Cap 4:
As águas esverdeadas do porto de Saint Mary acabaram de receber mais moradores. Novos corpos afundavam em meio a mais uma madrugada qualquer. Estava acostumada a chegada dos novos hospedes que vinham sem aviso. Havia espaço para todos.
Pai e filho afundavam na profunda escuridão. O peso amarrado às cordas faziam com que a acomodação fosse mais rápida e garantindo o sucesso de mais uma empreitada. Na improvável ocasião de não morrerem após uma saraivada de tiros, a água se encarregaria de terminar o serviço. Não era limpo, mas era seguro. Ninguém sentiria falta deles, e logo tudo que lhes pertenciam seriam saqueados. Se alguém os conhecesse, logo se tornariam lembranças difusas, não muito mais do que isso. Assim era a lei dos homens e assim era a vida.
Mas não seria assim dessa vez. As águas plácidas que levavam os novos habitantes à nova casa não foram suficientes para conter um deles, que abrira os olhos a tempo de perceber. Ashe esperava acordar para ouvir gritos de pessoas em polvorosa, ou latas de lixo caindo no chão, e quem sabe até mesmo uma daquelas almas boas que sempre chegam tarde demais. Mas tudo o que encontrou foi a escuridão do mar e a sensação de asfixia intolerante. Tentou mover as pernas, num instinto de fugir mas sentiu-as presas pela corda assim como seus pulsos. Arregalou os olhos, chegou a abrir a boca para gritar mas não havia voz, apenas água que engoliu aumentando o desespero. Não conseguia pensar em nada, nem mesmo nos poucos segundos que antecederam. Era simplesmente instinto humano de fugir, se defender. Algo irracional, talvez um esforço antigo e inútil da carga genética dos ancestrais. Não parou pra pensar nisso, pois a gana de sobrevivência e proteção falou mais alto e seu corpo correspondeu ao impulso, tomando a frente do que seu cérebro não poderia fazer. Em questão de segundos de um esforço brutal, os pulsos estavam livres das amarras e seus braços puderam lutar contra os pesos que o arrastavam para o fundo para alcançar a superfície.
Não soube quanto tempo se passou, mas logo sentiu o peito quase queimar com o esforço de buscar oxigênio depois de vir a tôna. Buscou o ar com toda a força mas o máximo que conseguiu foi apenas o suficiente para poder novamente afundar um pouco na água e recuperar um mínimo de suas forças. Sem sentir praticamente nada, seus braços e pernas tomaram a resolução de nadar, ainda que fosse de mal jeito. Quando chegou até a praia, suas pernas pareciam fora de seu controle. Tinham vida própria e sem que tomasse grande conhecimento sustentaram-no para depois da areia, através de várias ruas escuras até sua própria casa como se fosse um bêbado. Quem o visse na rua poderia pensar nisso: sujo, cabelo desgrenhado, roupas rasgadas e olhar perdido. Poderia ser um mendigo, um drogado, um bêbado. Na visão de alguém estaria sozinho, pois os olhos egoístas de quem se preocuparia em não ser visto por um tipo desses não seriam capazes de ver uma ave grande e negra de o acompanhava do alto.
Portas abertas, janelas fechadas e luzes acesas. Sua casa. Bem a frente. Lá, o corpo baqueou, mas o precário controle que suas pernas lhe exerciam ainda o levaram para dentro. O último lugar onde estivera antes de tudo acontecer. Tudo.
Foi nesse momento em que sua mente e suas lembranças voltaram ao comando. E foi como se um manto encobrisse os seus olhos. Há poucos instantes estava lá com seu filho, irritando-o por brincadeira, vendo um desenho seu e imaginando seu futuro. Agora não restava mais nada. Tudo voltou com uma intensidade única, desumana, todos os momentos que antecederam a sua ruína. Um nó formou-se em sua garganta, dolorido, e o ar novamente lhe faltou, muito pior que o afogamento. Faltou-lhe o chão, faltou tato, e tudo o mais. Os olhos arderam, encheram-se de lágrimas que não pararam de escorrer e da garganta um grito misturado ao choro. Por seu filho, por ele próprio, pelos planos perdidos, pelo amor que não serviria mais de nada.
Seus olhos esquadrinharam ao seu redor, ainda que sua visão fosse turva, ou falha. Encontrou os papéis de Danny, o estojo de lápis de cor espalhado no chão em sua típica bagunça de criança, o último desenho que ele fizera, bem em cima da caixa de madeira. Uma visão que lhe fez perder as últimas forças. Sem qualquer esforço para evitar, deixou-se cair, como um bêbado. As mãos trêmulas foram em direção à folha, os dedos entorpecidos, sem sentir a fina textura do objeto. Um aroma tênue do lápis de cor fez com que os minutos que se passaram parecessem ainda muito piores e as lembranças, muito mais intensas. A dor veio também tão intensamente que encolheu-se, deitado no chão, enquanto chorava como uma criança triste, doente, com raiva. Mas Ashe tinha motivos muito fortes.
Perdera toda a razão de sua vida. A única razão. Perdera sua alma junto com seu filho. O que ele tinha de melhor. A única coisa que tinha naquele mundo, naquela vida maldita daquele lugar desgraçado.
Não havia mais nada. Absolutamente nada. E toda a sua ruína foi reduzida a uma dor física para a qual não havia cura, sequer alívio. Conclusões ínfimas e óbvias perto de algo tão imenso. Lágrimas que brotavam e escorriam como se fossem infinitas em um primeiro momento, mas que secariam sem fazer com que a dor se abrandasse. Essa dor latente seria aos poucos transformada em outra espécie de sentimento, pelo qual mais tarde encontrasse nela a razão por ter voltado. Uma razão que lhe traria um novo alento, um objetivo a cumprir. Talvez a única coisa da qual precisasse.
Ainda estava encolhido no chão frio quando finalmente levantou os olhos, já secos e ardendo. A imagem a sua frente era de um pássaro grande e negro que não se assustou com sua presença. Pelo contrário: os olhos da ave também fitaram os seus. E nessa troca de olhares Ashe começaria a entender qual era o seu destino.
"Levante-se, Ashe"
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Ao mesmo tempo...
Um baque surdo contra o chão, foi a primeira sensação da garota ao acordar. A dor de cabeça e a tontura foram sentidas imediatamente. Não conseguiu levantar tão depressa, como quis pois o corpo não lhe obedeceu num primeiro momento. Mal conseguiu enxergar alguma coisa, embora soubesse que já estava consciente porque tentava elaborar alguns pensamentos. Nada muito claro. Apenas esperava sua visão voltar ao normal, desejando saber o que tinha acontecido, se Jason estava bem... esperava encontrar quem sabe o centro de comando? Se Zordon percebesse que estavam em perigo e em desvantagem certamente os teletransportaria para lá.
Ainda deitada, caída de bruços abriu os olhos. O que viu não tinha nada a ver com o a grama do parque de Alameda dos Anjos. Foi o asfalto sujo e molhado. O susto fez com que levantasse o corpo e sentasse depressa, como quem não acredita em seus sentidos. Acabou se deparando com uma rua deserta, suja e escura, mal iluminada por lâmpadas de cor amarelada.
Assustada com aquele cenário, levantou-se depressa. Sentiu cambalear, como se estivesse bêbada mas era dor. Sentiu frio por causa do quimono molhado pela água suja do asfalto onde há pouco estava caída. O tecido também estava rasgado, mas não se importou com isso. Não era queixa para se fazer naquele momento.
Apenas olhou ao seu redor, procurando algum sinal de qualquer coisa que pudesse ajudá-la a descobrir respostas para suas perguntas.
"Onde estou? O que está acontecendo aqui?"
