Notas do Autor
Personagens de Tite Kubo
Capitulo 4
A pequena afronta a Byakuya-O cómico começo de uma catástrofe
― Ora, ora, vejam só quem temos aqui! Hum, a reiatsu materializou-se, dizeis vós.
Urahara estuda minuciosamente o rosto de Ulquiorra enquanto Ururu lhe põe panos húmidos no corpo para aliviar a temperatura que havia subido após a libertação de energia.
― Sim, e era bem densa. ― confirma Ichigo.
― Na verdade, isso não me surpreende muito. Tal como eu desconfiava, ele não é humano. Vejam como a carne dele é preta por baixo da pele pálida. ― os presentes aproximam-se e logo vêem que Urahara tem razão. A carne visível das suas carnúculas lacrimais, dos lábios e dos sabugos é, de facto, negra. ― Eu não posso dizer o que está a acontecer ao certo mas, este corpo é como um gigai natural feito da sua própria reiatsu materializada. Creio que funciona como um casulo, ou, por outras palavras, ele está a transformar-se em qualquer coisa e para isso precisa de baixar os seus gastos energéticos ao mínimo, um corpo material é essencial para que isso aconteça neste mundo.
― Hã? Mas, então... ele está a transformar-se? Estou confuso.
― Talvez seja apenas um processo de recuperação. É muito provável que se torne novamente um hollow assim que tiver forças suficientes para se sustentar como forma espiritual. Um hollow é um ser viciado, sem razão para viver e certamente destinado á não existência. Mas eles, por causa dos seus instintos pecaminosos, insistem em existir e tornam-se predadores. Temos que ver, Kurosaki-san, reiatsu materializada de forma natural, excesso de sono e de fome, e o ataque de ódio que o possuiu por o terem forçado a despertar, são tudo coisas de hollow.
Byakuya pousa o copo de chá na mesa.
― Assim sendo, não há mais nada a discutir. Hollow com corpo ou hollow sem corpo, tem de ser destruído.
Ichigo sobressalta-se:
― Não, espera. Mesmo sendo um hollow, nós não podemos afirmar que ele seja perigoso. Quando estive no Mundo Hueco aprendi que nem todos os hollows são criaturas corruptas.
― Deixa-te disso, Kurosaki, esses teus amigos hollows são a excepção que confirma a regra. ― diz Toshirou.
― Toshirou?
― Lamento, mas tenho de concordar com Kuchiki-taichou. ― o rapaz prodígio fecha os olhos como forma de concentração. ― Um hollow só existe porque devora outras almas. Se ele estivesse no Mundo Hueco e se alimentasse de outros hollows, não seria grande problema, excepto naquela parte em que eles nunca ficam lá por muito tempo, acabam sempre por causar sarilhos. O pior é que ele está aqui, no mundo dos vivos e, se o Urahara-san estiver certo, tão cedo ele não será capaz de devorar outros hollows por causa da sua fraqueza. Mas a única forma de recuperar as forças é alimentar-se, então ele vai escolher as presas mais fáceis. Mais cedo ou mais tarde, começará a fazer vítimas inocentes e é isso que nós não podemos permitir.
― Mesmo assim! ― grita Ichigo em protesto. ― É muito cedo para fazermos uma coisa dessas. Como é que se pode erguer uma espada sobre alguém que luta desesperadamente para sobreviver? Isso não está certo.
― Estás a ser muito ingénuo, Ichigo. ― agora Toshirou também está exaltado. ― Não ouviste o que Urahara acabou de dizer? Não há nenhum ser que insista mais na existência do que um hollow. Todos os que já mataste lutavam para sobreviver. Todos nós lutamos para sobreviver, não é isso que nos dá o direito de fazer mal aos outros.
― Para uma criança, tens muita filosofia...
― O que estás a dizer?
― Eu acho que o Kurosaki-kun tem razão. ― Toshirou e Ichigo param de discutir. Agora todos prestam atenção a Inoe, ao seu rosto triste. ― Ulquiorra-san nunca me transmitiu nada de bom. De todas as vezes que senti medo, ele foi sempre aquele quem eu mais acreditava que nunca faria um sacrifício por mim. Ele seria o último a quem eu pediria ajuda. No entanto, no seu momento final, houve qualquer coisa que mudou. Mesmo assim eu nem tentei fazer nada por ele porque não tinha a certeza. Tive medo que, se ele não morresse, fizesse algum mal irreparável ao Kurosaki-kun ou aos outros. Mas agora, vendo-o ali quietinho, sinto alegria por saber que não morreu daquela maneira. Tenho consciência do risco, mas...penso que devíamos esperar para ver.
Ichigo sorri.
― Obrigado, Inoe.
― Kurosaki Ichigo. ― Byakuya olha-o de soslaio. ― Não importa o que tu digas, não importa a opinião dos teus amigos. Mesmo que não me deixeis matá-lo aqui e agora, este assunto será levado à assembleia dos capitães. Quando o capitão-comandante der ordem para o eliminar, eu fá-lo-ei. Quem se opuser ao meu dever será declarado traidor.
― Eh! Byakuya-taichou, não sejas tão stressado. Afinal não sabemos se o avô Yama não terá outros planos. ― Shunsui dirige um olhar sob o seu chapéu aos olhos de Urahara. ― Kisuke, tens de me dizer o segredo deste chá.
― Se to dissesse, não seria mais segredo.
― O comandante Yamamoto presa a ordem e a justiça. Quem tem responsabilidades como as suas não pode deixar que insignificâncias atrapalhem o bom funcionamento de ambos os mundos. Essa vossa esperança de que aquele hollow venha a ser uma entidade correcta é tão ridícula que eu não posso duvidar que decisão o comandante tomará. ― Byakuya sente-se ofendido por o terem ignorado para falar de chá, mas não o demonstra, fala sempre num tom calmo e altivo.
― Eu sabia que isto ia acontecer. ― Ichigo enerva-se e novo. ― Oi, Renjiiii! Eu chamei-te a ti e á Rukia, não era para dizer nada a ninguém.
― Hã? Como é que tu sabes que fui eu?
― Eu não fui. ― diz Rukia aborrecidamente.
― É claro que foste tu, Renji. A Rukia não seria tão idiota.
Renji começa a entrelaçar os dedos das mãos com os nervos.
― Eu...eu não tive como evitar. Kuchiki-taichou pressentiu que se passava alguma coisa e obrigou-me a falar.
Byakuya nem o olha.
― Renji... ― Renji estremece ao ouvir a voz do seu capitão. ― Não pensaste nem por um momento em ocultar algo assim ao teu capitão, pensaste?
― Ha, não. Claro...claro...que...não.
Rangiku levanta-se.
― Bom, então está decidido que aguardaremos a decisão do conselho.
― Matsumoto, não sejas tão atrevida.
― E tu não sejas tão velhaco, taichou. Não tens idade para isso. ― ela abre um sorriso aproveitador. ― Agora que não temos mais nada que fazer o resto do dia, vamos beber saquê.
― Que estás a dizer, Matsumoto? Não são horas de beber saquê. ― ela já está a servir toda a gente. ― Pára imediatamente com isso. Onde arranjaste esse saquê?
― Toshirou-taichou. Tem calma, ninguém te vai obrigar a beber, nós sabemos que não tens idade. ― Shunsui pega no seu saquê, fitando os nervos visíveis na testa de Toshirou. ― Mas tens que admitir, saquê é bem melhor do que chá.
― Não é isso. ― os nervos de Toshirou extravasam. ― Com ou sem trabalho, nós ainda estamos em horário de serviço. Somos shinigamis, se algo inesperado acontecer, temos de estar prontos para resolver a situação. O nosso cargo é de grande responsabilidade, não podemos agir como um bando de moleques.
― Hahahahahaha! ― Ichigo ri com as lágrimas nos olhos. ― Essa foi muito boa, Toshirou.
― O quê?
Indiferentes á discussão novamente acesa entre Ichigo e Toshirou, os restantes bebem o seu saquê.
― Ni-sama, já acabaste? Toma, bebe mais um bocadinho. Afinal estás sempre sóbrio, mais um golinho não te fará mal. ― Rukia serve mais uma dose a Byakuya, no entanto repara que este parece incomodado. ― Ni-sama, está tudo bem?
Byakuya alarga o "ginpakukazaharu no usugime" lenço á volta do pescoço.
― Está um pouco quente aqui.
― Deve ser por causa do saquê. Não é melhor tirares o lenço?
― Sim, Byakuya-san. ― diz Urahara. ― despe o lenço por um bocadinho, pousa-o aqui. Afinal parece que estamos numa reunião de amigos agora.
Contrariado, Byakuya cede e coloca cuidadosamente o seu lenço no chão, um pouco distante da mesa, não vá Rangiku destruí-lo com a sua já notada bebedeira. Urahara dirige-se a Ukitake.
― Bebe mais um pouquinho também.
― Não, obrigado. Se abusar, daqui a pouquinho estou ali deitado junto a Ulquiorra-kun.
Do outro lado, Ichigo e Toshirou ainda não afrouxaram. Ishida ajeita os óculos.
― Pára com isso, Kurosaki. Tu também não tens idade para beber.
― Hã? Ishida, seu maldito, o que estás a dizer? Eu tenho dezoito anos, ouviste bem? Dezoito anos. Vou entrar agora para a faculdade.
― Dezoito anos não é nada comparado com a minha verdadeira idade. ― remata Toshirou.
― Isso é bem verdade. Hahahahahaha. ― Rangiku aparece por trás do seu capitão, agarra-lhe o queixo com uma mão e com a outra entorna-lhe uma torrente de saquê na boca, directamente da garrafa. ―Já é mais do que altura de começares a beber, taichou. Bebe, bebe tudiiinho.
Toshirou esbraceja sem se conseguir libertar do abraço maquiavélico da sua tenente.
― Matsumoto! Eu vou-te matar.
A taça de Byakuya cai, de repente, sobre a mesa, chamando a atenção de todos os presentes. Eles vêem-no com uma sombra no rosto, fixando algo ao seu lado. Espreitam para ver o que transtorna o capitão nobre e descobrem Ulquiorra ainda dormindo sobre o colchão, numa posição diferente da que estava antes, agora todo embrulhado no lenço branco. Petrificados, os doze presentes deixam que os seus olhos acompanhem, em sintonia, Byakuya levantando-se e caminhando lentamente, na sua postura habitual, em direcção a Ulquiorra. Ele tem a sua zampaktou na mão e saca-a da bainha. Agora ele está parado perante o corpo caído, com a espada na vertical pronta para furar a sua vítima de um lado ao outro. Os outros não são capazes de reagir. Byakuya dá então um golpe firme em prol que salvar a sua honra. Mas, milagrosamente, Ulquiorra rebola para o outro lado escapando assim por um ínfimo instante. A ponta da zampaktou atravessa o lenço e fica espetada no chão. O movimento de Ulquiorra repuxa o dito lenço para o seu lado fazendo com que este se rasgue sob lâmina da espada. Os espectadores ficam sem respiração, parece que o próprio coração pára. Byakuya também está estarrecido com os dentes serrados e os olhos coléricos como nunca se viu. Por seu lado, Ulquiorra continua alheio a tudo isto, dormindo serenamente. Recuperando o controlo das suas acções, o capitão apenas diz:
― Chire Senbonzakura!
Num salto, Ichigo, Renji e Ukitake atiram-se para cima de Ulquiorra, protegendo-o das pétalas de flore de cerejeira laminadas. Mas é o kimono de Shunsui que as dispersa.
― Peço desculpa, Byakuya-taichou, mas neste momento, este hollow é um exemplo para todos nós.
― O quê?
― Bem, bem.. ― Shunsui sorri com a sua voz sempre a cantar. ― Ele está a fazer aquilo que todos nós devíamos estar fazer.
― A dormir?
― Uma óptima ideia, não é mesmo? ― ele olha para o kimono todo retalhado na sua mão. ― É, parece que este kimono já não pode com mais floridos. Hahaha.
Byakuya tem os punhos a tremer de ódio, mas logo se recompõe. Ele dirige-se para a saída.
― Vamos embora, é altura de regressarmos ao Seireitei.
― Espera, Kuchiki-taichou. ― Byakuya olha para Ishida segurando o seu lenço esfarrapado não mão enquanto que com a outra ajeita os óculos. ― Creio que consigo remendá-lo. Amanhã deve estar pronto.
― O meu lenço é o maior símbolo da minha ascendência nobre, não aceito remendos.
― Mas estamos a falar de um remendo de alta-costura, um remendo feito para um nobre.
― Faz o que quiseres.
O capitão abre a porta, todos os outros shinigamis o seguem. Urahara fixa-os sob a aba do chapéu.
― Só mais uma coisinha.
Eles voltam-se para olharem para ele e vêm um dos seus olhos brilhar na sombra.
― Eu ofereci o chá, mas não ofereci o saquê.
Notas Finais
Como se costuma dizer...cá se fazem, cá se pagam...XD
