O amuleto que me levou ao mestre:
Estava sentada na beira do riacho, ainda de tardezinha, quando uma coruja pousou numa pedra perto de mim. Olhei para ela, com admiração e curiosidade, pois ela também me olhava fixamente. Ela levantou vôo, me puxou de leve os cabelos com suas garras e atravessou a queda d'água que havia ali perto. Levada pela curiosidade, levantei-me e a segui.
Havia um túnel, por onde eu passava engatinhando. No fundo, uma enorme caverna se abria. Com a pouca luz, podia ver pedras brilhantes cravadas na parede, na forma de um felino de dentes enormes. As pedras que ficavam no lugar do olho e perto do coração eram vermelhas, as outras eram transparentes. Havia também duas cabeças desse animal esculpidas em pedra e, entre elas, um pilar baixo, em estilo grego, com um baú prateado em cima. A coruja pousou sobre a caixa, voou até mim, e me puxou novamente. Cheguei perto, nas pontas dos pés para abri-lo, dentro havia um colar, com um pingente de cor alaranjada, na forma do animal da parede. Era lindo... Brilhava nas minhas mãos.
De repente, ouvi rosnados atrás de mim. Eram quatro lobos-guará, com dentes expostos e olhos em fúria. Era estranho, esses lobos são solitários, eu vira isso nos livros de ciências de meu irmão. Não sei há quanto tempo estavam ali, mas eles se aproximavam mais e mais.
Dei alguns passos lentos para trás, os lobos avançavam. Me virei e comecei a correr, com os quatro no meu encalço. Nunca nenhum animal da região havia me atacado, e aqueles não pareciam estar em seu normal. As bocas espumavam e os olhos pareciam tingidos de sangue. Avistei um buraco entre as pedras, pequeno o bastante para que só eu pudesse passar, me escondi ali. As pedras por cima da entrada estavam soltas, e os lobos, enfurecidos, se bateram contra a parede, até que esta cedeu. Eu estava presa, com a minha força, jamais conseguiria sair de lá. Lembro-me apenas de pensar nas histórias de minha mãe, a última, que ela contou no dia do ataque, foi sobre a aurora boreal. Eu ficara curiosa por causa da foto de fundo do computador. Acabei adormecendo com esta lembrança, encolhida no canto entre as pedras.
Acordei com um frio que nunca sentira antes, olhei em volta, vi apenas neve e as cores de um maravilhoso arco-íris noturno sobre minha cabeça. Havia apenas uma luz ao longe, uma cabana. Juntei todas as minhas forças para me levantar e correr até lá para pedir ajuda. A maçaneta da porta gira, por trás dela aparece um garoto. Da minha idade, cabelos até os ombros, loiros e olhos azuis, claros como o céu de um dia ensolarado, me puxa para dentro gritando:
-- Mestre, mestre depressa, ela ta congelando!
O mestre chega espantado e me pega no colo.
-- Hyoga, pegue cobertores, rápido. – e para outro menino. – Isaak, prepare uma bebida quente!
-- Sim! – respondem os dois em conjunto, e saem correndo.
-- Que diabos estava fazendo sem agasalho lá fora, durante a noite? É de se espantar que esteja viva! – e me colocando sobre a cama – Você vai ficar bem, não se preocupe. Como se chama?
Eu mantive-me quieta, não fazia idéia do que estavam falando, não era português, indígena, ou o espanhol que ouvia de minha mãe. Só o olhava, cheia de gratidão. O mestre vê o pingente brilhando fracamente em meu pescoço, e minhas pupilas contraem-se como as de um gato. Ele toma o pingente na mão e olha para mim, dizendo: "Anany a trouxe até mim, é por isso que está viva!". Ele passa a cuidar de mim, e eu vivia ali, com ele e os dois garotos, que se tornaram meus grandes amigos. Acho que Hyoga se afeiçoou mais a mim por ambos termos perdido nossas mães, a quem éramos muito apegados.
O homem a quem chamavam de mestre explicou sobre os Cavaleiros, me contou a história de Anany, disse que o amuleto respondia a mim por eu ser a escolhida. Atena pedira e abençoara a jóia. Com o metal das armaduras, podia teleportar aquele capaz de usá-lo através do espaço e das dimensões. O mestre também disse que meu destino era ser uma guerreira, lutar ao lado dos Cavaleiros contra o mal e pela justiça. Aceitei prontamente a missão, queria compensar a morte de minha mãe, evitando outras mortes por covardes como os que atacaram naquela noite. Seu nome era Camus, Cavaleiro dourado de Aquário, seus golpes baseavam-se no gelo. De comportamentos finos, era alto e tinha cabelos lisos cor de esmeralda, até os quadris, os olhos eram azuis escuros e parecia ser muito sério e severo, mas, no fundo, seu coração não era tão frio quanto suas técnicas.
Levei algum tempo para falar, o russo era bastante difícil. Na escola era Hyoga meu melhor amigo. Estudávamos na mesma sala, e era ele quem me ajudava com as tarefas, principalmente por causa do idioma.
Certo dia treinávamos condicionamento, correndo pela mata de pinheiros, quando Hyoga, um ano mais novo que Isaak, levou um tombo nas pedras do rio. Eu corri até ele e o ajudei a levantar, o mestre só observava, mas se espantou quando eu finalmente resolvi arriscar minhas primeiras palavras:
-- Você está bem? – e depois que Hyoga me olhou assustado – você tem que prestar atenção no lodo. – disse abrindo um largo sorriso.
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