis ter a certeza; e creia que subindo as escadas da segunda ordem desejava ter me enganado.
Preciso dizer lhe a razão?
Ela não estava só: uma multidão de adoradores invadira a porta de seu camarote. Cortejei a e passei, esperando a ocasião em que lhe pudesse falar. Tudo quanto achei para mandar levar lhe foi sorvetes, doces, algumas flores de baile que vendiam à porta, e o libreto da ópera. As mulheres agradecem mais essas pequenas atenções de que a cercam, do que os verdadeiros sacrifícios; e eu tinha resolvido fazer a conquista de Virgínia por oito ou quinze dias.
Estive com ela no intervalo seguinte.
- Não tinha nem uma moça bonita do seu conhecimento a quem dar estas flores tão lindas? Disse apertando me a mão e mostrando dois cactos que se estrelavam, um no seio e outro entre os seus cabelos.
- Sabes quem as mandou?
- Adivinhei pelo cheiro É tão suave!...
- Ficam te muito bem; parecem ter nascido aí entre as rendas e os cabelos.
- Hei de enfeitar me sempre assim.
- E com as flores que eu te mandarei todas as manhãs.
- Disse isto à toa. Não tenho paciência, nem gosto para estas coisas! Agora foi uma lembrança e já me está aborrecendo, replicou, batendo com a ponta dos dedos afilados nas pétalas da flor.
Notei no tom de Virgínia durante o resto desta conversa uma diferença extraordinária com o modo singelo e modesto que ela tinha em sua casa; agora era a frase ríspida, incisiva e levemente embebida na ironia que destilava de seus lábios, e cujas gotas a maior parte das vezes salpicavam a ela própria. A cortesã revelava se a mim finalmente, depois que deixara cair no leito o seu último véu. Não sei se estimei ou senti essa brusca transição; a franqueza me punha mais à vontade, é certo, porém desvanecia uma doce ilusão, que, por mais transparente que seja, nubla o espírito crédulo, quando procura no fundo do prazer um átomo sequer de amor.
Perguntei lhe afinal se me permitia acompanhá la depois do teatro.
- Esta noite não me pertence! . . .
- Não vais para casa?
- Não.
- Já sei! Estás convidada para uma ceia...
- Quem lhe disse?
- Em casa do Blaise.
- Ah! Não me lembrava que ele é seu amigo! E o senhor, também vai?...
- Para ter o prazer de tua companhia.
- Ainda não estou inteiramente resolvida! Murmurou com lentidão, e atalhou logo com certo estouvamento: porém não, vou! Por que deixaria de ir? Havemos de divertir nos muito: o Blaise tem gosto.
Acendeu se nos seus olhos o fogo que já uma vez me tinha queimado as faces; só mais tarde devia ter a explicação desse olhar.
Quando tomei o meu lugar nas cadeiras, Virgínia tinha desaparecido.
