A Mansão Mal-Assombrada estendia-se imponente na frente de todos. Torres altas, amedrontadoras haviam sido erguidas pelos lados, sua extensão era imensurável naquela escuridão, parecendo cobrir todos os pedaços de terra, ela chegava a lembrar um castelo. Sua cor criava uma aparência cinzenta e uniforme, pilastras davam um toque greco-romano à estrutura, a entrada era enorme, compreendia duas portas, rasgadas nos seus muros, uma gárgula mórbida fora entalhada por cima, sua boca mordia uma argola. Hannibal a agarrou e deus sucessivas pancadas, a porta estremeceu. Nada aconteceu. Ele deu mais algumas pancadas e nada. Tentaram gritar por alguém, percorreram os arredores, e nada.

Harry foi mais além do que o resto do pessoal e encontrou uma trilha que subia por uma colina nada convidativa. A neve caía sem perdão e o garoto tremia de frio. Ele já ia dar meia volta quando avistou um homem no alto. Um homem careca, com a face se assemelhando com a de uma serpente. Ele não tinha nariz. Não haveria de ser ele, não podia ser. Harry seguiu o misterioso homem trilha adentro até se deparar com a entrada de um labirinto. Uma pequena placa havia sido fincada do lado de fora com os dizeres: Não entre. Harry entrou. Avistou o misterioso indivíduo dobrando na primeira bifurcação à esquerda e fez o mesmo. De repente sentiu uma brisa forte, fria e seca soprar em sua face, um arrepio subiu, desceu, subiu de novo, fez curvas, dançou em sua espinha. Naquele momento Harry percebeu o que havia feito: viu-se sozinho em um lugar macabro, à noite, seguindo um possível espírito maligno por um labirinto de folhas. Teve vontade de gritar, mas se segurou. Voltou correndo para a Mansão.

O coelho fincara o seu desentupidor de pia em uma janela e a estava succionando inutilmente. Jack discutia com Hannibal sobre voltar e ficar no trem, John era contra, Alfred explicava a Betsy como todos iriam morrer ao entrar naquele edifício, ela estava tendo um orgasmo, e Marvin batia a sua cabeça contra uma pilastra com a esperança de que isso fizesse com que o mundo implodisse, aliviando o seu sofrimento. Harry parou para respirar, sentindo-se seguro, e escutou um poderoso rangido, as portas começando a se abrir.

Todos viram uma enorme escadaria central forrada com um antigo e sujo tapete vermelho aparecer diante deles. Estátuas negras medievais, quadros aterrorizantes, candelabros antigos, totalmente tomados por aranhas e outras criaturas mais inóspitas, móveis extremamente sinistros os encaravam desafiadoramente. Tudo naquela Mansão parecia estar vivo e nada amigável, a não ser um estranho relógio, o qual detinha no centro um empalhado macaco de cara feliz, segurando com firmeza um pandeiro.

Um mordomo estava parado no centro do salão. Ele avisou com uma voz potente e metódica:

– Eu sou o Mordomo. Bem vindos a Mansão Mal-Assombrada!

E trovões soaram nos três vírgula quatorze cantos do planeta.

O Mordomo se dirigiu a cada um com uma simpatia singular e requisitou que fizessem uma roda e que segurassem a mão da pessoa à direita. Ele escolheu Harry aleatoriamente e pediu que ele dissesse seu nome, sua idade, e porque estava ali. As apresentações se seguiram em sentido horário. Hannibal sentiu vontade de vomitar, mas preferiu aproveitar a inusitada oportunidade para conhecer o resto do grupo. O coelho gritou.

– Desculpem-me pela demora para abrir a porta. Eu não me lembrava o que havia pego minhas chaves. Eu irei acompanhá-los até seus devidos aposentos, começando pelo senhor Torrance.

– Eu poderia pedir um quarto bem iluminado? Para eu poder escrever o meu livro, você sabe.

– É claro. O quarto que o senhor reservou já foi devidamente arrumado e limpo.

Jack parou e levantou a sobrancelha assustadoramente.

– Do que você está falando?

– Da sua ligação de ontem. Você avisou que dez pessoas iriam passar uma noite aqui e quis reservar um quarto.

– Não, eu não fiz isso.

– Sim, você fez.

– Não, eu não fiz!

– Se você prefere assim, senhor.

– Se eu prefiro? Você está brincando comigo?

Harry e Marvin conversavam sobre a estranha voz do trem distraidamente e não se importavam nem um pouco com a discussão, Alfred anotava mentalmente todos os objetos letais da sala, Smith a via como dados voando a esmo, dados corrompidos; John tossia afastado do grupo, seu tumor o matava cruelmente; o Fantasma absorvia a aura do lugar e começava a compor, mentalmente, uma triste melodia; Hannibal estava atento na conversa; o coelho sentia-se atraído por aquele macaco empalhado, tão feliz, tão assustadoramente feliz, e foi se aproximando, o macaco o seduzindo com seu olhar de cera vazio e sem vida, até que sentiu algo dentro dele. Algo bom. Algo que girava. O coelho olhou para trás e viu que era o dedo da Betsy.

– Uaaaaaaaaaaargh!

Quando tudo não ficou esclarecido o Mordomo conduziu Jack Torrance ao seu devido quarto pré-requisitado, de número mil quatrocentos e oito, e depois voltou, levando-os um de cada vez. Harry notou que Alfred andava de um lado para outro, apreensivo e foi até ele. Mais por curiosidade, do que por solidariedade, pois achava aquele sujeito bem intrigante.

– O senhor está nervoso com alguma coisa?

– Sempre estamos, caro amigo. Você vê aquele quadro lá em cima, com aquela velhinha indefesa segurando um facão coberto de sangue, bem em cima do corpo inerte de seu marido?

Harry balançou a cabeça afirmativamente.

– Ela estava olhando diretamente para mim há alguns segundos atrás. Foi a forma de ela me dizer que eu sou o próximo, ao olhar no fundo da minha alma.

– Alguns quadros costumam fazer isso. Mas esse não parece ser mágico. Estranho.

– Mágico? Não, isso não é magia. Não a que você conhece.

John demorou alguns minutos para limpar uma poltrona, arrancou várias teias, moedas, uma fuinha e um anão de jardim perdido de lá, mas logo que sentou Betsy subiu em seu colo.

– O que é isso?

– Fica quietinho, vovô. Eu só quero que você saiba que eu também dou valor à terceira idade.

Ela colocou seus lábios em seu ouvido e suspirou:

– Cachorrão.

Marvin começou a computar o número de corredores, quartos, calabouços, armadilhas, e passagens nefastas que aquela mansão poderia ter, ficando extremamente deprimido com o resultado.

Harry foi o último a ser levado, seu quarto era o de número dois mil trezentos e dezenove, o Mordomo desejou uma boa noite e aconselhou que ele dormisse com lençol até o pescoço, só por precaução. O garoto não entendeu o conselho, mas agradeceu e se despediu.

A primeira impressão de Torrance ao entrar no quarto foi de decepção. Ele esperava algo de aparência sinistra, um quarto que o fizesse ficar acordado a noite inteira com medo, sem pregar o olho, sempre atento aos arredores. Mas aquele era um quarto comum, sem graça, um tanto entediante. Havia apenas um armário, uma caminha arrumada e uma estante de frente a ela com um pequeno espelho por cima, além de um deslocado vaso de margaridas. Jack deixou sua mochila ao pé da cama e percebeu que não havia banheiro. Saiu do quarto, antes dando mais uma olhada para o armário, e ficou parado no corredor. Milhares de salões, corredores, e portas para todos os lados, ele via sombras passando de vez em quando, sussurros ao longe, até a luminosidade era suspeita. Sabia como voltar, o Mordomo o fez repetir o caminho duas vezes em voz alta, porém se não o encontrasse no saguão de entrada, não saberia o que fazer. Estava apertado, contudo não se atreveu e voltou para o quarto, trancando a porta. Seu olhar bateu novamente no armário, ele achou estranho, mas não deu muita atenção ao fato. Olhou para os lados, pegou o vaso de margaridas e, achando que elas não se iriam se importar muito, se aliviou. Depois, colocou-as de volta no lugar e foi arrumar seu cabelo no espelho. Ele sorria. A sua imagem não.

Hannibal depositou sua mala em baixo da cama, abriu o seu armário e, encontrando-o vazio, suspirou e foi se deitar. De repente bateram na porta.

– Quem é? – perguntou, surpreso. Não houve resposta.

Ele inadvertidamente girou a maçaneta e abriu a porta. Lecter sabia o que era preciso para viver independentemente, temer nenhum mal.

Na porta, uma figura bisonha, desfigurada e desastrosamente feia, não do jeito que o Michael Jackson conseguia ser, era mais pro gênero de uma avestruz com um cú no lugar da cara, que costumava uivar quando botava ovo.

– Eu me chamo Aberração. – a criatura grunhiu.

O canibal ficou de boca aberta por um tempo e por fim disse:

– Entre, o quarto é todo seu.

O monstro entrou e se sentou na beirada da cama. A Mansão não recebia hospedes há mais de uma década e a súbita mudança o havia deixado muito satisfeito. Mais crânios para amassar, se a sua maldição permitisse, e aquele velho parecia ser exatamente do que precisava: um alvo completamente inofensivo que seria incapaz de oferecer resistência alguma. Entretanto, primeiramente esperava que seu anfitrião lhe oferecesse um chá com pouco açúcar. Ele adorava chá com pouco açúcar antes de dilacerar pessoas.

– Quem é você? – Aberração grunhiu novamente. Estava se esforçando o máximo para parecer simpático.

Hannibal abriu a mala em cima da cama e começou a procurar por algum compartimento.

– Tudo ao seu tempo, Aberração.

O zíper se encontrava ao lado de sua calça. O canibal o puxou e apanhou uma colher lá de dentro.

– Eu me chamo Hannibal Lecter.

A colher não era para o açúcar.

No andar debaixo, o coelho se deitou com seu desentupidor enfiado na cara e teve sonhos comoventes envolvendo cenouras e berinjelas. Betsy foi dormir nua, completamente nua, depois de se utilizar do vaso de margaridas para fins obscuros, completamente contente com o fato de haver um homem vestido com uma roupa sadomasoquista negra de látex em pé do lado da cama. Marvin encarou sua cama por alguns instantes e se desligou ali mesmo, em pé, onde estava. John tomou seu remédio e teve dificuldades em dobrar a coluna para se deitar. O Fantasma da Ópera cantava mesmo em seus sonhos, onde era um romântico anjo da música. Alfred olhava pela janela para a imensidão branca que havia por todo o lugar, não haveria lugar para onde correr dessa vez, ele estremeceu e esbarrou no vaso de margaridas, derrubando-o no chão. O Mordomo ligou seu rádio e adormeceu. Harry se cobriu até o pescoço, aderindo o conselho, e o agente Smith não dormia, não ainda.