Sant'Ana - Capítulo 3

"O Cullen"

O carro chacoalhava debaixo deles, mostrando o péssimo estado em que se encontrava a estrada que ligava Sant'Ana à capital.

"Quem se elegeu?" - Edward perguntou de repente, como se o pai estivesse ouvindo as questões que estavam apenas em seu pensamento. No carro, até agora, o silêncio havia imperado.

"O que?" - Carlisle ergueu uma sobrancelha, olhando para Edward, parecendo confuso e surpreso.

"Quem se elegeu prefeito nas últimas eleições..." - Edward explicou.

"Ah!" - Carlisle voltou sua atenção para a estrada novamente - "Demetri."

"É o seu candidato, não é?"

"Nosso candidato." - Carlisle fez questão de frisar.

"Você não acha que esta estrada está precisando de alguns reparos? Uma viagem relativamente curta, mas que está muito perigosa, com todos esses buracos na pista."

"Talvez tenhamos coisas mais urgentes para realizar dentro da cidade. Além disso, uma obra na estrada precisa de verbas do estado, e com o governador da oposição, as coisas estão difíceis..."

"Coisas mais urgentes? Ou coisas mais eleitoreiras?" - Edward questionou.

"Coisas mais urgentes, mais eleitoreiras... Coisas mais políticas. A política é um jogo, Edward. Se você joga todas as cartas boas de uma só vez, nunca poderá ganhar no final."

"A questão, pai, é que a política deveria ser uma forma de ajudar a população, não um joguinho de baralho."

"Você leva jeito, sabia?" - Carlisle riu baixo - "Frases de efeito, sangue novo, rosto bonito... Você daria um ótimo prefeito. Que tal se lançar na próxima eleição?"

"Achei que nossa família não se envolvesse diretamente com a política."

"Eu não me envolvo diretamente com política, mas você pode se envolver. Enquanto eu estiver cuidando dos negócios da família, você administra a cidade."

"Obrigado. Eu prefiro não me envolver com política também."

"Tudo bem. Se mudar de ideia, é só avisar. Podemos iniciar sua campanha agora mesmo."

"Não podemos, não. Que eu saiba, há um prazo para poder se iniciar uma campanha e ainda não estamos dentro deste prazo."

"Edward..." - Carlisle riu - "Em Sant'Ana, nós decidimos os prazos. Isso que dá mandar um filho para estudar fora, não entende sequer como funciona a nossa terra."

"O senhor se arrepende de me mandar estudar fora só porque agora compreendo as leis? Imagino que as crianças de Sant'Ana estejam sendo muito bem educadas."

"E estão." - Carlisle assentiu - "Tem coisas, Edward, que esses ignorantes preferem nem saber. O que eles entendem? De lavrar terra, cuidar de venda, tirar leite de vaca e buscar ovo no galinheiro. Não tente explicar as leis para eles - eles não tem o mínimo interesse em compreendê-las. Para eles, leis são problema nosso. É para isso que eles elegem um prefeito: para pensar e tocar a cidade, enquanto eles continuam com a sua vidinha pacata, calma e sem graça."

"E é para esta vidinha que eu estou voltando também..." - Edward suspirou.

"Não é bem assim, filho. A nossa vida está acima disso. Você pode ter tudo aquilo que quiser em Sant'Ana."

"A questão é: há algo em Sant'Ana que eu vá querer?" - Edward riu sem humor - "O senhor sabe muito bem que, se fosse por mim, eu jamais voltaria."

"Não comece com essa chantagem emocional. Eu não te obriguei a voltar. Eu apenas desisti de sustentar um garoto boêmio que queria viver de música. Mas, se você fosse capaz de se sustentar, agora que é maior de idade, poderia ficar onde quisesse."

"O senhor sabe muito bem que eu não tenho como me sustentar. Foi só por isso que eu voltei."

"Pelo menos, você foi um homem. Imaginei que você ficaria se escondendo debaixo da saia da sua mãe."

"Eu não iria deixar que a mamãe vendesse as jóias dela."

"Você fez muito bem em não contar para ela que estava voltando." - Carlisle riu - "Se você visse a cara que ela fez quando eu disse que estava indo te buscar..."

"Ela se preocupa."

"Ela se preocupa demais"

"Você não acha que ela está certa? Ela viu o avô morrer, o pai morrer... E o senhor mesmo? Já passou por quantos atentados? Eu acho que a mamãe tem seus motivos para ficar preocupada com isso."

"Eu tenho meus seguranças, Jasper tem os dele. Posso arrumar alguém para te acompanhar também."

"Não acho que seja realmente necessário."

"Bom, é pela tranquilidade da sua mãe. Ela é quem fica estressada, preocupada... Mas eu também acho que não há necessidade disso tudo. Pelo menos por enquanto."

Edward suspirou quando as primeiras casas começaram a surgir na beira da estrada. Eram as mesmas casas velhas, com aparência de desabitadas, embora abrigassem famílias numerosas demais para seus poucos cômodos.

Edward viu um menino descalço, brincando na beira de uma poça d'água e, por um segundo, ele chegou a cogitar a ideia de se candidatar a prefeito de Sant'Ana. Quem sabe ele pudesse ajudar aquelas famílias, trabalhando nas fazendas, vivendo em condições sub-humanas...

Mas ele logo se lembrou que, para ganhar, ele precisaria do apoio de Carlisle. E, se Carlisle o elegesse, Carlisle cobraria a conta.

E Edward não estava disposto a ser só mais uma marionete.

"A cidade não mudou nada" - Ele suspirou pesadamente.

"A cidade mudou muito, Edward. Quando passar algum tempo aqui, logo irá notar."

"É. Quem sabe..."

Por onde o carro de Carlisle passava, despertava olhares cheios de um respeito quase amedrontado.

A cidade continuava não tendo muitos automóveis, mas Edward notava que já havia bem mais do que os que ele havia visto na última vez em que havia vindo a Sant'Ana.

A casa deles havia sido pintada a pouco tempo. Toda branca.

Por muitos anos ela havia estado toda em tons de creme, mas Carlisle havia resolvido que agora queria ter sua própria "Casa Branca".

"Gostou da nova cor?" - Carlisle sorriu enquanto estacionava em frente da casa.

"Hum... Bom, na verdade, o senhor sabe que o branco é considerado a ausência de cor. Se pensarmos em tintas, é claro. Porque, se pensarmos em luz..."

"Por favor, eu só queria saber se você gostou da cor da casa. Não há necessidade de uma aula artística."

"Desculpe. Ficou ótima."

Edward não se sentia confortável com todos aqueles olhos que o encaravam ao descer do carro. Talvez fosse exatamente disso que ele gostasse tanto em estudar fora: o anonimato.

Fora de Sant'Ana, ele era apenas "Edward Cullen". Sem que aquele nome remetesse a coisa alguma, a família alguma, a briga alguma... Fora de Sant'Ana ninguém o chamaria de "Masen", ninguém ficaria surpreso se ele saísse à rua sem meia dúzia de seguranças atrás.

"Senhor" - Um homem que Edward nem reconheceu os cumprimentou apenas com um aceno de cabeça e tomou a chave do carro, seguindo para o porta-malas, para retirar a bagagem de Edward.

Ele pensou se deveria esperar, mas Carlisle continuou subindo as escadas, seguindo para dentro da casa, então Edward o acompanhou.

"Filho!" - Eles mal atravessaram a porta e Esme surgiu, descendo as escadas, em uma entrada dramática, digna de um filme antigo.

"Mamãe..." - Edward sorriu cansado, já prevendo a bronca que o aguardava.

Esme andou até ele e o abraçou apertado. Embora ela não quisesse que seu filho ficasse em Sant'Ana, era impossível negar o quanto era boa a sensação de poder abraçá-lo outra vez.

"O que você veio fazer aqui?" - Ela sussurrou, sem o soltar de seu abraço.

"Mãe..." - Edward sussurrou de volta - "É bom te ver de novo," - Ele sorriu ao se afastar.

"Hum.." - Esme suspirou longamente - "Você tem comido? Está tão magrinho..."

"Mãe..." - Edward revirou os olhos, rindo.

"Senhor, onde eu coloco as malas?" - O homem entrou na sala, carregando a bagagem de Edward e devolvendo a chave do carro de Carlisle - "No quarto de hóspedes?"

"No quarto do meu filho." - Carlisle corrigiu - "Ele veio para ficar."

Esme sentiu cada pelo do seu braço se arrepiar com aquela frase: "Ele veio para ficar".

"Você devia comer algo" - Ela engoliu seco e tentou sorrir - "Eu acho que a Katie fez bolo de milho. Lembra como você gostava do bolo de milho da mãe dela? É a mesma receita."

"Claro, mãe." - Edward passou um braço pelos ombros de sua mãe, enquanto andavam na direção da cozinha.

"Seu Edward..." - Katie sorriu ao vê-lo e Edward franziu o cenho.

"Seu Edward? Katie... Nós fomos criados juntos. Não há necessidade de me chamar assim."

"Desculpa, Seu Edward. É que o seu irmão..."

"Meu irmão é uma pessoa, eu sou outra." - Edward sorriu - "Que tal se você me chamar só de Edward?"

"Ah..." - Katie fez uma careta, parecendo indecisa.

"Querido..." - Esme interrompeu - "É que... O seu pai faz questão que os empregados nos chamem assim, de forma mais formal."

"Mas, mãe... É a Katie. Nós... Passávamos as férias juntos na fazenda. Eu, o Jasper, as irmãs dela... Não tem cabimento pedir que ela me chame dessa forma."

"Não tem problema, Seu Edward. Eu não me importo de chamar o senhor assim."

"Filho..."

"Já entendi" - Edward suspirou - "Não quero criar problemas para você. Se Carlisle faz tanta questão, não vamos criar uma situação..."

"Katie..." - Esme firmou seu sorriso, como havia se acostumado a fazer mesmo quando estava contrariada - "Porque você não serve algo para o meu menino comer?"

"Ah, claro! Eu fiz bolo de milho, Seu Edward. Se não me engano, é o seu preferido."

"Bom..." - Edward sorriu - "Faz tanto tempo que não encontro um bolo de milho descente, que vou precisar descobrir se ainda é mesmo o meu preferido."

"Então pode sentar, que eu vou servir um pedaço bem caprichado para o senhor."

"E a sua mãe, Katie? Como está?" - Edward perguntou, enquanto se sentava no banco de madeira que ladeava a mesa da cozinha. Ao contrário do resto da casa, que era uma casa da cidade, a cozinha ainda lembrava a fazenda onde Esme havia crescido, e Edward passara a melhor parte da infância.

"Ela está bem. Ela e papai só ficam tristes porque vocês quase não aparecem mais na fazenda. Sentem falta da agitação que era quando nós éramos pequenos e aprontávamos todas por lá..."

"Vocês não vão mais lá?" - Edward perguntou para Esme.

"E seu pai lá tem tempo?"

"Mas a senhora podia ir sem ele."

"Sozinha? Que graça tem aquela fazenda enorme, e ninguém para aproveitar? Quem sabe, quando você e o seu irmão resolverem me dar netos, eu passe as férias com eles lá..."

"A senhora devia ir. Passar a tarde, tomar café na varanda..."

"Isso mesmo, Dona Esme!" - Katie sorriu - "Agora que o Seu Edward voltou, vocês dois podiam marcar de ir lá. A mãe ia ficar tão feliz. E o Seu Edward podia provar o bolo de milho dela de novo. Aposto que ia lembrar porque é o preferido dele!"

"Ah, mas o seu bolo também está muito bom!" - Edward sorriu - "Acho que já deu para lembrar."

"Esme..." - Carlisle chamou da porta - "Preciso que você prepare uma roupa para mim. Tenho uma reunião."

"Uma reunião à essa hora?" - Edward estranhou, porque o sol já estava começando a se pôr.

"Estou esperando." - Carlisle nem se deu ao trabalho de responder. Apenas virou as costas e saiu, seguindo para o quarto. Esme saiu logo atrás.

"Ele trata a minha mãe sempre assim?" - Edward perguntou quando os dois se afastaram da cozinha.

"Ai, Seu Edward..." - Katie fez uma careta.

"Desculpa. Não estou querendo te causar problemas."

"O senhor sempre foi assim, não é? Preocupado... Eu lembro uma vez que a Irina caiu e o joelho sangrou, que parecia até um chafariz! Eu, que sempre morri de medo de sangue, quase desmaio! Mas o senhor correu pegar água, lavou o joelho dela... O senhor lembra que quando era pequeno, dizia que ia ser médico?"

"Quando se é pequeno, se diz tanta coisa..."

"É. Isso é..." - Katie riu - "A Tânia dizia que ia casar com o senhor. E o Seu Jasper dizia que ia morar na fazenda..."

"Ele também não vai mais lá?"

"Ir, ele vai. Mas é só para manter tudo funcionando, saber quanto dinheiro rendeu, quanto leite, quanta colheita... Mas é tudo um monte número, que ele anota, e vai embora. A fazenda está lá: de pé, limpa... Minha família nunca vai abandonar aquele lugar. Minha mãe, minhas irmãs... Elas limpam tudo, cuidam de tudo. Meu pai, daria a vida por causa da fazenda. Mas virou quase uma fazenda fantasma. Nós cuidamos de tudo... Pra quem? Pra que?"

"Talvez para mim" - Edward tentou animar Katie - "Prometo que vou, pelo menos, visitar a fazenda.

"A mãe vai adorar..." - Katie sorriu - "Mas eu acho que ela não vai conseguir te chamar de Seu Edward"

"Não tem problema. Meu pai não vai ouvir mesmo" - Edward brincou e Katie e ele riram baixinho.

"Ele está muito orgulhoso do senhor ter voltado. A sua mãe ficou preocupada, mas o seu pai está realmente muito orgulhoso de poder exibir os dois filhos homens na cara do Swan..."

"Eu não entendo essa briga boba que eles insistem em cultivar. Que me importa o que o Swan faz da vida dele?"

"Shh!" - Katie olhou assustada para a porta, com medo de que alguém pudesse entrar - "É melhor o senhor falar baixo. O seu pai não gosta que fale o nome dele aqui dentro..."

"É um nome como outro qualquer."

"É o nome do pior inimigo do seu pai!"

"Sei..." - Edward riu sem humor e então ficou sério de repente - "Quanto tempo faz?"

"O que?"

"Que ninguém morre"

"Alguns bons anos..." - Katie suspirou - "O Chefe anda com escolta policial e quem virou o alvo foi o filho dele. Seu pai tem tomado cuidado. Depois que perceberam que os carros foram blindados, as tentativas de emboscada diminuíram muito. É por isso que a sua mãe tem medo: se alguma coisa acontecer com o filho do Swan, com certeza, é um dos filhos dela quem vai acabar pagando..."

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Me desculpem muitíssimo pela demora na postagem.
Estou em uma fase estranha, e não rolou de escrever. Não rolou!
Mas agora acho que vai, ok?
Se Deus quiser, eu hei de postar três vezes nessa semana.

Ah, o Edward chegou em Sant'Ana.
Mas não sejam desesperadas, porque eu ainda não sei quando ele encontra a Julietinha.

Bom, vou responder minhas reviews (Obrigada por todas elas)
Nos vemos em breve (Cruzem os dedos)

Beijinhos

REVIEWS:

Kathyanne: Mãe é para isso mesmo! Sofrer! Coitadas... Rsrsrss

Kellynha Cullen: Aguarde e Verás! O casalzinho, em breve (Eu acho) deve se encontrar.

Vanessa Dark: Romeu e Julieta, com certeza =D

Rezinha77: "Rei do Gado"! Swandinadizze e Masenga. Rsrsrs

JuliaGTorres: E eu não me inspirei logo numa história de disputa nordestina mesmo?

Deh C: O Edward teve que voltar, porque não tinha como se sustentar, uai!

Deh M. Oliveira: Charlie e Carlisle tão bonzinhos, gente! Rsrsrs

Vitória: Ah, relaxa! Está tudo indo bem, não está? Ninguém nem te ameaçou ainda! Rsrsrs

Mari L: É o caldeirão de todas as minhas referências más e loucas. Hehehe.