Contos da Casa da Lua
por
Resmiranda
Capítulo Três
"Nada é mais responsável pelos bons e velhos dias do que uma memória ruim." -- Franklin P. Adams
* * *
Kagome fitou sua xícara de chá e ficou pensativa. Ela estava ficando muito boa em pensar em coisas tristes ultimamente. Ela sentia-se como se estivesse correndo por um bom tempo, mas mesmo tropeçando e com seus pulmões ardendo, o passado estava alcançando-a com uma velocidade alarmante. Namoros, festas, filmes, livros, lição-de-casa – subitamente, tudo parecia apenas uma distração para tudo o que ela havia deixado para trás. Neste tempo, ela estava viva, mas todos os seus amigos, os laços que ela havia forjado em um passado temporalmente distante, mas emocionalmente recente, pareciam pesar sobre seus ombros, lançando olhares enquanto ela trilhava pela vida.
Ela sabia que todos estavam mortos, todos, sem exceção… bem, talvez não o Shippou, mas ele já não teria tentado entrar em contato com ela? Mas saber intelectualmente e descobrir o fato no seu coração eram duas coisas diferentes. Mesmo agora, ainda existia a esperança que nunca morre de que, se ela pulasse dentro do poço, ela viajaria pelo tempo, e eles estariam esperando-a do outro lado.
Miroku riria, Sango gritaria seu nome e Shippou pularia em sua direção. Kaede ainda estaria na sua cabana, preparando a fogueira e protegendo seu vilarejo. E Inuyasha, humano agora, abriria seus braços e ela seria bem-vinda novamente como uma amiga. E Kikyou, com sua nova alma, sorriria um sorriso gentil e seguraria suas mãos. E Kagome ficaria feliz por todos.
Talvez.
Kagome mordeu seu lábio e fitou as profundezas de seu chá cor de bronze, onde sua silhueta podia ser vislumbrada na superfície do líquido. Ela era uma pessoa horrível. Ela deveria estar feliz que o Inuyasha e a Kikyou estivessem juntos novamente – era a maneira como deveria ser desde o começo. Mesmo seu lado romântico sentiu uma fisgada de felicidade ao pensar sobre isso; era como se algo quebrado tivesse sido consertado, como se, ao invés de entrar em pânico, Julieta chamara os paramédicos, os quais teriam chegado no último momento e bombeado o estômago de Romeu, e o casal destinado teria conseguido continuar sua linda história de amor. Toda aquela tragédia horrível teria sido reescrita, e a felicidade desses dois excluídos seria finalmente alcançada.
Mesmo assim, esse pensamento não eliminou a dor da rejeição, que ainda não desaparecera completamente.
Eu provavelmente já deveria ter superado tudo isso, ou não? Kagome se perguntou enquanto tomava um gole de chá. Não é muito maduro continuar agarrada a um amor que, ao que tudo indicava, era um amor adolescente.
Entretanto, não parecia ser um amor adolescente. Parecia que tinham negado-lhe algo profundo e fundamental, e havia um pedacinho em seu coração que lhe sussurrava, dizendo-lhe que talvez ela não fosse a única reencarnação; se ela pudesse ao menos encontrá-lo de novo, ela poderia ser feliz. Novamente, Kaede sempre havia lhe dito que ela deveria ficar feliz com o que ela recebia, e não esperar que a vida lhe trouxesse felicidade subitamente. Era um conselho difícil para uma adolescente aceitar, e Kagome continuava achando difícil de engolir.
Ela suspirou, e deixou sua cabeça tombar para frente, de tal modo que seu cabelo lhe cobria os olhos. Ela se sentia um pouco perdida na sua própria pele; era uma sensação estranha, como se ela fosse pequena demais para a pessoa que ela se tornara. Kagome lentamente abaixou sua cabeça na mesa fria à sua frente, e respirou profundamente, tentando se lembrar. Parecia que fazia tanto tempo atrás...
Kikyou,ressucitada, com uma nova alma, que lhe fora dada pela Shikon no Tama, e Inuyasha, finalmente humano, estavam construindo seu próprio lar nas redondezas do vilarejo. Mesmo de dentro da cabana de Kaede, Kagome podia ouvi-los construindo, brigando docemente e suavemente um com outro, e ela queria apenas enfiar a cabeça em um buraco e nunca mais sair das profundezas.
"Não fique nervosa, minha criança," Kaede finalmente disse silenciosamente, enquanto ela enchia a tigela de Kagome com um cozido espesso. "Não era seu destino."
Era impossível falar. Kagome apenas meneou a cabeça, com medo de que, se ela abrisse a boca, ela começaria a chorar. E não era como se houvesse outra pessoa a quem culpar senão sido seu desejo puro para a jóia, retirada do cadáver de Naraku, que entrou em ação, e mesmo que a batalha tivesse terminado há uma semana atrás, ela ainda estava em Sengoku Jidai, sem poder seguir adiante. Ela bebeu o cozido silenciosamente.
O silêncio se estendeu, longo e quase tangível. Kaede finalmente falou gentilmente. "Kagome?"
Era demais. Kagome levantou os olhos, e a comida ficou esquecida. "Então por que eu tive que conhecê-lo em primeiro lugar?" ela sussurrou. "Qual é o meu destino, qual é o meu propósito aqui, se eu tive que conhecê-lo para, depois, deixá-lo partir novamente?"
Os olhos de Kaede ficaram gentis, e ela suspirou enquanto se arrumava para ficar mais confortável. "Kagome, seu propósito aqui era derrotar um ser maligno. Era salvar seus amigos. E talvez, em um segundo plano, para redimir o coração selvagem de Inuyasha."
Seu nariz ardia com lágrimas quentes ainda não derramadas, e ela abaixou a cabeça. "Se eu redimi seu coração, por que ele não me ama? Por que meu destino não poderia ser ficar com ele?"
Uma mão velha e enrugada pegou a sua, e a embalou numa pele quente e fina, tal qual uma folha de papel. "Olhe para mim, criança."
Lentamente, Kagome levantou seu rosto, e uma única lágrima escorreu pela sua face.
Kaede fez um gesto com sua mão livre "Criança, eu sou velha. Nunca conheci o amor. Se minha onee-san tivesse vivido, eu poderia ter tido uma família que eu tanto quis. Mas não aconteceu desta forma. Onee-san morreu, e eu tive que ficar no seu lugar. Já faz cinqüenta anos desde que isso ocorreu, mas não posso ficar amarga com isso. Vivi minha vida como sacerdotisa deste vilarejo; obviamente, este era meu destino. O que nós queremos e o que é destinado a nós são duas coisas diferentes. A não ser que você aceite seu destino, você será infeliz."
Nos olhos de Kaede, Kagome podia ver sua própria tristeza refletida. Ela nunca imaginara como a velha sacerdotisa se sentira, mas subitamente, parecia cruel conversar com Kaede sobre seus pensamentos insignificantes. Ela ainda era jovem, ainda recentemente viva, e toda sua tristeza não poderia esconder o fato de que sua vida estava se desenrolando diante de seus olhos, um país caído em um sono esperando pelos seus passos. Para Kaede, o amanhã era o passado, mas para Kagome, era o futuro.
Kagome abaixou seus olhos e assentiu com a cabeça.
"Isso, criança. Agora coma antes que esfrie."
"Nee-chan!"
Levantando de súbito sua cabeça da mesa, Kagome se sentou abruptamente, com o coração preso na garganta. "Meu Deus, Souta, você me assustou!"
Seu irmãozinho, agora não tão pequeno, bufou. "Eu só estava imaginando o que tinha para o jantar," ele disse petulantemente. "Mamãe ainda não voltou, então pensei que você iria cozinhar."
Kagome esfregou os olhos e olhou no seu relógio. Não estava terrivelmente tarde ainda, então ela provavelmente teria tempo para preparar algo relativamente nutritivo.
"Bom… e que tal frango?" Ela perguntou.
"Parece ótimo!" Souta disse. "Podemos ter rabanete junto?"
"Não vejo por que não. Mas você precisa me ajudar!"
Souta encolheu os ombros. "Ok. Mas não irei cortar nada. Da última vez, quase cortei fora meu dedo."
Kagome apenas revirou os olhos para cima e se levantou. Ela começou a reunir os ingredientes da cozinha, mas mesmo com seu irmão lá a distraindo, ela ainda sentia o puxão do passado no seu coração, e o temor do futuro em sua mente. Ela teria dificuldade para ir dormir esta noite.
* * *
Ele nunca sentira temor de verdade antes, mas quando ele alcançou a colina que dava para o outro lado de seu lar e viu fumaça, Sesshoumaru entendeu como deveria ter sido a maior parte da vida de seu falecido irmão, sempre sabendo que algo horrível estava lá fora, e que poderia não haver uma forma de combatê-lo. Agora, ele estava de pé onde os portões de entrada uma vez ficavam, e o temor fora substituído por algo frio e insensível.
Eu estava fora por três dias apenas, Sesshoumaru pensou distantemente. Apenas três dias. Como…?
Diante de seus olhos, a Casa da Lua estava desmoronando em cinzas ardentes. Ele estava apenas levemente consciente das rachaduras e pedaços de madeira, e o riso distante de youkais enquanto estes destruíam seu lar. O rugir das chamas foi calado pelo rugir de sangue dentro de seu ouvido.
Como meu sangue pode ainda estar fluindo, ele pensou, quando meu coração cessou de bater?
Sangue. Seu sangue estava fluindo, assim como o sangue de todos que haviam vivido na Casa da Lua. A única diferença era que suas veias estavam fechadas, enquanto que o sangue de seus servos leais estava espalhado por todo lado. Ele quase poderia saboreá-lo na sua língua. O estômago do lorde demônio se contorceu violentamente com o fedor penetrante de sangue e cinzas que rastejavam pelo seu nariz; seus pulmões estavam obstruídos com o cheiro, e ele não conseguia respirar, exceto ele estava respirando, porque o fedor intensificava com cada horrível inalação. Cada deslizamento de ar enrolava dentro dele, asfixiante e insidioso. Estava no seu cabelo e nas suas roupas, penetrando na sua pele como veneno.
O ar estava tão denso, a ponto de estar grudento. Prendeu-se nele, levantava seu cabelo deliberadamente em ondas rançosas, e o cobria em sua corrupção, pesada e mal-cheirosa.
Ele estava se movendo para frente agora. Atrás dele, ele ouviu o lamento triste de Aun, enquanto o dragão se distanciava do cheiro terrível vindo da casa em chamas. Sob seus pés, o chão era duro, porém escorregadio; poças de sangue vermelho e espresso, misturado com terra, produzia o cheiro forte e metálico de ferro. Enojava-o de uma forma confusa - ele nunca se chocara com o cheiro de sangue antes – mas ele continuou a andar determinadamente, mesmo com o cheiro de ferro e sal serpenteando ao redor dos seus pés, e enrolando ao redor da sua forma.
Havia tanto sangue em todo lugar que até parecia irreal. Mas era real; ele observou como o teto da casa estava desmoronando um pouco, e aguardava alguma coisa para estalar dentro dele, mas, pelo contrário, ele se sentia entorpecido. Ele deveria sentir raiva, mas, ao contrário, ele queria apenas cair no chão e dormir. Tudo pelo qual ele havia lutado para construir e manter estava caindo por terra abaixo, e tudo porque ele saíra para uma simples viagem.
Seu pé chutou algo. Sesshoumaru olhou para baixo.
Era uma mão cortada fora.
Sob a luz cadavérica do fogo, ele podia ver que era uma mãe pálida e sem sangue, e que tinha uma fragrância que ele conhecia muito bem…
Sua fragância estava espalhada por toda esta área. À sua direita, ele podia detectar o cheiro azedo de sêmen, derramado no chão, e o cheiro rançoso de urina e excremento cobria aquele pedacinho de terra. O cheiro era dela.
O conhecimento penetrou sorrateiramente no seu cérebro, estabeleceu-se ao redor do seu peito com espirais frios de horror e negação, mas não havia como negar. Ela havia recostado aqui enquanto estupravam-na – eram muitos para contar, o cheiro amargo de suor repousava sob os outros odores – e depois, ela havia sido estripada. Não, não estripada…
Vindo de pelo menos dez direções diferentes estava o traço quase indetectável de Rin, arrastando sangue e lágrimas e o fedor de órgãos internos atrás dela, e Sesshoumaru sabia.
Ela havia sido estraçalhada. Eles haviam cortado-a em pedaços, e levando-a para um lugar aonde ele não poderia alcançá-la, onde Tenseiga não poderia encontrá-la. Ela se fora.
A menos de cinco pés de distância havia algo cinza-esverdeado no chão. Jaken. Ele deve ter tentado protegê-la, e agora, ele era apenas um esfregaço de sangue e órgãos internos sobre a grama.
Outra tora em chamas caiu, mas Sesshoumaru a ignorou. Próximo do horrível aniquilamento de seu criado estava um pedaço de pano. Movendo-se como se estivesse em um sonho – um sonho horrível, do qual ele poderia acordar, do qual ele poderia nunca mais acordar – Sesshoumaru moveu-se em direção do objeto e se ajoelhou, ignorando a escuridão horripilante do chão ensangüentado que iria sujar suas roupas brancas como a neve. Sentia seus dedos ocos, como ossos de pássaros, enquanto ele tocava o tecido e o levava para a sua face.
Era de um azul profundo, com um traço de rosa em uma borda rasgada. Cheirava a Rin; encharcada com seu sangue e suas lágrimas, o pedaço de tecido fazia cócegas ao seu nariz, mas parecia ser feito de nada na sua mão insensível.
Ela realmente amava aquele quimono, ele pensou absurdamente. Eu acho que era seu favorito. Sem saber por que, ele o guardou em seu obi e se endireitou.
Não havia nada mais exceto o cheiro de sofrimento, e por um bom tempo Sesshoumaru ficou imóvel sob a luz moribunda do dia, sob a luz moribunda da sua vida, e respirou morte.
"Ah, Sesshoumaru. Nós estávamos imaginando quando você chegaria," uma voz atrás dele finalmente disse.
Sesshoumaru se recusava a se virar. Ele não iria reconhecer a voz, pois era a voz de um dos vassalos mais leais de seu pai. Naketsu, ele pensou, e no ar, sobre o cheiro de morte, estavam os outros… Jurekaru, Hatore, Suikoshin… lordes que ele conhecia desde criança, todos eles traidores, inconstantes, sucumbindo à vontade de seus desejos egoístas… Ele deveria estar tão zangado.
Mas, muito pelo contrário, havia um vazio dentro dele, e ele sabia instintivamente que nunca seria preenchido. Toda a raiva do mundo iria apenas desaparecer nas suas profundezas ecoantes; todo o seu orgulho ferido e vingança amada e desejo negado seriam engolidos, para nunca mais aparecer. Havia adrenalina correndo nas veias, sussurrando sob sua pele, mas ele estava vazio, uma concha coberta com uma sombra de raiva. Ele não sentia nada.
O inferno do lar de seus ancestrais rugia e soltava uma baforada que morria para o céu.
"Ela deveria ter fugido." Era a voz de Jurekaru, um youkai cavalo que havia ensinado Sesshoumaru como lutar contra ataques de energia, e como correr rapidamente e evitar obstáculos.
Do seu lado, suas garras envenenadas se mexeram reflexamente por conta própria.
Atrás dele, alguém riu. Havia uma névoa vermelha cobrindo sua visão, e Sesshoumaru piscou para limpá-la. Ele havia pensado que seu coração havia parado de bater, mas não era o caso, pois ele podia ouvir trovões dentro de seu peito. De algum canto estranho e separado de sua mente, ele se observava com pouco interesse. A névoa vermelha não estava desaparecendo.
"Pelo menos, ela nos divertiu," respondeu o tom grave de Suikoshin, o qual tinha sido o melhor amigo de seu pai quando Sesshoumaru ainda era um filhote, e o tom rasgante de sua voz soava como pedaços cortantes de madeira.
"Traidores," Sesshoumaru disse, e sua voz lhe soava como se estivesse longe, muito longe dali.
"Seu pai caiu porque estava protegendo uma mulher humana, e estas terras estavam um caos por muitos anos até que você finalmente tomou posse destas. Nós o vimos seguir os mesmos passos dele. O que deveríamos fazer?"
Não isso, Sesshoumaru pensou. O vermelho de sua visão estava sendo substituído por escuridão.
"Sesshoumaru! Pegue."
Vagarosamente, ele se virou, suas mãos já levantadas com os dedos estendidos, e alguma coisa grossa e sedosa emaranhou-se nas suas garras.
Era seu cabelo. Grosso, brilhante, tão bem cuidado que era uma surpresa ela ainda achar tempo para se vestir, e agora, ele havia sido pego e estava emaranhado entre seus dedos, cortado fora de sua cabeça. Grudavam na sua pele e na sua armadura, fios opressivos que envolviam em torno dele, e eram tão pesados que ele pensou que cairia no chão sob o peso destes.
Ele nem se mexeu quando as correntes chegaram, aparentemente de lugar nenhum, e envolveram seus membros por conta própria, girando e virando até que ele estivesse imobilizado e de joelhos. Ele manteve o seu rosto inexpressivo.
Os pés de Suikoshin estavam na frente de seus olhos. "Nós não o mataremos por respeito a seu pai. Mas essas correntes foram forjadas por uma sacerdotisa da escuridão – boa sorte ao tentar se livrar delas."
Sesshoumaru nada disse enquanto eles o levantavam e o carregavam para outro lugar. Ele não fez nenhum barulho enquanto viajavam para a costa marítima, estava em silêncio enquanto Suikoshin o provocava, continuou mudo quando Hatore expressou arrependimento.
Ele não fez nenhum som até que eles o jogaram por sobre a borda do penhasco até cair no mar, e então ele rugiu tão alto que sua garganta se rasgou e sangrou enquanto o mar se levantou para tomá-lo para si.
* * *
Na escuridão da noite, os olhos de Kagome se abriram e um grito escapou de sua garganta, e ela se sentou ereta na cama.
"Oh, Deus," ela suspirou, e pressionou uma mão sobre seu peito, sentindo o trovão de seu coração contra seu tórax. Ela estava caindo de um penhasco, observando à medida que as rochas acima dela desapareciam do céu, sentiu as ondas famintas se fecharem sobre sua cabeça. Era como se ela estivesse naquela maldita história, presa por correntes. Ela não podia se mexer, e em seguida, não conseguia mais respirar, e ela só queria morrer.
Kagome passou uma mão sobre sua testa, e seus dedos tocaram em gotas de suor frio.
"Eu não acho que consigo agüentar isso por muito mais tempo," ela sussurrou alto para si mesma antes de chegar a uma resolução.
Ela tentaria mais uma vez. Ela estava confiante de que a história não teria sido revelada a ela se ela não pudesse alterá-la; Ayumi provavelmente diria que era impossível voltar no tempo através de um velho poço de um templo, mas isso não significava que não tivesse acontecido.
Mas primeiro, um banho. Pegando sua roupa por detrás da porta, Kagome andou rapidamente pelo corredor até o banheiro. Rápida e eficientemente, ela se descobriu e se lavou, retirando o suor frio deixado pelo sonho. Ela também lavou seu cabelo por precaução, caso funcionasse e ela tivesse que ficar no passado por um tempo. Ela odiava cabelo oleoso e sujo.
Saindo da banheira, Kagome rapidamente se enxugou com a toalha. E agora? Ela se perguntou. Obviamente, ela teria que arrumar a mala. Ela recuperou facilmente o velho kit de primeiros socorros que estava sob a pia, antes de pegar alguns objetos de toalete e sua escova de dentes. Ela saiu do banheiro, e entrou novamente em seu quarto. Avaliando seu guarda-roupa, ela pegou algumas mudas de roupa confortável antes de ressuscitar sua mochila amarela de debaixo da cama. Rapidamente, ela começou a guardar todas as suas coisas enquanto mordia seu beiço. Ela não queria ficar esperançosa novamente, mas isto lhe era tão familiar, que ela não conseguia evitar se sentir novamente no colegial, arrumando as coisas antes de voltar no tempo. Ela se sentia feliz novamente.
"Nee-chan, o que você está fazendo?"
Kagome levantou o rosto, parou de se mexer; ela nem tinha notado seu irmão na soleira de sua porta.
"Souta, volte para a cama. Você tem aula amanhã."
Souta franziu a testa. Ele parecia um pouco ridículo com seu pijama pequeno demais, mas ele estava definitivamente crescendo. Ele cruzou seus braços. "Você também." Ele contra-atacou. "Mas ao invés de dormir, seu cabelo está molhado, e você parece que está se preparando para sair da cidade. O que está acontecendo?"
Kagome mordeu seu lábio. "Eu estou voltando, Souta."
Um olhar de pena invadiu o rosto de seu irmão. "Kagome…" ele disse.
"Eu não quero ouvir sobre isso!" Ela disse rapidamente. "Eu preciso tentar mais uma vez. Ok?"
"Nee-chan, você tentou," ele disse silenciosamente. Ele havia descruzado seus braços, e o olhar que ele estava dando a ela cortava-a até os ossos. Ele achava que ela estava vivendo no passado, e Kagome não sabia o que dizer a ele para explicar-lhe por que ela precisava tentar uma última vez. Ela ainda podia se lembrar do cheiro de sangue no seu sonho, a sensação de queda, todas aquelas coisas horríveis que iriam acontecer se ela não voltasse e mudasse. Ela podia salvar Rin. Ela podia salvá-la e alguém teria um final feliz, mesmo que não fosse ela.
Era difícil de falar com uma bola dentro de sua garganta. "Por favor, Souta. Só mais uma vez."
"Kagome…"
"Por favor."
Ela podia ver sua resolução se dissolver em migalhas à medida que seus ombros abaixavam em resignação. "Tudo bem", ele disse antes de arrumar a coluna. "Mas irei com você para ter certeza de que você não quebrará sua perna novamente".
Kagome não tinha a paciência de sorrir para ele, e voltou a arrumar a mala. Dentro de minutos, ela estava pronta para ir.
"Certo," ela disse, levantando-se. "Vamos dar mais uma chance."
Eles saíram de casa, e adentraram na noite adormecida. Era quase uma da manhã quando Kagome finalmente abriu a porta para a casa do poço, e caminhou sobre aquelas escadas tão familiares. No fundo da casa, o poço bocejou, convidando-a a entrar.
Seu estômago estava se revirando como um peixe fora d'água, mas Kagome empurrou esta sensação de lado. Agora não era o momento de hesitar! Inspirando profundamente, ela jogou uma perna sobre a borda do poço.
"Espere!"
Kagome se virou para olhar o seu irmão. "O que foi, Souta?"
Souta parecia estar com dor, como se estivesse tão nervosa quanto ela. Ele engoliu em seco. "Apenas…" ele começou a dizer. "Apenas…"
Kagome esperou-o. "O quê?" ela perguntou finalmente.
"Apenas tome cuidado quando você chegar lá," Souta soltou inesperadamente.
Como um peso sendo levantado de seu coração, Kagome podia respirar novamente. Ela deu a seu irmão um sorriso suave. "Eu terei, Souta. Arigatou."
Reunindo sua coragem, Kagome se voltou para a escuridão sob seus pés. Sob estes pés, seu futuro se encontrava, longa e convidativa, prometendo-lhe algo novo.
Kagome pulou.
* * *
Autora: Resmiranda
Tradutora: Sissi
Notas da Tradutora: Irei me concentrar neste projeto, pois já está concluído em inglês. Tentarei escrever alguma coisa de Luz e Sombras, mas nada prometo. 2009 é meu último e mais difícil ano de faculdade, então meu tempo será bem escasso. Mil desculpas. Agradeço desde já o carinho de todos desde o início. Nos vemos em breve (eu espero). Mil beijos a todos, e tenham um Feliz Natal e um ótimo Ano Novo.
