Capítulo 4

"Céus, eu estou MORRENDO pra ouvir sua voz."

Jared escrevia no bloquinho improvisado que eles tinham arranjado pra se falar enquanto não estavam no quarto. O bloco era menor, mais fácil de transportar e menos notável também. E mesmo que eles não estivessem tecnicamente falando, o intuito do voto de silêncio era se comunicar o menos possível e eles meio que já estavam quebrando essa regra.

Era de manhã e eles estavam sentados no pátio, em um banco perto de um dos muros do monastério. Jared tinha sonhado mais uma vez com um Jensen mudo e isso o estava enlouquecendo. Era como um enigma que ele tinha que resolver e isso simplesmente o estava tirando do sério.

"Calma, só faltam 3 semanas... Mas tenho que confessar que também estou morrendo pra ouvir a sua."

"Eu não aguento mais ficar calado também..."

"Tá tão insuportável assim?"

"Eu não sei, às vezes eu penso em desistir, sabe? Não sei..."

Jensen se sentiu triste ao ler aquelas palavras, de repente imaginou Jared longe do monastério, longe dele... Tinha medo que Jared desistisse dele, de Jensen.

"Você não sabe o que quer?"

"Eu sei o que quero, é esse o problema."

Jensen leu a sentença um milhão de vezes, tentando entender o que Jared queria dizer. O mais novo geralmente não era misterioso com as palavras desse jeito. Mas antes que Jensen pudesse escrever alguma coisa, ele viu padre Jeffrey se aproximar e então ele teve que guardar o bloco no bolso da calça.

Nesse dia, o padre os levou para ajudar na preparação da missa de Domingo, que era um evento relativamente grande no monastério. Jared ficou quieto durante todo o tempo em que eles ajudavam padre Jeffrey a limpar e levar as coisas para o altar e ficou mais quieto ainda durante a missa. Mal olhou pra Jensen, mal sorriu.

Isso estava angustiando o mais velho, que não conseguia entender por que Jared estava assim e tão pouco sabia o que fazer pra ajuda-lo.

Jared almoçou quieto, pensativo e seus olhos não estavam brilhando do jeito que costumavam brilhar. Ele também subiu as escadas olhando somente para os degraus e, quando chegou ao quarto, ele ficou sentado no batente da janela, permanecendo com o olhar perdido nas colinas.

Jensen estava lendo um livro porque tinha decidido que seria melhor deixar Jared pensar e, quando quisesse, ele se abriria com Jensen. Vez ou outra, Jensen olhava para o amigo, o coração afogado em angústia. Ele não sabia o que fazer naquela situação e se sentiu inútil por não conhecer Jared tão bem, por não fazer ideia do que se passava em sua cabeça.

Ele passou um bom tempo tentando resolver o enigma de Jared dentro da sua cabeça, mas não sabia por onde começar. Tudo o que ele conseguia pensar, é que tinha algo a ver com ele e, por um tempo, ele chegou a pensar que o moreno não o queria mais por perto. Que tinha se dado conta do quanto aqueles sentimentos que compartilhavam eram errados. Mas Jared estava normal com Jensen de manhã, será que ele simplesmente tinha resolvido se afastar do mais velho sem mais nem menos?

E depois de tanto pensar e não chegar a resposta alguma, Jensen resolveu fazer alguma coisa.

Com o bloquinho no bolso, Jensen foi até Jared e o tocou no braço, chamando a atenção do moreno pra si. Só o olhar que Jared lançou na sua direção, carregou os olhos de Jensen com lágrimas que quase caíram. Era um olhar tão angustiado quando o coração do loiro, os olhos do moreno meio que brilhavam de um jeito diferente de antes, não era felicidade, era algo muito oposto disso.

Jensen fez um movimento com a cabeça como se dissesse "Vem comigo" e Jared se levantou do batente da janela, seguindo Jensen até a porta do quarto. Logo Jared seguia Jensen pelo corredor do mosteiro para um lugar que ele desconhecia até então. O corredor era como todos os outros, mas Jared tinha certeza de que nunca tinha andado por ali.

Era fim de tarde de domingo, o que queria dizer que todo mundo ou estava dormindo, ou estava fora do monastério, o que quer dizer que Jared e Jensen não viram ninguém enquanto andavam pelos corredores até uma escada, que eles subiram, indo parar em uma das torres do mosteiro.

O lugar era praticamente uma varanda, redonda, que tinha uma vista para as colinas que ficavam na lateral do mosteiro. Uma paisagem que Jared nunca tinha visto antes e que o fez sorrir.

Finalmente um sorriso, pensou Jensen. Então ele se sentou no chão, encostado na parede e, de onde ele estava, só dava para ver o céu azul, com suas nuances já fracamente alaranjadas. Jared demorou mais um pouco olhando a paisagem, mas logo se juntou a Jensen, sentando ao seu lado pra observar o céu.

Jensen tirou o bloquinho do bolso junto com a caneta e colocou no chão, entre as pernas dos dois. Jared encarou o bloquinho e a caneta no chão, seus olhos tristes novamente, mas logo ele catava os dois objetos do chão, abrindo em uma folha em branco pra escrever:

"Como você conhece esse lugar?"

"Eu fui dar uma volta pelo monastério no dia que cheguei e acabei vindo parar aqui sem querer."

Jared leu e o sorriu fraco, voltando a colocar o bloco e a caneta no chão, e então se recostando contra a parede, fechou os olhos.

Jensen virou o rosto pro lado, observando Jared daquele jeito, os olhos fechados, meio apertados, a franja caída na testa, meio desarrumada. Jared era tão lindo daquele jeito, mas Jensen preferia mil vezes quando seu colega de quarto sorria, mostrando as covinhas e os dentes perfeitos. Amava ver os olhos pequenos de Jared brilharem e quase sumirem em meio a um sorriso.

O coração de Jensen apertou. Ele pegou o bloco e a caneta e voltou a escrever.

"Eu não consigo adivinhar o que se passa dentro da sua cabeça, Jay. Você 'tá me deixando desesperado!"

Jensen deixou o pequeno caderno improvisado em cima das pernas de Jared e assim que o moreno percebeu, abriu os olhos, pegando o bloco. Ele não pôde deixar de esboçar um sorriso triste ao ler as palavras de Jensen.

Jared pegou a caneta e escreveu o que, na mente de Jensen, pareceu demorar uma eternidade.

"É que tudo parece tão errado, entende? Eu não sei explicar. Eu só sei que não aguento não ouvir minha própria voz, não aguento não ouvir sua voz, não sei se consigo segurar todas essas vontades que estão presas dentro de mim, Jensen. Eu não sou acostumado a pensar tanto e pensar tanto assim está me fazendo ter incertezas, eu tenho medo de estar mudando, de estar fazendo tudo errado."

Jensen teve vontade de chorar ao ler aquilo. Ele podia entender aqueles sentimentos, mas não fazia ideia do quanto estava sendo difícil pra Jared - que era tão extrovertido - ficar calado, quieto, mantendo tudo pra si.

"Você está arrependido de estar aqui?"

"Não! De jeito nenhum. Eu só... Não aguento mais ficar preso dentro de mim mesmo."

As lágrimas tinham começado a cair dos olhos de Jared mesmo antes de ele terminar de escrever. Jensen só se deu tempo de ler o que Jared tinha escrito antes de largar o caderno e puxar Jared para um abraço. Os dois se apertaram forte nos braços um do outro e Jared afundou o rosto no ombro de Jensen, deixando suas lágrimas caírem ali e molharem o tecido da camisa do mais velho enquanto o mesmo adentrava os dedos entre os fios de cabelo de Jared, fazendo uma espécie de cafuné no amigo.

Não souberam por quanto tempo ficaram assim, com os corpos próximos e os olhos fechados, ouvindo as respirações um do outro. Jensen sentindo o peito de Jared subir e descer por conta da sua respiração irregular; Jared sentindo as mãos de Jensen segurarem o seu corpo.

Jared não tinha medo de chorar na frente do amigo e Jensen estava feliz por Jared confiar nele dessa forma. Naquele silêncio, Jensen conseguia sentir o coração de Jared batendo contra seu próprio peito e sabia que seu próprio coração batia naquela velocidade, no mesmo ritmo. Sua pele queimava de um jeito estranho e, sem perceber, ele passou suas pernas ao redor do quadril de Jared, puxando o mais novo pra mais perto de si.

Logo Jensen estava sentado no colo de Jared, abraçando seu corpo com pernas e braços. Sentiu os lábios finos do moreno beijarem a pele quente do seu pescoço e gemeu baixo. Mas Jared estava muito perto, perto o bastante pra ouvir, e o som que Jensen emitiu fez o mais novo cravar os dedos na cintura de Jensen, sobre o tecido, puxando o quadril dele na direção do seu e pressionando seu volume contra o dele. Jensen gemeu mais uma vez. Jared repetiu o movimento, ansiando ouvir mais e mais daquele som rouco que saía dos lábios do seu colega de quarto. Queriam olhar pro rosto um do outro, mas sabiam que, se o fizessem, não seriam capazes de resistir à tentação de colarem suas bocas juntas. Jared gemeu só de imaginar os lábios de Jensen encostarem nos seus.

De repente a realidade atingiu os dois como uma pancada na cabeça e eles se lembraram de onde estavam, se afastando um do outro rápido até demais. Em um segundo, Jensen estava com as costas contra a parede novamente, sentado ao lado de Jared. Eles se olharam, ofegantes. As bochechas de Jensen estavam rosadas, os olhos de Jared estavam escuros. Suas mãos tremiam e seus corpos pulsavam violentamente.

-J2-

O desejo que estavam sentindo um pelo outro não parecia normal. De repente, dividir o mesmo quarto parecia ser um grande problema. Não poder falar se tornara um problema maior ainda porque eles praticamente não tinham nada pra se distrair. Ou seja, tinham que dividir o mesmo espaço praticamente vinte e quatro horas por dia, sem poder falar, apenas olhando um para o outro, morrendo de vontade de se tocarem, se beijarem...

Passavam metade do dia pensando um sobre o outro e, na outra metade, eles tentavam evitar esses pensamentos.

Mas a noite era a parte mais difícil. Por dias, eles deixaram de se comunicar pelo caderno e ficaram somente olhando na direção um do outro no escuro, sem saber que o outro estava olhando também, porque estava escuro demais pra saber se os olhos estavam abertos. Eles demoravam a dormir, sempre pensando em ir pra cama do outro e dormirem juntos, pensando que se talvez eles praticassem os pecados de madrugada, a escuridão faria com que se sentissem menos culpados.

Mas o que tem de errado sobre dormir? Jared pensou. Logo depois ele dizia pra si mesmo que seria impossível só dormir, que ele acabaria querendo tocar Jensen em todas as partes proibidas do seu corpo. Era estranho porque Jared nunca tinha pensado que isso era algo errado, que homossexualidade era errado, que sexo era errado. Mas eles estavam, além do voto de silêncio, fazendo voto de castidade. Ou seja, o mínimo beijo estava fora de questão.

E Jensen, bem, Jensen até chorou em algumas noites antes de dormir. Começava a entender como Jared havia se sentido. Ele estava feliz de estar ali, de ter conhecido Jared, mas ele sabia que queria e desejava o moreno mais do que queria ser padre. E ter conhecido Jared naquele lugar, naquele momento, era castigo demais.

E desistir estava fora de questão porque a verdade era que os dois não tinham ideia do que iam fazer quando saíssem dali. Iam acabar decepcionando todas as pessoas que tinham encorajado eles a seguirem aquela vida.

"Eu juro que faria qualquer coisa pra ter te conhecido antes..."

Jared até escreveu no caderno de Jensen uma vez enquanto o mais velho tomava banho. Jensen só leu mais tarde, quando Jared já tinha entrado no banheiro pra tomar banho também e, quando o mais novo saiu do banheiro, Jensen já tinha descido para o desjejum. Jared viu o caderno na sua cama e sorriu ao ler:

"Fui inventar uma máquina do tempo e já volto..."

-J2-

Jared acordou ao sentir um peso em sua cama. Ele viu a silhueta de Jensen se formar em meio à sombra da madrugada. Ele acendeu o abajur, vendo o rosto de Jensen mais branco que o normal, algumas gotas de suor se formavam em sua testa. O moreno se afastou, dando espaço pra que Jensen se deitasse ao seu lado. Assim que Jensen se deitou, de frente pra Jared, o mais novo franziu os olhos, mentalmente perguntando "o que houve?". Jensen engoliu em seco e pegou um dos braços de Jared, desenhando letras na pele do moreno com a ponta dos dedos.

Jared leu as letras imaginárias se formarem em seu braço e leu: Pesadelo.

O mais novo suspirou e voltou a desligar a luz do abajur, puxando o corpo de Jensen pra mais perto e apoiando o rosto dele em seu peito.

Jared sentiu a respiração pesada do mais velho atravessar o tecido da sua camisa e bater direto na sua pele, mandando arrepios por todo o seu corpo. Ele puxou o edredom pra cima dos dois e sentiu os pés gelados de Jensen roçarem nos seus em uma espécie de carinho que eles trocaram por um tempo. Jared sorriu, desejando que pudesse travar aquela "batalha de pés" com Jensen por todas as noites da sua vida, porque parecia uma coisa tão íntima e tão gostosa que ele queria ter aquilo só pra si, pra todo o sempre.

Se Jared pudesse falar nesse momento, ele diria: "Eu te amo".

E se Jensen pudesse, ele responderia: "Eu também".

Mas mesmo que pudessem falar, não é o que eles diriam. Porque suas almas gritavam um pro outro "Eu te amo" um milhão de vezes, mas a parte racional lembrava que era muito cedo pra dizer isso.

De repente, Jared sentiu os lábios de Jensen beijarem o tecido da sua camisa de leve. Jensen subiu os beijos pelo pescoço de Jared, beijando seu pomo-de-adão, seu maxilar, seu queixo...

Jared sentiu o coração falhar uma batida ao que Jensen se aproximou da sua boca. Sentiu a respiração do menor ali, quente e muito, muito perto. O maior entreabriu os lábios, deixando sua respiração se encontrar com a de Jensen, que passou um bom momento deixando que suas bocas ficassem próximas, mas não beijou Jared. Ao invés disso, ele selou seus lábios no nariz do mais novo, e no espaço entre os olhos e então dando um ultimo beijo na testa de Jared antes de voltar a recostar a cabeça contra o peito dele.

Jared apertou os braços ao redor de Jensen, abraçando-o por um longo momento antes de afrouxar o abraço e procurar a mão de Jensen com a sua, entrelaçando os dedos com os dele e assim que o contato foi estabelecido, ele sorriu, com os olhos fechados. Ele nunca mais ia querer ficar longe de Jensen.

Eles demoraram pra acalmar seus corpos, mas enfim dormiram.

Continua...

N/A: Eu já disse que os reviews me deixam felizes? HAHA Mas é, gente, não canso de agradecer os reviews de vocês porque são eles que me empolgam, que me fazem sorrir e que me fazem tirar um pedaço do meu tempo pra escrever essa fic que eu simplesmente estou amando escrever. Então... Esse capítulo foi bem intenso, né? HAHA Espero que tenham gostado dessa maior aproximação dos J's e continuem acompanhando. Abraço apertado pra todo mundo.