Disclaimer: Saint Seiya não me pertence.

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As janelas escorregavam suavemente pelo tapete, à medida que a brisa passava por elas. Ainda não era dia, o sol sequer surgira por de trás das poucas nuvens. No entanto, o céu tornava-se gradativamente mais claro. A brisa era convidativa, fresca e com um quê de salinidade. Dimitri observava as sutis mudanças no céu. Já estava pronto, porém esperava Milo aparecer. Ao que parece, o espanhol insistira que fossem juntos para o local combinado na noite anterior.

O russo vestia-se de forma simples, uma camisa branca, um colete preto e cinza por cima, sem detalhes e desabotoado. As calças, pretas, e botas de cavalaria. Para completar, um chapéu azul escuro.

O jovem deixou-se sentar-se novamente sobre a cama desarrumada. Logo, para seu alívio, bateram na porta. Calmamente, levantou-se e abriu, para quase cair de costas.

Era Milo. E era ótimo que fosse ele, claro. Mas não vestido em uma armadura completa. O elmo, no entanto, o espanhol segurava com certa dificuldade. Aparentemente, a armadura era maior - bem maior - que ele e mal se via o rosto dele. Dimitri puxou-o para dentro do quarto e fechou as portas.

- Que... você pensa que faz, dentro de uma armadura dessas?!

- Oras! Não vamos pra guerra? Tenho que me proteger. - Milo falava, mas sua voz era abafada pela armadura.

- Você não precisa vestir isso!

- Não? Como não? Quer que eu morra, por acaso?

- Claro que não! O que eu quero dizer é que, pelo menos por enquanto, não temos necessidade de tais coisas...

- Mesmo?

- Mesmo.

- Ah, ótimo.

Com um baque surto, Milo deixou todas as peças da armadura caírem no chão. E ainda chacoalhou as pernas, para tirar as peças restantes. Sequer incomodou-se em abaixar para tirar tais acessórios. Por baixo de tal armadura, Milo vestia-se bem, bem mais elegante que Dimitri. Uma camisa branca, com gola e babados - a última moda francesa -, colete verde escuro, com detalhes em ouro, calça azul-marinho e sapatos normais. Por cima de tal modelito, um casaco, um pouco mais comprido, também verde escuro e com grandes botões.

- Bem, então vamos! - o espanhol disse, arrumando o casaco.

Dimitri sequer ousou em dizer palavra alguma. Ainda estava abismado demais para falar alguma coisa. Logo chegaram aos portões do castelo, já abertos. A carruagem que levaria Dália, Liebe e Karin - as duas últimas, por algum tempo apenas - já estava fora e os cavalos todos já com suas selas.

Já estavam presentes todos os generais, que pareciam devidamente ocupados, terminando de checar algum detalhe restante. Cada cavalo tinha o brasão da família - ou coroa - a qual pertencia. Milo não se preocupou de ver seu cavalo, mas Dimitri dirigiu-se ao seu.

- Vossa Majestade. - Máscara da Morte curvou-se, ao ver Dimitri.

- Não precisa disso, general. - o jovem acenou com a mão.

- Como queira...

- Espero que esteja bem descansado! Temos uma longa viagem...

- Despediu-se?

- De quem?

- De seus pais, Vossa Majestade...

- Não. - Dimitri interrompeu o outro.

Máscara da Morte observou Dimitri, enquanto o outro parecia realmente ocupado, ajustando a cela de seu cavalo. Não somente ocupado, o príncipe estava pensativo demais, para alguém que supostamente sairia em viagem.

- Algum problema, general? - o ruivo disse, sem olhar para o outro.

- Não, não...

O general afastou-se silenciosamente, deixando, talvez, a impressão errada no jovem russo.

- Nossa, como sua mala está pesada! Parece que tem gente aqui dentro! - Milo disse.

Onde estava ele com a cabeça, quando concordou em ajudar as mulheres com suas malas? Embora... as malas que queria carregar eram outras...

- Cuidado, ou vai deixar cair! - Dália disse, correndo até Milo.

- Aff!

Finalmente colocara as malas em seus devidos lugares na carruagem. Porém, na verdade, só carregara aquela mala - ou baú. Haviam outras, mas Shura arrumou-as sem grandes sacrifícios ou esforços. Como conseguira isso, era uma bela pergunta que pairava na mente de Milo... até ele ver Liebe dirigindo-se até ele.

- Creio que você arrumou as malas de forma para que não caiam durante a viagem, não?

- Ô! - Milo disse, empolgado. Logo, porém, sua empolgação foi-se, com a expressão nada feliz da mulher. - Digo... sim, arrumei tudo certinho. Aliás...

- Sim?

Milo parou, observando a mulher. Ela o olhava com certo interesse, querendo saber o que ele diria. Ele, porém, a observava, simplesmente.

- Nada não. Acho que esqueci o que ia falar... - ele disse, pensativo. Em uma dessas, só faltou a moça lhe estapear, pela perda de tempo.

Não demorou muito, todos estavam aparentemente prontos. Levavam dois cavalos a mais, para Liebe e Karin. Portanto, a carruagem seria inicialmente carregada por quatro cavalos.

O sol já começava a despontar, mostrando seus primeiros raios, ainda mornos, sob um céu ainda escuro. Os viajantes já deixavam os portões da cidade para trás, seguindo pelo caminho anteriormente decidido. Embora a organização deles não fosse muito importante - pelo menos não naquela parte da viagem - Milo e Dimitri tomaram a frente, Shura e Máscara da Morte os seguiam de perto, Dohko, Mu e Shaka lado a lado, atrás dos dois generais e, por fim, Kamus, Kanon e Saga iam perto da carruagem.

- Ahhhh! - Milo gritou, em meio de um bocejo.

- Algum problema? - Dimitri perguntou.

- Tédio... Aliás, sabe do que mais? A gente deveria se conhecer mais! Não só você, Dimitri, mas todos nós. Afinal, somos viajantes, estamos juntos nessa... viagem.

Ao terminar de falar, Milo olhou para trás, recebendo os olhares nada animados dos generais logo atrás... no entanto, o olhar animador de Mu e o acolhedor, de Dohko, foram mais que suficientes para que ele continuasse.

- Pois bem! Pedir para que falem agora seria exigir demais, mas... Comecemos bem! Vamos deixar de lado as formalidades. Por exemplo... não precisam me chamar de "vossa majestade nhe nhe nhe". Só Milo. A mesma coisa vale pro Dimi. E os generais e todo mundo. Primeiro nome está ótimo.

- Dimi...?

- É, Dimi. Gostou? Acabei de pensar!

O russo não respondeu. Seu pesar era evidente. Milo, no entanto, parecia muito animado com a idéia.

O sol já mostrava-se majestoso em um céu azul e sem nuvens. Pelos cálculos, deveriam estar no meio do território português - ou quase, vai saber. A cavalgada rendera bastante, sendo silenciosa também. Isso porque Milo parecia maravilhado com a paisagem portuguesa, que absorvia total atenção do príncipe espanhol. No entanto, em determinado ponto, as árvores, pedras e os poucos animais se misturavam com a paisagem decadente da estrada. Não parecia fazer muito sentido, coisa que Milo associou à duas garrafas e meia de um bom vinho.

Antes, porém, que Milo pudesse comentar sobre tal coisa, o grupo ouviu um grito, ao longe. Por alguns instantes, o lugar parecia se agitar de novo, mas logo voltou ao seu normal.

- Vamos aju...

- Seguiremos nosso caminho. - Máscara da Morte falou, calmamente, cortando o heroísmo do príncipe espanhol.

- Mas, mas... como assim? - Milo disse, beirando choramingos.

- Nós temos um longo caminho pela frente e isso só nos atrasaria. - o general respondeu.

E ele teria continuado a cavalgar, se não tivessem o interrompido.

- Não podemos sequer olhar? - Mu sugeriu, em voz suave.

- Se olharmos, acabaremos por nos envolver. - o general russo disse, sem olhar para trás.

- É exatamente isso que faremos, então.

Máscara da Morte parou, virando-se para encarar Mu. O general inglês tinha semblante sereno, porém desafiador. É claro que ouvira falar a respeito da crueldade do general russo, mas era evidente que o outro também ouvira falar das proezas do chamado "cavaleiro de Kerry".

- Generais! Não crêem que o melhor... - Dimitri começou. - ... é que nosso comandante decida?

Os dois generais se entreolharam, mas a proposta do jovem era irrecusável.

- É, também acho melhor que o comandante veja...

- Você é o comandante, Milo.

- Ah, é...

Silêncio. O príncipe espanhol, que antes diria sim, sem pensar muito, agora ponderava, aparentemente.

- Ahhh... - começou. - ... vamos, né?

Um pouco mais de silêncio. Desta vez, porém, incrédulo.

- Que foi, algum problema? - Milo olhou para os outros, não entendendo as expressões estranhas.

- Por que estamos parados? - uma voz feminina bem conhecida invadiu a conversa.

Liebe ainda estava na carruagem, na porta.

- Hein, por que estamos parados?

- Milo aparentemente está ponderando sobre... - Kanon começou.

- Não estou mais! A gente vai, vamos vamos logo! - Milo cortou a fala do outro e seguiu em frente.

- O que foi isso, Kanon?

- Na verdade, nem eu sei, Vossa Majestade.

Liebe fez uma cara de entendida, embora não satisfeita, e entrou na carruagem novamente. Logo, estava todos seguindo o caminho do grito - Milo deixou que Mu seguisse na frente, porque não se lembrava de onde vinha. Gradativamente, o caminho parecia tornar-se mais estreito e decadente. Por pouco não tiveram que deixar a carruagem para trás. A floresta tornava-se mais densa e escura. Em alguns pontos, fora da trilha, o sol mal chegava no solo.

Logo, chegaram em um ponto onde puderam avistar um acampamento grande. Fortificado naturalmente, rochas grandes e altas cercavam quase todos os lados daquele lugar. Os viajantes, portanto, só puderam avisar o acampamento porque se encontravam em cima de uma dessas rochas. Por sorte, árvores os escondiam e o barulho do lugar fez com que a presença nova não fosse percebida. Atrás do acampamento, encontrava-se uma floresta ainda mais densa, se assim fosse possível. Não havia como um cavalo se aventurar por ali, fazendo com que o caminho de ida, também fosse o único, aparentemente, de volta. Mais abaixo, havia uma descida um tanto que íngreme. A atenção do grupo logo voltou-se para um dos cantos do acampamento, onde uma jovem gritava. Um homem, esguio, riu-se.

- Acha que esses gritos farão seu avô ouvi-la? - ele debochou.

- Pois saiba que você está morto! Ouviu o que eu disse?! MORTO!

O sorriso do homem desapareceu, sua face contorceu-se em raiva. Ele se aproximou da moça e, violentamente, pôs a mão sobre a boca dela, afim de evitar que ela gritasse mais. Assustada, ela mal pôde se mexer, para tentar desvencilhar-se do toque.

- Eu estaria morto se, SE, seu avô soubesse que estou aqui. SE! Ouviu bem, "La Favori"? Vocês, amarrem-na e coloquem algum lenço que possa fazer com que pare de gritar.

Logo, o homem soltou-a e os viajantes viram a moça. Tinha longos cabelos ruivos e ondulados, soltos. Sua tez clara contrastava com os cabelos de tonalidade viva. Por estar longe, ela parecia pequena demais e só poucas características, as mais marcantes, eram visíveis. No entanto, não era preciso de muito para se atestar que a moça encontrava-se em situação deplorável. Não era preciso dizer que se tratava de Camille Leclercq d'Bourbon. Fato que, sem dúvidas, fez a espinha de Kamus gelar instantaneamente, deixando-o pálido como mármore.

O grupo concordou em subir um pouco, na direção oposta, para deixar os cavalos e carruagem. Chegaram até uma pequena clareira, de onde ainda conseguiam ver o acampamento. As moças desceram da carruagem e uma das malas caiu. Antes que alguma delas falasse algo, Kamus se prontificou a colocar a mala no lugar, assim que resolvessem o problema.

- La Favori? Não entendi essa. - Milo começou.

- Ela... - começou Kamus. - ... é neta do Rei da França. Por ter recebido um tratamento privilegiado, é conhecida como "La Favori", ou "A Favorita".

- Ahhh sim... - Milo fez uma cara de entendido.

- Enfim, concentremos no que devemos fazer. Resgatar a senhorita, não? - Shura disse, impaciente.

- Eu posso ajudar com um plano. - Karin logo se prontificou.

Os generais logo se juntaram em volta de Karin, assim como Liebe e Dimitri. Dália permaneceu por perto, embora não interferisse no assunto. Milo, por sua vez, decidiu observar a clareira - tinha se interessado por um passarinho estranhamente amarelo. Parou, por alguns, instantes, tranquilo. Via o passarinho por entre algumas folhas, tinha o canto suave. De certa forma, sentia-se alheio aos acontecimentos recentes, como se nada tivesse acontecido. Certamente, não enxergava a importância daquela viagem, missão. Todos pareciam sérios demais, tensos demais. Deveriam ter se esquecido de certas coisas. Não agora. Mas há muito, todos esquecidos.

- Então ficaremos Liebe e eu para trás, com os arcos... - Mu dizia.

- Sim. Mais à frente, Dohko e, diretamente, os demais. Precisam ser rápidos. - Karin disse.

- Não tem alguma forma de nos envolvermos... sem precisar atacar? - Kamus falou. - Afinal, se perceberem que estamos resgatando...

- A não ser que você tenha asas e consiga chegar até o outro lado, é impossível chegarmos sem um ataque. - Karin logo replicou.

- Mas Kamus está certo. - Máscara da Morte começou. - Caso percebam, eles podem muito bem usá-la para fugirem ou até mesmo matá-la.

- Bem, se matarem-na, nós simplesmente iremos continuar o ataque. - Dimitri falou.

- Que coisa horrível, Dimi! - Dália disse.

Dimitri olhou a prima com desgosto. Ela também usaria o "apelido"?

- Enfim, de qualquer forma...

- Ei, o que fazem aqui?

Um homem de voz grossa e vacilante chamou a atenção de todos. Baixo, gordo e sujo. Claramente bêbado, sequer era preciso notar a garrafa em uma das mãos. Usava roupas simples, porém visivelmente resistentes - era algum viajante também. Usava também um cinto, onde apoiava a bainha de uma espada.

- Hein, o que...

Sequer teve tempo de terminar sua frase. Uma flecha atravessou o crânio do homem em questão de milésimos. Logo, ele caiu no chão, deslizando ladeira abaixo.

- Milo, pegue o corpo! - adiantou-se Mu, que segurava seu arco.

O espanhol não pensou duas vezes, jogando-se sobre o corpo. Um erro. Com o impulso, ele e o morto acabaram por deslizar ainda mais rápido, por entre as árvores. Logo o paredão de pedras estava para trás e ele chamava a atenção de um acampamento todo, ao destruir uma tenda vazia e trazer um cadáver.

O estardalhaço de tal queda chamou a atenção do acampamento todo, de fato. O pano bege da tenda logo se avermelhava, com o sangue ainda saindo, de uma maneira ou outra. Os homens do acampamento olhavam aquela cena com... choque. Não sabiam como alguém poderia entrar lá, quem sequer teria coragem para entrar ali... principalmente sozinho. O choque foi logo dando espaço para uma fúria misteriosa, como se quisessem honrar a morte do provável amigo. Um homem de vestes ricas, azuis, mas pobremente combinadas, levantou-se. Ele era o homem que falou com "La Favori" e, aparentemente, o líder.

- Você!

Milo sentiu cada músculo do seu corpo enrijecer. Sabia, muito bem, que havia se metido em uma encrenca. Não, entrar de tal forma no acampamento, com certeza, era o de menos. O pior seria depois.

- Você... - o homem disse novamente. - ... quem é você mesmo?

- Milo.

- Ah, sim. - pigarreou. - Milo! O que faz aqui?!

- Ah, não muito... mais de passagem, entende?

- Sim, entendo... bem, hã, que azar o seu, digo. Não é seu dia de sorte.

- Não?! Pensei que fosse!

- Eh... não. Não mesmo, eu diria.

- Mas tá um dia tão bonito... viu esse sol? Eu nunca tinha visto um tão forte assim!

Os dois olharam para o céu, claro e limpo.

- Verdade... tá bem bonito. O céu.

- É, foi o que eu quis dizer.

- Entendo... enfim.

- Eu acho que deveria ter usado aquela armadura...

- Que armadura?

- Ahh... uma aí. Mas o Dimi me disse que não precisava.

- Seu amigo foi bastante, hm, incauto. - o outro disse, pensativo.

- Acho que é nessa hora que eu me levanto, puxo a espada e finjo que lutarei bravamente contra vocês, até a minha morte ou de todos vocês, né?

- É, creio que sim.

- É... e você ordena que eles me matem, que é só um homem...

- Sim, sim...

- Então vamos logo.

Milo se levantou e puxou a espada da bainha - acessório que Liebe e Dimitri insistentemente fizeram-no usar - com certo receio e até mesmo falta de jeito. Logo, assumiu uma posição qualquer de combate. O outro, por sua vez, pigarreou de novo e endireitou-se.

- ... você...!

- Milo.

- É. Você, Milo! Você se arrependerá armagamente de ter invadido este acampamento! Homens, matem-no!

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E é isso aí por este capítulo! Eu planejava fazê-lo maior, mas... bem, precisamos de alguma tensão! Isso será, definitivamente, muito divertido!

Neste capítulo, a personagem da LadyScorpion S2 também aparece... mas peço para a autora entrar em contato comigo o mais rápido possível. Obrigada.

Eu agradeço os reviews, de coração! E... peço desculpas por não colocar as personagens sempre, em destaque. Lembrem-se que tem bastante gente por aqui, então... Enfim! Espero que vocês gostem deste capítulo e até breve!