Primeiro Interlúdio:

Artigo do " The Nature World: Journal of Science"

Jan/Fev. de 20...

O que antes era apenas uma previsão teórica da Ciência, tem se tornado algo prático e cotidiano para os pilotos da aviação comercial que sobrevoam a Groenlândia, a Islândia e a região da Patagônia argentina e chilena: as bússolas não mais se estabilizam enquanto sobrevoam estas regiões.

"A Teoria da Migração do Campo Magnético da Terra não é recente. Mas o que temos visto nos voos comerciais sobre a Groenlândia, Islândia e Patagônia, recentemente, são as evidências que tem corroborado amplamente a teoria" afirma o Dr. Quincey Seward, da National University, de Happy Harbor, em entrevista exclusiva para a The Nature Word Journal of Science.

Décadas atrás, geofísicos como Peter Olson, da John Hopkins University, acreditavam que o Campo Magnético da Terra teria um ritmo de decaimento que o permitiria se manter estável por cerca de mil anos. Naquela época, já se sabia que o Campo Magnético estava em decaimento. As evidências do declínio vinham da Arqueologia: da cerâmica que as pessoas haviam feito há milhares de anos. A cerâmica agia como um gravador de fita magnética, registrando o Campo Magnético da Terra no momento em que o vaso foi feito. Na argila crua os minerais ferrosos de magnetita apontavam para diferentes posições, mas quando o vaso de argila crua era cozido, o intenso calor apagava a desorganização anterior; quando o vaso começava a resfriar-se, reorganizava estas posições em conformidade com o Campo Magnético da Terra, como agulhas de bússolas e, ao ficar frio, o vaso ficava magnetizado. Quanto mais forte o campo, mais magnetizado o vaso frio ficava. Examinando cerâmica desde a pré-história, observou-se que nos últimos 300 anos o campo caiu 10%, e o ritmo do declínio estava aumentando.

Na mesma época, pesquisadores como Mário Acuna, da NASA, já afirmavam também que se a rocha derretida – oriunda de uma erupção vulcânica – esfriasse em um forte campo magnético, os minerais ferrosos dentro desta rocha derretida podiam reter esse magnetismo e a rocha sólida resultante seria magnética: tínhamos um registro, na rocha, do campo magnético no momento em que ela solidificou-se.

Nas ilhas vulcânicas do Hawai há registros de milhões de anos de uma espetacular série de picos magnéticos. O Monte Kilauea forneceu muito material para pesquisa. Décadas atrás, pesquisadores como o geofísico Mike Fuller, da Hawai University, já sabiam que quando a lava atinge o mar, esfriava muito rápido, prendendo e registrando o Campo Magnético da Terra. E como os vulcões do Hawai estão em atividade há milhões de anos, cada camada de lava continha um registro do Campo Magnético da época da erupção. Quando a lava esfriava, analogamente à cerâmica, registrava não somente a força do campo mas a sua posição. Naquela época, décadas atrás, o Campo Magnético sempre corria do Sul para o Norte e os derramamentos de lava demonstravam isso: apontavam para o Norte. Porém, amostras mais antigas já demonstravam que o Campo Magnético apontava para o Sul, há cerca de 780.000 anos. Em algum momento o Campo Magnético inteiro da Terra girou em 180°. E os cientistas, já naquela época, perceberam – analisando amostras de lava cada vez mais antigas – que em média o Campo Magnético revertia a cada 200.000 anos. Dessa forma, afirmava Fuller, "parecia que estávamos um pouco atrasados para esta reversão".

"Bem, não estamos mais atrasados. Ela já está acontecendo", afirma hoje o Dr. Seward. "E as previsões de décadas atrás falharam. Diziam que no ritmo de decaimento que se observava, aconteceria em mil anos ou em séculos, mas o decaimento se acelerou de tal forma que a Reversão já é uma realidade iminente", completa o Dr. Seward.

Porém, o que explica a instabilidade das bússolas na Groenlândia, na Islândia e na Patagônia, que tem sido a dor de cabeça dos pilotos da aviação comercial?

A resposta a isso já estava na boca, décadas atrás, do geólogo Rob Coe, da Saint Cruz University of Califórnia, que já naquela época era um expert no estudo das Montain Steens, no Oregon, EUA – uma vasta cadeia de centenas de derramamentos de lava, com mais de 1 km de diferentes camadas de erupções, bem numa época em que a Terra estava no meio de uma Reversão. Na época, Coe já observava que quando começava a Reversão, a intensidade do Campo Magnético da Terra caía em 80 a 90% e o campo começava a apontar para o Sul, mas não estabilizava. E o Campo Magnético da Terra praticamente desapareceu por 3000 anos, e o que dele restou variava tanto que Rob encontrava erupções que pareciam mostrar o improvável para a ciência daquela época: as bordas daquela erupção – que esfriaram mais rápido – tinham uma direção, mas o centro da erupção, outra, diferente em 60°, o que daria uma mudança de 6° por dia! Coe já afirmava, décadas atrás que "se alguém estivesse observando isso com uma bússola, poderia ver a movimentação do ponteiro com os próprio olhos. Algo atordoante extraordinário."

Algo atordoante e extraordinário que os pilotos da aviação comercial tem sentido agora, na própria pele.

"Montain Steens já sugeriam que poderíamos entrar em um Caos Magnético, mudando a cada dia. E teríamos um Campo Magnético mais fraco que permitiria que mais radiação cósmica atravessasse a Terra, o que elevaria a radiação no nível do solo" afirma o Dr. Seward, em entrevista exclusiva para a Nature Word Journal of Science.

"Quando o Campo Magnético colapsar completamente, teremos talvez não dois pólos, mas talvez 4 ou 8 pólos, movendo-se devagar, pela superfície da Terra: um Caos Magnético. Potencialmente, muito em breve, teremos Auroras Boreais e Austrais visíveis em vários pontos do planeta: este será um sinal muito preocupante" completa o Dr. Seward.

Mas o que tem igualmente intrigado muitos pesquisadores são alguns relatos dos pilotos e de muitos passageiros quando sobrevoam essas regiões – como Groenlândia, a Islândia e a região da Patagônia argentina e chilena – onde o Campo Magnético tem se demonstrado tão instável: são relatadas uma série de alucinações.

Algumas pessoas chegam até mesmo a afirmar, convictamente, que conversaram com entes queridos que já morreram, dentro dos aviões, sentados em poltronas ao seu lado. Outros afirmam verem anjos, fadas, demônios e dragões voando ao lado dos aviões.

"Estamos pesquisando para saber definitivamente se tais alucinações tem alguma relação com a súbita alteração do Campo Magnético da Terra nessas regiões do planeta. Os experimentos ainda não são conclusivos, mas já existem fortes evidências apontando que tais alterações do Campo Magnético tem afetado zonas importantes de percepção do córtex cerebral, como o lóbulo parietal, o que poderia efetivamente causar eventos alucinatórios desta natureza. Há também alguns estudos que indicariam que a glândula epífise – também conhecida como pineal – estaria sendo afetada pelas alterações do campo, mas tais estudos carecem ainda de muitas evidências para serem considerados relevantes. A alteração no funcionamento do lóbulo parietal tem se tornado cada vez mais consenso entre os pesquisadores para explicar as alucinações, porém precisamos saber mais detalhes sobre como este distúrbio ocorre em função do Campo Magnético instável" afirma o Dr. Big Head, da National University de Happy Harbor.

Reportagem

The happy harbor Daily

Segunda-feira, 03 de Novembro de 20...

Alucinações em massa geram pânico

O que poderia ligar a cidade de Blademboro, na Carolina do Norte, Estados Unidos, com a cidade de Colares, em plena Amazônia Brasileira?

Os hospitais tem a chave para esta resposta, mais precisamente em seus Departamentos de Psiquiatria:

"Parece que está havendo um surto de esquizofrenia coletiva por drogadição em massa, neste feriadão de Finados. Nossas emergências estão superlotadas, desde 31 de outubro, por pessoas que afirmam categoricamente estarem vendo e ouvindo pessoas mortas, principalmente nos arredores dos cemitérios. Suspeito fortemente que estão 'fumados', consumindo algum tipo novo de droga ilícita" afirma o Dr. Reginaldo Momus, diretor do Departamento de Psiquiatria do Hospital Nossa Senhora da Boa Morte, na região central de Colares, no Brasil.

"Nossa região tem um histórico de alucinações, desde os anos 1950 do século passado. Parece haver ondas de histeria coletiva em Blademboro a períodos que variam entre vinte a quarenta anos, desde então. A última histeria foi há mais de vinte anos. Naquela época eu já era médico residente neste hospital. Mas nunca vi nada igual em nenhum registro médico ao longo de toda a história de nossa cidade: clínicas particulares, emergências de hospitais, todos absolutamente lotados por pessoas que afirmam terem visto pessoas mortas, espíritos, esqueletos caminhando, seres peludos e grandes, anjos, fadas, elfos, demônios, dragões, principalmente próximos aos cemitérios... algumas afirmam terem até mesmo conversado com entes queridos que já faleceram. Outras vão ainda mais longe: nos mostram hematomas e outros ferimentos e afirmam categoricamente que foram agredidas por tais alucinações" afirma o Dr. Bonobus Kvitkhus, diretor do Hospital George Bush, de Blademboro, na Carolina do Norte, Estados Unidos.

"Estamos analisando cuidadosamente as fontes de água de nossa cidade. Suspeitamos que talvez haja algum agente alucinógeno contaminando a rede hidráulica de abastecimento de Blademboro. Talvez seja um novo tipo de ação terrorista que precisa ser elucidada. A CIA e o FBI já estão no caso" completa o Dr. Kvitkhus.

Segundo Interlúdio:

Breve Cena... Happy Harbor

Século XXI...

Foi num dia ensolarado, com o céu azul... daqueles dias que todas as pessoas diziam ser um "dia lindo"... mas para ela, aquele dia seria desprovido de beleza...

A cidade? Happy Harbor... O bairro? New Bethlehen...

A menina de nove anos estava sentada no pátio da escola... era aula de Educação Física, mas a sua professora, Irina, sabia que ela era extremamente tímida... ela tinha simpatia pela menina calada, estudiosa, extremamente bem educada e quieta...

Professora Irina achava aquela menina brilhante, possivelmente a melhor aluna dentre todas as crianças de sua idade naquela escola: uma menina de pensamento rápido, muito criativa, original, uma menina que sempre estava com um livro na mão... mas que sempre preferia a companhia das árvores e bichos do que de crianças...

Conversava muito pouco, sempre na defensiva... parecia que as outras crianças e pessoas a assustavam, e muito!

Desde seus seis anos lhe acompanhava, fiel, o seu mutismo...

Seu imenso temor...

Quantos perdem a fé, e louvam o medo, porque os Deuses não lhes falam ou lhes mostram tão pouco?

Porém, para aquela menina... foi diferente:

Aos seis anos, naquele Cemitério, o medo a abraçou porque os Deuses lhe falavam e lhe mostravam muito!

E os Deuses nunca mais se calaram para ela!

Desde então, ela fez de tudo para se proteger daquilo que ainda não tinha capacidade de compreender... uma complexa vida mística...

Em sua vida escolar?

Sempre que podia, a menina tentava escapar à Educação Física.

Súplicas para dispensa das aulas.

Dores forjadas. Por vezes, golpes perfeitos. Por vezes, artimanhas ingênuas que não funcionavam.

Daquela vez, o golpe era perfeito:

Braço enfaixado "por torção" em casa.

Todavia, naquela manhã, sua professora insistiu na má idéia de obrigá-la, ao menos, a ficar no pátio tomando aquele lindo Sol junto das outras crianças... embora ela pudesse ficar lendo sentadinha no seu cantinho, se quisesse... e assim ela fez.

A menina estava muito contente com um presente de sua avó: um livro que narrava a história dos Deuses e Deusas antigos da África...

Um livro que contava a história de Reis e de Rainhas que, quando partiram, se transformaram em Deuses e Deusas... de Reis que foram Senhores da Guerra, do Ferro, das Pedreiras, das Matas, das Folhas... de Rainhas que foram as Senhoras dos Ventos, das Tempestades, das Cachoeiras, dos Rios, do Mar... as histórias dos Senhores do Sol e das Senhoras da Lua!

E os olhinhos da menina brilhavam ao ler os grandes feitos dos Deuses e Deusas que andaram junto aos homens, na Antiga Mãe África!

Porém, a professora precisou se ausentar por algum tempo junto de sua turma no pátio, enquanto as crianças praticavam esportes...

Foi então que aconteceu... tudo debaixo do lindo e brilhante Sol, daquela manhã de límpido céu azul...

Enquanto a menina lia, dois meninos da sua turma chegaram perto dela, rápidos, e arrancaram o livro das suas mãos!

Ela, a mais baixinha das crianças da turma, e a mais magrinha: isso dificultava tudo...

Os meninos, ao folhearem o livro, fizeram chacota:

- Ela tá com um livro de feitiçaria! Minha mãe disse que a vó dela é do diabo, que o diabo visita a velha!

A menina tentou revidar, mas não conseguiu senão gaguejar:

- Devolve meu livro, Christian!

- Não! Isso aqui é só pra fazer maldade, feitiço! Eu vô jogar fora!

A menina então pulou nas mãos de Christian e conseguiu pegar seu presente de volta! Mas o outro menino, Peter, puxou-a forte pelos seus longos cabelos, derrubando-a no chão! Mas ainda assim ela continuava agarrada ao presente de sua avó!

Peter a puxou com tanta força que parecia que os longos cabelos negros daquela menina de pele branquinha seriam todos arrancados de sua cabeça, de uma única vez! Nesse momento, a menina gritou de dor: as outras crianças pararam os seus jogos no pátio e começaram a se aglomerar ao redor.

Três meninas saíram correndo para chamar a professora Irina!

Foi tudo muito, muito rápido!

Antes que as outras crianças chegassem perto, Christian subiu em cima dela, agarrando-a pelos braços, e falou a Peter:

- O Pastor disse que ela tem até uma marca do diabo no pescoço! Que foi onde o diabo beijou ela quando ela nasceu! Olha aqui!

E Christian disse isso mostrando ao seu amigo uma marca de nascença no pescoço da menina...

A menina, mesmo segurada pelos cabelos por Peter, e mesmo com os braços apertados por Christian, num desesperado ato de defesa, soltou um dos braços e, com o livro enorme, conseguiu desferir um golpe certeiro no rosto de Christian!

Uma forte "livrada" no nariz!

O sangue respingou, abundante, do nariz do menino!

Foi tudo tão, tão rápido!

Quando a professora Irina retornava ligeira ao pátio, chamada aos gritos pelas três meninas – avisando que Christian estava brigando novamente! – ela pode presenciar, com seus próprios olhos, aquele momento:

O momento em que Christian, com o nariz sangrando, olhar em fúria, montado em cima da menina e com um pedaço de pedra – retirada do piso despedaçado do pátio da escola – deu um golpe com esta na cabeça da menina! A jovem professora gritou:

- Selene!

Foi a última coisa que a menina ouviu naquele lindo dia ensolarado... Tudo ficou muito confuso para ela depois disso...

Os sons pareciam tão longe...

As pessoas falavam, mas ela não entendia nada...

Os olhinhos dela pareciam não enxergar nada direito... Seria por causa de um líquido escuro e quente que escorria abundante da sua cabeça, cobrindo até seus olhos?

A menina sentiu que havia muita gente ao seu redor...

Sentiu que mãos fortes de um adulto a tomaram e a carregaram nos braços, correndo...

Ela ainda conseguiu ver o Sol, brilhando lá fora... queimando o seu rostinho branquinho... ferindo os seus olhinhos... alto, lá no céu... bem longe... supostamente indiferente e distante da dor das pessoas...

O Sol, que parecia não fazia nada, que parecia não interferir, que parecia não ajudar ninguém, que parecia não impedia que as pessoas machucassem umas às outras...

O Sol, que apenas parecia debochar dela, queimando o seu rosto e os seus olhinhos...

Foi a última coisa que ela viu... em muitas semanas. O Sol.

Retorno à palavra: Selene Stern!

Postagem 4. À Espera de um Milagre

(The Green Mile, 1999, EUA)

Solidão...

Solitude...

Solo...

Soledade...

Seria capaz de tecer, neste momento, um dicionário completo de sinônimos... Era o sentimento em que eu havia me especializado... mesmo desejando que isso jamais tivesse acontecido...

Solidão...

O seu ácido teor corrosivo devorava qualquer coisa... Dentro de mim? Canibalismo interior... autofagia...

As coisas só pioraram desde que me senti expulsa de Lamy Village... e ter que viver como asilada, como refugiada, nos fundos da casa de Pink Pig.

Restava-me apenas Ayaan...

Restava?...

Ayaan era uma guria mega ativa. Tinha um ótimo trabalho... A crise mundial havia sido generosa pra algumas pessoas... Excelente Bruxa que era, Ayaan era, o que ela mesma dizia, "um produto de crise".

Produto de crise: aquilo que se vende fácil quando a coisa fica feia.

A lista de ofertas desse produto? Ampla!

Segurança privada...

Quem perdeu o que tem, desespera-se. E quem tem, protege-se com mais armas. Foice e martelo dos seguranças privados.

Ouro...

Quem é burro pra investir em ações, títulos, euro ou dólar, quando nunca se sabe como a megera indomada Wall Street acordará na manhã seguinte?

Psiquiatras...

Ondas de suicídio ficam mega intensas. Não são todos que conseguem aguentar ir dormir rico, ou com um bom emprego, e na manhã seguinte despertar do seu sonho americano, sem grana nem pro leite das crianças... Hora de alguns fazerem mais dinheiro legalmente, vendendo muitas "boleta" da felicidade, criando novas nomenclaturas médicas pra DSM/CID!

Falcões-rei das finanças...

Os mais ferozes e espertos até mesmo provocam as crises. Devoram os falcões menores, velhos e fracos.

Quebram-nos, desossam aquilo que tava frágil, os devoram, se tornando maiores e mais fortes ao comê-los: bancos menores, mercados fragilizados, países menores, povos ingênuos repletos de pessoas sem malícia.

Tiranos... Ditadores... Salvadores da Pátria...

Épocas de crise são um delicioso pretexto pra decretar ou votar leis e regimes de exceção. Rasgar antigos princípios constitucionais: seu adocicado sonho de consumo!

Escritores de autoajuda...

Por vezes, páginas ricas e sinceras, que podem fazem a diferença entre a vida e a morte de alguém desesperado, quando este abrirá uma gaveta pra pegar o seu revólver – e "acabar com tudo" – mas por acaso o texto que está ao lado do metal algoz lhe chama a atenção... Esperança e talvez mudança...

Por vezes, páginas pobres e matreiras, escritas pra engordar o poder de controle de "religiosos" ou "gurus"... Matemática mega simples: fiéis igual a controle. Controle igual a lucro.

"Sê, quando a coisa aperta, é só assim que as pessoas buscam alguma Espiritualidade: pra resolver os seus problemas imediatos. Mas a Espiritualidade precisa ser funcional, não apenas discurso vazio, verborragia! Quando as coisas vão aparentemente bem, ninguém se dá conta que há mais no Universo do que esse estilinho de vida babaca que as pessoas levam. O universo não é medíocre, como essa vidinha que os Homer Simpson levam. Mas só quando a coisa aperta pra elas é que pessoas como eu vão ao topo da sua lista na agenda de telefones!"

Ayaan e sua teoria do produto de crise...

Eu não conseguiria fazer o que ela, junto com sua mãe, a Grã-mestra do coven, fazia. Ser uma empresária esotérica bem sucedida.

Era um dom que eu não tinha.

Ela era descolada, esperta pra oportunidades!

Se os serviços dela funcionavam mesmo e realmente resolviam os problemas dos seus clientes?

Isso eu não sei...

Suspeito que sim, porque parecia haver muita gente satisfeita com ela. Mas minha suspeita se reforçava era com isso: pastores e médicos andavam falando muito mal dela... Sinal de que ela tava competindo com eles, dura no páreo, cabeça com cabeça!

Ninguém dá chute em cachorro morto, nem gasta pólvora com chimango...

Eu não conseguia ter aquele faro, aquela capacidade de se adaptar tão fácil e tão rápida pros imprevistos e as possibilidades... que fluía tão ao natural em Ayaan!

Era preciso ter também muita segurança em si mesma pra fazer o que ela fazia, se expondo daquele jeito: enfrentando aqueles caras todos, desprezando aquele monte de catarro de preconceito que a "sociedade cristã" de Happy Harbor amava despejar sobre os diferentes, os desviantes...

Em breve, Ayaan taria num programa de TV: convidada diária.

Ela, suas vestes negras, seu pentagrama dourado no pescoço e seu Tarot: na telinha!

Ayaan era muito ativa mesmo... e em todos os sentidos!

Pegou a idéia, né?

Richard não era o único rabo que ela tinha... Rabo de cachorrinho: aquilo que sempre anda atrás de você, sacode, e tá ao alcance da palma da sua mão quando você quer...

De onde ela tirava tanta energia, tanto fogo, heim?

Acho que nem a tempestade solar, vinda lá do Astro Rei, que incendiou os aparelhos telegráficos em 1859, tinha mais calor, fogo e exuberância que ela, eita!

Consequência lógica: a gente se ver agora era quase como marcar uma audiência com astro pop...

Agendamento complicado...

Aquela noite, no Cemitério de New Bethlehen... foi a última vez que nos vimos...

Conclusão prévia: por mais bela e fortemente tecida, em dourados fios, que fosse uma amizade de infância... por mais flagrância que ela tivesse exalado nos campos primaveris da adolescência... assim como os sonhos, ela também morre... Como tudo o que é imerso em vida, como tudo o que flui em precioso e cálido sangue: cresce... envelhece... e morre!

Conclusão final: da minha já enorme lista de possibilidades de conversa, restou...

Vácuo.

Eu não poderia me sentir melhor, mais acolhida, mais amada e mais querida com essa conclusão...

Ao menos ainda tenho a companhia do meu sarcasmo e ironia...

Inferno!

Tudo que havia na minha vida tava sendo corroído... desabando...

Solidão...

Ferrugem implacável que consome por dentro, corrói na maciota, devora silenciosamente, fio por fio de cada um dos cabos pênsil, até que, quando você vê, sem avisar, é pega de surpresa, pois ela lança sua herança na calada duma madrugada fria: o desabamento da centenária Ponte do Brooklyn acontece... E já era!

Solitude... Nada resiste à sua corrosão...

Mas eu tinha que prosseguir...

Acabei conseguindo transferência pro noturno do Colégio John Becker. Pra mim, com a minha Luna, ia ser fácil ir até lá... em quinze minutos eu saía da casa de Pink Pig e já tava no Becker.

Comemoração por conseguir aquela vaga?

Esquece...

Eu tava ainda sem cabeça pra voltar a estudar... ter que voltar pra uma sala de aula cheia de... adolescentes?... Que nojo! Saco...

Nojo... E você quer saber o porquê?

Eu nunca tive problemas com professores. Nunca!

Sempre me dei muito bem com todos eles! Talvez porque eu fosse uma nerd... Minhas notas? Sempre eram as melhores, ou a melhor.

Meus trabalhos? Os mais esmerados, mesmo eu sendo mega calada e quieta... Nerd... sempre enfiada nos livros, sempre enfurnada na Biblioteca nos intervalos: ratinha, se escondendo da cobiça e sanha das serpentes...

Biblioteca da escola: segurança, junto aos autores mortos... Meu Cemitério particular na riqueza dos túmulos dos sábios...

Não, não eram as aulas em si ou os professores que me faziam odiar frequentar a escola...

Eu detestava colégio por causa dos outros adolescentes...

Arrepiante!

Argh, eu odiava escola! Aquela aglomeração... aquele monte de gurizada fazendo chacota... implicando uns com os outros, ou o que é pior, implicando comigo... que ódio!

Eu e a minha velha maldição do imã: onde tinha uma guria ou um guri chato pra pegar no pé de alguém, adivinha só em quem eles grudavam, como chiclete usado?

Inferno, que ódio disso!

Desde minha 1° série até hoje, sempre era assim, que porcaria!

Onde tinha algum esportista de bullyng, era comigo que eles jogavam uma partida, às minhas custas. Desde meus seis anos! Que ódio!

Eu odiava escola! Eu odiava aquelas pessoas!

Porque a gente não podia estudar em casa, sozinha, aprender tudo e ir só na escola pra fazer as provas?

Mas não... tinha aquela maldita chamada... tinha aquela maldita frequência mínima às aulas... Ai, ai... saco!

Eu era capaz de estudar tudo sozinha, em casa, bastava me dar um livro de qualquer assunto, eu sempre soube me virar... Mas não!

A porcaria do governo de Happy Harbor, pra te autorizar o diploma, te obrigava a "frequentar a escola"... Meu inferno pessoal!

Mas, cedo ou tarde, eu teria que voltar a estudar... se eu ficasse em casa, morrendo junto com Rachel, eu não ia trazer ela de volta...

Ela queria tanto que eu concluísse meus estudos, queria tanto que eu conseguisse me formar numa faculdade... lembrei dos sonhos dela: ficaria tão sorridente se eu continuasse!

Assim sendo... numa tardinha, arrumei minhas coisas na minha mochila negra... coloquei nela meu caderno, minhas canetas, os documentos da transferência...

Eu tinha mesmo que ir... arfff... Paciência! Fazer o quê?!

Naquele anoitecer, coloquei a Luna pra fora do meu quartinho, no corredor do pátio da casa de Pink Pig...

A casa dela ainda tava silenciosa: muitas vezes ela dormia quase o dia todo, até o anoitecer.

Ainda bem! Daí ela não brigava comigo, não pegava no meu pé!

Depois que ela acordava, geralmente saía pra alguma balada, com algum dos machos dela, ou – o que era melhor pra mim! – dormia na casa de algum deles.

Yes! Como eu gostava quando ela dormia fora! Havia uma paz naquele terreno, tão gostosa, quando eu tava sozinha lá!

Que delícia!

Mas era horrível quando ela fazia o oposto: resolvia trazer algum macho dela pra dormir com ela lá...

Os caras que ela arrumava, argh!

Era cada um mais assustador e medonho do que o outro!

Quando ela trazia algum macho, eu ficava bem quietinha dentro do meu quartinho, nos fundos do terreno...

Sabe como é? Fingir-se de morta pra sobreviver?

Saía só quando tinha muita fome, e tinha que comprar alguma coisa pra comer...

Por causa destes caras assustadores – alguns até com cara de bandido de site de procurados pela polícia! – eu fui tentando tornar o meu quartinho no quintal cada vez mais autossuficiente!

Comprei usado, num brick em White Wing, um armarinho – onde eu colocava o máximo possível de comida – e arrumava minhas refeições em cima dele: mesa improvisada.

Também comprei um fogãozinho usado, todo enferrujado, de caminhoneiro – aqueles com uma chama só – mas que funcionava bem.

Só me faltava arranjar uma geladeira...

Como eu já tava com pouca grana, tava usando a geladeira de Pink Pig: este era o único motivo pra mim entrar dentro da casa dela...

Assim, eu não apenas evitava as brigaçadas dela comigo, como também evitava cruzar meu caminho com os machos que ela trazia pra casa dela.

Alguns deles eram mega assustadores pra mim: se me viam, me despiam e me "comiam" com os olhos...

Brrr, que arrepio aquilo me dava!

Tempos de cyber espaço: sensação de estupro virtual!

Sinistro...

Empurrei a Luna, do corredor ao portão da frente.

Tomei a rua.

Montei na minha fiel companheira.

Pobre Luna: ia levar sua dona pro cadafalso!

Blindada como sempre – fizesse inverno ou verão! – com meu sobretudo dark – meu copyright, único! – minhas calças negras e minhas botas ônix, pus a mochila nas costas.

Selene, trajando sua armadura completa, no alto de sua montaria: pronta pra guerra!

Lets' go!

Dei a partida.

Rumei até a incrivelmente extensa Assys Brazil Avenue, a mais longa do Norte de Happy Harbor.

Ela era tão longa que tinha amostras viárias de todo o mundo: desde trechos como das rodovias alemãs – em que não se dirigia: se deslizava nas nuvens! – até trechos que eram como pista de MotoCross...

Aquela avenida virou um símbolo pra mim: fazia a ligação entre um inferninho e outro... Panela ou fogo: o que era menos pior?

Dirigi minha Luna no "automático": minha cabeça tava longe...

Saudade de Rachel...

A porcaria de tá numa sala de aula de novo...

Tava ficando sem grana... dinheiro, que droga! Por que inventaram o dinheiro, heim? Só pra gente ficar sem ele e ter que ficar sempre correndo atrás? Que saco isso...

Mas minha grana tava acabando mesmo... e eu não conseguia emprego há meses, mesmo fazendo muitas entrevistas, naquelas filas tão longas quanto as filas de sopa pros novos indigentes da Grande Depressão Econômica... Caos Climático espancando a Economia...

Eu era um horror em entrevistas: corava, gaguejava, falava besteira de tão nervosa que ficava...

Problemas... problemas... se eu ganhasse dez centavos por cada um, ficava com grana pra comprar meu terreno na Lua!

Novo mercado imobiliário?... Ao menos era mais original do que vender a Ponte do Brooklyn...

Sem chance de arranjar emprego... Nem bico surgia!

Eu não tinha mais opções... havia resolvido ganhar dinheiro de apostas, em corridas clandestinas de moto na madrugada...

E tava funcionando! Eu sempre arranjava uma boa grana, tanto pra me manter como pra manter a Luna: gasolina, manutenção...

Aliás, a manutenção da Luna eu mesma a fazia: havia aprendido os conceitos básicos da mecânica e da parte elétrica de motos, fuçando em livros e em sites.

Como eu mesma comprava e trocava as peças, economizava muita grana...

Iria levar a vida com a grana das corridas, até arranjar um novo emprego – e eu não sabia quando isso iria acontecer, se ia acontecer...

Tempos difíceis... mas pelo menos eu ainda tava na fila dos que buscavam emprego, não naquela que todos mais temiam: a fila da sopa...

Que arrepio!

Ayaan, quando eu lhe contei que eu tava correndo de madrugada, havia ficado furiosa! Me convidou pra trabalhar com ela.

Até tentei, mas eu era tão tímida que não consegui... fracassei...

A bruxinha, agora famosa, bradou furiosa:

- O quê? Tu pirou Sê? Quer te matar em cima da Luna é? Ficou com merda na cabeça depois que tua vó partiu?

Lembrei que lhe respondi bem assim:

- Olha, tu tem idéia melhor? Eu sou ótima motoqueira, sou melhor que muito guri por aí, então eu ganho fácil um monte de corridas! Tem muito guri bundão aí que não faz metade do que eu faço em cima da Luna! E quer saber? O que há de errado em morrer? Todo mundo morre um dia, não? Então, ter medo de morrer por quê? Tu quer viver pra sempre, é? Eu não tenho essa ilusão, de viver pra sempre! Se a morte vier pra mim durante uma corrida, que bom! Muito melhor morrer se divertindo, e rápido, com o vento batendo no rosto, com a sensação de liberdade enquanto eu corro, do que morrer no fundo duma cama, toda perfurada por tubos, invadida por procedimentos médicos obsoletos dum hospital público pra miseráveis sem grana, como Rachel!

Putz grila!

Nem eu havia percebido antes de dizer aquilo... o quanto eu tava revoltada com a Vida!

Com imenso ódio da Vida! Ódio!

Quando eu ouvi as minhas próprias palavras, ditas pra Ayaan, até eu me assustei!

Mas depois procurei me manter firme, mantendo minha posição de guerreira, perante Ayaan.

Não ia dar meu braço a torcer, não mesmo!

Vaidade? Orgulho?

Imagina...

Foram naqueles dias, antes de eu falar com Hélène pela primeira vez – e com ele! – que eu mais desejei a Morte em toda a minha vida!

Realmente percebi que eu não me importava com mais nada...

Percebi que a Morte parecia ser a melhor coisa pra mim, por isso eu não a temia em nenhum grau...

Minha antiga adoração a ela já havia adquirido um novo status: devoção, paixão e amor!

Eu tinha perdido todo o meu gosto pela Vida, qualquer forma de apego a ela...

Nada mais me importava, exceto uma única coisa, que se transformou no refúgio do último momento feliz sobrevivente em minha vida: cavalgar na minha Luna!

Sobre minha montaria, sentir a imensa liberdade do vento forte e frio da madrugada batendo no meu rosto, me acariciando... sim, o vento batia diretamente no meu rosto e nos meus cabelos, porque eu tava tão de saco cheio com tudo, que eu nem corria mais de capacete! Nem isso eu usava mais nas madrugadas!

Meu cansaço de viver havia atingido seu auge... De mãos dadas com a solidão...

Cansaço existencial e solidão:

Combinação perigosa!

A falta de carinho me matava tanto: doloroso tumor...

Como eu poderia abandonar o único toque suave de carinho que me restou: o suave toque do Vento no meu rostinho... o sabor do Ar da madrugada preenchendo meus pulmões... os dedinhos sutis do Vento ternamente acariciando meus cabelos, no alto da minha veloz montaria consagrada à Lua?

Liberdade...

E foi pensando nisso tudo que, nem percebi direito, já tinha chegado em frente ao Becker.

Incrível o oceano de coisas que se pode pensar em meros quinze minutos de trânsito!

Era um pouco antes das sete da noite.

Os alunos do noturno já começavam a entrar dentro do colégio.

Em cima da moto, me apresentei ao guardinha do estacionamento do colégio: mostrei meus papeis da transferência. E ele me deixou entrar no estacionamento.

Estacionamento.

Muitas árvores, uma fraca iluminação noturna.

Parecia ser um local bem calmo. Naquele momento decidi que ali era o ponto certo! No intervalo das aulas, iria ficar sentada ali, perto da Luna, quieta, mega na minha. Lendo... ou me corroendo em pensamentos... destilando meu veneno...

Procurei um lugar pra estacionar, e vi que pertinho já havia uma moto e uma vaga ao lado dela.

Como tava meio escuro, não pude ver direito de longe, mas quando me aproximei da vaga... quase tive um treco!

A moto estacionada era linda! Mais que linda, era... perfeita!

Era uma Harley-Davidson©, dá pra acreditar?

Uma Harley, ali, bem na minha frente, ao alcance dos meus dedinhos! E não era uma Harley qualquer não!

Era uma FXCW Rocker: motor bicilíndrico em V, mais de 1500 cm3 em cilindradas, tanque de quase 20 L de capacidade – o que lhe dava uma autonomia de mais de 400 km! – e pesando mais de 300 Kg!

Será que eu era vidrada em motos estilosas, pra saber todas essas coisas?

Imagina...

Fiquei doida, babando! Criança em loja de brinquedos!

E a cor? Não podia ser melhor: absolutamente negra!

Tive um impulso incontrolável de acariciá-la bem suavemente!

Uma carícia praticamente... sensual!

E qual não foi a minha surpresa:

- Ai!

Tomei um choque elétrico quando a toquei!

Ela devia ter algum tipo novo de sistema de segurança!

Nunca havia tomado um choque duma moto antes – este sistema de segurança eu não conhecia mesmo!

Resolvi ser mais prudente: só olhar a Harley com os olhos... melhor esquecer que tinha dedinhos curiosos...

Foi então que percebi que havia nela uma série de modificações no motor: ele tinha sido "envenenado".

Mas eu não reconhecia nenhuma daquelas mudanças mecânicas ou elétricas! Seja lá quem fez aquilo, era um gênio!

Minha tour prosseguia, como uma pesquisadora num Museu de Belas Artes!

Quando olhei pro tanque de gasolina – lindamente polido e brilhante! – perfeito como um espelho de um abismo de sombras, percebi que nele havia uma inscrição.

Baixo relevo. Esculpido, em letras vermelhas como o puro sangue:

"Oxossi".

Oxossi?

Seria o nome daquela moto?

Assim como eu chamava a minha Honda© de Luna?

Seja lá como for, o nome era de extrema coragem!

A longa história escravagista de Happy Harbor, do século XVII ao século XIX, fez com que qualquer coisa que lembrasse a cultura dos escravos negros fosse considerada até mesmo um escândalo...

Fora que, de vez em quando, qualquer um que não fosse adepto do Deus Único e daquele seu tenebroso e famoso livro de capa preta com um sinal de "mais" na capa, podia ser pego pelos cabelos e tomar uma pedrada na cabeça, sob a acusação de "filha do diabo"...

Ao menos, quem era da Tradição Celta, como Ayaan e eu, era mais respeitado: ao que tudo indica, brancos pareciam respeitar mais a fé diferente de outros brancos...

Num lugar onde houve uma Economia Escravagista tão bárbara como em Happy Harbor, por quase trezentos anos, isso parecia ser razoável... afinal, todas as pessoas que foram a força de trabalho que fizeram Happy Harbor crescer por trezentos anos sequer eram consideradas seres humanos... eram animais, e animais não podem ter cultura ou fé... tudo tão lógico!

Que incrível a Democracia Racial e Tolerância Religiosa de Happy Harbor: uma dádiva de fazer inveja a todas as nações do mundo...

Happy Harbor: realmente um lugar abençoado por Deus – logicamente: pelo Deus Único...

Chega, menina! Para, para, para tudo!

Volta pro mundo real...

Mas se eu não tivesse que subir pra ter aula... olha, eu ficaria ali por um tempão, babando em cima daquela Harley, hahaha!

Mas... infelizmente eu tinha mesmo que subir... arfff...

Coloquei a corrente na Luna. Guardei as chaves na mochila. Subi do térreo pro primeiro andar. Precisava primeiro ir à secretaria, levar os meus documentos.

Burocracia. Sempre a maldita burocracia...

Eu tava tão feliz em ter que voltar a estudar... que até uma simples entrega de documentos numa secretaria boboca de escola já me deixava irritada...

Ao menos eu havia visto aquela maravilhosa Harley no estacionamento! O que fazia a minha noite bem melhor: na hora do intervalo, meu compromisso era ir lá dar uma boa olhada nela de novo!

A secretária, velha e gorda, recebeu meus documentos com aquela simpatia sorridente de quem chupou limão azedo... e me disse pra qual turma eu devia ir: 310. Terceiro andar.

Saí do balcão da secretaria. Cruzei o corredor: escadas.

Subi até o terceiro piso, e lá tava: aquele mar de gente...

Argh, chegava a me dar coceira no nariz ver tanta gente junta...

Tomara que ninguém me visse!

Procurei ser a mais discreta possível pra não ser percebida...

Não queria arrumar confusão pro meu lado, logo no primeiro dia! Mas parece que quanto menos eu queria ser notada, mais os guris e as gurias olhavam pra mim!

Me olhavam como se eu fosse uma Alien... até parece que nunca tinham visto uma guria toda vestida de preto antes!

Bem, de fato... quando eu tive coragem de olhar pra aquela multidão, eram muito poucas as gurias dark ou gothic que eu via...

Cacei a turma 310, rastreando os números nas portas do terceiro andar. Quando a encontrei, o professor já tava dentro da sala.

Já haviam também muitos estudantes sentados.

Bati na porta, que ainda tava aberta. Pedi licença:

- Professor, com licença... fui transferida pra cá...

Era um carinha jovem lecionando! E até bonito! Que surpresa!

Lógico: eu esperava achar um velho careca e barrigudo...

Ele se levantou de sua mesa. Queria ver o papel da secretaria.

Olhou, e me autorizou a entrada.

Mas antes que eu arrumasse um lugar bem no fundo da sala pra me sentar – bem no canto duma parede, bem no fundão, pra me esconder! – ele fez aquela coisa cruel, que tantos professores tem a mania de fazer com gente tímida como eu:

- Por favor, se apresente para a turma.

Ai, ai, ai... eu detestava aquilo!

Agora eu era o centro das atenções! Logo eu!

Por que o professor tinha que fazer aquilo? Não bastava deixar eu entrar, me sentar e deixar eu ficar quieta na minha?

Olhei pro chão e comecei:

- Oi... meu nome é Selene...

Nisso, o professor me interrompeu:

- Estamos em uma aula de francês. Solicito que você se apresente em francês.

E mais essa agora! Bom, eu era mega boa em Línguas – meu problema era só Matemática, o restante era barbada! – então resolvi olhar pra frente, encarar a turma por alguns instantes, me apresentar rapidinho, e terminar tudo aquilo duma vez!

Mas quando olhei pra turma, tomei um verdadeiro susto:

Bem no fundão, no canto da janela, à direita, sozinho, adivinha quem tava sentado?

Com as pernas estendendo debochadamente seus coturnos pretos sobre a classe vazia à sua frente, imerso na escuridão da noite de seu sobretudo de couro negro, enfeitado por seus cabelos negros revoltos, tava sentado o carinha misterioso que eu vi no Cemitério de New Bethlehen!

Ele tava usando óculos escuros, dentro da sala de aula, mas quando eu ia começar a falar, ele tirou os óculos: os colocou no bolso interno do sobretudo.

E aqueles olhos verdes, duma beleza hipnótica, que eu nem vou tentar descrever – porque não dá! – começaram a me fitar!

Quando ele começou a me encarar, eu perdi todo o chão aos meus pés!

Minhas pernas afrouxaram!

Comecei a corar...

Minha pele branquinha virou um pimentão maduro!

E eu, logo eu, que era mega boa em francês, uma fera, comecei a gaguejar:

- Je... m'appelle... Se... Selene... et...

Eu fiquei tão vermelha que meu rosto e orelhas já tavam pegando fogo! E minha voz trancou dum jeito... nada dela sair!

E não saía nada... Eu tava olhando pra baixo, tentando concatenar meus pensamentos: palavras em francês, francês, parem de brincar de se esconder na minha cabeça, pô! Preciso de vocês!

Dei uma espiadinha rápida pra cima e olhei o carinha no fundo: ele tava com um leve sorriso nos lábios, ainda me encarando... pronto!

Foi aí que eu gaguejei de vez e me perdi toda!

Dei uma olhada pro professor, com um olhar de súplica:

"Por favor, me tira daqui, me tira dessa situação, deixa eu sentar quieta e sumir duma vez!".

Felizmente o professor percebeu o quanto eu era tímida:

- Está ótimo, Selene. Seja bem vinda. Pode arrumar um lugar para você...

Graças a Deus, à Deusa! Cheguei a suspirar de alívio!

E fui caminhando mega rápida, toda desajeitada, direto pro fundo da sala, no canto da parede, à esquerda, no extremo mais distante de onde o carinha, todo vestido de preto, da cabeça aos coturnos, tava!

Eram apenas nós dois no fundão.

Eu sentei, e fiquei dura como um estátua!

Nem pensei em mover a cabeça pro lado. Tava morrendo de medo: e se meu olhar se cruzasse com o dele, justo depois do fiasco que eu fiz lá na frente da sala?

O professor começou a aula.

Alguns estudantes iam chegando atrasados, tomando seus lugares.

O nome do professor? Mr. Antony Caputo. Sobrenome de imigrante italiano... mas mega sugestivo.

Percebi que uns caras mais debochados, quando tinham alguma dúvida pra lhe mostrar em seus cadernos, o chamavam assim:

- Por favor, vem cá-puto!

Mas Mr. Caputo nem lhes dava bola. Será que já tava acostumado com a falta de respeito da gurizada?

Peguei meu caderno e ia anotando as primeiras lições da noite.

O professor encheu o quadro.

Quando ele terminou de escrever: hora da chamada.

Haviam nomes mega normais, como sempre.

Até que um nome bem diferente, um nome mega antigo, me chamou a atenção:

Aleximander...

Aleximander Berr.

Mr. Caputo chamou esse nome... Aleximander... por duas vezes.

Ninguém respondeu.

Até que ele levantou os olhos do caderno de chamada.

Olhou pro fundão. E reclamou:

- Está presente, não, Álex?

E o cara todo de preto sorriu bem de leve, levantando preguiçosamente a mão esquerda.

Aleximander?

Esse era o nome dele? Que nome mais... de velho! Parecia que tinha sido retirado de uma carcomido pergaminho da Grécia Antiga!

E acho que ele devia detestar o seu nome, pois ele só respondeu a chamada quando o professor o chamou de "Álex"!

Mr. Caputo resolveu finalmente se impor:

- Álex, retire já esses pés de cima da classe, isso aqui não é um estábulo de cavalos!

Aleximander – ou melhor, Álex! – grunhiu algo, que acho que só eu ouvi, fitando tão firme Mr. Caputo que parecia até um juiz quando interroga um suspeito mega perigoso:

- Otário... ainda darei um tiro bem no meio da sua testa...

Mr. Caputo revidou:

- Resmungou alguma coisa, Álex?

Nesse momento, numa velocidade e leveza espantosa, Álex retira os pés de cima da classe, levanta-se e, com um ar de supremo deboche, faz uma reverência à francesa do século XVIII, dessas que a gente vê em filmes sobre os anos 1700, e diz:

- Oui, captain! Eu disse que, reverentemente, retiro meus pés equinos da classe, conforme vossa excelência solicitou-me!

Eu, sem pensar, de forma completamente espontânea, achei tão inesperada e engraçada a forma como Álex respondeu a Mr. Caputo, que soltei uma gargalhada mega alta! Que se sobressaiu no meio de toda a risada geral da turma!

Não consegui evitar: foi completamente inesperada pra mim a reação de Álex à intimação do professor!

Nisso o professor me encarou, com uma cara mega feia!

Eu imediatamente corei, e baixei a cabeça, tentando exclamar um "sorry, foi mal"... Eu queria sumir!

Queria me enfiar debaixo da classe! A todo custo! Mas nem com o meu tamanho de anãzinha em iria caber lá!

O professor voltou à chamada.

Nisso, eu tava ainda de cabeça baixa. Olhei de cantinho de olho, de soslaio, pro canto da janela. E percebi que Álex tava olhando pra mim... e sorrindo pra mim!

Eu, mega sem jeito, sorri também...

Inacreditável... eu tava... sorrindo?

Sorrindo!

Eu devia tá com os músculos do rosto totalmente enferrujados...

Porque eu não me lembrava da última vez que eu havia sorrido, muito menos rido, dado uma gargalhada como aquela que eu havia feito!

Que coisa... eu tava... sorrindo?!

A aula prosseguiu. Perto do final, Mr. Caputo resolveu fazer um trabalho em duplas.

Passou pelas classes, entregando as folhas.

Quase todos os alunos já tavam sentados em duplas, e quem não tava era indicado por Mr. Caputo pra se juntar com alguém.

Quando ele chegou na minha classe me disse, seco e áspero:

- Selene, já que você acha Álex tão engraçado, vá se sentar com ele!

Eu corei de novo...

Que droga de noite essa, em que eu parecia mais um semáforo: vermelha toda hora!

Não sei o que me deixou mais envergonhada: se foi o xingão indireto do professor... ou se foi ele me mandar sentar justo do lado de Álex!

Peguei minha folha, meu caderno e minha caneta. Me levantei.

Mas me levantei tão sem jeito que deixei tudo cair no chão...

- Que saco... – resmunguei irritada.

Tudo tava dando errado pra mim na escola, como sempre!

Inferno, eu odiava escola!

Me levantei e fui em direção a Álex... mas não sem antes dar um tropicão numa cadeira vazia no fundo da sala... quase caí!

Tá... Eu era um desastre, eu já sei disso! Mas aquela cadeira não precisava jogar isso na minha cara!

Pô... naquela noite tava tudo muito pior do que de costume: era uma mancada atrás da outra, eu tava mega otária!

Puxei a cadeira vazia que tava ao lado de Álex. Me sentei.

Só quando eu me sentei ali, foi que eu percebi o quanto ele era enorme... parecia que ao meu lado tava um paredão negro!

Nossa, ele era muito alto mesmo... me senti um anãzinha de circo com meus 1,55 m de altura!

Eu devia tá aparentando muito nervosismo, pois eu não parava de balançar os pés embaixo da classe, e nem de balançar a caneta por entre meus dedos.

Acho que, percebendo meu nervosismo, Álex tentou ser gentil:

- Prazer em te conhecer, Selene.

Nossa, eu me impressionei com a voz dele! Era uma voz tão.. macia... melodiosa... tão sedosa. Suave, e convidativa ao toque, tanto quanto um tecido caríssimo...

Eu lhe respondi, completamente sem jeito:

- Muito prazer... também...

O mais estranho é que, conforme ele foi falando comigo, puxando gentilmente conversa comigo, parecia que uma energia mega gostosa saía dele, uma energia mega calmante...

Que coisa, a voz dele parecia tão hipnótica, era tão gostosa de se ouvir, que eu comecei a relaxar, a me acalmar...

- Tu vais sempre ao Cemitério de New Bethlehen? – ele me perguntou, com aquela sua voz incrivelmente deliciosa aos ouvidos! E numa linguagem corretíssima. Parecia que eu tava ouvindo um antigo professor de Gramática, lá da década de 1940, falando ao meu lado!

Era até engraçado: aquele carinha enorme, com um longo sobretudo negro, vestido com camiseta de Heavy Metal, calças jeans negras, com coturnos militares pretos enormes, todo dark, falando como se fosse um verdadeiro lord de tempos antigos!

Lógico que eu não tenho categoria pra transcrever aqui a elegância linguística com que Álex se expressava... Por isso eu vou contar o que ele falava do meu jeitão mesmo!

E com aquele jeitinho mega legal dele, eu acabei sorrindo novamente:

- Sim, eu vou lá com freqüência, pois eu morava em Lamy Village antes...

Ele? Fez uma agradável cara de surpresa:

- Lamy Village? Puxa, eu moro lá...

- É? - eu soltei essa exclamação sem pensar, e igualmente, perguntei:

- Onde em Lamy Village você mora? Eu conheço aquilo tudo, cresci lá!

Eu e minha boca grande!

Depois que falei me arrependi! O que eu tava fazendo?

Puxando assunto com o carinha mais bonito que eu já havia visto, ao invés de ficar quieta na minha?!

Baixei meus olhos, mega envergonhada.

Mas, pro meu espanto, ele sorriu! E me respondeu:

- Eu moro num antigo Casarão, ao lado da Reserva Ecológica Mountbones...

Eu não conseguia controlar meus impulsos, que droga!

Aquele sorriso me convidava tanto a falar! Logo a mim, que era calada, esquisita e feia... Por que aquele guri tão bonito sorria justamente pra mim? De uma forma tão gentil, tão convidativa? Só podia ser por pena, lógico!

Mas então, soltei sem pensar:

- Bah, eu conheço aquele Casarão, passei muitas vezes lá na frente, na minha infância, andando de bike! Lá morava uma velhinha!

Ele sorriu da minha espontaneidade – que eu não conseguia mais controlar, droga! Ele tinha me hipnotizado? Só assim mesmo pra conseguir fazer me comportar daquele jeito mega estranho!

E ele me respondeu, mega gentil:

- Aquela velhinha? Prazer: minha vó... estou morando com ela agora...

- É? Putz, que mundo pequeno! – soltei, absolutamente espontânea, sem pensar no que eu dizia.

Eu nem parecia "eu", sério!

Tava falante demais! Não me reconheci mais!

Minha cabeça dava voltas... milhões de pensamentos me censurando por estas reações impensadas, rodando no winchester, na CPU da minha cabeça:

"Quem você pensa que é, falando tanto deste jeito? Olha pra você! Você é feia, é esquisita, anormal, desengonçada! Quem te deu o direito de falar com um gato desses? Acorda guria, ele só tá sendo gentil porque tá com pena de você! Não entendeu ainda?"

Quando minha mente me berrou isso, eu corei... fiquei muda...

Baixei meus olhos. Realmente eu tava indo longe demais! Eu tava saindo do meu lugar... Meu lugar era ficar quieta, sozinha, bem calada, como sempre eu fui...

Eu comecei a ficar nervosa novamente. Comecei a sentir uma vergonha enorme de mim mesma! Tinha ido longe demais...

Porém, emudecida a boca, minhas mãos nervosas não paravam de falar, balançando minha caneta por entre meus dedos...

Meus pés também dançavam nervosos na cadeira.

E eu balancei tanto a minha caneta que deu nisso:

ela saiu voando por entre meus dedos, repicou na parede e caiu bem na classe de Álex!

Ele sorriu pra mim, dizendo com aquela voz, deliciosamente macia:

- Parece que tua caneta está viva, não?

Eu dei um sorriso mega sem graça, ainda mais envergonhada!

Ele pegou a caneta. A alcançou pra mim, dizendo, gentil:

- Suspeito que isto te pertence...

Eu fui pegar a minha caneta.

Foi quando aconteceu!

Aquela coisa incrivelmente estranha aconteceu!

Algo que me deixou completamente confusa, perplexa!

Quando eu fui pegar a caneta, sem querer minha mão, toda descoordenada pelo meu nervosismo, acabou tocando na mão dele.

Tudo o que aconteceu nesse momento e nos instantes seguintes foi... absolutamente estranho!

Quando minha mão tocou na dele, em uma fração de segundo, eu senti um frio enorme em sua mão: ela tava incrivelmente fria, gelada, como se Álex tivesse enfiado a mão dentro de um freezer!

Mas o mais estranho foi o que aconteceu a seguir!

Quando nossas mãos se tocaram, uma coisa muito estranha percorreu por todo o meu corpo! Ela foi passando da minha mão até os meus cabelos e as pontas dos meus pés!

Era como uma espécie de choque elétrico, mas não era um choque elétrico... não... não havia dor... era uma sensação incrível de bem estar que eu nunca havia sentido antes!

Foi... sei lá... como se uma enorme onda de... sei lá como dizer... prazer eu acho, inundasse todo o meu corpo e o meu Espírito... eu realmente não sei como descrever isso, porque eu nunca tinha sentido isso antes, em todos os meus longos dezenove anos de vida!

Nisso, quando nossas mãos se tocaram, Álex fez uma cara de susto, como se tivesse visto um fantasma!

Ele teve uma reação instantânea, mega veloz: lançou seu próprio corpo contra a parede! Eu fiquei assustada com o pulo de pavor que ele deu em sua cadeira, se jogando de costas contra a parede!

Eu olhei assustada pro seu rosto, que demonstrava tanto susto, tanta surpresa, ou sei lá...!

Sua reação me era completamente indecifrável!

E, de repente, seus olhos verdes começaram a ficar avermelhados, como se uma abrupta circulação sanguínea ocular tivesse acontecendo. Seus olhos ficaram mega vermelhos, como se houvessem chamas crepitando no lugar da íris!

- Tudo bem com você? – perguntei assustada – Seus olhos ficaram vermelhos, Álex!

Ele me respondeu aparentando muita dificuldade pra falar, pois o peito dele arfava como se lhe faltasse o ar:

- É conjuntivite... estou com conjuntivite!

Nisso, ele pegou seus óculos escuros e os colocou rápido.

Levantou-se imediatamente, falando:

- Com licença... preciso ir ao toalete...

Eu puxei a minha cadeira pra frente.

Ele passou ligeiro por trás de mim.

Cruzou a sala de aula com uma velocidade e leveza como se fosse um forte sopro de vento!

Tomou o corredor e desapareceu da minha vista.

Meros instantes depois, eu ouvi o som típico do motor potente de uma Harley-Davidson© sendo ligado, logo abaixo, no estacionamento.

Eu espiei pela janela e vi que Álex tava montado naquela Harley, ao lado da minha Luna.

Ele saiu do estacionamento, acelerando bruscamente a moto!

Ouvi ele cruzando o portão e, assim que tomou a rua, ouvi o motor ser acelerado com tudo! Até que o som ia desaparecendo aos poucos, sendo engolido pela escuridão silenciosa da noite...

E eu?

Fiquei extremamente confusa!

Meu Deus, minha Deusa! O que tinha acontecido?

Minha cabeça começou a girar... um monte de pensamentos desconexos tomou conta da minha mente...

A aula de francês terminou.

Houveram os períodos das demais disciplinas. Intervalo. Períodos finais. Mas nada disso fez sentido algum desde que aquela situação tão estranha aconteceu...

Eu simplesmente não conseguia prestar atenção em mais nada...

Fiquei voando o resto da noite toda... nem no intervalo me animei a sair da minha cadeira...

Fiquei dentro da sala de aula, só de corpo presente... porque minha cabeça tava completamente distante... tentando entender o que aconteceu...

Quando terminou o último período, perto das dez da noite, fomos liberados.

Peguei minhas coisas, mecanicamente.

As coloquei na minha mochila. Desci a escadas.

Fui até o estacionamento.

Fitei a vaga vazia ao lado da minha Luna.

Pelos Deuses Antigos, o que aconteceu?

O que foi aquilo que eu senti?

E o que deu em Álex? Ele parecia que tinha visto um fantasma...

Milhões de coisas cismavam na minha cabeça!

E cismando, montei na Luna. Dei a partida e voltei pra casa...

Naquela noite não consegui dormir!

Fiquei rolando na cama de um lado pro outro...

Eu não conseguia entender nada: aquilo que eu senti, aquele "choque elétrico"... aquela sensação tão estranha, de um prazer que eu nunca havia sentido em toda a minha vida...

Quando eu lembrava daquilo, até meus dedinhos dos pés chegavam a ficar deliciosamente dormentes, novamente...

Sim: lá na sala de aula, eles haviam ficado assim...

E a reação absolutamente estranha de Álex?

Me revirava na cama... Revirava, revirava... Até que desisti de dormir.

Liguei a luz. Olhei pro relógio: já eram quatro horas da manhã!

Peguei um de meus livros sobre Bruxaria. Tentei ler... Nada!

Meus olhos passavam pelas linhas, mas eu não conseguia sair do primeiro parágrafo: concentração zero!

Minha cabeça tava era completamente fixa naquele estranho acontecimento... tava tentando "processar" as informações estranhas da noite de aula mais incomum que já tive...

Não conseguia ler, não conseguia dormir... Nada funcionava!

Então peguei meus fones de ouvido. Coloquei no programa várias músicas... Comecei com algumas clássicas mega antigas – eu sempre começava com os clássicos! – lá do século passado... Nirvana: Smells Like Teen Spirit... Guns and Roses: November Rain... Depois me escoltei nos escudos e lanças dum bom Hard Rock das primeiras décadas do nosso século... até finalmente chegar na mais recente fina flor sonora – que representava mega bem aqueles difíceis anos escuros em que vivíamos, conforme avançava o século XXI: minha amada banda inglesa The Gothic Melody and Dark Roses...

Me deliciando com aquela Arte, escrita e impressa em sons, tentei relaxar... Devia ser bem mais de sete horas da manhã quando, finalmente, eu me virei pro lado e consegui pegar no sono...

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