Capítulo 4 – Ainda Não É Desta
Não dormi muito bem esta noite. Primeiro porque a imagem de Draco Malfoy a beijar-me não me saía da cabeça, segundo porque assim que consegui adormecer aquelas imagens horríveis, que me tinham feito partir um copo em pedaços com a mão, voltaram a assombrar a minha mente e em terceiro porque a mão ardia-me de novo não me deixando adormecer com facilidade. Foi até com algum alívio que olhei para o relógio em cima da cómoda e vi que já eram horas de me arranjar.
Levantei-me indo até ao wc tomar um banho rápido e vestir o uniforme. Agarrei no saco do material para as aulas e saí do dormitório para a sala comum. Mal virei a esquina para a sala comum vi que Daniel estava na mesma poltrona em que eu estava na manhã anterior. Sorri e fui até ele lentamente.
- Estás à minha espera Daniel? – Perguntei assim que cheguei à parte de trás da poltrona.
- Por acaso até estava! - Ele levantou-se e sorriu-me, um sorriso lindo. – Bom dia Suzy.
- Bom dia Dan! – E sorri mais uma vez. Credo nunca sorri tanto na minha vida. – Hoje não tens fome? Já são quase 8h30.
- Raios, o meu estômago bem que estava aqui a reclamar. – Ele disse abanando a cabeça não acreditando que se tinha esquecido de algo tão óbvio como comer.
Eu ri-me e ele riu-se também. Depois agarrou a minha mão boa e puxou-me para fora da sala comum até ao salão principal. Chegamos à mesa de Slytherin e sentamo-nos num dos lugares vagos a meio da mesa. Quando dei conta já ele estava a encher o meu prato de comida dizendo que tinha de me alimentar bem e que achava que o meu mau humor do dia anterior se devia a não me ter alimentado convenientemente. É claro que eu não pude deixar de dar uma gargalhada, aquele rapaz era impossível.
- Suzane Manson? – Perguntou um rapazinho atrás de mim.
- Sim! – Disse ao virar-me para trás.
- O professor Snape pediu-me para te dizer que não te esqueças que hoje à noite tens de terminar o castigo e a Madame Pomfrey pediu para passares lá antes da primeira aula.
- Oh! Obrigada. – Disse sorrindo para ele e quando ele foi embora virei-me novamente para a mesa e disse frustrada. – Raios, já me tinha esquecido daquele maldito castigo.
- Hum afinal qual foi o teu castigo? – Perguntou um Daniel curioso.
- Limpar os troféus. Fogo, vocês aqui têm troféus que nunca mais acabam. – Disse pegando distraidamente no copo mas de repente ele desapareceu da minha mão. Eu olhei confusa para a mão vazia e depois para Daniel que segurava o meu copo. – Hey!
- Calma Suzy, nada de copos na mão. Não queremos que fiques com as duas mãos magoadas.
- E é suposto eu morrer desidratada? – Perguntei ironicamente.
Eu realmente devo ter feito uma cara bastante cómica porque ele começou a rir e de repente olhou para mim sério. Aquelas mudanças de humor repentinas dele davam comigo em louca e só o conhecia há um dia. Daqui a uma semana tinha de ser internada num manicómio.
- Não palerma. Eu dou-te o sumo mas tu não tocas no copo.
- Ah! Agora sou uma inválida. Brilhante! – Ironia ao poder.
Ele voltou a rir mas de repente parou e ficou a olhar para o outro lado da mesa. Eu desviei o olhar para lá também e vi o Malfoy a tapar a boca tentando não se rir. É sempre bom saber que faço alguém rir.
- Oh, claro, agora virei a palhaça de serviço. Acho que vou entrar para um circo muggle, devo ter sucesso por lá. – E o Malfoy continha ainda mais o riso. - Isso, riam-se todos da minha invalidez. – Mais ironia, o dia estava realmente a começar bem.
Levantei-me para ir à enfermaria ver o que queriam de mim e quando virei costas à mesa ouvi uma gargalhada sonora o que me fez virar a cabeça instantaneamente. Qual não é o meu espanto quando em vez de Daniel estar a rir (que por acaso estava com um olhar bastante estranho para o amigo) vejo o Malfoy completamente dobrado e agarrado à barriga. Já toda a gente olhava para ele, provavelmente nunca o tinham visto a rir assim, o que me fez sentir ainda "melhor".
- Mas qual foi a piada? – Eu perguntei perplexa sem entender nada.
Ele não respondeu, continuou a rir que nem um louco. Eu já achava que ele devia ter algum problema mental agora tinha ficado completamente provado. Quem devia ser internado num manicómio era ele e não eu.
- Daniel, és capaz de me explicar porque é que o teu amiguinho não pára de se rir? Eu por acaso tenho escrito na testa "riam-se de mim o mais que puderem"?
Desta vez Daniel começou a rir também. Ok, aquilo já era demais. Um a rir-se ainda era suportável, agora dois?
- Ah querem saber, vão dar banho ao cão.
E eles riram ainda mais. Isto realmente não me estava a acontecer. Saí do salão principal o mais rápido que pude e antes de ir à enfermaria passei pelo wc para me ver ao espelho.
- Não há nada de errado com a minha aparência. – Constatei depois de me examinar milimetricamente.
Saí do wc em direcção à enfermaria e mal lá cheguei a enfermeira veio logo ter comigo. Tirou-me a ligadura da mão e observou os cortes por um momento, depois colocou uma nova ligadura e disse para ficar assim até sábado. Até sábado? Ia continuar a ser tratada como uma inválida até sábado? É claro que começava a desconfiar que o Daniel nunca mais na minha vida me ia deixar pegar em copos, a não ser que fossem de plástico.
Fui para a aula de Poções, aquilo prometia. Como é que eu ia fazer uma poção só com uma mão? Nem cortar os ingredientes conseguia. Cheguei à aula um pouco atrasada e por isso tive de bater à porta.
- Entre! – Respondeu-me um professor do outro lado.
Eu abri a porta e entrei devagar procurando pelo professor. Vi-o atrás da mesa dele e dirigi-me até lá antes de procurar um lugar para me sentar.
- Desculpe o atraso professor mas tive de ir à enfermaria mudar a ligadura. – Disse mostrando-lhe a mão pendurada ao peito.
- Oh o que aconteceu Miss…? Como é mesmo o seu nome?
- Suzane Manson. E estou assim porque ontem parti um copo na mão.
- Hum tem de ter mais cuidado. Agora pode ir sentar-se ali entre o Mr Malfoy e o Mr Turner.
Eu olhei para lá não acreditando no que me estava a acontecer mas ao menos eles já não se estavam a rir, o que não era mau. Fui até lá e sentei-me no meio dos dois sem lhes dirigir sequer um olhar. O Daniel ia começar a falar mas foi cortado pelo professor Slughorn que começava agora a aula.
- Ora bem. Hoje vamos apenas identificar estas quatro poções. – Disse apontando para os quatro caldeirões à sua frente que só agora os tinha visto. – E depois quero que escrevam num pergaminho, para entregar no final da aula, a maneira como é possível identificar cada uma das poções e qual o seu efeito. Vamos lá começar. Quem me sabe dizer que poção é esta? – Disse ele apontando para a que estava mais afastada de mim.
Eu levantei instantaneamente o braço bom, aquilo era já a força do hábito, era sempre eu quem respondia a todas as questões na minha antiga escola. Mas não fui a única a levantar o braço, vi que Hermione Granger também o fizera.
- Miss Manson por favor. – Disse o professor olhando para mim.
- Veritaserum. – Disse com toda a certeza.
- Correcto. – Disse ele com um sorriso. – Dez pontos para Slytherin. – Depois apontou para a poção que estava ao lado e voltou a perguntar. – Alguém sabe que poção é esta?
Mais uma vez o meu braço levantou-se mas desta vez o professor perguntou à Granger qual era a poção. Não pude deixar de mostrar o meu ar de desagrado ao ver que ela sabia a resposta.
- Poção Polissuco. – Disse ela com um leve sorriso nos lábios. Bem agora aquilo era pessoal, nunca ninguém me tinha tirado uma oportunidade de responder a uma pergunta.
- Muito bem Miss Granger. Dez pontos para Gryffindor. E esta aqui? – Disse ele apontando para a terceira poção.
O professor ainda não tinha terminado de falar já a minha mão estava no ar. É claro que ele não teve muita escolha.
- Miss Manson…
- Amortencia. Também conhecida como poção do amor.
- Certíssimo. Mais dez pontos para Slytherin. E esta aqui? - Desta vez a Granger foi mais rápida e eu suspirei irritada. – Miss Granger.
- Poção do sono. – Eu ri-me, e pensei para comigo mesma "errado, completamente errado".
- Sinto muito Miss Granger mas está errado. Nada que me admire é claro já que as duas poções são bastante parecidas. – Depois olhou para mim. – Miss Manson quer tentar?
- Felix Felicis que também pode ser chamada de sorte líquida. – Eu disse a sorrir.
- Muito bem. Agora diga-me Miss Manson como sabia que poção era? – Ele olhava para mim curioso. – Não há muitas pessoas da sua idade que a consigam distinguir da poção do sono.
- Eu já fiz essa poção, professor.
- E conseguiu faze-la na perfeição? – Ele parecia espantado e eu não pude deixar de sorrir.
- Perfeitíssima, professor. Sem nenhuma falha. Devo dizer que em todos os anos em que preparei poções nunca nenhuma delas me saiu mal. – Todos olhavam para mim admirados e então eu acrescentei. – É claro que se quiser ter a certeza do que eu estou a dizer pode entrar em contacto com o professor Boris.
- Eu acredito em si Miss Manson. Aliás para que me iria mentir se a partir de agora eu posso confirmar se é tão boa quanto diz ou não? – Ele sorriu e depois virou-se para os restantes alunos. – Muito bem, agora que as quatro poções foram identificadas correctamente quero que comecem a fazer o que pedi no início da aula.
- Hum professor? – Eu chamei levantando o braço. – Eu não consigo escrever com a mão esquerda.
- Bem, porque não fazemos o seguinte. A menina espera que o Mr Malfoy ou o Mr Turner terminem e depois dita-lhes o que quer escrever. Têm uma hora para fazer a redacção. Miss Manson não se importa de ficar só com trinta minutos?
- Por mim poderia ter apenas dez se não tivesse com a mão neste estado. Mas já que vai ser alguém a escrever por mim, sim trinta minutos chegam.
- Podem começar e de preferência sem perguntar a ninguém nem consultar nenhum livro. Este trabalho é apenas para ver qual é o vosso nível.
Todos começaram a pegar em pergaminhos e penas. E eu fiquei ali a olhar para a frente, entediada. De vez em quando ouvia o Daniel perguntar alguma coisa sobre as poções mas eu nem sequer levantava a cabeça da mesa. Ainda continuava chateada com ele, afinal ele tinha-me feito fazer figura de palhaça ao pequeno-almoço, não ia esquecer aquilo tão cedo. E a hora foi passando e eu quase ia adormecendo ali em cima da mesa, tinha dormido mal e aquela espera não estava a ajudar em nada.
- Já passou uma hora. Por favor entreguem os vossos pergaminhos e podem sair. – Disse o professor para todos e depois virou-se em direcção à minha mesa. - Mr Malfoy por favor não se importa de ajudar a sua colega?
Eu respirei fundo e coloquei uma folha de pergaminho à frente dele e ele sem dizer nada agarrou na pena pronto a escrever. Comecei a ditar-lhe tudo aquilo que queria que ele escrevesse e vinte minutos depois eu já tinha terminado. Agarrei no pergaminho, peguei no meu saco e levantei-me em direcção à mesa do professor onde coloquei o pergaminho e saí porta fora.
Aproveitei que teria um espaço livre até ao almoço e como estava sol fui até perto do lago e sentei-me lá encostada ao tronco de uma árvore. Fiquei ali alguns minutos de olhos fechados até que ouvi passos e virei-me para ver quem era e deparei-me com dois loiros que se deslocavam para o local onde eu estava. Respirei fundo e voltei a minha atenção para o lago.
- Suzy até quando vais ficar sem me falar? – Ouvi o Daniel perguntar com uma voz triste.
- Até entender porque se estavam a rir de mim. – Respondi sem desviar o olhar do lago.
- A culpa foi do Draco.
- Hey! Eu não tenho culpa que tu a estivesses a tratar como se ela fosse uma criança. – Disse o Malfoy meio irritado.
- Mas ela podia magoar-se outra vez, tinha de a proteger.
- Claro! E tu és uma óptima ama-seca. – Disse Malfoy ironicamente.
Eu fiquei ali durante o que me pareceu ser uma eternidade, mas que na realidade não passaram de cinco minutos, a ouvi-los atirar as culpas um para o outro. Respirei fundo e levantei-me olhando para eles que agora chamavam entre "estúpido", "idiota", "parvo" e mais um monte de nomes um ao outro.
Comecei a rir-me, não era bem rir, era mais dar grandes gargalhadas. E por estranho que pareça não conseguia parar. Mas eles pararam os insultos e ficaram a olhar para mim espantados até que perguntaram os dois ao mesmo tempo.
- O que foi?
- Vocês… Parecem… Duas… Crianças… De… Cinco… Anos. - Consegui dizer no meio das gargalhadas.
E então do nada eles começaram a rir também. Eu já não aguentava mais de tanto rir até já me doía a barriga e então atirei-me de novo para a relva sentando-me no mesmo local onde estava antes tentado respirar fundo e parar de rir. E finalmente consegui.
- Obrigada Malfoy. – Disse assim que consegui falar decentemente.
- Obrigada porquê? – Perguntou ele confuso.
- Por me teres ajudado na aula de poções. – Respondi sem desviar o olhar dele.
- Oh não foi nada. – Disse ele dando um pequeno sorriso.
E ficamos assim a olhar um para o outro esquecendo completamente o pobre Daniel que olhava de mim para o amigo até que ele não aguentou e falou.
- Hey! Vocês querem fazer o favor de não ignorar que um rapaz loiro e com lindos olhos verdes está aqui também? - Eu e o Malfoy olhamos para ele e voltamos a rir. Coitado do Daniel, ele sofre.
- Daniel como é que eu podia ignorar que o rapaz mais bonito que já vi na minha vida está aqui comigo? – Disse dando um pequeno sorriso de lado.
Ele sorriu-me também e depois olhou em direcção ao castelo sorrindo ainda mais e depois falou em tom de brincadeira.
- Bem já que estamos numa de nos rirmos porque não ir irritar um bocadinho o Potter e os amiguinhos?
- Acho uma óptima ideia. – Disse o Malfoy já se levantando e seguindo Daniel até aos três alunos que caminhavam pelo jardim.
Eu levantei-me entediada, aquilo não ia acabar nada bem. Segui-os mas fiquei um pouco afastada apenas a uma distância suficiente para ouvir o que eles diziam e intervir caso houvesse essa necessidade. Senão ia ficar só ali a olhar para aquela cena deprimente encostada à árvore.
- Então Potter a aproveitar o sol? Tem cuidado porque o sangue da Granger pode ficar ainda mais fedorento com o calor. – O Malfoy falou e depois olhou para o Daniel que ria do comentário do amigo.
- Isto não vai correr nada bem. – Eu dizia para mim mesma vendo o olhar de fúria dos três Gryffindors.
- Cala a boca Malfoy. Esse teu hálito contamina o meu ar. – Disse o Harry mas antes de ter tempo de virar costas já o Malfoy lhe tinha acertado um murro no nariz.
- Bem esta é a minha deixa. – Disse eu tirando a varinha do bolso e aproximando-me. Acenei a varinha e uma parede invisível apareceu entre os Gryffindors e os Slytherins. – Muito bem, chega.
Todos olharam para mim. Uns espantados e outros como era o caso do Malfoy e do Daniel com olhares assassinos. Mas isso não me afectou em nada apenas continuei a andar colocando-me no meio deles ainda com a varinha levantada. E depois falei o mais séria que conseguia olhando de uns para os outros.
- Se vocês se querem matar, óptimo matem-se, mas não esperem que eu fique sentada a assistir ao espectáculo. Por isso é bom que se portem como pessoas crescidas que são antes que algum professor apareça aqui e sejamos todos castigados, o que não me convinha nada já que ainda tenho um castigo a cumprir hoje.
- Mas o que se passa aqui? – Ouvi uma voz perto da entrada do castelo.
- Óptimo. Brilhante. Conseguiram colocar-nos a todos de castigo. – Eu disse completamente irritada mas sem desfazer o feitiço.
- Miss Manson o que está a fazer com a varinha na mão? E porque colocou uma parede protectora no meio do jardim? – Disse Snape com aquela voz arrastada e coçando o nariz pois tinha batido de frente na barreira que eu conjurara.
- Estou com a varinha na mão precisamente porque coloquei a parede protectora no meio do jardim. – Disse calmamente. – E coloquei essa parede para que o Malfoy e o Potter não se matassem. Não queria que eu ficasse simplesmente a assistir ao espectáculo pois não? – Olhei desafiadoramente. Ok, eu estava mesmo a pedir mais um castigo.
- E porque é que o Mr Malfoy e o Mr Potter se iriam matar no meio do jardim?
- Oh, não sei. Talvez porque achassem que era um bom local para isso. Assim podiam já cavar a sepultura e já tinham as flores por perto. – Eu disse ironicamente e ouvi o Daniel conter o riso.
- Muito engraçada Miss Manson. Devo lembrar-lhe que ainda tem um castigo para cumprir e a menina já quer outro? – Eu não respondi e por isso ele virou a sua atenção para os outros alunos. – Mr Malfoy e Mr Potter têm castigo esta noite também. Depois do jantar quero-os aos dois no meu gabinete. Miss Manson já sabe onde é o seu castigo. – Depois virou costas e deu alguns passos mas parou e olhou para trás. – Miss Manson pode desfazer o feitiço se não se importar demasiado. E já agora 50 pontos a menos para cada uma das equipas.
- Brilhante ideia Daniel. – Disse quando o Snape já não poderia ouvir e enquanto desfazia o feitiço. - Porque não para a próxima irmos directamente ter com o Snape e dizer para ele ir lavar o cabelo? Ao menos poupávamos o trabalho ao pobre professor ter de vir até ao jardim e sujeitar-se a apanhar alguma queimadura solar.
Virei costas completamente irritada e fui para o salão principal a resmungar o caminho todo. Cheguei lá e sentei-me de qualquer jeito num lugar vazio.
- Sabes a tua ideia é que não é das mais brilhantes. – Disse Daniel sorrindo. Eu apenas olhei para ele com um olhar assassino e voltei a minha atenção para o prato.
No resto do dia não falei nem com Daniel nem com Malfoy. O primeiro parecia até um pouco arrependido pela ideia que teve e o segundo apenas me olhava como se dissesse: "voltei para o castigo e a culpa é tua outra vez". Eu nem sequer respondia, não valia a pena chatear-me mais ainda. Quando as aulas da tarde terminaram fui directamente para a sala comum não estava com fome e assim podia pousar as coisas no dormitório antes de ir novamente para aquela sala cheia de troféus.
Saí da sala comum e encaminhei-me para a sala dos troféus onde vi que não estava apenas Mr Filch à minha espera mas também Harry Potter.
- Bem, poderia ser pior. – Pensei comigo mesma.
Mr Filch entregou um pano e uma caixinha a cada um e depois fomos para o fundo da sala limpar troféus. Para grande desgosto meu teria de limpar tudo de novo já que agora estava acompanhada. Eu limpava lentamente já que continuava com uma mão inutilizável. Passamos o castigo todo sem trocar uma única palavra e quando já estava na hora de recolher às salas comuns fomos embora.
- Hum obrigada por teres colocado aquela protecção para me separares do Malfoy. – Disse Harry timidamente mal tínhamos saído da sala dos troféus.
- De nada. Eu só não queria que houvesse mais confusão mas parece que não resultou assim tão bem.
- Mas olha que a tua ideia de dizer ao Snape para ir lavar o cabelo não era das melhores. – Ele disse sorrindo.
- Realmente não era. – Eu sorri também. E depois vi um vulto encostado a um pilar e conheci-o imediatamente. – Bem… Eu agora vou por aqui. Boa noite!
- Boa noite! – Disse Harry a sorrir.
Eu desci as escadas até ao hall principal e nem sequer olhei para o rapaz encostado ao pilar, mesmo quando ele me chamou. Segui o meu caminho e mal tinha descido as escadas das masmorras fui agarrada e virada à força para ficar frente a frente com ele.
- Então tiveste uma noite interessante com o Potter? – Perguntou o Malfoy com sarcasmo.
- Bastante interessante. Ele é uma boa companhia. – Disse tentado soltar o braço mas sem êxito. – Estás a magoar-me Malfoy.
- Estou? Ele foi mais carinhoso contigo não foi? – Ele estava estranho, olhava-me de uma maneira que eu não conseguia identificar.
- Mas do que é que estás a falar? – Perguntei cada vez mais confusa.
- Eu bem vi os sorrisinhos que ele te dava e tu retribuías, não era? – Ele apertava-me o braço cada vez mais.
- Eu não estou a entender. – Depois passou-me algo pela cabeça que me fez sorrir. – Não me digas que estás com ciúmes?
Ele ficou a olhar para mim durante algum tempo e depois encostou-me à parede e aproximou-se mais de mim.
- E se estiver? – Perguntou-me num murmúrio junto ao ouvido o que me causou um arrepio pela coluna abaixo e que percebi que ele notou, pois sorriu. – Tu querias que estivesse com ciúmes, era? – Voltou a murmurar ao meu ouvido e eu voltei a arrepiar-me.
Eu fiquei em silêncio. Ok, afinal quem é que andava a tentar seduzir quem? Então decidi dar a volta ao jogo.
- Era. – Murmurei junto ao ouvido dele e vi com alegria que ele também se arrepiava, então aproveitei a situação para ganhar ainda mais pontos. – Não consigo parar de pensar no beijo que me deste ontem. Não queres repetir?
Ele afastou-se um pouco de mim surpreso mas depois agarrou-me mais junto dele e beijou-me. Desta vez eu não o tentei afastar, aliás tirei a mão magoada do peito e apoiei-a no ombro dele e com a outra agarrei-lhe a nuca. Ele beija-me cada vez com mais vontade e eu já nem conseguia pensar em nada. Já não me lembrava porque estava ali, quem ele era, porque estava a fazer aquilo, nada. A minha mente só se conseguia focar no sabor daquele beijo, na ferocidade e ao mesmo tempo na ternura daquele beijo. Eu não conseguia pensar em mais nada a não ser nos lábios dele nos meus, na mão dele na minha cintura e a outra na minha nuca.
Depois ele afastou-se, mas não muito. Eu continuava a sentir o hálito de menta dele, a sua respiração rápida junto com a minha. Ficamos assim algum tempo, com os lábios ainda próximos e olhos fixos, um no outro.
- Pensei que tinhas dito que nunca irias querer que eu te beijasse, nem que eu fosse o último homem à face da terra. – Ele disse com a voz rouca e os lábios a roçarem nos meus, o que me causou arrepios.
- E eu já uma vez te disse que não podes acreditar em tudo o que eu digo.
Depois de dizer isto puxei-o para mais um beijo. Mas depressa me apercebi que desta vez tinha sido instintivo, não tinha planeado aquele beijo e isso assustou-me um pouco.
- Pára. – Disse quase sem voz assim que os lábios dele se separaram dos meus e iam em direcção ao meu pescoço.
- O que foi? – Perguntou-me olhando-me nos olhos.
- O que se passa? Isto não era suposto acontecer. – Falei mais para mim do que para ele mas foi ele quem me respondeu.
- Estamos atraídos um pelo outro. Não é nada do outro mundo.
Aquela resposta acertou-me como um punhal. Ele tinha razão, por mais que eu tentasse esconder ele tinha razão. Eu estava realmente atraída por ele e isso não era bom, nada bom. Afastei-me dele e ele ficou a olhar para mim confuso.
- Isto não pode acontecer. – Disse apenas num murmúrio e depois comecei a correr em direcção ao dormitório.
Ainda o ouvi chamar-me mas não olhei para trás. Aquilo que eu não podia deixar que acontecesse estava a acontecer. Eu estava a ficar verdadeiramente interessada nele. Cheguei ao meu quarto e atirei-me para a cama de qualquer jeito e comecei a chorar.
- Eu não posso ter mais sentimentos por ele além do ódio. Não posso. – Dizia a mim mesma sem parar.
Depois adormeci assim, com os olhos cheios de lágrimas e aquele pensamento constante na minha mente.
