Capítulo IV – Intrigas
Narrado por Melinda
A lua brilhava imensa e soberana no céu limpo e estrelado de Edmonds. O clima ameno da primavera convidava a todos para desfrutar do agradável fim de noite que fechava com chave de ouro aquele jantar que, com certeza, ficaria marcado em minhas melhores lembranças para o resto da minha existência.
Brian e eu tínhamos caminhado de mãos dadas até uma praça perto da casa de nossos avós. Era maravilhoso senti-lo ali, tão pertinho de mim. A suavidade do toque das suas mãos sobre as minhas era o que me impedia de pensar que tudo aquilo era só mais um sonho. O perfume e o calor que só ele era capaz de transmitir me davam a certeza de que ele era real, de que ele estava ao meu lado. O sorriso brilhante e o olhar carinhoso que ele me dava faziam eu me sentir a pessoa mais importante do mundo.
Estávamos agora sentados em um banquinho da praça, admirando o reflexo da lua que conferia à água de um pequeno lago artificial um brilho prateado. Brian me abraçava por trás, seus braços envolviam fortemente a minha cintura e eu sentia seu peito colado às minhas costas enquanto seu queixo pousava suavemente sobre meu ombro esquerdo. Estávamos em silêncio, apenas curtindo a presença um do outro, mas mesmo sem dizer palavra alguma, estávamos conectados um ao outro de uma forma que ninguém jamais poderia compreender. Travávamos um diálogo silencioso através de nossos corpos que não perdiam o contato nem mesmo por um segundo. Havíamos ficado muito tempo longe um do outro e a simples possibilidade de não nos sentirmos o tempo todo nos machucaria. Eu não queria quebrar a atmosfera gostosa que nos cercava, mas havia uma coisa que estava me incomodando e eu precisava perguntar:
_ Bebê, por que você se aborreceu comigo mais cedo? – eu perguntei de repente e Brian me olhou com o semblante confuso. – Foi porque eu disse que preferia ficar tonta pelo resto da minha vida se eu pudesse ter você junto de mim? – completei.
Brian respirou profundamente antes de se soltar de mim. Ele se levantou, deu a volta no banquinho e se ajoelhou na minha frente. Seus olhos brilhavam ainda mais verdes e ele envolveu meu rosto com ambas as mãos e beijou suavemente meus lábios antes de falar:
_ A simples ideia de vê-la doente ou sofrendo de qualquer forma me machuca, docinho! E não, eu não me aborreci com você! Eu só não suporto pensar que algo de ruim possa lhe acontecer sem que eu possa fazer alguma coisa para impedir. – ele disse com uma expressão de dor e eu me arrependi de ter tocado naquele assunto.
Eu sabia perfeitamente do que ele estava falando. Aquela expressão sofrida em seu rosto já me angustiava. Brian ainda me olhava com a mesma expressão angustiada enquanto seus dedos acariciavam gentilmente a pele do meu rosto. O toque delicado sobre a minha pele provocava uma sensação gostosa de maciez, suavidade, paz, carinho e ... amor.
_ Me desculpe, bebê! – eu disse quebrando mais uma vez o silêncio. – Eu só disse aquilo para tentar descontrair o clima pesado que ficou depois que eu senti aquela vertigem. Eu podia sentir que você tinha ficado preocupado por minha causa. – eu completei acariciando seu rosto com a ponta dos dedos.
_ Eu sei disso, docinho, mas, por favor, nunca mais diga uma coisa daquelas. Nem por brincadeira! Promete? – ele pediu de olhos fechados enquanto apreciava o toque dos meus dedos que delineavam suavemente cada traço do seu rosto.
Suspirei profundamente e aproximei meu rosto do dele dando-lhe um beijo breve e suave nos lábios.
_ Prometo. – respondi em seus lábios, sentindo suas mãos me puxarem para mais perto enquanto ele aprofundava o beijo.
Eu jamais encontraria as palavras que fizessem justiça a todas as sensações maravilhosas que um simples beijo daquele homem me provocava. Eu só me perguntava, às vezes, se ele também sentiria tudo aquilo com tanta intensidade. A única coisa que me aborrecia era a necessidade de ar que sempre interrompia nossos beijos no melhor momento. Brian separou levemente nossos lábios, unindo-os novamente em vários selinhos demorados. Seria um pecado deixar de beijá-lo por um detalhe tão insignificante como respirar.
Um carro de sorvete passava pela praça tocando aquela musiqueta que mais parecia ser de circo e Brian sorriu como criança. Eu já sabia o que se passava em sua cabeça: ele simplesmente adorava sorvete e eu tinha certeza de que já deveria estar com água na boca de vontade de ir até lá.
_ Vai lá, bebê! Eu sei que você ama esse sorvete e se eu não deixar que você tome pelo menos um vou ficar me sentindo culpada. – eu disse sorrindo ao ver seus olhos brilhando intensamente.
_ Eu já volto, docinho! Prometo que vou trazer o melhor de todos para você! – ele disse antes de correr na direção do carrinho junto com outras crianças que estavam na praça.
Fiquei ali, sentada, observando como ele estava lindo sorrindo daquela forma. Percebi que ele esperaria até que todas as crianças fizessem seus pedidos antes de comprar o nosso sorvete. Inspirei profundamente, enchendo meus pulmões com o ar fresco da noite e voltei meu olhar para o brilho prateado da lua sobre a água do lago. As pequenas ondas que se formavam quando uma brisa leve soprava a água me distraíram e eu não percebi quando alguém chegou por trás de mim. Só me dei conta de que a pessoa tinha se aproximado quando senti dois braços envolvendo a minha cintura e aquela voz masculina sussurrar em meu ouvido:
_ Oi, gatinha! O que você está fazendo aqui sozinha? – a voz melosa de Mark me assustou.
Levantei-me do banco rapidamente me desvencilhando dos seus braços. Eu o olhava com os olhos arregalados sem conseguir acreditar na sua ousadia em me tocar daquela maneira. Minha vontade era de estapeá-lo, tamanha era a minha raiva, mas eu não tinha como fazê-lo sem chamar a atenção de Brian que ainda não tinha nos visto.
_ Eu não sei o que você tem nessa sua cabeça, Mark, mas eu tenho certeza de que eu jamais lhe dei intimidade para você me tocar assim. Por favor, vá embora e me deixe em paz! – eu pedi ainda ofegante por conta do susto.
Aquele sorrisinho confiante dele me irritava, isso era fato. Ele deu um passo à frente tentando diminuir a distância entre nós, mas parou irritado ao ver que eu tinha recuado o mesmo tanto.
_ Qual é o seu problema, hein? Vai ficar aí feito uma idiota esperando o seu namoradinho enquanto ele se diverte com a mulherada longe de você? – ele lançou o veneno dando um sorriso debochado.
_ Brian não é meu namoradinho, Mark! Ele é... – tentei dizer, mas ele me interrompeu me pegando de surpresa ao praticamente saltar para cima de mim.
_ Ah! Quer dizer então que ele já te deu o fora? Então agora eu tenho certeza de que você vai me dar uma chance, não é, gatinha? – ele tentou me abraçar e eu me afastei novamente, mas ele foi mais rápido e me agarrou pelo punho. – Vai parar de se fazer de difícil comigo agora ou vai aproveitar a chance de conhecer um homem de verdade?
_ Me solta! – eu pedi com a voz sufocada pela dor causada pelo aperto em meu punho. Tentei puxar o braço, mas ele apertou ainda mais os seus dedos tentando me impedir. – Você está me machucando Mark, me solta!
_ Primeiro me responde! Você vai me dar uma chance ou não? – ele insistiu tentando me beijar.
Eu não tinha escolha. Se eu não tomasse uma atitude drástica ele não me deixaria em paz e Brian estaria voltando a qualquer momento. Tudo o que eu menos precisava era que ele ficasse sabendo das investidas de Mark daquela forma. Eu iria contar a verdade para ele, mas não no meio de uma confusão como a que estava prestes a se formar. Eu já não ouvia mais nada, o pânico havia tomado conta de cada célula do meu corpo. A única coisa que eu conseguia sentir era a palma da minha mão esquerda queimando pela bofetada que eu tinha dado no rosto de Mark que agora me olhava furioso.
_ Ficou maluca, garota? Quem você pensa que é para me bater? Hein? – ele rosnava descontrolado passando a mão sobre o rosto vermelho e eu já estava começando a temer que ele fosse me agredir fisicamente.
O ódio estampado no rosto de Mark era assustador. Naquele momento eu já nem me importaria se Brian chegasse e nos visse ali. Tudo o que eu queria era me sentir protegida em seus braços.
_ Você não me deixou alternativa, Mark! Eu tenho tentado fazer você entender que entre nós nunca vai rolar nada, mas você insiste em não me ouvir! Por que essa obsessão por mim? Você não precisa disso! Eu não consigo entender o motivo dessa sua insistência! – eu disse sem conseguir evitar que o medo transparecesse na minha voz.
Mark não me respondeu, apenas permaneceu me encarando com uma expressão indecifrável. Eu não sabia o que esperar dele naquele momento. Somente rezava para que ele não visse Brian e resolvesse provocá-lo. Por que ele não ia embora e me deixava em paz de uma vez por todas? Eu não conseguia entender a fixação que ele tinha por mim. Mark era um rapaz bonito, sua família tinha dinheiro e muitas moças da cidade suspiravam por ele quando ele passava por elas. Então, por que eu?
_ Vá embora, Mark, por favor! – eu implorei desviando o meu olhar do dele. A forma como ele me encarava me causava arrepios e pela primeira vez eu percebi que eu tinha medo dele.
Esse pensamento trouxe lágrimas aos meus olhos. Embora eu me esforçasse para não chorar diante dele, não pude evitar que uma lágrima rolasse pelo meu rosto. Sua expressão, embora tenha mudado ao me ver chorando, ainda era indecifrável. Comecei a me afastar lentamente dele pedindo a Deus que ele não viesse atrás de mim, mas ele pareceu despertar do seu transe e deu mais um passo na minha direção.
_ Mel? – ouvi a voz suave de Brian chamar o meu nome ainda um pouco distante.
Meu coração, antes aos pulos de medo, agora estava congelado em meu peito ao ver a expressão que surgia no rosto de Mark. Eu já podia prever que aquela noite não acabaria bem e minhas mãos já estavam trêmulas e suadas.
_ Agora eu entendi porque você está me dispensando! Quer dizer que o corno do seu namoradinho está na cidade, não é? – ele disse em um tom de voz mais alto do que o normal para que Brian o ouvisse. – Você é mesmo muito engraçada, não é, Melinda? Quando o idiota está longe você não para de me ligar e me chamar para sair e quando ele chega você me coloca para escanteio? Pois fique você sabendo que eu não sou substituto de ninguém, nem sou o seu quebra-galho particular!
Eu o olhava atônita. Brian já estava ao nosso lado e o encarava com um olhar mortal. O pior de tudo é que ele não olhava para mim e eu não sabia se ele tinha ouvido, ou, pior, acreditado nas palavras venenosas de Mark. Brian só ficava parado ao meu lado sem me tocar e eu já estava totalmente desesperada com aquela situação. Como se o veneno destilado já não tivesse sido o suficiente, Mark resolveu dar o golpe final:
_ Você já contou pro seu namoradinho como você gosta quando eu estou esfolando você por dentro, vadia?
Tudo aconteceu muito rápido. Em um instante, Mark estava dizendo as palavras que talvez fossem acabar com o meu noivado que mal tinha começado e, no outro, ele estava no chão sendo socado impiedosamente por Brian.
_ Brian, não! Por favor, amor para! Não faça isso! – eu gritava aos prantos enquanto ele continuava a socar o rosto de Mark.
Brian era pura fúria. Eu nunca o tinha visto daquela forma, tão fora de si. Enquanto eu implorava para que ele parasse, ele castigava incansavelmente o rosto de Mark. Tudo o que eu mais temia estava acontecendo sem que eu pudesse fazer alguma coisa para impedir: Brian estava se metendo em confusão por minha culpa.
Meus gritos atraíram a atenção de algumas pessoas que passavam por ali e três homens se aproximaram para apartar a briga, ou melhor, para impedir que Brian matasse Mark. Embora eles fossem grandes e até bem fortes, os três tiveram que se esforçar para arrancar Brian de cima de Mark.
Mark sangrava abundantemente pelo nariz e pela boca. Assim que os homens puxaram Brian de cima dele, ele se levantou meio tonto tentando estancar o sangue com a própria camisa e antes de partir, me olhou com ódio e em uma ameaça silenciosa apontou o dedo em minha direção como se fosse uma arma e "puxou o gatilho".
Brian enlouqueceu com aquele gesto e começou a se debater para se soltar dos homens que ainda tentavam contê-lo. Um deles, vendo o gesto ameaçador de Mark em minha direção, falou:
_ Vá embora daqui, moleque, antes que eu resolva soltar este rapaz para que ele lhe ensine a não ameaçar moças indefesas!
Mark lançou-lhe um sorriso debochado e virou-se mais uma vez em minha direção, dessa vez me jogando um beijinho no ar. Brian bufava como um touro na arena, pronto para partir para cima dele novamente assim que tivesse a chance de fazê-lo. Eu não tinha coragem de olhá-lo nos olhos. Eu não suportaria ver em seus olhos o desprezo que me daria a certeza de que ele teria acreditado nas palavras ferinas de Mark.
Medo. Vergonha. Angústia. Humilhação. Tantos sentimentos negativos me esmagavam enquanto Brian dirigia de volta para casa sem dizer uma palavra sequer. A única coisa que ele havia dito depois que os homens o soltaram tinha sido um "Vamos, Melinda. Eu vou levá-la para casa" que quase fez meu coração parar de bater. O tom frio e quase indiferente da sua voz e o fato de ele não ter sequer olhado em meu rosto ao dizer aquilo e mesmo depois, quando estávamos sozinhos no carro, me deram a certeza de que ele havia acreditado nas calúnias de Mark. Havíamos caminhado lado a lado até o carro em um silêncio opressor e em momento algum Brian tinha me tocado, me olhado ou mesmo falado comigo. Eu olhava para fora do carro através do vidro da porta ao meu lado enquanto envolvia a mim mesma em meus braços em uma inútil tentativa de me sentir mais forte e conter o tremor do meu corpo e a vontade de chorar.
Brian parou o carro na porta da minha casa, mas não desligou o motor. Eu já sabia que ele não iria entrar. Não havia mais clima para nada, nem para conversar ou até mesmo brigar. Eu não sabia que atitude tomar, o que dizer ou o que pensar. Tudo o que eu mais queria era que aquela briga jamais tivesse acontecido e que eu tivesse tido a chance de contar tudo para ele de uma forma menos turbulenta. Mas o estrago estava feito e, ao que tudo indicava, eu o tinha perdido, talvez para sempre.
O silêncio esmagador dentro do carro havia se tornado insuportável. Brian ainda não olhava para mim, apenas encarava o vidro da frente com o olhar vazio como se estivesse em outra dimensão. Abri a porta do carro e corri para dentro de casa já não conseguindo mais segurar as lágrimas que molhavam meu rosto. A casa estava mergulhada no mais absoluto silêncio. Parecia ter se juntado a Brian em um complô para me castigar.
Subi as escadas até o meu quarto, correndo direto para o chuveiro. Eu me sentia imunda e precisava lavar toda aquela sujeira que Mark havia jogado em cima de mim. Sob a água quente, eu esfregava a minha pele com força tentando arrancar qualquer vestígio de todo aquele lixo enquanto minhas lágrimas se misturavam à espuma que escorria do meu corpo. Os dedos enormes de Mark haviam ficado marcados em meu punho e eu sentia como se ele tivesse me marcado com a sua sujeira. Suas palavras rudes e ofensivas ecoavam em meus ouvidos e eu não sabia até que ponto eu ainda aguentaria ouvi-las sem perder o controle definitivamente.
Saí do Box e encarei a moça refletida no espelho. Sua aparência era ao mesmo tempo assustadora e digna de pena. Ela estava em ruínas e eu não sabia se ela conseguiria se reerguer. Aquela noite, que tinha começado como a promessa da realização de um sonho, havia se transformado em um horrendo pesadelo.
