-Ei Cassie, preso na terra dos sonhos?

Castiel tirou os fones de ouvido e abriu os olhos para encontrar seu irmão Gabe parado na porta, com um daqueles grandes pirulitos coloridos enfiado na boca.

-Gabriel por que você faz isso, você sabe que eu odeio esse apelido.

-É só desculpa, você ama e sabe disso. -Ele disse, entrando e pegando os fones do irmão, agora abandonados em cima da cama. -Você está ouvindo ACDC?

-Sim. Eles são legais. -Ele falou, tomando os fones da mão de Gabe que tinha a expressão completamente confusa.

-Desde quando você gosta de rock clássico?

-Desde hoje. -ele respondeu, recolocando os fones e ouvindo as batidas de "Hells Bells".

Não era exatamente uma mentira. Ele achava legal rock clássico, só nunca teve realmente paciência de parar para ouvir. Até hoje.

Gabe tinha os olhos semicerrados e olhava para ele com atenção.

-Castiel, eu sou teu irmão mais velho. Te conheço mais que você mesmo. O que ta acontecendo?

-Não ta acontecendo nada. Vá embora.

Nessa hora Gabriel deu uma risada e levantou batendo palmas.

-Ohoho. Eu sabia! Cassie tá apaixonado! Isso é tão lindo!Você me conhece, eu tenho um fraco para primeiros amores. Então me conta , como ele é?

Castiel se limitou a abrir os olhos e encarar o teto, colocando todo seu esforço em tentar não corar.

-Ah, vamos lá garoto! Eu espero há 17 anos por este momento, você não pode me privar disso!

Cas continuou sem se mover.

-Ok,ok, tudo bem. Mas já sabe, qualquer problema sentimental é só ligar pra o Disque-Gabe, as primeiras 10 ligações são gratuitas! -Gabriel falou, dando um sorriso e finalmente indo embora do quarto.

Não é que ele não quisesse falar com o Gabe. Ele realmente queria. Ele só não sabia o que falar. Dois dias atrás ele nem conhecia Dean winchester e agora ele simplesmente não conseguia pensar em outra coisa. Claro, ele já tinha gostado de outros garotos antes, obviamente, mas nunca tinha ficado tão fissurado em nenhum deles. Eram normalmente umas pegações na balada ou algo assim. Ele nunca nem teve um namorado. Bom, ele nunca realmente quis ter um. Ah, ótimo! Agora ele estava pensando em namorados! E justamente com um garoto que já tinha uma namorada! Só de pensar que enquanto ele estava sonhando, Dean devia estar nos braços de Jo, já trazia um sentimento de inveja que ele nunca havia sentido antes. Por que ela fazia Dean feliz. Ela podia abraçar ele, beijar ele, e ele iria gostar disso. E não ficar assustado ou até mesmo enojado como se Castiel tentasse fazer isso.

Sentindo o sentimento de frustração crescer cada vez mais, ele desligou o mp3 e se enfiou em seus pijamas e seus lençóis. Fechando os olhos, ele mergulhou em sonhos cheios de olhos verdes e jaquetas de couro.


Ele tinha chegado à escola bem cedo aquele dia, em parte para tentar evitar Zach e sua turma, que ainda mandavam olhares ameaçadores cada vez que Castiel passava por eles, e em parte por que ele precisava ir a biblioteca pegar um livro para o trabalho dado semana passada. Estava a caminho da sala quando viu um grupo de meninas paradas perto dos armários, todas ao redor de uma única garota, Jo, que chorava inconsolavelmente. Castiel queria ir até lá e perguntar o que havia acontecido, mas contando que ele nunca havia realmente falado com a menina antes, achou que iria parecer mais interessado em fofoca do que realmente ajudar, então continuou seu caminho. Mal ouvindo o que a menina dizia entre soluços, só entendendo uma palavra: Dean.

"Será que algo de ruim aconteceu com Dean?" Ele pensava, enquanto sentava em sua cadeira no fim da sala, a preocupação aumentando a cada minuto que passava.

O sinal bateu e depois de algum tempo Jo entrou na sala. Rumou firme para seu lugar atrás de Dean, com as amigas lançando olhares de piedade para ela.

E nada de Dean chegar.

Quando o sinal bateu novamente, ele já estava fora de si de apreensão e decidido a ir falar com Jo, perguntar para ela o que havia acontecido com o loiro, quando ouviu o ruído da porta sendo aberta e um Dean sorridente entrando na sala.

-Isso é hora de chegar Winchester? -Perguntou Hendrickson, o professor de física.

-Desculpe, eu estava ajudando a , aqui está um bilhete do departamento de biologia.

Ele respondeu entregando um papel ao professor e para a surpresa de todos, passando direto pelo seu lugar usual e indo sentar na cadeira vazia ao lado de Castiel. O moreno encarou o outro, olhos azuis arregalados num misto de surpresa e confusão.

-O que? -Perguntou Dean, quando finalmente olhou para o outro.

-O que tem de errado?

Dean franziu os olhos.

-Nada, eu só senti vontade de sentar aqui hoje. Não tem problema pra você, tem?

-Claro que não.

O loiro sorriu.

Eles passaram o resto do horário em quase absoluto silêncio. Não que Castiel se importasse. O silêncio deles não era nem um pouco desconfortável. Quando ele às vezes, pelo canto do olho, observava o loiro, este estava sempre escrevendo algo que ocupava toda sua atenção, apesar de não ter nada na aula para ser escrito. À tarde daquele modo passou rápido e logo era hora do intervalo. Castiel se sentou na sua mesa de sempre, seguido de perto por Dean que parecia perdido em pensamentos.

-Você não está realmente me seguindo por lanche, ta? -Castiel perguntou, em tom de brincadeira, quebrando o silêncio.

-O que? Hã? Claro que não Cas, eu não faria isso! -O loiro respondeu, parecendo horrorizado pela ideia.

-Está tudo bem Dean. -Ele respondeu com um sorriso, passando uma vasilha para o outro.

Dean abriu e seus olhos se arregalaram diante do pedaço de torta.

-Você ta bem?

Dean acenou, e com olhos fechados e dando um suspiro, fechou a vasilha e a devolveu.

-Eu não to aqui pela comida. -Ele falou, com o que pareceu ser toda sua força de vontade.

Castiel riu do esforço do outro e devolveu a torta.

-Ta tudo bem Dean, eu fiz para você. Pode comer.

O olhar no rosto de Dean era como se Cas tivesse acabado de salvá-lo de ser devorado por tubarões. Ele pegou um garfo e começou a comer.

-Você fez isso pra mim? Ta excelente. -Ele falou, e engoliu. -Obrigado Cas.

-De nada. Ei, você me salvou naquele dia do estacionamento. O mínimo que eu podia fazer era assar uma torta. -Ele parou, pensativo. -Argh, isso ficou muito senhora de meia idade, esquece.

Dean sorriu, concordando.

-Tem razão, ficou. Mas está realmente bom, você devia pensar em ser um chef ou algo assim.

-Nah. Eu geralmente só cozinho por que meu pai não para em casa e meu irmão consegue queimar ovos mexidos, então é isso ou morrer de fome.

-E sua mãe?

-Eu não conheço minha mãe. Tudo que sei é que ela e meu pai nunca foram casados e que depois que eu nasci ela simplesmente sumiu no mundo. Ninguém em casa fala muito sobre o assunto.

-Lamento por isso.

-Tudo bem, foi há muito tempo atrás. E você? Por que sua mãe não prepara tortas para você comer na escola?

Dean descansou o garfo e deu um suspiro, sério de repente.

-Desculpa, eu não devia...

-Não, tudo bem, Cas. Minha mãe morreu dando luz ao Sammy.

-Isso é horrível. E seu pai?

-Meu pai pirou depois que isso aconteceu. Ele sempre foi religioso, mas depois do que aconteceu ele ficou realmente fanático. Insistia que um demônio tinha matado a mamãe e que agora estava vindo por Sam. A situação ficou crítica quanto ele tentou matar ele, e foi internado dizendo que "Sam tinha um pedaço do demônio dentro dele e como ele não havia conseguido salvá-lo ele tinha que ser morto".

Dean terminou, a indignação em cada palavra.

-Sam não tem nada de demoníaco nele. É o garoto mais doce do mundo. Meu irmãozinho nerd não machucaria nem uma mosca.

-Lamento muito por isso, Dean. Você ainda fala com ele, seu pai?

-Às vezes eu vou visitar ele. –Ele continuou, a tristeza perceptível em cada movimento. -Na maioria das vezes ele está drogado então não é exatamente uma visita.

-Quem cuida de você e Sam agora?

Dean sorriu completamente sem humor.

-Nosso avô, Samuel. Quer dizer, cuidar é exagero. Ele recebe o dinheiro do seguro social e passa pra gente, só. -Notando o olhar confuso do moreno, explicou. -Ele odeia o Sammy, culpa ele pela morte da mamãe. A casa dele é praticamente um museu de adoração à Mary Winchester. Quer dizer, eu amo minha mãe. Realmente a amo. Mas eu não vou encher a casa de fotos dela esperando que por um milagre ela volte.

Deu um suspiro cansado e continuou.

-Então agora eu e Sam mudamos para uma casa no terreno de um antigo amigo do meu pai, Bobby Singer. Ele é muito legal. Sempre fica com Sam quando eu não posso. E até convidou a gente para morar com ele, mas eu achei melhor não. De qualquer jeito, a casa e praticamente ao lado da dele e como ele deixa a gente morar lá sem aluguel, não é como se fosse muito diferente.

-Nossa, eu não tinha a menor ideia.

-Não tinha como ter, fora a Mrs. Ellen, que é também uma velha amiga, você é primeiro e único aqui que sabe disso.

-Uau, obrigada pela confiança. -Ele falou, observando Dean enquanto este comia o ultimo pedaço de torta.

Dean apenas acenou em resposta. E, engolindo, se virou para o moreno.

-Ei, eu estava pensando. Eu estou tendo uns problemas com física, e, como eu sei que você é um dos melhores na matéria, queria saber se você podia me ajudar a estudar para a avaliação.

Castiel ficou surpreso com o pedido. Ele não havia notado nenhum problema de Dean com a matéria.

-Hã, claro.

-Então, a gente pode se encontrar neste final de semana? Você sabe, o teste é segunda, hoje é sexta...

-Tudo bem. Que tal na minha casa, às sete? Nessa hora só vai ter eu em casa e a gente pode estudar melhor. -Castiel falou, sentindo a vermelhidão subindo pelo seu rosto.

Ele acabara de convidar Dean para a casa dele, à noite, tendo só os dois em casa? Oh. Deus. O que ele estava fazendo.

Dean sorriu e os olhos dele brilharam.

-Perfeito.

Peraí, Dean acabou de aceitar? O que diabos ta acontecendo? O moreno já começava a imaginar mil coisas quando viu Jo entrar no refeitório, os olhos vermelhos e ainda cercada de amigas.

-O que tem de errado com a Jo? -Ele perguntou, apontando com um aceno para a menina, que estava fora do alcance de vista de Dean.

-Nós meio que terminamos.

Castiel estava envergonhado do quão feliz ele estava em ouvir aquilo.

-Bom, pelo estado dela eu suponho que esse 'nós' seja mais 'você'.

Dean concordou, cautelosamente.

-Eu percebi que estava gostando de outra pessoa e não ia ficar enganando ela.

O estômago dele afundou. Dean estava gostando de alguém. Castiel pensou, toda a felicidade anterior se esvaindo dele em segundos. Antes que ele pudesse perguntar quem era esse alguém o sinal bateu e Dean se levantou, com a mochila nas costas.

-Eu preciso ir, a gente se vê amanhã, Cas.

Ele falou, dando um sorriso irresistível para Cas e virando para ir embora, enquanto o moreno continuou parado, vendo o loiro se afastar.