Capítulo 4
Príncipe Escravo
Itsudatte yuki domaride
(É sempre um final morto)
Kesshite nigerarenai
(Nunca serei capaz de escapar)
Sora no tori e kanashimi nose tobasu no
(Eu expando minha tristeza sobre os pássaros do céu para fugirem)
Koko wa karinui watashi no shibaru eien
(Este lugar me segura para sempre)
Yuki mo kaeri mo sugite yuku wa yume
(o sonho de ir e vir continua escapulindo)
Yume... Yume...
(Sonho... Sonho...)
Harry olhou seu amigo. Depois observou que ele tinha um sorriso leve no rosto e parecia falar baixinho com a pessoa que permanecia deitada na cama.
- Seamus... O que houve?
Só então o irlandês deu sinal de notar a presença do Garoto Que Venceu.
- Harry... - ao ouvir a voz trêmula, Harry deduziu que o outro estava chorando - Obrigado por vir tão depressa...
- O que aconteceu, Seamus?
Seamus voltou seu rosto para o olhar o outro. Harry teve a confirmação de suas suspeitas ao ver as grossas lágrimas descendo pelo rosto lívido.
- Começou... Começou, Harry. Não há mais nada que possamos fazer...
Um gosto amargo tomou conta da boca de Harry. Ele avançou até aproximar-se da cama, começando a observar o rapaz que estava sobre ela. Dean Thomas dormia muito tranqüilamente. Os olhos permaneciam cerrados e a respiração extremamente calma fazia o lençol branco subir e descer ritmicamente. O moreno tentou não olhar a Coleira que Dean tinha no pescoço. Era da mesma cor da de Harry, porque Seamus era ainda um Mestre de nível um. Porém, por toda a extensão haviam desenhos estilizados de aranhas. O sinal de um Mestre que prende seu Submisso para si o máximo que pode.
Harry sabia que o irlandês tinha um bracelete idêntico à Coleira de Dean em seu braço.
- Não pode ser! - Harry afirmou com convicção.
Seamus apertou os lábios e tomou uma mão de Dean entre as suas. Mostrou-a para Harry.
Com os olhos verdes arregalados, o moreno viu que uma mancha rósea quebrava a perfeição da tez negra, bem nas pontas dos dedos esguios.
- A Doença Misteriosa! - Harry exclamou com a voz rouca. - Esse é o sinal dela, não é? - tudo o que sabia a esse respeito eram os boatos. Ninguém falava muito sobre o assunto, verdadeiro tabu entre os freqüentadores do Libertinus.
- Começou essa manhã. Não sei se é verdade, mas ouvi Laureen comentar pouco antes de Perla morrer que... Se a Mancha chegar à Coleira... Se chegar a Coleira... Dean vai... Dean...
Seamus não conseguiu completar a frase, mas não precisou. Harry sabia bem o que ele queria dizer: a Mancha Rósea ia avançar pelo corpo de Dean até alcançar a Coleira. Se tal fato se concretizasse, o Submisso morreria. Não havia provas daquilo, nem como confirmar. Todos os envolvidos com aquele jogo exótico que podiam comprovar algo estavam mortos.
Todos exceto Warren Monroe. Dono do Libertinus.
- Harry... Se eu perder Dean... Se eu perdê-lo...
"Dias depois, aparentemente por não agüentarem a dor da perda, os Mestres haviam cometido suicídio..."
Harry Potter sabia que seu amigo Seamus não resistiria à morte do namorado.
- Seamus, eu juro que não vou deixar isso acontecer. Tenho certeza de que existe uma cura, e tem minha palavra de que eu a encontrarei.
O irlandês concordou com a cabeça, tentando parar de chorar.
- Obrigado Harry. Eu sei que posso confiar em você.
O moreno balançou a cabeça assentindo. Depois sentiu uma urgência dominá-lo. Tinha que avisar Hermione da gravidade da situação. Enquanto Seamus voltava toda sua atenção para o namorado adormecido, Harry suspirou e decidiu-se pelo que fazer: escreveu uma carta para a jovem bruxa, encontrando pergaminho e tinta na mesa de cabeceira de Seamus. O irlandês não se preocupou por Harry mexer em suas coisas. Ele mal pareceu notar...
Após encarregar a coruja parda de Dean a levar a carta para Hermione, Harry tratou de cuidar de Seamus. O amigo estava totalmente fora da realidade, e sem dúvidas andara se negligenciando...
Não sem trabalho, Harry o convenceu a sair do lado de Dean por alguns minutos, para tomar um banho. Por sua vez, o Garoto Que Venceu usou alguns feitiços de limpeza para dar um jeito na casa. Principalmente na cozinha.
A única coisa impecável era Dean Thomas. Era óbvio que o irlandês cuidava com muito zelo e carinho do amante. Tanta dedicação...
Quando Seamus saiu do banho, Harry o obrigou a ingerir uma refeição reforçada. Teve muito, muito trabalho para fazê-lo perceber o quanto precisava descansar. Seamus só concordou em dormir um pouco depois que Harry deu sua palavra de que não sairia do lado da cama de Dean Thomas.
Satisfeito por ver o amigo adormecer no quarto de hóspedes, Harry foi cumprir sua palavra e sentar-se ao lado de Dean. Durante alguns minutos observou a face calma do rapaz. Dean parecia dormir um sono tão tranqüilo... Tão imperturbável...
Ao pensar aquilo, Harry sentiu seu coração dar um salto, e seu corpo arrepiou-se todo. Se não agilizasse sua investigação e descobrisse logo um contra feitiço, as chances de Dean não despertar desse sono eram muito grandes!
Ele tinha que fazer alguma coisa. O tempo estava se esgotando...
HPDM
Somente ao cair da noite Harry teve segurança de voltar para casa. Detestava usar a Rede de Flú, por isso foi-se embora da casa de Seamus e Dean andando até um ponto onde os feitiços protetores do irlandês não funcionavam mais, e ele podia aparatar direto em sua casa.
Deixara um Seamus descansado, porém mortalmente preocupado para trás. Mas ainda não podia fazer nada. Ainda...
Assim que aparatou na sala da própria casa, Harry foi recepcionado por um tom de voz frio e arrastado:
- Finalmente...
Draco poderia matar alguém naquele momento, era o que os olhos cinzentos diziam. Lançavam adagas afiadas na direção de Harry Potter.
O moreno inspecionou o ambiente. Sabia que encontraria tudo tão perfeito como quando saíra pela manhã. O vínculo impedia Draco de usar magia contra Harry ou qualquer uma das coisas de seu Mestre. E a magia dele ainda estava instável...
Malfoy que não ficara nem um pouco feliz com a situação. Pensara em extravasar a raiva destruindo a casa de Harry, mas fora frustrado em seus planos.
- Porque demorou tanto, seu desgraçado? Eu tive que ficar sentado nesse sofá o dia todo!! - Draco estava realmente furioso.
- O que? - Harry ficou confuso.
- Você me mandou esperá-lo aqui! Não consegui sair desse... Sofá! - Só então Harry notou como o ex-Slytherin parecia cansado, e permanecera praticamente na mesma posição em que o deixara pela manhã.
- Oh...
- "Oh"? "Oh"? Não me venha com "oh"! - Draco disse com os dentes cerrados - Me tire daqui!
- Quando eu disse para me esperar 'aqui', quis dizer aqui na casa, não aqui no sofá...
- Pois você terá que ser mais específico da próxima vez. Esse maldito vínculo parece ser tão burro quanto você! Eu estou com fome! E... E... E... Preciso ir ao banheiro, Harry!
- Oh... - o moreno quase podia rir só de pensar na cena: Draco sentado no sofá, o dia todo, sem poder se levantar... Morrendo de tédio. Mas o momento de diversão passou. Harry tinha assuntos urgentes para resolver. - Serei mais específico na próxima vez. Pode levantar-se agora. Quando for ao banheiro, aproveite para melhorar sua aparência. Vamos ao Libertinus essa noite.
- Eu não quero voltar lá! Não com...
Harry cortou o protesto de forma seca: - Malfoy, eu disse que vamos ao Libertinus hoje. Você tem quinze minutos pra se arrumar. Não vai precisar de tudo isso. Pode comer algo lá no Pub. E fique quietinho, ok? Estou com dor de cabeça.
Draco trincou os dentes e não disse nada. Fechou os punhos com força. Deu meia volta e estava quase saindo da sala quando a voz de Harry chegou a ele:
- O banheiro é a terceira porta a esquerda.
Assim que o loiro saiu, o ex-Gryffindor jogou-se no sofá. Começou a massagear a base do pescoço enquanto respirava de forma profunda e lenta. Ele não se permitiu sentir pena de Draco. Sabia que dera mancada, mas remediaria isso depois.
Antes de qualquer coisa, tinha que seguir em frente com a investigação. Não pensaria no quanto estava arriscando o loiro. Pra ele, naquele momento, a vida de Dean Thomas e a sanidade de Seamus Finnigan eram mais importante do que tudo!
HPDM
Ok. Trazer Draco ao pub não fora uma boa idéia. Na verdade, Harry começava a achar que fora uma das piores idéias que tivera nos últimos anos.
- Draco...
O loiro mal conseguia ficar sentado sobre a cadeira. Parecia nauseado e cambaleava de um lado para o outro. Simplesmente não conseguira comer o sanduíche que o garçom trouxera, pois enjoara com o cheiro. Tampouco bebia alguma coisa. A fronte pálida estava permeada de minúsculas gotas de suor e apesar disso ele tremia de frio.
Quando Harry ameaçara usar o vínculo para obrigá-lo a comer, Draco jurara que passaria mal de verdade se fosse obrigado a comer alguma coisa. Logo em seguida parecera perder a lucidez, estreitando os olhos e respirando com dificuldade.
Nesse momento o ex-Gryffindor considerava a opção de voltar pra casa levando o loiro embora. Precipitara-se outra vez, deixando-se levar pelo desespero de ver dois de seus grandes amigos em situação tão terrível.
Porém agora que obrigara o loiro a vir ao Libertinus, não podia simplesmente voltar embora.
Os olhos verdes se desviaram da face lívida de Draco e percorreram o local. O pub estava cheio, como sempre ocorria nas noites de sábado, as mais concorridas da semana. Quase todos os bruxos Dominadores vinham ao local, às vezes trazendo seus Submissos, às vezes sozinhos.
Sábado era o dia das grandes vendas e compras. Ou das trocas de Submissos. Ninguém gostava de ficar de fora dessas atividades. Por isso, apesar de não ser mais do que dez horas, o Libertinus estava lotado.
- Draco... - Harry repetiu preso numa dúvida terrível sobre o que fazer.
Podia sentir a magia natural do loiro ondular desregulada, sem fluxo definido. Os olhos cinzas se desfocavam vez por outra, dominados por um brilho estranho, levemente alucinado.
Certo. Draco Malfoy não estava nada bem. Ele nem reclamara das cenas obscenas que permeavam aqui e ali no salão, embaladas pela música enfeitiçada...
Harry fez menção de se levantar. Ia voltar pra casa agora mesmo, e dar o descanso que o loiro precisava, no entanto parecendo adivinhar os pensamentos do Inominável, Draco ficou em pé antes.
- Malfoy o que...
O loiro convulsionou de leve, os olhos grises se reviraram e ele deu um passo à frente.
- Draco, espere aí!
Malfoy parou de andar. Esfregou o rosto com força, parecendo não saber o que fazer e sofrer com a indecisão...
- Volte aqui!
O loiro tremeu novamente, com mais força. Quase perdeu o equilíbrio. Então ignorou a ordem de seu Mestre e continuou avançando, seguindo pra longe de Harry.
Mais do que depressa, Harry levantou-se e seguiu o ex-Slytherin. Beirando o pânico observou-o andar cambaleante, como se fosse guiado por alguma coisa que Harry não podia ver, ouvir ou sentir.
Antes que alcançasse o Auror, Harry percebeu a hora em que Draco parou de avançar daquela forma débil e inclinando-se um pouco para frente, encostou o rosto nas costas de alguém que estava em pé na frente do balcão.
Era Warren Monroe, dono do Libertinus.
Com certa surpresa, o homem voltou-se e sorriu amplamente ao perceber o loiro recostado em si.
- Desculpe... Esse Submisso é meu...
Mais do que depressa Harry explicou, enquanto avançava os últimos passos até alcançar Monroe.
O homem; que era mais alto do que Harry, possuía cabelos grisalhos e olhos negros ergueu uma sobrancelha.
- Harry Potter...
- Você é Warren Monroe... - o Inominável pensara em inúmeras maneiras de se aproximar do dono do Libertinus sem chamar atenção demais ou parecer suspeito. Mas de todas as formas imaginadas, nunca cogitara que Draco Malfoy serviria de ponte entre eles, para iniciarem um primeiro contato...
- Então os boatos eram verdadeiros... O grande Harry Potter finalmente usou seu Bem de Direito...?
Harry não disse nada. Queria saber porque Draco agira daquele modo. Em resposta ao seu pensamento, Monroe relaxou o rosto anguloso, quase sorrindo e abriu os braços.
- Venha aqui, criança.
Imediatamente Draco obedeceu. Afastou-se das costas do dono do Libertinus e deu dois passos até permitir que o homem o abraçasse. Para choque imensurável do ex-Gryffindor, Draco enrodilhou-se todo no casaco preto que Warren trajava.
- Como... Como...? - Harry não entendeu nada.
- Potter, sente-se aqui comigo. Vamos tomar alguma coisa. - Monroe viu um aturdido Harry sentar-se ao balcão e pegar o copo que surgira magicamente a sua frente. Apesar do convite ele próprio não se sentou.
Harry precisou de um longo gole, ao notar que Draco não parecia sofrer mais tanto. Era como se estivesse recebendo alguma coisa do contato com Monroe, e essa coisa fosse boa. O acalmasse...
Decidindo por parar de judiar do moreno, Monroe resolveu explicar o que acontecia. Começou a conversa de um jeito bem peculiar:
- Potter, você estudou em Hogwarts, não foi?
- Foi.
- Em Gryffindor?
O olhar estranho que Harry dirigiu ao mais velho foi uma resposta bem eloqüente.
- Entendo. Só um Gryffindor para trazer seu Submisso ao Libertinus com o vínculo tão recente. A magia dele ainda está se adaptando a sua, Potter. E se um Submisso sente uma magia que lhe seja mais... Como posso dizer... Parecida com a sua própria que a de seu Mestre, irá segui-la.
- O que? Ele achou a sua magia parecida com a dele?
- Este seria Draco Malfoy? Torrance me contou tudo. Veja bem, Potter: eu também estudei em Hogwarts, em Slytherin. Tenho muitas características que Salazar tanto prezava. - "Não fui um Comensal da Morte, mas... Digamos que talvez eu tenha passado muito próximo disso...", Monroe pensou, mas Potter não precisava saber de tantos detalhes - Pode concluir que um igual ache a minha magia natural muito mais atrativa que a sua... Principalmente se você não estiver em uma situação de paz com seu Submisso.
- Eu não sabia...
- Nunca ouviu dizer que é perigoso trazer o Submisso ao Pub logo após lançar o vínculo?
- Já, mas... Até agora ele estava normal!
O mais velho rolou os olhos e torceu os lábios. Parecia achar que Harry era um idiota:
- Ele não estava em contato com tanta magia natural diferente, de diversos níveis. Numa situação dessas qualquer Submisso pode libertar-se de seu Mestre e seguir uma magia que seja parecida com a sua. É a autodefesa da Magia natural, tentando encontrar um meio de se libertar.
- E agora?
Monroe riu: - Tem sorte que ele seguiu a mim. Eu teria total direito de requisitar seu Submisso e ficar com ele. Poderia vendê-lo, trocá-lo ou mesmo dá-lo.
Harry ficou lívido ao ouvir aquilo. Um zumbido estranho atrapalhou sua audição e ele começou a ver as coisas em tons mais sombrios. Monroe dizia que ia lhe tirar Draco Malfoy?
Warren riu da expressão furiosa do Inominável. Achou uma reação um pouco exagerada, para a situação:
- Acalme-se Potter. Como disse a pouco, você tem sorte por ele seguir a mim. Eu não quero outro Submisso. Não pretendo vendê-lo ou dá-lo. Apenas deixe-o aproveitar um pouco mais da minha magia, vai ajudá-lo a se estabilizar.
- Se eu soubesse que isso poderia acontecer não teria vindo!
Warren não respondeu. Os olhos negros observaram a face desacordada de Draco. Ele parecia bem agora. Não tremia mais, apenas adormecera calmamente. Harry ficou incomodado com aquele longo olhar. Terminou de beber o drink e bateu o copo com força sobre o balcão.
O som pareceu despertar Monroe. O mais velho ergueu uma sobrancelha de maneira divertida e, ainda sem desviar os olhos de Draco, disse:
- Tem muito bom gosto, Potter. Draco Malfoy parece ser um garoto bem interessante. Entrou em um jogo perigoso, garoto...
- O que? - a irritação transbordava na voz de Harry.
- Vocês se conheciam antes de freqüentar o pub, não?
- Estudamos os mesmos anos em Hogwarts, em Casas diferentes é claro.
- Sei... Isso explica algumas coisas. Ah, Morgan...
A Submissa de Warren acabara de chegar. Trazia um embrulho pesado nas mãos. Parou ao lado de seu Mestre e olhou para Draco, todo enroscado no homem mais velho.
Harry piscou surpreso. Morgan não era uma moça bonita. Longe disso. Tinha a testa muito alta, e o nariz um tanto adunco. Mas os olhos da garota... Os olhos negros e profundos sempre chocavam o Garoto Que Venceu. Eram experientes e perspicazes. E a cada dia pareciam mais tristes.
Morgan possuía olhos magníficos.
Foi impossível resistir a dar uma olhada na Coleira que Morgan ostentava orgulhosamente. Era azul, a cor do último nível. E toda sua extensão era preenchida por riscos abstratos curvilíneos.
O dono do Libertinus estendeu uma das mãos, segurando Draco firme com a outra, e tocou nos cabelos castanhos de Morgan. Os fios eram encaracolados e caíam como pequenas molas até a altura dos desnudos ombros alvos.
- As pessoas mais belas ao longo da história eram Príncipes... Ou escravos. Mas mesmo quando presos por grilhões, tinham mais poderes que uma Majestade. E não falo apenas de beleza física, Potter.
Morgan ergueu os olhos negros para Monroe.
- Deseja mais alguma coisa, Meu Senhor?
Tirando a mão dos cabelos da garota, Warren deslizou as pontas dos dedos pelo rosto de Draco. Imediatamente Harry ficou tenso. Seus olhos arderam furiosos, mas o dono do Libertinus não percebeu, concentrado que estava em admirar o Auror.
- O que acha dele, minha pequena?
Morgan não hesitou: - O que Meu Mestre achar será minha opinião também.
Harry arregalou os olhos. Nunca conversara com Monroe ou com sua Submissa. Nunca vira alguém agir de forma tão passiva.
- Diga-me, Morgan... Ficaria triste se tivesse um outro Submisso ao seu lado? Mesmo se isso me agradasse, como você se sentiria?
- Eu me alegraria com a felicidade de Meu Mestre - Harry ficou ainda mais chocado - Mas... Preferia ser a única a servi-lo...
- Compreende, Potter? Por isso não quero outro Submisso. Não ficarei com o seu, já tenho tudo o que preciso.
- Ela é assim por causa do vínculo? O Único Dever a deixou assim?
Harry não pôde se segurar. Nunca imaginava Draco agindo de forma tão passiva. Nem queria que algo assim acontecesse. Seria como se destruísse a personalidade do loiro, e o ex-Gryffindor não tinha esse direito.
Monroe pegou o próprio copo e deu um primeiro gole na bebida.
- Não. Veja bem, Potter. O Único Dever não é como a Imperdoável. Você não pode mudar a personalidade de alguém. Mesmo que um Submisso não goste de Firewhisky, você pode obrigá-lo a beber, mas nunca o fará gostar. O vínculo não afeta a essência de um Submisso. Não é essa a intenção.
- Mas... Mas...
- Morgan é assim, muito calma, pacata. Eu gosto dessas facilidades. Já passei da idade de domar Submissos. Deixo isso para os impetuosos e impulsivos como você.
- Morgan é sua Submissa há muito tempo?
Um brilho estranho passou pelos olhos de Monroe. Por um segundo Harry achou que o homem não responderia, mas isso não ocorreu. Com voz cortante e áspera, Warren afirmou:
- O suficiente. Quando se trata do Bem de Direito e do Único Dever nunca é possível medir, Potter. Entenda isso: pode dominar a ação deles, mas não seus pensamentos, nunca seus sentimentos.
Harry emburrou.
- Porque está me dizendo isso?
Os olhos do homem mais velho se estreitaram, enquanto ele observava Harry de modo agressivo.
- Uma Coleira diz mais sobre o Mestre do que sobre o Submisso. Acho interessante que a de Malfoy tenha o Olho Dourado... Sabe o que essa figura representa?
- Não. Sei alguns poucos: a aranha, a folha...
- Que inocência. Que desperdício. - Warren não segurou uma careta - O que fazia até agora no Libertinus? Deixou o tempo passar sem descobrir o que realmente é importante...?
- E o que o Olho Dourando representa?
- Não serei eu a lhe ensinar, garoto. Não sou professor. Terá que descobrir por si só. Veja o meu Bem de Direito... É abstrato, porque consigo camuflar muito bem o que está aqui... - Monroe tocou a fronte com o dedo indicador - Por isso são abstratos e curvilíneos. Claro, existe uma diferença entre as formas arredondadas e as retas. Meu Pub tem mais segredos do que imagina, Potter. Não se trata apenas de leviandade, ah, não...
Harry sorriu largamente e passou a mão pelo cabelo: - Disse que não é professor e não me ajudaria, mas deu uma boa dica, Monroe.
O mais velho pareceu amuar-se.
- Potter, eu te disse antes, e vou repetir: entrou em um jogo perigoso. O que pretende? Pra que chegar tão longe sem realmente conhecer o Pub? Será um Mestre? Ou um escravo...? Sim, não se surpreenda. Mesmo que Malfoy use a Coleira, você pode muito bem se tornar o escravo.
- Só quero me divertir. - Harry não desviou os olhos. Por um milésimo de segundo temeu que Monroe tivesse desconfiado de que estava ali para investigar o Libertinus, mas as palavras seguintes do Bruxo provaram que não era bem assim. Menos mal. - Não creio que a diversão precise se aprofundar muito... - O Inominável não tinha problema algum em mentir, se isso ajudasse a manter seu disfarce. Ele precisava saber de todos os detalhes, mas sem chamar atenção.
- Sei. É por isso que as pessoas procuram o Libertinus. Espero que Draco Malfoy se divirta tanto quanto você.
Com essas palavras, Monroe tomou o loiro nos braços e deu dois passos para frente, indicando que Harry devia pegar seu Submisso de volta.
- Se continuar assim Potter, mudará de nível em breve...
Enquanto recolhia Draco pra si, Harry perguntou: - O que quer dizer com isso?
- Que você é um mestre digno do Libertinus. Não se preocupou em trazer seu Submisso aqui, mesmo sabendo que era perigoso. Não se importou com o que ele pensa ou sente. Você irá longe, Potter.
Harry piscou sem saber o que dizer. Aquela conversa estava se mostrando surpreendente. Ele nunca falara com Warren Monroe antes. Pelo menos pra isso sua burrada servira: abrira um precedente para que pudesse conversar sempre com o dono do Libertinus. Tinha apenas que guardar todas as informações em sua mente pra compartilhar com Hermione o quanto antes.
- Leve-o embora. Só volte aqui quando a magia do Único Dever se estabilizar, a menos que queira perder seu Submisso. Se ele vier atrás de mim outra vez, posso não ser tão bonzinho.
Harry acenou com a cabeça e deu as costas depois de murmurar um agradecimento. Hermione ficaria possessa quando soubesse daquilo tudo. E a amiga tinha um punhado de razão: arriscara a vida, a segurança e a liberdade de Draco Malfoy por ser tão impulsivo e inconseqüente.
Warren Monroe observou os passos de Harry Potter até que o mesmo saiu de seu campo de visão. Saboreou o drink antes de sentar-se em um dos banquinhos. Ele gostava mais daquele ambiente do que da Sala Ébano. Lá a decadência atingira níveis altos demais para que freqüentasse.
Assim que se sentou, Morgan colocou o pesado embrulho sobre o balcão. Ela posicionou-se às suas costas e começou a massageá-las com grande experiência.
- O que acha, Morgan?
- Do que, Meu Senhor?
- De Harry Potter, o Salvador do Mundo Bruxo...
- É um homem bonito.
Warren riu: - Mais bonito do que eu?
- Devo mentir, Meu Senhor?
O Mestre olhou seu próprio reflexo no espelho atrás do balcão. Passava um pouco dos quarenta anos, e seus cabelos estavam grisalhos nas têmporas, mas ainda era um tipão. Bem, pelo menos ele achava que era.
- Deixe pra lá, Morgan. Agora a pergunta premiada é: o que o Salvador do Mundo Bruxo está fazendo num lugar como esse? O que ele busca, realmente?
Morgan parou de massageá-lo e encostou o rosto em seu Mestre, igual Draco havia feito há pouco tempo atrás:
- O jeito que ele olhava para o garoto loiro... Harry Potter quer o que todo Dominador quer...
- Não todos, Morgan, minha linda... Não todos.
- O que a maioria deseja... Teria problemas, Meu Senhor, se resolvesse ficar com o garoto loiro. Harry Potter não aceitaria.
Warren riu divertido:
- Por isso me disse que não ficasse com ele?
- Hn. Não me importa que tenha mil Submissos, se isso o fizer feliz, Meu Senhor, mas se ficasse com esse, poderia ter se machucado. Não quero que se machuque.
O homem respirou fundo e abaixou a cabeça, olhando fixamente para seu copo cheio de Firewhisky.
- De qualquer modo, Potter está num jogo perigoso. A maioria deles está. São uns tolos, não vêem um palmo a frente do nariz.
- Do que está falando, Meu Senhor?
Ah, claro. Morgan, sua Submissa não sabia. Ninguém sabia na verdade. Aquele era o seu segredo. Não... Aquele era o segredo do Libertinus. A Coleira levava muito mais do que um simples vínculo. Ela carregava uma terrível Maldição... Uma Maldição mortal e cruel. Portava o mais terrível de todos os castigos.
E pelo que Monroe testemunhara aquela noite, pelo brilho nos olhos verdes de Harry Potter, ele podia dizer que o rapaz estava a um passo de se lançar no abismo.
HPDM
Harry avançou. Tinha que ir embora o quanto antes dali, não precisava correr mais riscos.
Os olhos verdes focalizaram Ruterford numa das mesas mais à direita. O homem não se importava em chamar a atenção. Pelo contrário, adorava que soubessem que ele tinha poder. Nesse momento estava currando outra de suas submissas. Não era Mira... Era Sibele, a jovem delicada de longos cabelos castanhos claros.
A Coleira da garota era de um tom laranja desbotado e as formas abstratas e retas se espalhavam por todo o contorno estreito. Depois das palavras de Monroe, Harry tentou imaginar o que aqueles desenhos significavam. Eram opostas as do dono do Pub, o que significava que Ruterford não camuflava seus sentimentos. O motivo era outro... Qual seria? E qual seria a razão por seu bracelete receber os desenhos de olhos dourados?
Harry estremeceu. Imaginou que se Draco tivesse sido atraído pela magia daquele cara doentio, não teria se saído tão bem assim. Ruterford no mínimo ficaria com o loiro para si... E o ex-Gryffindor não gostava nem de pensar naquela possibilidade.
Preocupado, apertou o rapaz em seus braços, sentindo o momento em que Draco pegou um punhado da camisa branca e apertou com força, como se precisasse desesperadamente daquele contato. Os lábios finos se moveram, mas nenhum som pôde ser ouvido, apesar de Harry ter a impressão que Draco estava chamando pela mãe...
Com um gosto amargo na boca, o moreno apertou ainda mais o ex-Slytherin em seus braços.
Saiu no terreno ao redor do Pub e não viu Al Torrance, mas não se surpreendeu. O grandalhão sempre se mantinha nas sombras, aparecendo apenas quando sua presença era necessária.
Mal deu dois passos e parou. Seus lábios ficaram amargos e foi acometido por uma intuição estranha, como uma espécie de mau agouro o rodeando.
"Está errado. Está tudo errado!..."
Foi o que pensou um segundo antes de desaparatar... Tinha alguma coisa errada, ele só não sabia exatamente o que... E naquele momento havia algo mais importante do que sua intuição...
Precisava desculpar-se com Draco Malfoy.
Harry & Draco
N/A: Essa fic é um presente pra minha esposa. Sam, te adoro!
A música do começo pertence a um anime chamado "Jikoku Shoujo". À meia noite qualquer vingança será concedida. Cara, dá arrepios quando a Enma Ai aparece e diz "Ippen shindemiru"...
Pra quem leu e deixou review, o meu obrigado: Dryade (valeu! Mas não sei se um livro assim seria bem aceito.), Mirian Suzana (espero que esteja gostando da história! Até a próxima!), Tonks Black2 (esse foi o chapie dos mistérios, não? Agora é começar a desvendar), Scheila Potter Malfoy (eu também gosto do Harry assim, que de vez em quando deixa o lado Slytherin dele falar mais alto), Bem-Te-Vi (e viva Slytherin, a melhor casa de todas!), Unique (oi! Tive problemas pra responder seu review! Desculpe!), Bella Potter Malfoy (quantas dúvidas! Rs, espero ter esclarecido algumas!), Karla Malfoy (bem vinda ao clube! Sempre cabe mais uma), Aleera Black (O Al é tudo de bom! Tão fofo, tão uke... rsrsrs. Obrigado pelo super review!), Nandda (valeu moça! Obrigado e até a próxima), Dana Norram (Que comentário! Rsrsrs, obrigado pelos alertas! E tá mais um chapie aí.) e Miyu Amamyia (obrigado, moça! Até a próxima!).
Sei que eu tinha prometido "I can see (...)", gomen, mas espero que a troca seja equivalente. Ah, e se alguém quiser conferir, eu fiz a capa de Spatium.
