A Rosa de Masyaf
Sincronização
Liberdade. Como uma droga, a sensação corre pelas veias, entorpecendo os sentidos, deixando a mente calma e aérea. Ele pode sentir o riso que escapa por entre seus lábios ecoar em seu peito, as vibrações aumentando a euforia que o envenena. Seus passos sobre os telhados se tornam mais rápidos, o corpo adquirindo impulso para pular e atingir a rua, a velocidade ainda mantida. Há outros com ele, o olhar atento os encontra escondidos em vários grupos, se misturando e sumindo com habilidade e rapidez. Ele continua a correr, passando por entre as pessoas, roubando sem ser notado. Mais uma vez, ele sobe em um telhado, o movimento completamente natural, e continua a correr. Seu destino já se encontra em seu campo de visão.
Ele pula de um telhado para outro, entrando no território da Guilda. Olhando para baixo, ele pode ver os outros ladrões chegando, entrando no refúgio. Ele sabe que deve descer e se juntar aos outros, mas o lugar em que ele se encontra é absolutamente confortável. Ele gosta de estar no telhado, correr de um lado para o outro sobre as telhas, escalar até o ponto mais alto de Veneza e lá ficar. A altura é uma companheira da qual ele aprecia a presença e acha difícil abrir mão. Rindo, ele corre um pouco mais e se prepara para pular, só que no momento em que o salto é dado, dor invade a mente e faz o corpo tremer, perder o balanço e cair.
- Anna! – uma voz alta e preocupada chama. Ele não responde, estando mais preocupado com a dor que se espalha por seu corpo, deixando-o tonto – Chamem Antonio!
Ele tenta se levantar, sentindo os músculos tremerem ante o esforço. Uma mão o toca no ombro e, ao se virar, ele se depara com uma face familiar, um nome despertando em sua memória. Ugo. Usando o corpo do amigo como apoio, ele tenta se colocar de pé, mas falha, voltando a cair no chão. Assim que o corpo colide com a superfície dura, ele o vira, alheio a movimentação a sua volta ou a voz familiar que chama seu nome. Tudo em que ele consegue se concentrar é no homem ajoelhado do lado oposto ao que Ugo se encontra. Ele não consegue ver a face do desconhecido, pois esta se encontra oculta por um capuz. As roupas que o estranho usa não são familiares, muito branco misturado com um pouco de vermelho. E na cintura, há um símbolo que rouba sua atenção. Uma espécie de triângulo, um pouco curvado nas pontas inferiores. Ele ergue a mão na intenção de tocá-lo, mas é impedido por um toque firme nos ombros.
- Anna! – a voz o chama e a imagem do estranho desaparece – Anna! O que aconteceu?!
- Eu... – ele começa, tentando focar o olhar naquele que o segura firmemente. Antonio. – Eu caí...
- Sí, ma perché? – o líder da Guilda pergunta enquanto o ajuda a ficar de pé – Você sempre salta tão bem!
- Eu não sei. – ele responde lentamente, o olhar ainda um pouco desfocado procura o estranho, mas não o encontra.
- Anna?! – uma voz feminina chama, se aproximando rapidamente.
Ao reconhecer a voz, ele levantar o olhar diretamente para a fonte do som e, mesmo que seu corpo ainda esteja dolorido, segue até a bela mulher que o observa com um olhar que mistura raiva e preocupação.
- Madre. – ele murmura, abraçando a mulher fortemente e tendo o gesto retribuído.
- O que aconteceu? – ele ouve a mulher perguntar.
- Eu não sei, Rosa. – Ugo é quem responde – Ela só... Caiu.
- Leve-a para dentro. – Antonio diz – Bianca cuidará dos ferimentos dela.
Sem que mais nenhuma palavra seja dita, ele é guiado para dentro da casa. Por todo o percurso, ele se apóia na mulher que o abraça, tendo dificuldade em discernir o que dói mais: seu corpo ou sua mente. E a imagem do desconhecido se recusa a ser apagada de sua consciência, alternando entre se transformar na imagem da face oculta ou na do símbolo triangular.
Desmond desperta trêmulo e frio, a dor sentida por Anna em decorrência da queda ainda ecoando em seu corpo. Assim como a dor que invadiu a mente da ladra e que, agora, pulsa na mente do assassino. Um suspiro escapa por entre os lábios de Desmond. Esse sonho foi outra lembrança de Anna, ele sabe. A primeira vez que ela viu Altaïr. O rapaz se levanta abruptamente e caminha lentamente pelo Santuário, tomando cuidado para não despertar os colegas ainda adormecidos.
Ele começa a correr pelos corredores em uma tentativa de acabar com os tremores que ainda se fazem presentes em seu corpo e se lembra da sensação de liberdade que Anna experimentava ao correr pelos telhados e pelas ruas de Veneza. Uma ladra livre. Uma ladra que se vestia como assassina. Uma ladra que, possivelmente, era filha de IlMentore. Uma ladra que era assombrada pela imagem de um Mestre Assassino. Desmond para e fecha os olhos por um momento sem conseguir impedir de se perguntar quem Anna realmente era. E perché seu inconsciente insiste em buscar as lembranças dela.
xACx
- Você acordou cedo, Desmond. – Rebecca comenta ao ver o assassino entrar no Santuário.
- Sim. – o rapaz responde – Não consegui dormir por muito tempo.
- Outro sonho sobre Anna? – Shaun questiona em um tom de brincadeira, mas o olhar do historiador se torna sério ao perceber o tremor que passa pela postura de Desmond – O que você viu?
- A primeira vez que ela viu Altaïr. – o assassino responde se aproximando do Animus.
- Parece um bom começo. – Lucy comenta – Quer tentar continuar a partir desse ponto?
- Eu re-configurei o Animus para reconhecer as memórias da Anna. – Rebecca diz antes que Desmond possa responder – Agora, toda vez que você sincronizar com ela, nós poderemos analisar os dados mais detalhadamente.
- Então, agora eu vou sincronizar com Anna e não com Ezio? – Desmond pergunta enquanto se deita no Animus.
- Não haverá guias agora. – Rebecca diz se aproximando e conectando o assassino à máquina – Qualquer sincronização que você fizer, será por vontade própria, consciente ou inconsciente.
- Tente se focar em Anna, na lembrança com que você sonhou. – Lucy sugere – Como seu inconsciente parece buscar a memória dela de forma independente, talvez isso o ajude a sincronizar com ela.
- Ok. – Desmond diz e fecha os olhos, relaxando o corpo e a mente. O assassino se concentra na sensação de correr pelos telhados de Veneza, de cair e então ver Altaïr.
xACx
Quando volta a ter consciência de si mesmo, Desmond percebe estar em um quarto não familiar. O assassino se senta sobre o colchão e respira fundo, as mãos sendo erguidas e colocadas sobre o rosto. A imagem de Altaïr retorna à mente e Desmond pode sentir a confusão de Anna acerca do desconhecido visto. A ladra respira fundo mais uma vez e então se vira, procurando, sobre uma mesa, papel e tinta para, em seguida, colocar os materiais sobre o colchão.
Através dos olhos de Anna, Desmond vê o desenho do símbolo dos Assassinos, visto em Altaïr, se formar no papel. Conforme o desenho é feito, o assassino percebe a imagem do Mestre Assassino se mantendo fixa na mente da ladra, o símbolo ganhando destaque, como se fosse sobreposto a própria imagem de Altaïr. Uma vez que o desenho é terminado, a tinta é guardada e, com o papel na mão, Anna se levanta, tendo um pouco de dificuldade devido à dor que ainda permanece em seu corpo.
Mancando levemente, a ladra caminha pelos corredores da Guilda, procurando por um aposento em especial. Ao encontrá-lo, Anna bate na porta e aguarda a permissão para entrar. Assim que a porta é aberta, a jovem se depara com um surpreso Antonio, que se levanta da mesa para recebê-la.
- Anna, você não deveria estar descansando?
- Eu preciso perguntar uma coisa a você. – Anna responde apertando o desenho entre os dedos.
- E o que é? – o líder da Guilda questiona cruzando os braços sobre o peito.
- Você conhece esse símbolo? – a ladra entrega o desenho a Antonio, que, ao reconhecê-lo, deixa que um suspiro escape por entre seus lábios – Eu poderia perguntar a minha mãe, mas sei que, se ela soubesse a resposta, talvez não me dissesse.
- Ou talvez ela dissesse. – Antonio diz colocando o desenho sobre a mesa e tocando um dos dedos da mão esquerda, que é marcado por uma queimadura. O movimento não passa despercebido pelo atento olhar azul.
- Não se fosse algo que ela julgasse que eu não deveria ou precisaria saber. – Anna diz – Confio que você não faria o mesmo. Você conhece esse símbolo?
Desmond consegue sentir o coração de Anna batendo rapidamente, ansioso e temeroso da resposta que possa conseguir. A atenção do assassino, assim como a da ladra, permanece em Antonio, que apóia o corpo na mesa e olha para Anna com uma expressão séria e concentrada.
- Esse é o símbolo dos Assassinos. – o líder da Guilda responde.
- Assassinos? – a ladra pergunta – Como meu pai?
A segunda pergunta surpreende Desmond. Ao que parece, Anna sabia sobre Ezio. Então, quando encontrou o assassino em Roma, ela o reconheceu? Ela tinha consciência de quem a perseguia até o esconderijo da Guilda de La Volpe? As perguntas ecoam na mente do jovem assassino.
- Sí. – Antonio responde – Mas onde você viu esse símbolo, Anna?
- Aqui. – a ladra diz fazendo o mais velho arquear uma sobrancelha.
- Posso pedir por mais detalhes?
- Sí. – Anna responde – Mas não ofereço garantias de resposta.
Antonio ri por um momento, mas logo volta a apresentar a mesma expressão séria.
- Esqueça esse símbolo, Anna. – ele diz – O fato de seu pai ser um assassino não a afeta. Você e Rosa já deixaram isso bem claro. Além do mais... – um pequeno sorriso surge nos lábios do ladrão – Você é jovem demais para se preocupar com esse tipo de coisa.
- Jovem demais? – Anna questiona parecendo ofendida – Eu tenho catorze anos, Antonio.
- Nova demais para ser uma assassina. – o mais velho diz.
- Não quero ser uma assassina. – a jovem ladra diz em um tom um pouco mais alto do que um sussurro.
- Eu sei. – Antonio responde tocando o ombro de Anna.
Na mente da ladra, a imagem do desconhecido e do símbolo dos Assassinos retorna. Anna fecha os olhos e Desmond pode sentir o esforço que ela faz para se afastar de todos os significados entrelaçados a imagem. Ela não deseja ser uma assassina. Ela não quer nada desse tipo.
xACx
- Então Anna sabia sobre Ezio. – Shaun comenta após Desmond sair do Animus – Sobre os Assassinos.
- Sim. – Desmond responde ficando de pé – Ela apenas não conhecia o símbolo deles.
- Mas ela saber sobre Ezio não significa que ela já sabia sobre Altaïr. – Lucy diz.
Uma vez mais, o olhar de Desmond cai sobre a estátua do assassino sírio. Relembrando o que viu através de Anna, o assassino recorda da relutância da jovem ladra ao aceitar que o símbolo visto pertence aos Assassinos, o empenho em se afastar de qualquer coisa que fosse relacionada à Ordem. Mas Desmond também se lembra da primeira vez que viu Anna, através dos olhos de Ezio e sob o céu nublado. Ela estava claramente mais velha do que em Roma e muito semelhante a uma assassina. Será que, com o tempo, Anna mudou de ideia e se juntou à Irmandade?
Essa não é a minha vida. Eu não sou uma assassina. As palavras de Anna ecoam na mente de Desmond. A Anna que ele viu em frente à estátua de Altaïr e na Vila era muito semelhante à Anna de Roma. Mais nova do que a Anna da primeira visão. O que mudou? Se é que algo mudou. Não há como Desmond afirmar que Anna era uma assassina. Uma assassina árabe? A pergunta de Shaun retorna à mente do assassino. Na visão que Desmond teve durante a dessincronização, Anna falava em árabe, mas agora ele sabe que ela era italiana. Um suspiro escapa por entre os lábios do assassino. Parece que quanto mais ele tenta achar respostas acerca de Anna, mais perguntas aparecem.
xACx
Depois de descansar um pouco, Desmond retorna ao Animus, mas, dessa vez, disposto a sincronizar com Ezio. As lembranças de Anna oferecem mais perguntas do que respostas, então talvez as de Ezio possam solucionar algumas questões ou pelo menos oferecer algumas pistas. O assassino retorna exatamente para onde parou da última vez, antes de sincronizar com Anna e vê-la com Da Vinci. Ezio está correndo pelas ruas de Roma, seguindo direta e rapidamente para o Rosa in Fiore.
Assim que o assassino entra no estabelecimento, ele encontra Rosa, parada próxima à escada e conversando com algumas cortesãs. Ao notarem a aproximação de Ezio, as meninas se afastam em silêncio, deixando a nova Madonna com o líder da Irmandade.
- Ezio, você não precisava vir me dar as boas-vindas à cidade. – Rosa diz com um sorriso nos lábios.
- Eu vim porque preciso falar com você sobre alguém que encontrei no La Volpe Addormentata. – Ezio diz e Desmond sente a inquietação que tortura o assassino.
- E quem seria?
- Anna. – Ezio responde notando a cautela que parece tomar conta da postura de Rosa.
- O que quer saber sobre ela? – a Madonna pergunta.
- La Volpe disse que ela é sua filha. Isso é verdade?
- Sí. – Rosa responde assentindo – Anna é minha filha.
- Ela parece jovem... – o assassino comenta fazendo a Madonna sorrir.
- Anna tem quinze anos, Ezio. – Rosa diz com o sorriso ainda presente nos lábios – Está se perguntando se ela é sua?
- Deveria? – o assassino questiona se aproximando da ladra.
- Ela é sua, Ezio. – Rosa responde, surpreendendo o Auditore. E um pouco a Desmond, que tem a confirmação que precisava – Anna é sua filha.
- Por que nunca me disse nada? – o assassino pergunta e uma fraca risada abandona os lábios da Madonna.
- E o que você teria feito? – Rosa questiona – Teria voltado, ficado comigo e me ajudado a cuidar de Anna?
- Eu teria tomado providências para que vocês fossem bem cuidadas. – o assassino responde com o tom de voz se tornando mais alto e firme.
- Nós fomos. – a ladra diz – Antonio sempre cuidou muito bem de mim e fez o mesmo comminha filha.
Ezio e Rosa permanecem em silêncio por alguns segundos, o olhar preso um no outro. Desmond pode sentir o peito pesado do assassino italiano, a inquietação despertada por Anna sendo substituída pela frustração de ter passado tanto tempo sem saber que tinha uma filha.
- Ela sabe sobre mim? – Ezio pergunta por fim, a voz mais suave e calma.
- Sí. – Rosa responde – Mas apenas seu nome e que você é um assassino. O que me lembra... Mantenha seus assassinos longe de Anna. Se algum templário machucá-la por sua causa...
- Eu nunca permitiria isso! – o assassino afirma com firmeza. Mais um momento de silêncio se passa antes que Ezio volte a se pronunciar – Por que a trouxe para Roma?
- Uma mãe não pode querer ter sua filha por perto? – Rosa questiona – Como a encontrou?
- Eu estava lutando com guardas dos Bórgia e um tentou me atacar por trás. – o assassino explica – Ele não conseguiu nem sequer me tocar porque Anna o matou. Ela correu assim que a vi e eu a segui até o La Volpe Addormentata. Acredito que ela ainda esteja lá.
- Não está. – Rosa diz suavemente.
- Como pode saber? – Ezio questiona confuso.
- O La Volpe Addormentata não está na rota de fuga de Anna. – Rosa responde e, percebendo a confusão que ainda se faz presente na expressão de Ezio, continua – Você não conhece Anna, Ezio. Não tente prevê-la.
xACx
Desmond desperta e pisca algumas vezes, tentando permanecer focado. O assassino se sente mentalmente cansado e perdido. Reviver as lembranças de Ezio e Anna é mais cansativo do que reviver apenas as do assassino italiano. E quanto mais memórias são revisitadas, mais Desmond se sente inquieto e curioso acerca de Anna. O que ela procurava em Altaïr? Por que ela era capaz de ver o Mestre Assassino? E, principalmente, quem ela realmente era: uma ladra ou uma assassina?
