"As Cartas de Ninguém", Harry leu.
- Carta de Hogwarts? – Sirius perguntou ansioso.
- Cartas de Hogwarts – Harry confirmou com uma sombra de um sorriso. Tinha sido muito irritante tentar pegar uma carta, mas, certamente, o desespero de seus tios valia alguma coisa.
Remo, entretanto, não apreciou muito a conversa, pensando no porque de carta estar no plural.
A fuga da jibóia brasileira rendeu a Harry o seu castigo mais longo.
Como num passe mágico, o sorriso se apagou do rosto dos três.
- Quando é o aniversário de Dudley? – Sirius perguntou rapidamente.
Harry engoliu seco; se seu padrinho nem se dava ao trabalho de falar "porco Dursley", ele estava muito bravo.
- Junho.
Ninguém falou nada. Sirius somente puxou Harry para um abraço, fazendo-o derrubar o livro.
- Padfoot! – porém apreciou o gesto, pois era realmente confortador e amável. Durante alguns instantes ficaram assim, até Sirius deixá-lo voltar a ler o livro.
Na altura em que lhe permitiram sair do armário, as férias de verão já haviam começado e Duda já quebrara a nova filmadora, acidentara o aeromodelo e, na primeira vez que andara na bicicleta de corrida, derrubara a velha Sra. Figg quando ela atravessava a Rua dos Alfeneiros de muletas.
- Pobre Arabella – Remo lamentou.
Harry ficou contente que as aulas tivessem acabado, mas não conseguia escapar da turma de Duda, que visitava a casa todo dia. Peter, Dênis, Malcolm e Górdon eram todos grandes e burros, mas como Duda era o maior e o mais burro do bando, era o líder.
Remo e Sirius se partiram em risos.
- Eu vejo sua lógica, filhote – Remo sorriu -, perfeitamente.
- Minha segunda geração Marota! – Sirius explodiu em orgulho.
Os demais ficavam bastante felizes de participar do esporte favorito de Duda: perseguir Harry.
Era impressionante como os sorrisos conseguiam sumir rápido.
- Remie, já ouviu falar em "Caçar Porcos"?
Por esta razão Harry passava a maior parte do tempo possível fora de casa, perambulando e pensando no fim das férias, no qual conseguia vislumbrar um raiozinho de esperança.
- Hogwarts! – Sirius gritou em excitação.
Quando setembro chegasse, ele iria para a escola secundária e, pela primeira vez na vida, não estaria em companhia de Duda.
- Não! Você vai para Hogwarts!
- Eu sei, Sirius – exasperou-se Harry.
Duda tinha uma vaga na antiga escola de tio Válter, Smeltings.
- Que tipo de escola se chama Smeltings?
- Que tipo de escola se chama Hogwarts, Pads? – Remo sorriu para o amigo, que fez bico.
- Bom, uma escola muito boa, o que eu duvido que Smeltings – Sirius fez uma voz fanha ao falar o nome da escola – seja.
Peter ia para lá também. Harry, por outro lado, ia para a escola secundária local. Duda achava muita graça nisso.
- Eu não vejo graça – Remo rosnou como se, de repente, fosse um lobisomem e, não, um humano.
— Eles metem a cabeça dos garotos no vaso sanitário no primeiro dia de escola — contou ele a Harry —, quer ir lá em cima praticar?
- NÃO OUSE! – Remo e Sirius gritaram e ficaram confusos quando Harry explodiu em risos.
— Não, obrigado — respondeu Harry. — O coitado do vaso nunca recebeu nada tão horrível quanto a sua cabeça, é capaz de passar mal.
Ninguém disse nada. Estavam ocupados rindo.
— E correu antes que Duda conseguisse entender o que dissera.
- Awnnn – Sirius reclamou – devia saber que ele não entenderia Harry.
Certo dia de julho, tia Petúnia levou Duda a Londres para comprar o uniforme da Smeltings e deixou Harry com a Sra. Figg. A Sra. Figg não estava tão ruim quanto de costume. Afinal, fraturara a perna porque tropeçara em um dos gatos e não parecia gostar tanto deles quanto antes.
- Ótimo! Gatos são bichos do demônio!
- Achei que você gostasse de Bichento – Harry comentou para seu padrinho, que tinha então uma expressão defensiva.
- Bom, ele é inteligente, os outros gatos, por outro lado...
- Imagine o que Minerva faria se te escutasse – Remo brincou e Sirius empalideceu.
Deixou Harry assistir à televisão e lhe deu um pedaço de bolo de chocolate que pelo gosto parecia ter muitos anos.
- Isso é crime!
- É, é, Moony, todos nós sabemos sobre sua reserva de chocolate – Sirius balançou a mão num gesto de falso descaso.
- Reserva? – riu-se Harry.
Remo corou e murmurou algo sobre "não ter reserva nenhuma" e "fazer Padfoot pagar".
Naquela noite, Duda desfilou ("Supermodelo!" "Sirius, cale a boca!") para a família reunida na sala de estar vestindo o uniforme novo da Smeltings. Os alunos da Smeltings usavam casaca marrom-avermelhada, calções cor de laranja e chapéus de palha.
- Charmoso.
- E eu que sempre reclamei dos uniformes de Hoggy serem muito pretos...
Carregavam também bengalas nodosas, que usavam para bater uns nos outros quando os professores não estavam olhando. Isto era considerado um bom treinamento para o futuro.
- Se você quiser praticar bullying nos outros – Remo disse raivosamente. Harry sentiu suas bochechas corando.
Ao contemplar Duda nos calções laranja novos, tio Válter disse com a voz embargada que aquele era o momento de maior orgulho em sua vida.
- Calções laranja? Faz parecer que ele estava de cueca.
- Sirius, eu estava lá... Por favor, por favor, não faça outro comentário como esse, ou ficarei doente – Harry disse meio verde. Remo olhou isso meio divertido meio preocupado.
Tia Petúnia rompeu em lágrimas e disse que não podia acreditar que era o seu Dudinha estava tão bonito e adulto.
- Bonito?
- Adulto?
- BONITO? – Sirius repetiu somente para confirmar que ouvira direito.
Harry não confiou no que poderia dizer. Achou que duas de suas costelas talvez já tivessem partido só com o esforço para não rir.
Sirius e Remo deram um high five com Harry.
Havia um cheiro horrível na cozinha na manhã seguinte quando Harry entrou para o café da manhã. Parecia vir de uma grande tina de metal dentro da pia. Ele se aproximou para espiar. A tina aparentemente estava cheia de trapos sujos que boiavam na água cinzenta.
— O que é isso? — perguntou à tia Petúnia. Os lábios dela se contraíram como costumavam fazer quando ele se atrevia a fazer uma pergunta.
- Que petulância! – Sirius brincou, embora por dentro ardesse de raiva.
— O seu uniforme novo de escola — respondeu.
Harry espiou para dentro da tina outra vez.
— Ah — comentou —, eu não sabia que tinha que ser tão molhado.
- Sarcasmo não vai funcionar com ela, Bambi.
— Não seja idiota ("Você é suspeita para falar, Petúnia!" "Nenhuma objeção aqui, Moony.") — retorquiu tia Petúnia com rispidez. — Estou tingindo de cinza umas roupas velhas de Duda para você. Vão ficar iguaizinhas às dos outros quando eu terminar.
Harry tinha sérias dúvidas, mas achou melhor não discutir.
- Boa idéia, filhote..
Sentou-se à mesa e tentou pensar na aparência que teria no primeiro dia de aula — como se estivesse usando retalhos de pele de elefante velho, provavelmente.
Remo sentiu seu coração quebrar ao pensar no seu filhote preocupado com coisas como essa, quando, na verdade, deveria estar animado em receber sua carta e comemorar com a família.
Duda e tio Válter entraram ambos com os narizes franzidos por causa do cheiro do novo uniforme de Harry.
- Uniforme...
- ... Novo?
Remo e Sirius dariam bons "gêmeos Weasley".
Tio Válter abriu o jornal como sempre fazia e Duda bateu na mesa com a bengala da Smeltings, que ele carregava para todo lado.
- Que orgulho! – Sirius exclamou numa voz irritantemente fina, que Harry suspeitou fortemente que fosse uma imitação horrível (ou muito boa) de tia Petúnia.
Ouviram o clique da portinhola para cartas e o som da correspondência caindo no capacho da porta.
— Apanhe o correio, Duda — disse tio Válter por trás do jornal.
- Oh, my fucking God! – Sirius exclamou, sua voz subindo nas alturas. Novamente, Remo agradeceu por ter tido a idéia de colocar um feitiço silenciador volta do quarto.
- O quê? – Harry indagou curioso, vendo que o padrinho não continuara a frase.
- Ele mandou o bebê baleia fazer algo de útil?
— Mande o Harry apanhar.
— Apanhe o correio Harry.
- Ah. O mundo está nos eixos novamente.
— Mande o Duda apanhar.
— Cutuque ele com a bengala da Smeltings, Duda.
Remo pensou que seria uma idéia genial usar sua força de lobisomem para cutucar Duda e Válter nesse momento.
Cutucar... Chutar... Lentamente incinerar...
Harry se esquivou da bengala da Smeltings e foi apanhar o correio. Havia três coisas no capacho: um postal da irmã do tio Válter, Guida,
- Vaca – Harry declarou decidido após ler o nome da "tia".
- Harry! – Remo e Sirius exclamaram severos. Sim, Sirius também.
- O que foi? Ela é mesmo!
Tirando o fato da cena de seu afilhado/sobrinho estar se explicando como uma criança que foi pega roubando biscoitos, Remo quase sorriu e disse: - Não quero esse vocabulário.
Então ele e Sirius puderam sorrir ao ver Harry fazer um bico.
que estava passando férias na ilha de Wight, um envelope pardo que parecia uma conta e — uma carta para Harry.
Harry apanhou-a e ficou olhando, o coração vibrando como um elástico gigante.
- Seu coração faz coisas estranhas.
- É uma expressão, Pads!
- Ah. Foi mal, Prongslet.
- Por nada, Sirius.
Ninguém, jamais, em toda a sua vida, lhe escrevera. Quem escreveria? Ele não tinha amigos, nem outros parentes, não era sócio da biblioteca, de modo que jamais recebera sequer os bilhetes grosseiros pedindo a devolução de livros. Contudo, ali estava, uma carta, endereçada tão claramente que não podia haver engano.
Sr. H. Potter
O Armário sob a Escada
Rua dos Alfeneiros 4
Little Whinging
Surrey.
- Eles sabem! Eles sabiam que meu filhote estava sendo maltratado e não fizeram NADA! – Sirius urrou com os nervos a flor da pele.
- Padfoot!
- Como ousaram deixar MEU afilhado sendo MALTRATADO todos esses anos?
- Padfoot!
- E SABIAM DISSO?
- SIRIUS! – Harry gritou no ouvido do padrinho, vendo que os gritos de atenção de Remo não funcionavam.
- Porr... – Remo deu uma tapa na cabeça do amigo, impedindo de continuar praguejando – Caramba, Prongslet, precisava gritar tão alto?
- Você não estava me escutando – Harry deu de ombros, o que fez Remo lançar-lhe um olhar que claramente dizia "Não fale assim com seu padrinho", antes de virar para o amigo.
- Eu queria dizer é há Penas Encantadas para escrever as cartas, de forma que ninguém olha para onde foram endereçadas.
- E como você sabe disso?
- Eu fui professor por um ano, Padfoot.
- Ah.
O envelope era grosso e pesado, feito de pergaminho amarelado e endereçado com tinta verde-esmeralda. Não havia selo.
- O que é um selo?
- Eu já não te respondi isso, Pads?
Quando virou o envelope, com a mão trêmula, Harry viu um lacre de cera púrpura com um brasão; um leão,
- Vai Grifinória! – Sirius exclamou batendo palmas, fazendo os outros dois integrantes do quarto revirarem os olhos, embora pudessem claramente ver o sorriso enorme de Harry.
uma águia, um texugo e uma cobra circulando uma grande letra H.
- Hogwarts! – Sirius e Harry gritaram alegremente.
Todos sorriam.
— Anda depressa, moleque! — gritou tio Válter da cozinha. — Está fazendo o quê, procurando cartas-bombas? — E riu da própria piada.
- Rá, rá – Sirius soltou mal humoradamente – Tão engraçada.
- Até esqueci-me de rir – Remo completou tão entediado quanto.
Harry voltou à cozinha, ainda de olhos fixos na carta.
"Por que eu tenho a impressão de que essa não foi uma boa idéia?", Remo pensou.
Entregou a conta e o postal ao tio Válter, sentou-se e começou a abrir lentamente o envelope amarelo.
Tio Válter rasgou o envelope da conta, deu um bufo de desdém e virou o postal.
— Guida está doente — informou à tia Petúnia. — Comeu um marisco suspeito...
- Bem feito!
- Harry!
- Desculpa Remo – ele falou baixinho.
- Está perdoado, mas, por favor, não deseje mal a ninguém, ok?
- Nem a Voldemort?
- Bom, aí é outra história...
— Pai! — exclamou Duda de repente. — Pai, Harry recebeu uma carta!
- Porco!
Harry ficou olhando seu padrinho e Remo por um segundo.
- O quê? – Sirius perguntou curioso – Não vai continuar a ler?
- Por que só ele pode falar mal? – Harry perguntou para Remo, que sorriu da pergunta infantilmente emburrada.
Harry ia desdobrar a carta, escrita no mesmo pergaminho que o envelope, quando tio Válter arrancou-a de sua mão.
- Isso é ilegal! – Sirius berrou e Remo o olhou impressionado, dizendo:
- Achei que não sabia nada do mundo dos trouxas, Pads.
- Eu fiz Estudo dos Trouxas, sim, Moony! Além do que, como isso afetaria minha mãe se eu não soubesse um pouco?
— É minha! — disse Harry, tentando recuperá-la.
- Meu garoto! – Sirius orgulhosamente bagunçou – mais – o cabelo de Harry.
— Quem iria escrever para você? — zombou tio Válter, sacudindo a carta com uma das mãos para desdobrá-la e percorrendo-a com o olhar. Seu rosto passou de vermelho para verde mais rápido que um sinal de tráfego. E não parou aí. Segundos depois ficou branco-acinzentado, cor de mingau de aveia velho.
- Esse cara é um holofote ambulante – troca para a cor que você quiser!
— P-P-Petúnia! — ofegou.
- E rei do drama – Remo falou, concordando com a frase anterior do amigo.
Duda tentou agarrar a carta para lê-la, mas tio Válter segurou-a no alto fora do seu alcance. Tia Petúnia apanhou-a cheia de curiosidade e leu a primeira linha. Por um instante pareceu que ela talvez fosse desmaiar. Levou as duas mãos à garganta e produziu ruído de engasgo.
— Válter! Ah, meu Deus, Válter!
- É por isso que eles combinam – Harry disse em concordância com os argumentos de seu padrinho e "tio".
Eles se encararam, parecendo ter esquecido que Harry e Duda continuavam na cozinha. Duda não estava acostumado a ser desprezado. Deu uma bengalada forte na cabeça do pai.
- Se ele fosse meu filho, ficaria sem sentar uma semana por isso! – Remo reclamou.
Harry arregalou os olhos, pensando numa imagem não muito acolhedora em sua mente. Sirius riu da careta do afilhado.
- Você parece a Molly falando assim!
Isso fez Harry corar, pensando na imagem de Rony... Fred e Jorge... Gina... Credo!
— Quero ler esta carta — falou alto.
- Não é sua, porquinho!
— Quero lê-la — disse Harry furioso —, porque é minha.
- Obrigada lógica! – Remo exclamou.
— Saiam os dois — ordenou com voz rouca tio Válter, enfiando a carta no envelope.
- Olá, injustiça – Sirius bufou amargamente.
Harry não se mexeu.
Isso fez os dois homens erguerem as sobrancelhas. Remo ainda comentou: - Imagino se ele tem o temperamento da mãe ou do pai.
- Meus pais tinham um temperamento?
- Isso é compreensível. Sua mãe tinha cabelos ruivos, isso sim – Sirius respondeu como se "cabelos ruivos" fossem um tipo diferente de temperamento.
— QUERO MINHA CARTA! — gritou.
- Ah. Lily reencarnou naquela cozinha – Sirius falou carinhosamente, pensando na irmã e, ao mesmo tempo, cunhada.
— Me deixa ver! — exigiu Duda.
— Fora! — berrou Tio Válter, e agarrando os dois, Harry e Duda, pelo cangote, atirou-os no corredor e bateu a porta da cozinha.
- ELE TOCOU NO MEU AFILHADO! – Sirius berrou ao mesmo tempo em que Remo rosnava: - ELE JOGOU MEU FILHOTE NO HALL!
- Calma, pessoal, não foi nada.
- Foi sim, Prongslet, isso é sério, muito sério.
Mas Sirius não continuou, pois não confiava muito no que dizer.
Os olhos de Remo, Harry reparou, tinham um estranho tom amarelo – e ele percebeu que era como se fosse o lobo dentro de Remo. Moony. Vendo isso, o garoto colocou uma mão do braço do tio e seus olhos voltaram ao âmbar, como Uísque de Fogo.
Harry e Duda na mesma hora tiveram uma briga furiosa, mas silenciosa, para saber quem ia escutar a fechadura;
- Vai, Prongslet!
Duda ganhou,
- Humpf!
por isso Harry, os óculos pendurados em uma orelha, deitou-se de barriga no chão para escutar pela fresta entre a porta e o chão.
— Válter — disse tia Petúnia com voz trêmula —, olhe só o endereço. Como é que eles poderiam saber onde ele dorme? Você acha que estão vigiando a casa?
— Vigiando, espionando, talvez nos seguindo — murmurou tio Válter enlouquecido.
- Nah. Temos coisa melhor pra fazer, Baleia.
— Mas o que vamos fazer, Válter? Vamos responder à carta? Dizer a eles que não queremos...
- Não!
Harry via os sapatos pretos lustrosos do tio Válter andando para cá e para lá na cozinha.
— Não — disse ele decidido. — Não, vamos ignorá-la. Se não receberem uma resposta... É, é o melhor... não vamos fazer nada...
— Porque isso realmente vai impedir Harry de receber ir para Hogwarts. — ironizou Remo.
— Mas...
— Não vou ter um deles em casa, Petúnia! Nós não juramos quando o recebemos que íamos acabar com aquela bobagem perigosa?
- Acabar? Acabar?
- O que ele quer dizer com isso, Harry? – Remo perguntou para o garoto mais calmamente do que Sirius, que parecia pronto para irromper na casa dos Dursley a qualquer momento.
Harry não respondeu – abaixou a cabeça e encarou o colchão.
- Eles bateram em você? – Sirius perguntou numa voz calma, embora todo seu corpo tremesse de raiva. Ao ouvir a pergunta, o "Moony" dentro de Remo pareceu rosnar.
Harry não respondeu, somente balançou a cabeça num gesto que claramente dizia "Mais tarde".
Remo e Sirius não se deram por satisfeitos, mas vendo que ainda faltavam completar um capítulo sobre os Dursley, ficaram quietos – o que mais poderia acontecer?
Aquela noite, quanto voltou do trabalho, tio Válter fez uma coisa que nunca fizera antes; visitou Harry no armário.
- A Baleia cabe?
- Só a cabeça.
— Cadê minha carta? — perguntou Harry, no instante em que tio Válter se espremeu pela porta. — Quem me escreveu?
— Ninguém. Endereçaram a você por engano
- É – ironizou Remo fortemente -, existem muitos bruxos chamados Harry Potter morando em armários sob a escada.
— disse tio Válter secamente. — Queimei a carta.
- Vacoso!
- Isso nem é um palavra, Padfoot. E não ouse xingar na frente do meu filhote!
- Remo – Harry resmungou – eu não sou criança.
- Então por que está com onze anos? – "e com aparência de oito?", Remo pensou com um gosto amargo na língua.
- Por causa desses malditos livros. Eu tenho quinze anos!
- Primeiro: não fale assim com Remo, Harry – Sirius avisou e Harry, novamente, se perguntou quando o padrinho ficara tão sério – segundo: onze ou quinze não queremos esse vocabulário.
Harry resignou-se em somente voltar a ler.
— Não foi um engano — retrucou Harry com raiva —, tinha o endereço do meu armário.
"Não é algo para se orgulhar", Sirius rosnou em pensamento.
— CALADO! — gritou tio Válter e algumas aranhas caíram do teto.
"Ron", Harry pensou, divagando no que os amigos estariam fazendo, se estariam pensando onde ele estava...
Ele inspirou algumas vezes e então fez força para produzir um sorriso que pareceu bem penoso.
- Ele já sorriu na vida dele?
- Não sei, Remo, sinceramente, não sei.
— Hm, sim, Harry sobre este armário. Sua tia e eu estivemos pensando... você realmente está ficando grande demais para ele... achamos que seria bom se você se mudasse para o segundo quarto de Duda.
- SEGUNDO QUARTO! – Remo e Sirius urraram com uma sincronia incrível, a despeito de que estavam muito irritados.
- Não é nada, gente, agora eu tenho me quarto – Harry disse quietamente e, vendo que ambos estavam prontos para começar uma enorme discussão, ele apressadamente leu:
— Por quê? — perguntou Harry.
- Por que questionar o fato de que vai sair do armário embaixo das escadas, Bambi?
- Ele estava sendo legal – Harry deu de ombros -, queria saber o por quê.
A resposta dele, aliás, não fez os outros dois mais felizes.
— Não faça perguntas — disse com rispidez o tio. — Leve essas coisas para cima agora.
A casa dos Dursley tinha quatro quartos:
- QUATRO!
- E eles te faziam dormir num armário? – Remo perguntou fragilmente, sentindo que tudo dera errado. Como Dumbledore podia pensar que aquelas pessoas tomariam conta de seu filhote? Como? E McGonagall ainda avisara...
Ah, ele teria uma conversa séria com Alvo, se teria...
um para tio Válter e tia Petúnia, um para hóspedes (em geral a irmã de tio Válter, Guida),
Harry interrompeu a vontade de gritar por causa daquela mulher. Urgh!
um onde Duda dormia e um onde Duda guardava todos os brinquedos e pertences que não cabiam no primeiro quarto.
- Garotinho mimado... – Harry ouviu Remo resmungar no pé da cama. Segurando um sorriso, continuou a ler.
Harry precisou de apenas uma viagem para mudar tudo o que tinha do armário para o quarto no andar de cima.
Sentou-se na cama e deu uma olhada à sua volta. Quase tudo ali estava quebrado. A filmadora com apenas um mês de uso estava jogada em cima de um pequeno tanque com que certa vez Duda atropelara o cachorro do vizinho; no canto estava o primeiro televisor de Duda, no qual ele enfiara o pé quando seu programa favorito fora cancelado; havia uma grande gaiola de pássaros, antigamente habitada por um papagaio que Duda trocara na escola por uma espingarda de ar de verdade, e que estava guardada numa prateleira com a ponta dobrada porque Duda se sentara em cima dela. Outras prateleiras estavam cheias de livros. Eram as únicas coisas no quarto que pareciam nunca ter sido tocadas.
- Engraçado. Sempre dizem que julgar uma pessoa pela aparência é errado. Então – Sirius concluiu sabiamente – tudo que você tem que fazer é ouvir esse tipo de parágrafo num livro sobre seu afilhado. Aí você descobre o quão idiota alguém é.
Remo e Harry começaram a rir e demoraram algum tempo para parar. Cinco minutos depois, Harry ainda buscava ar.
Lá de baixo veio o barulho de Duda gritando com a mãe:
— Eu não quero ele lá... eu preciso daquele quarto... mande ele sair.
- Você não precisa desse quarto, seu bebê baleia! – Sirius gritou de repente.
- Harry precisa – e merece – muito mais do que você!
O dito cujo corou sob o elogio de Remo e a defesa de Sirius. Nenhum dos dois pareceu perceber, por isso, ele somente tirou a franja dos olhos e voltou à leitura.
Harry suspirou e se esticou na cama. Ontem ele teria dado qualquer coisa para estar ali. Hoje, preferia estar no seu armário com aquela carta do que ali encima sem ela.
Vendo os olhares estranhos, Harry explicou: - É que eu nunca recebi uma carta, então, queria saber o que tinha escrito e quem era o escritor.
- Você não devia ter que passar por isso, Bambi – Remo comentou tristemente para o sobrinho -, a carta é sua, não deles.
Harry somente deu de ombros.
Na manhã seguinte, no café, todos estavam muito quietos. Duda estava em estado de choque. Berrara, batera no pai com a bengala, vomitara de propósito, dera pontapés na mãe e atirara sua tartaruga pelo teto da estufa de plantas e nem assim conseguira o quarto de volta.
- Eu disse que ele não sentaria por uma semana? Nunca mais sentaria na vida – Remo bufou ao seu lado.
Sirius novamente riu da careta do afilhado que, por sorte, passou despercebida pelo lobisomem.
Harry pensava no dia anterior àquela hora, desejando com amargura que tivesse aberto a carta no hall.
- Idem. – os dois homens no quarto concordaram.
Tio Válter e tia Petúnia se entreolhavam, ameaçadores.
Quando o correio chegou, tio Válter, que parecia estar tentando ser agradável com Harry,
"Primeira vez na vida", Harry pensou com uma espécie de amargura.
fez Duda ir buscá-lo.
Eles o ouviram bater nas coisas do corredor com a bengala da Smeltings. Então ele gritou:
— Chegou outra! Sr. H. Potter, O Menor Quarto da Casa (Remo fez um barulho que lembrava muito um rosnado), Rua dos Alfeneiros 4...
- Idiota! – Sirius gritou – Se ele queria ler tanto quanto você, devia ter aberto no hall!
Com um grito sufocado tio Válter saltou da cadeira e saiu correndo pelo corredor, Harry logo atrás dele. Tio Válter teve que lutar e derrubar Duda no chão para lhe tirar a carta, o que foi dificultado por Harry que agarrara o pescoço do tio Válter por trás.
- HAROLD JAMES POTTER! O que você estava pensando? Esse homem deve ser um quíntuplo de você! – Sirius exclamou severo e, de uma forma estranha, ao mesmo tempo preocupado. O moreno olhou para o pequeno corpo do afilhado e o imaginou agarrando um enorme hipopótamo. Isso lhe causou arrepios.
- Eu queria a carta – Harry deu de ombros nervosamente, pensando que se Sirius, o sempre brincalhão, tinha ficado assim (levando em conta que Remo também parecia bravo); imaginou como seria quando o trasgo montanhês viesse.
Tremeu – felizmente, para ele, passou despercebido pelos outros, que pareciam preocupados com o menino.
- Hm? Sirius? – Harry chamou.
Sirius parou de pensar em o quão indefeso seu afilhado era e olhou para o mesmo: - Oi, Prongslet?
Aliviado pelo uso do apelido, Harry disse intrigado:
- Meu nome não é Harold.
Sirius sorriu – assim como Remo.
- Eu sei. É que Harold soa mais repreendedor que Harry - falou como se explicasse tudo.
Depois de um minuto confuso de luta, em que todos levaram várias bengaladas,
Remo começou a mexer na cabeça de Harry – um gesto que bizarramente lembrou-o de macacos.
- Ahm... Remo? O que está fazendo?
- Vendo se tem algum machucado – e continuou a busca pelos braços e pescoço do menino.
- Isso foi há cinco anos.
- Sim, mas você está no corpo de onze, pode estar aí.
Harry suspirou, mas deixou Remo fazer o que quisesse, pois viu teimosia em seus olhos, até mesmo nos olhos de Sirius, como se concordasse silenciosamente com o que o amigo tinha dito.
Discretamente, imperceptivelmente, olhou sua mão esquerda. A cicatriz Eu não devo contar mentiras ainda estava ali, mesmo que seu corpo não estivesse idade correta. Será que haveria outras cicatrizes como a da faca de Wormtail no cemitério? Mais tarde procuraria em seu braço coberto pela blusa de manga comprida azul (que ele não sabia que tinha, ou por que vestia).
Depois de alguns minutos, Remo deixou-o voltar a ler, mais aliviado.
tio Válter se endireitou, ofegante, com a carta de Harry apertada na mão.
— Vá para o seu armário, quero dizer, para o seu quarto — chiou para Harry. — Duda, saia, saia logo.
Harry deu voltas e mais voltas no novo quarto. Alguém sabia que ele se mudara do armário e parecia saber que ele não recebera a primeira carta. Isto significava com certeza que ia tentar outra vez? E desta vez ele tomaria providências para que desse certo. Tinha um plano.
- Oh-ou – Sirius se expressou.
- O que você quer dizer com isso? – indagou Harry, bravo – Eu tenho bons planos!
Remo sorriu vendo a defensiva do sobrinho: - Sirius quer dizer que quando seu pai tinha idéias, era melhor sair do caminho, filhote. Se você for como ele, haja com o que se preocupar.
O despertador consertado tocou às seis horas na manhã seguinte. Harry desligou-o depressa e se vestiu em silêncio. Não podia acordar os Dursley. Desceu as escadas, sorrateiro, sem acender nenhuma luz.
Ia esperar pelo carteiro na esquina da Alfeneiros e receber primeiro as cartas endereçadas ao número quatro.
- Hm. Não é um plano ruim. – Sirius concedeu, porém acrescentou – Mas se o que Hermione disse sobre sua sorte for verdade, Prongslet, então não dará certo.
Seu coração batia com força quando atravessou sem ruído o corredor escuro até a porta de entrada.
— AAAAARRREE!
Harry deu um salto no ar — pisara em alguma coisa grande e mole no capacho — uma coisa viva!
- Vou te considerar não só um filho de Maroto legítimo, mas um próprio Maroto se for quem eu penso que é! – Sirius torceu.
As luzes se acenderam no primeiro andar e, para seu horror, Harry percebeu que a coisa grande e mole tinha a cara do tio Válter
- Meu garoto!
que estava dormindo junto à porta de entrada em um saco de dormir para impedir que Harry fizesse exatamente o que estava tentando fazer.
Gritou com Harry quase meia hora e depois lhe disse para ir preparar uma xícara de chá.
- Ele não pode fazer nada por si só? – Remo reclamou, irritado que seu sobrinho tivesse que ficar fazendo tudo.
Harry foi para a cozinha arrastando os pés, infeliz, e quando conseguiu voltar o correio tinha sido entregue, bem no colo de tio Válter. Harry viu três cartas endereçadas em tinta verde.
— Quero... — começou, mas tio Válter estava rasgando as cartas em pedacinhos bem diante dos seus olhos.
- Isso é crueldade. – Sirius soltou um muxoxo.
Tio Válter não foi trabalhar naquele dia. Ficou em casa e pregou a portinhola para cartas.
— Entende — explicou à tia Petúnia por entre os lábios cheios pregos —, se eles não puderem entregar então terão de desistir.
— Não tenho muita certeza de que isto vai dar certo, Válter.
- Pela primeira vez na vida, ela está falando com bom senso – Harry disse impressionado que sua tia não fosse somente... Normal.
— Ah, a cabeça dessa gente funciona de maneira estranha, Petúnia eles não são como você e eu — disse tio Válter tentando bater um prego com um pedaço de bolo de frutas que tia Petúnia acabara de lhe trazer.
- Claro que nossa mente não funciona como a sua – Remo disse e vendo os olhares incrédulos, acrescentou sorridente: - Nós temos sanidade, diferente de você. Sério, quem usa bolo de frutas para bater um prego?
Sirius e Harry riram.
Na sexta-feira chegaram nada menos que doze cartas para Harry. Como não passavam pela portinhola da correspondência, tinham sido empurradas por baixo da porta, metidas pelos lados e algumas até forçadas pela janelinha do banheiro no térreo.
Tio Válter ficou em casa de novo. Depois de queimar todas, apanhou martelo e pregos e fechou com tábuas as frestas das portas da frente e dos fundos, de modo que ninguém podia sair.
Cantarolou "Pé ante pé no campo de tulipas" enquanto trabalhava, e se assustava com qualquer ruído.
- Paranóico – Sirius disse numa voz cantarolante.
- Eu ia dizer que se parece com Olho-Tonto – Remo declarou -, mas isso seria ofender Alastor, então, deixarei para lá.
No sábado as coisas começam a fugir ao seu controle. Vinte e quatro cartas acabaram entrando em casa, enroladas e escondida em duas dúzias de ovos que o leiteiro, muito confuso, entregara à tia Petúnia pela janela da sala de estar.
- Não sabia que Minerva era tão criativa – Remo ergueu as sobrancelhas.
- Minnie é demais!
- Minerva.
- Minnie.
- Minerva.
- Mimi.
Os dois olharam para Harry, que dissera o último apelido com um sorriso enorme. Explodiram em risadas e nem Remo teve coração para corrigir "Minerva".
Enquanto tio Válter dava telefonemas furiosos para o correio e a leiteria tentando encontrar alguém a quem se queixar, tia Petúnia picava as cartas no processador de alimentos.
— Mas quem é que quer falar tanto assim com você? — Duda perguntou espantado a Harry.
- Uh, não sei – Sirius disse numa voz obviamente sarcástica e falsamente burra – Todo mundo bruxo, talvez?
Na manhã do domingo, tio Válter sentou-se à mesa do café parecendo cansado e um tanto doente, mas feliz.
- Que antítese – comentou Remo.
— Não tem correio aos domingos — lembrou a todos, contente, passando geléia nos jornais —, nada de cartas idiotas hoje...
- No mundo trouxa – Harry disse numa falsa tosse, o que ganhou sorriso dos outros dois, que estavam mais do que contentes em ver o menininho feliz.
Alguma coisa desceu chiando pela chaminé do fogão enquanto ele falava e bateu com força em sua nuca. No instante seguinte, trinta ou quarenta cartas saíram velozes da lareira como se fossem tiros. Os Dursley se abaixaram, mas Harry deu um salto no ar para apanhar uma...
- Melhor apanhador do mundo! – Sirius explodiu em orgulho e Harry sorriu. Era bom fazer seu padrinho orgulhoso, porque ele nunca tinha ninguém para se orgulhar, ou preocupar. Não desse modo.
— Fora! FORA!
Tio Válter agarrou Harry pela cintura e atirou-o no corredor.
- ELE TOCOU NO MEU AFILHADO! – Sirius urrou mais irritado do que da última que tio Válter fizera isso.
E, para completo espanto de Harry – mas, aparentemente, não Remo -, Sirius sentou-o no seu colo. Simples assim. Acomodou-o com folgas em cima de suas pernas e passou os braços pela sua cintura.
- Sirius!
- Você vai ficar aqui, Prongslet, até eu me acalmar – Sirius quase implorou. E Harry não teve coração para dizer outra coisa, além do fato de que... Além do fato de que, mesmo que com quinze (ou onze, sabe Merlin quantos) anos, sentar no colo de seu padrinho era acolhedor.
Quando criança, ele nunca sentara ou fora pego no colo por alguém. Uma vez, aos três anos, abraçou sua tia quando ela deixou a ele e Duda no jardim de infância. Ela afastou-o como se tivesse algum tipo de doença e disse para não fazer isso de novo e, após abraçar "seu perfeito cavaleirinho Dudoquinha", foi embora, sem perceber um Harry pequenino de olhos molhados.
Por esse motivo, o mesmo Harry – não tão pequeno, mas ainda miúdo -, voltou a ler o livro.
Depois que tia Petúnia e Duda tinham corrido para fora protegendo o rosto com os braços, tio Válter bateu a porta. Eles podiam ouvir as cartas disparando para dentro da cozinha, ricocheteando nas paredes e no chão.
— Já chega — disse tio Válter, tentando falar com calma, mas, ao mesmo tempo, arrancando tufos de pêlos dos bigodes. — Quero vocês aqui de volta em cinco minutos prontos para sair. Vamos viajar. Ponham apenas algumas roupas nas malas. Não quero discussão!
Ele parecia tão perigoso com metade dos bigodes arrancados que ninguém se atreveu a discutir.
- Assustador – Remo brincou, esperando que o olhar assassino de seu amigo melhorasse. Não era o fato de que seu amigo parecia muito irritado e segurava seu filhote no colo que o preocupava. Estava preocupado se ele tirasse seu filhote do colo e fosse matar os Dursley.
Deus sabe do que Sirius é capaz de fazer por aquele menino.
"Espero que possa ajudá-lo a cuidar dos Dursley", pensou Remo com um fio de esperança, afinal, ele também queria um chance de lentamente, dolorosamente tort... Espantou o pensamento. Dumbledore nunca deixaria.
Dez minutos depois eles tinham retirado as tábuas para passar nas portas e estavam no carro, correndo em direção à estrada. Duda fungava no banco traseiro; o pai tinha lhe dado um tapa na cabeça por atrasá-los tentando empacotar a televisão, o vídeo e o computador na mochila esportiva.
- Nenhum pai devia bater no seu filho! – Remo reclamou arrancando exclamações de concordância por parte de Sirius – Exceto palmadas, afinal, que criança mal criada não merece uma?
Isso levou Sirius a divagar nos velhos hábitos das famílias puro-sangue que usavam palmadas como disciplina. Rá! Antes fossem palmadas... Sua mãe adorava chutes e gritos...
"Não pense nisso", falou a si mesmo, forçando-se a pensar em como gostava de segurar seu afilhado após tantos anos.
Eles viajaram no carro. E viajaram. Nem tia Petúnia se atrevia a perguntar aonde iam. De vez em quando tio Válter fazia uma curva fechada e seguia na direção oposta por algum tempo.
— Para despistá-los... despistá-los — resmungava sempre que fazia isso.
- Paranóico – Harry disse entre tosses e, quando os dois adultos o olharam, ele forçou um olhar inocentemente doce – Coisinha na garganta.
Os dois homens sorriram.
Não pararam para comer nem beber o dia inteiro.
- Quer comer algo, Prongslet?
- Não, Sirius, obrigado. E Remo também – Harry acrescentou, vendo que o lobisomem estava no meio da ação de levantar da cama e pegar algo para o menino comer.
Quando a noite caiu Duda estava uivando. Nunca tivera um dia tão ruim na vida. Estava com fome, sentia falta dos cinco programas de televisão que queria assistir e nunca levara tanto tempo sem explodir um alienígena no computador.
- Bem vindo à vida do meu filhote – Remo disse sombriamente. Isso não fez ninguém mais feliz.
Tio Válter parou finalmente à porta de um hotel de aspecto sombrio na periferia de uma grande cidade. Duda e Harry dividiram um quarto com duas camas iguais e lençóis úmidos que cheiravam a mofo. Duda roncou, mas Harry ficou acordado, sentado no peitoral da janela, espiando as luzes dos carros que passavam enquanto pensava...
- No quê, Bambi?
- Sinceramente, não me lembro.
Comeram cereais velhos e torradas com tomates enlatados frios no café da manhã do dia seguinte.
- Isso não é uma refeição saudável – resmungou Remo, num muxoxo frustrado e irritado. – Não é à toa que você é tão pequenininho.
Harry bufou fracamente, mas nada comentou – no momento, não discutiria com Remo sobre ficá-lo chamando de pequeno. Nem admitiria que era justamente por isso que era menor para sua idade; falta de nutrientes e momentos prolongados de fome.
Tinham acabado de comer quando a proprietária do hotel aproximou-se da mesa.
— Com licença, mas um dos senhores é o Sr. H. Potter? É que eu tenho umas cem dessas na recepção. — E ergueu uma carta para eles poderem ler o endereço em tinta verde:
Sr. H. Potter
Quarto 17
Railview Hotel
Cokeworth
Harry tentou pegar a carta, mas tio Válter afastou sua mão. A mulher ficou olhando.
- Não olhe! Faça alguma coisa! – falou Sirius irritadamente, pensando em como ninguém podia ter reparado que seu afilhado fora abusado durante toda a infância.
— Eu recebo as cartas — disse tio Válter, levantando-se depressa e seguindo a mulher que se retirava do salão de refeições.
— Não seria melhor simplesmente irmos para casa, querido? — tia Petúnia sugeriu timidamente horas depois, mas tio Válter não parecia ouvi-la. Exatamente o que andava procurando ninguém sabia. Ele os levou até o meio de uma floresta, desceu do carro, espiou a volta, sacudiu a cabeça, tornou a embarcar no carro e partiram outra vez. A mesma coisa aconteceu no meio de um campo arado, no meio de uma ponte pênsil e no alto de um edifício garagem.
- Jesus, Maria, José! – Sirius exclamou entre surpresa, diversão e incredulidade – Esse homem é mais doido que pensei!
- Ele só quer evitar magia – Harry explicou suavemente.
- Mas não há como. Você mora lá, Prongslet.
Se Sirius soubesse o quão mal e culpado sua frase fez Harry se sentir, não teria dito-a.
— Papai enlouqueceu, não foi? — Duda perguntou, cansado, à tia Petúnia no fim daquela tarde.
- Se o próprio filho, que é – se possível – mais burro que o pai, sabe que ele enlouqueceu, então, é definitivo.
- Não que nós não soubéssemos, Moony.
Tio Válter estacionara no litoral, passara a chave no carro com todos dentro e desaparecera.
Começou a chover. Grandes gotas batiam no teto do carro. Duda choramingou.
— É segunda-feira — falou à mãe. — O Grande Humberto vai se apresentar hoje à noite. Quero estar em algum lugar que tenha televisão.
Segunda-feira. Isto lembrou a Harry uma coisa. Se for segunda-feira — e em geral podia-se confiar que Duda soubesse os dias da semana, por causa da televisão — então o dia seguinte, terça-feira, era o décimo primeiro aniversário de Harry.
- PARABÉNS, HARRY! – os dois homens gritaram e o menino corou, mas somente Remo reparou, em vista que o menino ainda se encontrava no colo do padrinho.
- Não é meu aniversário de verdade.
- Não corte nossa diversão – Sirius um bico. Apertou um pouco seu abraço em volta do afilhado, como se falasse um "parabéns" silencioso.
Naturalmente seus aniversários não eram lá muito divertidos — no ano anterior, os Dursley tinham-lhe dado um cabide e um par de meias velhas do tio Válter.
- Mas... Mas... É seu aniversário – Remo gaguejou completamente chocado.
Sirius estava igual. Mesmo que não fosse o filho perfeito, ainda ganhava presentes ou, pelo menos, parabéns e muitos anos de vida (não com muita felicidade por parte da mãe, mas ainda assim...).
Com um olhar, Sirius e Remo decidiram: iriam mimar Harry pelo resto da vida dele. O menino não reparou no olhar, visto que voltou a ler o livro em voz alta.
Ainda assim, não se fazia onze anos todos os dias.
Remo suspirou suavemente.
Tio Válter voltou sorrindo. Carregava um pacote comprido e fino
- Imagino o que seja... – Remo ouviu Sirius cochichar por baixo da respiração, mas teve a impressão que somente ele ouviu, pois foi realmente baixo e escutado com sua audição de lobisomem.
e não respondeu à tia Petúnia quando ela perguntou o que comprara.
— Encontrei o lugar perfeito! — falou. — Vamos! Saiam todos!
Fazia muito frio do lado de fora do carro. Tio Válter apontou para o que parecia ser um grande rochedo no meio do mar. Encarrapitado no alto do rochedo havia o casebre mais miserável que se pode imaginar. Uma coisa era certa, ali não havia televisão.
- Mas isso é perigoso! – Sirius muxoxou. Ele não acreditava que isso pudesse ficar cada vez pior. Apertou tanto seus braços em volta da cintura do afilhado que quase doía.
— Estão anunciando uma tempestade para hoje! ("Não é algo para se comemorar!" "Apoiado, Pads, apoiado!") — disse tio Válter alegre, batendo palmas. — E este senhor teve a bondade de concordar em nos emprestar seu barco!
Um homem desdentado vinha descansadamente em direção a eles, e apontava com um sorriso muito maldoso para um barco a remos velho que subia e descia nas águas cinza-grafite lá embaixo.
— Já comprei algumas rações para nós — disse tio Válter —, portanto, todos a bordo!
Fazia muito frio no barco. Salpicos de água gelada do mar escorriam pelos pescoços deles e um vento cortante fustigava seus rostos.
Foi a vez de Remo soltar um resmungo infeliz de preocupação.
Depois do que pareceram horas, eles chegaram ao rochedo, onde tio Válter, escorregando, levou-os ate a casa em ruínas.
O interior era horrível; cheirava a algas marinhas, o vento assobiava pelas frestas nas paredes de tábuas e a lareira estava úmida e vazia. Havia apenas dois quartos.
Sirius apertou os olhos suspeitosamente.
Afinal as rações de Tio Válter eram uma embalagem de cereal para cada um e quatro bananas.
- Isso não é uma refeição – Remo reclamou novamente sobre o mesmo assunto. Merlin, essas pessoas não entendiam que seu filhote precisava de comida de verdade?
Ele tentou acender a lareira, mas a embalagem de cereal apenas fumegou e carbonizou.
— Aquelas cartas viriam a calhar agora, hein? — disse ele animado.
Estava de muito bom humor. Obviamente achava que ninguém teria chance de alcançá-lo ali, durante uma tempestade, para entregar cartas. Harry concordava intimamente, embora este pensamento não o animasse nem um pouco.
- Não seja pessimista, Prongslet, coisas boas acontecem para quem merece – falou Sirius bondosamente.
"E uma aberração como eu merece?", o menino duvidou por alguns instantes.
Quando a noite caiu, a tempestade prometida desabou ao redor deles. A espuma das altas ondas chapinhava nas paredes do casebre e um vento ameaçador sacudia as janelas imundas. Tia Petúnia encontrou uns cobertores mofados no segundo quarto e preparou uma cama para Duda ao sofá comido pelas traças. Ela e tio Válter foram se deitar na cama cheia de calombos ao lado e deixaram Harry procurar a parte mais macia do assoalho e se enrolar no cobertor mais rasgado e ralo.
Remo conjurou um cobertor de lá xadrez e o entregou a Sirius, que logo em seguida enrolou em volta de Harry como se fosse um bebê tremendo de frio.
- Ei! O que é isso?
- Você não precisa do cobertor mais rasgado e ralo, vê? – Sirius disse como se fosse óbvio.
- Mas isso aconteceu há cinco anos! Não estou com frio agora! – Harry reclamou e também corou em cinco tons de vermelho; pela posição que estava, era como se fosse um bebê.
Merlin, qual era o problema desses dois?
Só estão preocupados com você, uma voz cochichou quietamente na sua cabeça. Parecia muito com a de Hermione.
A tempestade rugia cada vez com maior ferocidade à medida que a noite avançava. Harry não conseguia dormir. Tremia e revirava, tentando encontrar uma posição confortável, seu estômago roncando de fome.
- Tem certeza que não quer comer nada? – Sirius perguntou de novo, afrouxando um pouco o cobertor em volta de Harry, que acenou positivamente com a cabeça.
Os roncos de Duda eram abafados pela trovoada que começou por volta da meia-noite. O mostrador luminoso do relógio de Duda, que estava pendurado para fora do sofá em seu pulso gordo, informava a Harry que dentro de dez minutos ele completaria onze anos. Deitado, ele viu seu aniversário se aproximar, perguntando-se se os Dursley se lembrariam, perguntando- se onde estaria o remetente das cartas agora.
Faltavam cinco minutos. Harry ouviu alguma coisa estalar lá fora. Desejou que o teto não caísse, embora quem sabe conseguisse se esquentar se isto acontecesse.
Remo engoliu seco. Nenhuma criança devia pensar assim – se o teto caísse seu filhote certamente morreria, mas ele só queria se aquecer.
Seu coração pareceu pesar.
Quatro minutos. Talvez a casa na Rua dos Alfeneiros estivesse tão abarrotada de cartas que quando voltasse ele pudesse surrupiar uma.
Três minutos. Seria o mar batendo tão forte na rocha? E (faltavam dois minutos) que barulho esquisito de trituração era aquele? Será que a rocha estava se desintegrando no mar?
Mais um minuto e ele completaria onze anos. Trinta segundos... vinte... dez – nove — Talvez acordasse Duda, só para aborrecê-lo —
- Faça isso, faça isso! – torceu Sirius alegremente.
Três – dois – um...
BUM.
Os dois homens pularam e olharam acusadoramente para o garoto, que gritara bem alto. Tinha levado um susto pela vida inteira!
O casebre todo estremeceu e Harry sentou-se reto, arregalando os olhos para a porta. Havia alguém lá fora, que batia, querendo entrar.
- Quem, quem? – Sirius perguntou ansioso. Era amigo ou inimigo? Iria ajudar seu afilhado? Ou machucá-lo? Tão logo o pensamento surgiu e ele começou a rosnar.
- Você verá – vendo o sorriso no rosto de Harry, ele despreocupou-se um pouco. Se ele sorria, com certeza tinha sido algo bom.
Remo tentou iniciar uma conversa, mas, aparentemente, Harry já sabia do que ele falaria e logo disse: - Conversaremos sobre meus parentes no próximo capítulo, Remo. Afinal, ainda temos mais um inteiro com eles.
O lobisomem suspirou, não era exatamente isso que ele queria. Mas vendo que Harry não parecia muito confortável em falar disso agora, somente pegou o livro depositado na cama e abriu-o.
O moreno, aliás, rolou do colo do padrinho, que pareceu meio triste pelo fato. Esticando as pernas, o garoto tirou o cobertor: - Que calor! – e, com um sorriso alegre e inocente, que logo fez a tristeza de Sirius ir embora, voltou-se para Remo.
Sem perder tempo, o lobisomem leu: "O Guardião das Chaves".
