Leon pegou uma garrafinha de cerveja, abriu-a com o abridor que Sara lhe disse para pegar na gaveta do armário próximo dele, o homem ofereceu a ela, mas está recusou. O louro-acastanhado deu dois goles em sua cerveja e observou Sara que havia deixado três guardanapos perto dela, segurar com as duas mãos a pizza e devorar como um leão a refeição, isso lembrou ele de quando eram menores, onde ela mesmo que menor que ele conseguia comer o dobro do que ele conseguia.

— Então, como anda a vida?

"Bem chatinha, mas não é ruim, minhas coisas estão florescendo! Minha confeitaria anda muito bem."

— Uau, isso é uma boa notícia, não?

"Uhum, eu tenho umas receitas novas e coloquei algumas do papai, é um trabalho que foi muito puxado, demorei muito para fazer acontecer. Ei! Já que vai passar um tempo aqui, eu vou fazer umas coisas bem legais para nós."

— Eu vou gostar disso.

"E você? Como vai a sua?"

— A mesma coisa de sempre, indo para cima e para baixo, lidando com tudo o que me é mandado, não posso dizer que ando feliz, mas até que existe uma satisfação.

"Eu vi no noticiário, era o seu esquadrão?"

— Sim... — Leon suspirou. — Eles eram. Nem sempre as coisas saem como o planejado, e baixas... Se tornaram algo muito comum nesse trabalho.

Sara escolheu um pedaço da pizza apimentada, então observou Leon bebendo um pouco mais de sua cerveja. A cacheada notou que a expressão dele mudou um pouco, Leon ficou pensativo, as sobrancelhas se torceram um pouco e seus lábios se curvaram como se estivesse vivendo alguma coisa naquele momento e de fato, Leon estava vivendo.

Ele se lembrou quando recebeu um chamado da D.O.S, a Divisão de Operações de Segurança há um mês, indicando mais uma missão contra bioterroristas. O alarme que havia soado era para Leon um dos mais perigosos, o agente assim que viu que iria enfrentar mais uma vez o G-vírus ficou calado, olhando fixo para a tela de computador enquanto os dados surgiam a sua frente.

G foi o terror do passado de Leon, a noite mais infernal de sua vida no seu primeiro dia de trabalho na antiga e nunca esquecida Raccon City. Mesmo após anos do seu fracasso em seu novo emprego naquele tempo, Leon ainda podia ouvir, bem baixo o som do cano que William Birkin arrastava pelos esgotos de Raccon.

Quando ele foi enviado para a cidade de Tucson no Arizona, o Kennedy estava preparado para o que viesse, só que nenhum treinamento o dexaria pronto para o que estava prestes a acontecer, todo o seu esquadrão dizimado, arrebentados por uma espécie de G que Leon nunca viu, um consciente, inteligente o suficiente para elaborar um contra ataque que acabou quase ceifando sua vida, uma verdadeira arma viva.

O responsável pela liberação dele não foi achado, mas a criatura abatida por reforços estava sendo estudada para maior compreensão de sua existência, e Leon estava ali se recuperando de sua surpresa.

Duas batidinhas o chamaram de volta da imagem que ficou em sua cabeça, um amigo próximo, um colega de trabalho, esquartejado ao seu lado, feito de brinquedo pelo G, que além de assombroso parecia competir com William em sua memória.

Leon voltou a realidade e olhou Sara que sorriu para ele.

"Tá tudo bem se não quiser falar."

— Obrigado.

Conversar ajudava, foi o que ele sempre ouvia de outros agentes que acabam por aceitar tratamento psicológico pela pressão que eram postos, as coisas que viam, e principalmente ajudar aqueles que guardavam demais e descontavam onde não deviam. Leon já participou de vários grupos, onde ele contava suas experiências e o que fazia para superar elas, o agente já chegou a tomar antidepressivos, até mesmo remédios para dormir já lhe foram receitados, essa vida contra o bioterrorismo estava cada vez mais o desanimando, roubando a vida dele lentamente, assoprando sua essência vital em um canudinho fino, fétido e sem pudor algum.

Os dois continuaram a comer e a jogar conversa fora. Sara mudou o tópico rapidamente, falando de jogos de futebol americano que ela costumava a assistir com ele, e que a mesma descobriu que Leon ainda apostava em alguns times de vez em quando, principalmente no Dallas Cowboys, depois os dois foram para os tópicos mais importantes deles, os filmes!

Cinema era um assunto que Sara gostava bastante de conversar, ela era viciada em quase todos os tipos de filmes! Não recusava nem um Trash Movie, e isso era mais uma coisa que os dois faziam muito quando eram jovens, e o tempo ali fez com que ambos voltassem ao passado, ficassem sentados na varanda da casa dela e começassem a discutir sobre as sessões de filmes B que passavam pela televisão.

Mas como tudo de bom acabava cedo, especialmente na vida de Leon, batidas foram ouvidas na porta, e o tempo que havia voado na conversa extrovertida dos dois, decidiu dar ás caras quando Sara se levantou e viu pelo relógio pendurado a parede no arco que separava a cozinha e a sala, que era mais de dez horas.

A cacheada nem havia visto o horário que Leon colocou os pés em sua casa, esqueceu-se de ver também quando pediram a pizza, a Campbell sempre procurava manter todo um horário marcado, pois às vezes acontecia algumas coisas desagradáveis, como o que ela já imaginava agora que iria acontecer.

Sara tinha um vizinho muito importuno que costumava a incomodar sempre, esse homem nunca estava são, sempre que o via, o mesmo estava bêbado ou falando coisas desconexas, e já tentou uma vez passar a mão nas suas pernas, ato que foi impedido pelo seu vizinho de porta, o Jack que quase lhe arrancou os dentes na semana passada.

A Campbell olhou pelo olho mágico e se deparou com Hommer, encarando-a de volta até que ouviu uma voz vinda do outro lado, de imediato ela reconheceu o tom forte do ruivo de poucas palavras, mas que tinha uma pequena disposição para ouvir ela sempre que a mesma estava passando perto dele, mesmo que a comunicação fosse um pouco defasada, o Dodson sempre esperava ela digitar algo a mais ou escrever em um caderninho o que tinha de dizer.

— Tá de brincadeira comigo.

Sara ficou quieta, viu aquele olhar claro em direção dela, algo que arrepiou o seu corpo todo e a fez dar um passo para trás.

Leon ficou olhando-a em silencio, o homem se levantou de sua cadeira, limpando as mãos no guardanapo que foram dados a ele enquanto arrumava a mesa antes da refeição, e foi em direção dela enquanto ouvia o que ocorria do outro lado.

— Eu já te disse para deixá-la em paz, já arranquei dois dentes seus e desta vez eu te faço perder todos!

O Kennedy olhou para a Campbell que balançou a cabeça em um sim.

Quando voltaram a conversar, umas das coisas que Sara havia dito a ele, era que havia um vizinho que ficava a perturbando, ele sempre a assediava, a incomodava, fazia comentários e gestos ruins para ela, mas que isso mudou um pouco quando seu vizinho de porta acabou ficando incomodado ao vê-lo tentar avançar contra ela, mas mesmo assim ele ainda a atormentava quando conseguia, só que hoje ele não teria sorte, Leon estava ali para dar um jeito nisso, e parecia que ele não era o único.

O louro acastanhado se aproximou da porta assim que ouviu batidas nas paredes, passos pesados pelo corredor, Leon destrancou a porta e avançou para fora, vendo Jack segurar o vizinho impertinente dos dois. O Kennedy se aproximou do ruivo com o intuito de separar os dois, mas assim que se aproximou ele pode ver Hommer babando e movendo as mandíbulas, um gesto muito familiar para ele.

Dodson era forte por si só e antes que o agente afastasse aquele velho bêbado de perto de si, Jack jogou-o para frente e lhe deu um chute na boca do estômago, fazendo este se contorcer para frente e cair ao chão.

— Belo chute.

O ruivo virou-se para ver quem falava, na porta ele pode ver Sara, escorada e mudando seu olhar dele, para o louro-acastanhado e o homem no chão. Dodson viu Hommer mais uma vez e então passou as mãos nos cabelos, suspirando pesadamente.

— Está tudo bem? — Leon perguntou enquanto observava-o, procurando por mordidas ou coisas a mais, um gesto intencional, já que se tornou hábito sempre verificar o próximo em busca de qualquer coisa estranha.

— Bem, ele só tentou me morder, antes era só o bafo de morto que ele tinha, agora é mordida e chute, esse cara tá passando dos limites.

— Bêbados nem sempre fazem o seu melhor não?

— Parece que sim.