NARUTO NÃO ME PERTENCE, NEM A HISTÓRIA! IV

Do Golfo vinha uma brisa com cheiro de mar que se misturava ao cheiro de cloro da piscina na tarde dourada de sol. Hinata saiu da piscina. A longa trança de cabelos negros brilhava em tons azulados mais ainda assim molhada, enfeitando as costas. Ela se virou para observar Naruto no trampolim. Estava lindo! Os cabelos loiros brilhando ao sol, e a pele morena, bronzeada por igual, fazendo contraste com a sunga branca que ele usava. Com grande habilidade ele mergulhou, quase sem ruído, atravessou a piscina de comprido por baixo d'água e emergiu na outra extremidade perto das espreguiçadeiras.

— Você não vai voltar para a água? — perguntou ele, olhando-a de alto a baixo com admiração.

— Acho que vou descansar um pouco — respondeu Hinata, ligeiramente ofegante do exercício que fizera nadando. Deitou-se numa das espreguiçadeiras, deixando que o sol secasse sua pele molhada e o biquíni.— Depois, Kurenai vai sair daqui a pouco e eu quero aproveitar para me certificar de que o juiz vem mesmo para o jantar, hoje.

— Você até parece cupido! — riu Naruto, saindo da piscina e sacudindo a água dos cabelos. Em seguida acomodou-se ao lado de Hinata. — Nesses últimos dias você tem sempre arranjado um pretexto para convidar meu pai para alguma coisa.

— E Kurenai tem concordado de coração — sorriu Hinata.— Parece que a idéia de casamento é contagiosa!

— Devo admitir que nunca pensei que alguém conseguisse convencê-la a ir àquele desfile ontem à tarde. Ainda bem que papai conseguiu um camarote especial para assistir, assim ela não pôde dar a desculpa da fobia por multidões.

— Ela bem que se divertiu!

— E você também.

— Para o desfile de amanhã à noite acho que vai ser um pouco mais difícil. Estava aqui pensando... — disse Hinata com um brilho conspirador no olhar. — Que tal se sairmos nós quatro para jantarmos juntos e depois, quando chegar a hora do desfile, nós dois saímos e sugerimos que eles façam outro programa? Assim ficarão a sós...

— É uma idéia genial! — Naruto ergueu-se num salto. — Até merece um aperitivo para comemorar. — Ele pegou a mão de Hinata, que ria com jovialidade, e arremedando um galante cavalheiro beijou-a de leve, comentando depois. — Você é mesmo uma mulher admirável!

— Obrigada, meu senhor — respondeu ela em tom de brincadeira.

Naruto se afastou em direção à casa, com um sorriso nos lábios e entrou. Hinata, que estava apoiada nos cotovelos, estirou-se de novo na espreguiçadeira ainda sorrindo. Os dias haviam passado mais depressa do que ela imaginara depois que ouvira a história do casamento infeliz de Kurenai. Hinata passara a se preocupar tanto em achar um jeito de unir Kurenai e o juiz que até se esquecera de suas próprias preocupações por estar se fazendo passar pela noiva de Sasuke. Queria que sua visita resultasse em algo de bom, era de certa forma uma compensação pela farsa que estava representando diante de pessoas tão amáveis. Por isso concentrava todos os seus esforços na tentativa de fazer com que Kurenai e o juiz descobrissem afinal a felicidade. O próprio Naruto chegou a admitir que ela estava sendo muito bem-sucedida na tarefa, o que a encorajava ainda mais.

A brisa aumentara e quando a sombra alcançou o lugar onde estava, ela começou a ficar arrepiada. Embora estivesse com preguiça de se levantar dali, acabou se erguendo para buscar a saída de banho que tinha ficado sobre a mesa com guarda sol.

Hinata estava dando um nó no sarongue quando dois braços, vestidos com manga escura, enlaçaram sua cintura pelas costas e ela sentiu seu corpo pressionado de leve contra um corpo forte e musculoso. Ficou paralisada sentindo aquele hálito quente e os lábios macios que beijaram sua nuca. Sem querer um arrepio percorreu sua espinha e uma sensação estranha despertou em seu corpo.

— Bonito, hein?! Então é isso o que tem feito enquanto estive fora... deixando o pobre Naruto enfeitiçado! — disse ele.

Uma onda de pânico invadiu Hinata ao reconhecer a voz de Sasuke. Como era possível? Ele ainda deveria ficar mais uma semana na América do Sul! No entanto, lá estava ele!

Hinata virou-se nos braços dele, tentando evitar as carícias, mas ele nem lhe deu tempo e imediatamente apossou-se de seus lábios num beijo ardente. No início ela relutou, empurrando o peito dele, mas ele apertava o corpo dela contra o seu, fazendo-a sentir seus músculos rijos. Aos poucos a sensualidade daquele beijo foi diminuindo suas resistências e ela sentiu as pernas amolecerem e agarrou-se na lapela do paletó dele como se fosse desfalecer.

Quando ele afinal ergueu a cabeça, ela estava rubra de embaraço e medo e fitou-o, sem saber o que fazer. Os olhos escuros dele fuzilavam de raiva. Ele segurou com força o pulso esquerdo dela, quase torcendo-o, e olhou para o anel de noivado antes de encará-la com um olhar acusador e impiedoso.

— Quem é você?— perguntou Sasuke com rispidez, sem soltar o pulso dela.

— Hinata — murmurou ela com voz fraca, tremendo diante daquele rosto enfurecido e das coisas estranhas que ele a fizera sentir.

— Ah, a priminha bondosa! — disse ele com sarcasmo, como quem se lembra de alguém insignificante. — E o que está fazendo aqui, afinal? Onde está Hanabi? — perguntou ele, apertando ainda mais o pulso dela até fazê-la gemer de dor.

— Ah... por favor...— ela o fitou com olhar súplice — eu explico.

Ele a contemplou com desdém e ela duvidou que qualquer explicação surtisse efeito. Com ar divertido, Sasuke observou o arfar do peito dela, que revelava agitação interior e medo.

— Não é uma surpresa maravilhosa, hein, Hinata? — A voz de Kurenai quebrou o pesado silêncio que caíra sobre Hinata e Sasuke. Ela vinha se aproximando deles mas o largo tórax de Sasuke escondia Hinata de modo que Kurenai não pôde ver a expressão de terror que se estampou em seu rosto.

— Você nem imagina a surpresa que ela teve! — retrucou Sasuke calmamente, olhando com cinismo os olhos súplices e os lábios trêmulos da sua "noiva".

Largou o pulso de Hinata e abraçou-a pelos ombros. Inclinou a cabeça, encostando o rosto no pescoço dela como se fizesse uma carícia mas foi apenas para dizer baixinho no ouvido dela:

— Deixe comigo. Não diga nada.

Ele a fitou para se certificar de que entendera e depois olhou para a tia.

— Minha querida, Hinata está tão atônita de me ver aqui que até perdeu a fala!— disse ele com uma ironia sutil que só a "noiva" entendeu.

— Pois eu não estou nem um pouco surpresa. — Kurenai deu um sorriso largo, interpretando as lágrimas que viu nos olhos de Hinata como lágrimas de felicidade. — Você não foi muito convincente quando me falou naquela noite ao telefone que não viria para o Carnaval.

O choque inicial estava começando a passar, embora as pernas de Hinata ainda estivessem trêmulas. Só que agora ela não conseguia entender por que Sasuke não a desmascarara. Não era possível que ele não a censurasse por aquela atitude e que a deixasse impune. Contudo, lembrava-se de como ele apertara seu pulso e o beijo que lhe dera era algo que não esqueceria tão cedo.

— Terminei as negociações bem antes do que imaginava — disse Sasuke, contemplando os cabelos de Hinata. — Acho que o fato de ficar pensando em minha amada esperando por mim tão ansiosamente contribuiu muito para isso.

Imediatamente ela enrubesceu e ele deve ter achado divertido, pois acrescentou, dirigindo-se à tia:

— Não é comovente. Kurenai? Ela fica sem jeito só de me ouvir dizer que desejo a companhia dela!

— Sasuke... — protestou ela, como se quisesse desmascarar tudo e revelar sua verdadeira identidade, mas ao encontrar o olhar dele sentiu-se totalmente desencorajada. Baixou as pálpebras sem jeito e ficou em silêncio.

Kurenai pareceu perceber o constrangimento de Hinata.

— Ah, meu filho, acho que Hinata gostaria de se arrumar um pouco — disse ela para o sobrinho. — Você a pegou de surpresa aqui, totalmente desprevenida... com maio molhado e sem maquilagem nenhuma. — Ela riu. — Essa situação é sempre embaraçosa para uma mulher, a gente se sente desprotegida...

Sasuke soltou-a meio a contragosto e ela se afastou depressa daquele contato perturbador.

— Vá, Hinata, corra para seu quarto e prepare-se bem. Vamos ver se depois vai se sentir mais bem protegida!

Hinata deu um sorriso amarelo para Kurenai e correu para dentro de casa. De novo as lágrimas inundaram seus olhos e quando ela entrou nem viu Naruto que ia saindo com uma bandeja com aperitivos. Foi ele quem a chamou.

— Ei, Hinata, você está chorando! — disse ele, preocupado, quando se aproximou mais. — O que foi que houve? Aconteceu alguma coisa?

— Sasuke está aqui — começou ela a dizer, mas interrompeu-se. Sasuke havia lhe ordenado que não dissesse nada. Sem dúvida ele queria ter o gosto de desmascará-la pessoalmente. Além disso, ela não teria coragem de dizer para Naruto que estivera mentindo aquele tempo todo. Não conseguiria encará-lo.

— Ah, eu sei— disse ele com alívio, imaginando, como Kurenai, que Hinata estava chorando de felicidade. — Estou levando uns aperitivos para comemorarmos. Aonde você está indo?

— Preciso me arrumar um pouco — disse ela, enxugando as lágrimas e aproveitando, a desculpa que Kurenai fornecera.

— Ah, Sasuke é um felizardo! — suspirou Naruto com um sorriso doloroso enquanto Hinata subia correndo.

Não havia nada que ela pudesse dizer para se defender e desculpar sua atitude, ia pensando. Nada poderia ser um motivo suficiente para que tivesse enganado Kurenai, Naruto e o juiz durante todos esses dias em que recebera o carinho e a atenção de todos eles. Eles haviam lhe oferecido hospitalidade e afeto e ela aceitara, sabendo que tudo aquilo seria para a noiva de Sasuke. O que iam pensar dela quando descobrissem tudo? Sem dúvida iriam detestá-la por isso.

Hinata entrou no banheiro, amargurada e abriu as torneiras do chuveiro. Só mais cinco dias e tudo teria dado certo! Ela estaria de volta a Los Angeles e ninguém saberia de nada, a não ser ela mesma e Hanabi. Não, mas o erro não era ter sido descoberta em flagrante por Sasuke, o erro era ter concordado com a farsa! Sabia que estava errado, mas deixou-se levar pela prima e agora era tão culpada quanto Hanabi.

Pingou colírio nos olhos, que estavam congestionados por ter chorado, desmanchou a trança, entrou no chuveiro e ensaboou-se bastante, desejando que aquela ducha pudesse livrá-la também da sensação que o contato íntimo com Sasuke deixara em sua pele. Demorou-se bastante, pois na verdade estava querendo adiar ao máximo o inevitável confronto com Sasuke.

Enquanto se enxugava, Hinata ia pensando por que Sasuke não a desmascarara assim que a vira tomando o lugar de Hanabi. Talvez ele quisesse primeiro ouvir a explicação antes de condená-la diante de todos. Só podia ser isso!

Secou os cabelos sedosos e escovou-os bem, depois maquilou-se com cuidado, realçando discretamente os olhos. Intimamente agradeceu a Kurenai por ter lhe proporcionado essa possibilidade de ficar uns momentos a sós, assim pôde ordenar seus pensamentos e se recuperar do choque que a súbita e perturbadora presença de Sasuke lhe causara. Com essa ela não contava! E agora, o que aconteceria? Qual seria o desfecho daquela história maluca? Tudo dependeria de como Sasuke iria encarar a explicação. Será que ele entenderia por que ela estava no lugar de Hanabi? Será que preferiria não desmascará-la? Hinata já estava bem mais controlada agora, embora ainda sentisse uma certa apreensão. Revirava o guarda-roupa de ponta a ponta procurando o melhor vestido para usar. Sem dúvida uma mulher se sente muito mais segura e confiante quando está bem arrumada, com boa aparência, e Hinata ia precisar de muita confiança. Estava só com a roupa de baixo, empenhada nessa atividade, quando bateram na porta e ela se surpreendeu.

— Quem é?

Porém, em vez de ouvir uma resposta, a porta se abriu e Sasuke entrou. Hinata pegou depressa o roupão para se cobrir, mas ainda percebeu o olhar insolente com que ele a avaliou naquele breve instante. Ela emudeceu.

— Podia ao menos ter esperado que eu dissesse para você entrar, não é? — disse ela ríspida, com ódio por ele a ter pegado desprevenida mais uma vez.

— Ué, grande coisa! Você estava lá na piscina, muito tranqüila com Naruto, e seu biquíni era menor do que isso que está usando agora. — Ele sorriu e se aproximou dela com um andar ágil e elegante.

Hinata teve vontade de dizer-lhe que Naruto não a olhara daquele jeito, como ele, como se ela fosse um objeto para ser avaliado e comprado se agradasse. Mas, enfim, não estava em situação de dizer nada.

— Não estava me referindo à minha roupa... só que gostaria que tivesse pedido permissão para entrar em meu quarto.

— E desde quando preciso de permissão para entrar no quarto de minha noiva?! — disse ele, olhando-a com ironia.

— Nós dois sabemos muito bem que não sou sua noiva... — disse ela baixando o olhar, constrangida.

— Mas todos pensam que é. Aliás, elogiaram tanto você que já estou me sentindo orgulhoso. — O sarcasmo na voz dele feria-a como um punhal.

Ela baixou o olhar para não encará-lo e não pôde deixar de notar o corpo musculoso e bem proporcionado, moldado pela elegante roupa que trajava.

— Sinto muito por tudo isso, senhor Uchiha. Eu... — começou Hinata titubeante.

— Ora, por favor, continue a me chamar de Sasuke.

Ela apertou contra o corpo o roupão de cetim que pegara às pressas e nem tivera tempo de vestir e moveu a cabeça, jogando os cabelos para trás das costas.

— Sinto muito — repetiu Hinata.

Ele fez um esgar de ironia.

— Ah, quanto a isso não tenho dúvidas! Minha chegada foi um tanto inoportuna para você, não é?

— Não foi o que eu quis dizer e você sabe disso. — Havia um certo tom de desespero na voz dela, mas Sasuke não parecia impressionado. Ao contrário, parecia achar graça.

— Você não vai querer me convencer, agora, que sente muito por ter conquistado a simpatia de Kurenai, não é?! Acha que vou acreditar numa coisa dessas? — O tom era de desprezo e arrogância. Hinata sentia-se minúscula perto dele.

— Você fala como se fosse um golpe sujo... uma atitude baixa... — protestou ela fracamente, e seu queixo tremia como se fosse chorar. — Nunca houve intenção de ferir ninguém ou de causar qualquer mal.

— Você poderia explicar isso a Kurenai? — disse Sasuke com rispidez, as narinas dilatando-se de raiva.

Hinata baixou a cabeça, envergonhada, os olhos inundados de lágrimas, numa atitude silenciosa de quem admite a derrota. Era verdade que não havia a menor intenção de se causar mal a alguém. Tudo começara como uma inocente brincadeira, só que agora atingira proporções drásticas. Quando Kurenai descobrisse quem na verdade era Hinata, ficaria decepcionada e seria doloroso.

— Eu explico, sim... — murmurou Hinata.

— Sem dúvida, vou ficar encantado com sua história, mas por enquanto ainda não vai contá-la — interrompeu ele bruscamente, com voz de desdém e frieza. — Minha romântica tia achou que nós dois deveríamos ficar a sós esta noite, já que estivemos tantos dias separados.

— Você ainda não contou a ela? — Ela arregalou os enormes olhos azuis, incrédula.

— Espero você lá embaixo dentro de meia hora,— disse ele sem responder à pergunta. — Isso lhe dá tempo de sobra para inventar uma desculpa plausível. — Ele deu um passo em direção a ela e instintivamente Hinata recuou e se retraiu. Ele sorriu, zombando dessa atitude, e foi até o armário que estava aberto, de onde tirou um vestido de jérsei lilás com uma delicada fita prateada. ordenando:

— Vista este. Combina bem com o tom de seus olhos, que apesar de aparentemente semelhantes aos de Hanabi, contém um toque de lilás que os fazem parecer tão inocentes.

Sasuke jogou o vestido para ela e saiu do quarto. Hinata estava quase sem fôlego e só então percebeu quanto a presença dele a sufocara. Sentindo as pernas trêmulas, deixou-se cair na banqueta de veludo diante da penteadeira, as palavras de Sasuke ainda ecoando em seus ouvidos. Ela teria de passar a noite toda sozinha com ele! Uma noite inteira agüentando aquelas frases sarcásticas que a alfinetavam! Naturalmente ele não iria acreditar na história. E, na verdade, Hinata percebia agora quão absurda parecia aquela invenção do disfarce e quão egoístas eram os motivos que tinham impulsionado a trama toda.

Sufocou um riso nervoso. Sabia que seria perigoso aceitar aquele disfarce, que seria terrível ter um inimigo como Sasuke. Por que não ouvira sua consciência, então? Por que se deixara levar e cedera aos argumentos da prima? E agora? Bela encrenca em que estava metida! Agora iria pagar caro pelo que fizera. Sasuke seria impiedoso e iria castigá-la severamente! Quanto a isso não havia a menor dúvida. E o pior é que ela não podia fazer nada para evitar.

Exatamente meia hora depois Hinata saiu do quarto. O vestido de jérsei assentava-lhe muito bem, modelando os quadris. O decote realçava o pescoço delgado e gracioso e acentuava a linha dos seios arredondados e atraentes. Os cabelos escuros estavam presos em um penteado sofisticado. Hinata sentia-se como uma mártir, descendo as escadas para ser queimada viva em uma fogueira. À medida que avançava, aumentava o frio na boca do estômago e ela se agarrava ao corrimão. A vontade era fugir dali, sair daquela casa, mas sabia que isso era impossível.

Perto do pé da escada uma porta se abriu e apareceu Sasuke elegantemente vestido com terno escuro e gravata borboleta. Parecia uma pantera negra. Hinata ficou gelada ao vê-lo e parou nos últimos degraus, com o coração batendo descompassado, esperando que ele a visse. Havia um outro homem com ele, bem mais baixo, de cabelos castanhos e curtos, usando óculos de aro escuro. Foi esse homem quem a viu primeiro, parada na escada. Imediatamente seu rosto se abriu num largo sorriso.

— Você está mais linda do que nunca, Hanabi!— disse ele. Sasuke olhou para ela com um olhar frio, como se a estivesse inspecionando. Hinata fez um esforço para descer os últimos degraus e, assim que saiu da penumbra e ficou sob a luz do saguão, a expressão no rosto do outro homem mudou completamente. Ele a fitou atônito e ela sentiu a garganta seca.

— Mas... você não é Hanabi! — balbuciou ele, olhando para Sasuke entre surpreso e curioso.

— Ora, não vá me dizer que já esqueceu como é minha noiva!? — disse Sasuke e foi buscá-la ao pé da escada, segurando-a pelo braço e trazendo para perto do outro homem que continuava perplexo. — Você se lembra de E. J. Denton, não é Hinata? Meu braço direito!

Ela enrubesceu ao encontrar o olhar incrédulo do homem que lhe estendeu a mão e balbuciou um cumprimento que Hinata respondeu com o mesmo embaraço. Depois ele se virou para Sasuke, confuso, procurando uma explicação que não veio.

— Entre em contato com David hoje à noite — ordenou Sasuke secamente — e diga a ele que quero aquele relatório sobre a Companhia Rexler para amanhã. Ele pode mandar pelo correio ou vir trazer pessoalmente, como quiser, contanto que faça.

Era evidente que estava dispensando o homem e E. J. Denton voltou depressa para o escritório. Depois que ele saiu houve um silêncio prolongado em que Hinata sentia a força da presença marcante de Sasuke, que ainda segurava em seu braço como se ela fosse fugir. Mas ela estava resignada, esperando o castigo que achava que merecia. Sentia a consciência pesada. Ergueu os olhos para ele e encontrou uma expressão enigmática em seu rosto.

Mais uma vez surpreendeu-se admirando aquele rosto bonito e atraente, com traços aristocráticos e bem delineados, que irradiava a força e a arrogância de uma pessoa acostumada a comandar.

— Como é, já descobriu? — disse ele com suavidade, quebrando o silêncio.

— Descobriu o quê?— perguntou ela, de olhos arregalados, .sem entender.

— Pensei que você estivesse tentando achar meu calcanhar de Aquiles, ou seja, meu ponto fraco.

— Mesmo que você o tenha, tenho certeza de que a esta altura já deve tê-lo protegido bem — respondeu com um sarcasmo de que ela própria se espantou.

— Ainda bem que você percebeu — disse ele, apertando o braço dela com mais força, como se quisesse puni-la, e conduziu-a para a porta. — Meu carro está lá fora.

Hinata puxou o braço para se libertar da mão dele, erguendo a cabeça numa atitude de desafio e foi caminhando na frente com arrogância. Queria acabar logo com aquilo, contar tudo de uma vez e ficar livre daquela tortura. Quando chegou à porta da rua, Sasuke adiantou-se para abri-la.

— Vocês já estão de saída, assim com tanta pressa? — a voz de Kurenai veio da sala de estar.

Sasuke enlaçou Hinata pela cintura, provocando uma corrente elétrica que a deixou paralisada. Ela ficou cabisbaixa, sem coragem de encarar Kurenai.

— É, estamos sim, fizemos reservas para mais cedo — respondeu Sasuke.

— Que pena! Estava pensando que daria para tomarmos um aperitivo juntos antes de vocês saírem — Kurenai suspirou, mas logo sua voz voltou ao tom alegre. — Não faz mal, quando vocês voltarem a gente pode se reunir, não é?

— É, sim — respondeu ele com certa secura, depois retirou o braço da cintura de Hinata e os dois saíram.

Um Continental branco estava estacionado perto do Thunderbird dourado de Naruto e Hinata não pôde deixar de pensar por um breve instante que seria muito mais divertida a noite se fosse sair com ele e não com Sasuke. Com um leve suspiro entrou no carro de Sasuke e acomodou-se no luxuoso estofamento de couro branco. Cruzou as mãos no colo, numa atitude tensa, e ficou olhando fixo para a frente. Sasuke sentou-se ao volante mas não ligou o motor e, olhando de soslaio, ela percebeu que ele a fitava com frieza.

— Não gosto do seu cabelo assim. Solte-o — ordenou ele em tom autoritário e arrogante.

— Não! — recusou-se ela, brava, instintivamente protegendo com a mão o penteado.

Mesmo assim, sem que ela pudesse evitar, ele soltou os cabelos dela e agitou-os para que se espalhassem sobre os ombros.

— Você não é do tipo sofisticado para usar um penteado desses! — comentou ele, arqueando as sobrancelhas com uma expressão cínica ao observar a rebeldia estampada no rosto dela.

— Como é que você pode saber? — disse ela, furiosa.

Num gesto rápido ele abaixou o espelho retrovisor na direção dela.

— Vamos, olhe! E responda sinceramente: o que você vê aí, uma mulher sofisticada e cheia de pose ou uma jovem inexperiente?

Ela olhou e não teve como argumentar. Realmente, apesar da maquilagem, aqueles enormes olhos refletiam susto, abandono e carência, como os de uma criança sozinha.