Capítulo 4- A melancolia de Monsieur
Fazia uma noite fria, porém lindamente estrelada. Era janeiro de 1677 e terminara há pouco a apresentação de Phèdre, de Jean Racine, no Hôtel de Bourgogne. A plateia havia reagido favoravelmente à apresentação, o que se devia principalmente a uma atuação soberba de Mademoiselle de Champmeslé. À frente de um ótimo elenco e evoluindo com destreza pelo belo texto, ela havia brilhado e conseguido dar uma dignidade inesperada à pérfida madrasta grega. Com efeito, havia sido uma boa distração. Durante mais de três horas ele se esquecera de tudo, olhos grudados no palco, ouvidos levados pela música dos versos.
Agora, Philippe, o Chevalier de Lorraine e o Marquês de Effiat saíam juntos do teatro com destino ao Palais Royal. Philippe notou que o espetáculo agradara muito a Effiat- grande admirador do talento de Racine. Ficara a tal ponto satisfeito que fizera descer uma chuva de lírios sobre a Champmeslé. Ele falava animadamente com o Chevalier sobre os vários aspectos interessantes da peça.
Enquanto aguardavam a carruagem, Philippe escutava as vozes do Chevalier e do Marquês em segundo plano e repetia para si mesmo os versos do primeiro ato, que o impressionaram fortemente. Ele os ouvira pela primeira vez e eles se fixaram em sua memória como uma espécie de queimadura na alma. Aqueles versos eram como uma espécie de raio. Clarificavam, resumiam o que lhe ia por dentro.
"Tudo me aflige e incomoda; tudo conspira pra minha aflição."
A lembrança era uma ardência prazerosa, porém insuportável. Aqueles simples versos ditos pela voz soturna da Champmeslé lhe trouxeram todo o sofrimento do ano anterior de volta. Nunca sofrera tanto em tão curto tempo. Nunca sentira tanto medo. Nem em criança, quando ele, Louis e a mãe se viram acuados pelos conspiradores. Provavelmente porque era criança e não tinha a real dimensão da gravidade dos acontecimentos. O olhar de puro terror que vira em sua mãe, ele descobrira espelhado nos olhos dela. E ele nada pudera fazer. Era tão impotente para alterar o destino como a criança indefesa que havia sido outrora. Nunca achara que pudesse se importar daquele jeito. Talvez estivesse ficando velho. O rosto do anjo não lhe saía da lembrança. Tinha vontade de perguntar se ela ainda sentia. A esposa. Não, ela não era mais sua esposa. Continuavam a ser Monsieur e Madame, mas cada um com sua vida, como ele sonhara desde o início. Às vezes dá medo desejar certas coisas, quando elas se cumprem nem sempre são como esperávamos.
As palavras da Champmeslé martelavam em sua cabeça. Só agora se dava conta do grande incômodo que havia sentido naqueles dez meses. Não havia riqueza, beleza masculina ou feminina, orgia ou prece, que pudesse aplacar aquela aflição que o tomava. Ele fingia que ela não estava ali, mas estava e sabe-se lá até quando.
"Tudo me aflige e incomoda; tudo conspira pra minha aflição."
Chegou a carruagem. O primeiro a entrar foi Effiat. Não se dera conta do abismo em que se encontrava o Duque. O Chevalier ficou parado, sentindo um aperto no peito, esperando que Phillippe saísse daquele devaneio em que submergira. Aqueles alheamentos estavam se tornando constantes desde que aquela fatalidade acontecera. Era assim que o Chevalier se referia ao ocorrido. Não deixava que os outros percebessem, mas no íntimo aquilo lhe fazia um grande mal.
-Mignonette?
Philippe franziu o cenho, como se não entendesse do que se tratava. Finalmente veio à tona. Recompôs a fisionomia e entrou, seguido do Chevalier. O veículo fez a volta e rumou para o Palais Royal.
Antoine Coëffier de Ruzé , o Marquês de Effiat era um homem culto, de boa aparência e que soubera manter o interesse do Duque de Orléans, sem se chocar com a posição de amante oficial, desfrutada pelo Chevalier de Lorraine. Já se conheciam há muito, mas nos últimos tempos Effiat ascendera a uma posição de relevância na Casa de Orléans. Era o primeiro escudeiro do Duque e conseguira a posição de governanta das filhas do primeiro casamento de Monsieur para a esposa. Ambos os cargos resultavam em vantagens financeiras, mas na prática não representavam muita coisa. O Chevalier era um obstáculo real às ambições arrivistas de Antoine, assim como a Princesa Palatina um impedimento mais sólido que um muro à qualquer pretensão de influência da Marquesa sobre as princesas.
Effiat tinha boa estatura, cabelos castanhos cacheados e expressão gentil. O corpo era bem proporcionado e musculoso. Vestia-se com apuro, despendendo grandes somas para andar no rigor da moda. Seu aspecto civilizado era em tudo oposto ao seu real temperamento. Irônico, dissimulado, adoravelmente lisonjeiro e um dos maiores libertinos que aquela época produziu.
Tal como Philippe, era casado por conveniência. Como Philippe tinha um acordo de compreensão mútua e tácita com a esposa que o destino lhe impusera. A diferença é que a Marquesa , Marie-Anne Olivier de Leuville por nascimento, possuía um caráter tão peculiar que parecia encorajar os piores defeitos do marido, que por si só não eram poucos nem suaves.
Era tolerado pelo Chevalier de Lorraine, pois Effiat aparentava um grande respeito pelo território do favorito de Philippe. Mas a certeza interior de que Philippe e Effiat eram íntimos, que frequentavam orgias juntos e bem como o fato notório de que Effiat ultimamente passara a agenciar encontros de Philippe com homens cada vez mais jovens e de origens duvidosas, tudo deixava o Chevalier em permanente estado de apreensão. A verdade é que o Chevalier frequentemente sentia a tentação de se abrir com alguém e não via ninguém melhor que Madame, mas a natureza do assunto o inibia, sem falar que nos dois últimos meses eles pouco se viram.
-Que silêncio sepulcral!-exclamou Effiat.
O Chevalier deu um sorriso forçado. Aquele espírito leviano nem ao menos percebia a atmosfera pesada que se instaurara. Philippe, do seu lado espiava melancolicamente as ruas desertas de Paris. Parecia nem ter notado o que se passava ao seu redor. Ultimamente fazia mais e mais coisas antes por hábito do que por consciência.
-Teremos uma ceia sublime. Champagne, foie gras, perdizes recheadas, enfim, uma delícia... Tudo complementado com flores e frutas frescas. Acertei eu mesmo o cardápio com o chefe da sua cozinha, Philippe. Você tem sorte de ter um serviçal tão talentoso. O Chevalier sentiu a falta de Madame naquele momento. Se ela estivesse ali, seu jeito direto faria com que Effiat percebesse que neste mundo sempre se serve a alguém.
Philippe assentiu, sem prestar atenção ao o que o outro dizia. O Chevalier procurou sua mão na escuridão da carruagem, apertou-a com força. Estava gelada. Ele a manteve entre as suas.
Finalmente chegaram ao destino. Effiat foi o primeiro a saltar, e foi logo se adiantando. Estava excitado, pois convidara meia dúzia de belíssimos exemplares do sexo masculino, bem como uma pequena orquestra para animar a pequena ceia libertina que organizara. A noite prometia.
Philippe saltou, esperou que o Chevalier descesse. Quando se dispunham a atravessar o pátio, um cavalheiro embuçado numa capa escura, atravessou-se em seu caminho e fez uma reverência respeitosa. Philippe logo percebeu de quem se tratava.
-Alteza... preciso falar com o senhor... assunto urgente.
Os dois surpresos, reconheceram Fabien Marchal, o chefe de segurança de Louis.
