Capítulo 4: Balas e mais Balas

Fora do armazém, Albertina estacionou a carrinha e desligou o motor.

"Como vêem, há aqui um carro, que é usado pela organização." disse ela. "Portanto, estamos no lugar certo. Rufino, temos de estar preparados porque eles têm armas. Gabriela, tu guardas a mala. É importante."

"Ainda não percebo o porquê de quererem tanto este dinheiro, se têm muito mais." disse Gabriela. "Quer dizer, tia, tu ias receber uma parte por participares no golpe e roubaste uma mala. Se eles têm mais, provavelmente o valor do dinheiro que está na mala seria a tua parte, portanto, a não ser que afinal eles quisessem o dinheiro todo para eles..."

"Agora não é altura de perdermos tempo com conversas, Gabriela." disse Albertina. "Depois falamos melhor sobre tudo."

Albertina abriu a porta do lado do condutor e saiu, tirando de seguida uma pistola do bolso do casaco. Rufino saiu pela porta do lado oposto, trazendo na mão a arma que Albertina lhe tinha dado. Dulcineia hesitou, mas saiu da carrinha também.

"Dulcineia, fica lá dentro. Isto é perigoso." disse Rufino, à esposa.

"Não quero saber. Não posso ficar quieta na carrinha enquanto o meu filho está em perigo. Eu vou com vocês e prometo que não atrapalho."

Rufino abanou a cabeça. Não havia tempo para estar a discutir com a mulher. Albertina já se estava a aproximar-se do portão do armazém. Dentro da carrinha, Gabriela mexeu-se, inquieta.

"Eu espero que isto não dê para o torto." pensou ela. "E há aqui algo importante que a tia Albertina não nos está a contar. Espero que isso não faça com que morramos todos."

Albertina, num gesto rápido, empurrou o portão e ele abriu-se com ruído. De seguida, Albertina avançou para dentro do armazém. Agatha disparou, mas Albertina conseguiu desviar-se a tempo e a bala acertou numa parede.

"Ora, ora, tinhas de ser tu, Albertina." disse Agatha, ainda empunhando a sua arma. "Eu pensava que até poderia ser o Eugene, mas estava a demorar muito para entrar e, claro, eu desconfiei."

"Agatha, acabou-se a brincadeira. Rende-te." disse Albertina.

"Nem pensar. Mato-te num instante, Albertina."

Nesse momento, Rufino entrou também no barracão, com Dulcineia atrás dele. Eles olharam para onde Agatha estava. Ali perto, agarrado à perna, estava Rui e os corpos de Maria Goreti e Hayley continuavam caídos no chão. Dulcineia estremeceu.

"Ai, meu Deus, o meu filho está ferido!" exclamou ela.

Sem esperar mais, Rufino disparou. Agatha atirou-se para o lado e a bala raspou-lhe o braço esquerdo. Ela arregalou os olhos. Agora tinha duas pessoas armadas contra ela. Lançou um olhar rápido a Rui, pensando se o podia usar como refém e obter algo em troca. Albertina disparou e quase acertou em Agatha. Ela correu para a divisão de onde saíra antes e fechou a porta de imediato.

"Vamos avançar. Ela está encurralada." disse Albertina.

Albertina correu rapidamente para a porta fechada e tentou arrombá-la, mas do outro lado, Agatha tinha colocado uma cadeira a bloquear a porta, além de a ter trancado. Rufino correu para a sua mãe e ajoelhou-se ao pé dela, enquanto Dulcineia chegava ao pé do filho.

"Ah, meu querido, tu estás ferido." disse ela, começando a chorar. "Ai, estás a perder muito sangue."

"Mãe, mataram a avó e a minha amiga Crisália." disse Rui, com uma voz rouca devido às dores.

Rufino limpou uma lágrima do canto do olho e aproximou-se depois do filho.

"Temos de te levar para o hospital." disse ele, rasgando de seguida um pedaço do seu casaco e enrolando o pedaço à volta da ferida do filho. "Estás a perder muito sangue."

Dulcineia lançou um olhar ao corpo de Maria Goreti e sentiu-se muito triste. As duas nunca se tinham dado muito bem, mas Dulcineia não desejava a sua morte. Albertina aproximou-se deles e examinou rapidamente a situação.

"Uma bala na perna não é tão mau como outras coisas. Se tivesse sido no peito, era bem pior." disse ela. "Vamos ter de o colocar na carrinha e levá-lo para o hospital. Mas também temos de apanhar a Agatha."

"Sim. Ela matou a minha mãe e não vai sair impune." disse Rufino.

"Na verdade, foi a outra que matou a avó." disse Rui, com um gesto de cabeça na direcção de Hayley. "E eu matei-a."

Dulcineia tapou a boca com as mãos, chocada. Albertina abanou a cabeça.

"Agora não há tempo para ficarmos chocados, nem parados. Temos coisas a resolver." disse ela.

Na sua divisão, Agatha estava prestes a escapar. Tinha sido ela que tinha alugado o armazém e soubera que aquela divisão tinha uma porta secreta para a rua, mas não divulgara a informação a mais ninguém. Poderia ser precisa para uma emergência.

"Não me vão apanhar agora." pensou ela, tocando num botão que revelou a porta camuflada. "Eu vou escapar para já, mas hei-de acabar com todos eles depois."

Agatha saiu pela porta e encontrou-se fora do armazém. Depois ficou pensativa. Não tinha pensado em ter um veículo para escapar.

"Ah, mas o carro que a Hayley trouxe ainda continua à frente do armazém. Se eu conseguir chegar lá sem eles perceberem, posso fugir nele." pensou ela, começando a caminhar, para dar a volta ao armazém.

A Mala

Entretanto, Gabriela tinha saído da carrinha. Continuava a ter a mala consigo. Ficou pensativa. Deveria entrar no armazém? De onde estava, Gabriela não via o que estava dentro do armazém, nem sabia o que se havia passado, mas ouvira tiros.

Enquanto Gabriela pensava sobre o que é que devia fazer, nas traseiras da carrinha, Alvin, depois de bastante esforço, estava quase a conseguir libertar os braços.

Eugene, cheio de dores devido ao tiro que Albertina lhe tinha dado, estava a olhar para o companheiro.

"Força Alvin, tens de conseguir." pensou Eugene. "Aquela Albertina vai arrepender-se de me ter baleado. Eu vou acabar com a vida dela, nem que seja a última coisa que faça na minha vida."

A Mala

De volta a Agatha, ela chegou à esquina do armazém e espreitou. Vi o carro que Hayley trouxera e mais à frente estava a carrinha de Albertina. Perto da carrinha estava uma jovem ruiva, Gabriela, segurando a mala.

"Perfeito." pensou Agatha. "A costa está livre, exceptuando aquela rapariga, mas ela não está armada e ainda por cima tem a mala com ela. Está na hora."

Com a sua pistola na mão, Agatha transpôs a esquina e começou a correr. Gabriela quase não se apercebeu do que estava a acontecer e quando viu Agatha a aproximar-se, já ela estava muito perto e com a arma apontada a si.

"Não! Socorro!" gritou Gabriela.

"Calada, senão morres. Vem comigo, já!" exclamou Agatha, colocando a arma apontada ao peito de Gabriela.

Ela arregalou os olhos mas deixou-se arrastar por Agatha. Agatha abriu a porta do condutor e atirou Gabriela para dentro do carro. Depois obrigou-a a passar para o lugar do lado e entrou também ela no carro, sentando-se ao volante.

Alertados pelo grito de Gabriela, Albertina e Rufino correram para fora do armazém, a tempo de verem Agatha colocar o carro em andamento. Albertina levantou a pistola, mas o carro já estava em movimento e tinha medo que, disparando, acabasse por atingir Gabriela. Agatha carregou no acelerador e o carro passou a toda a velocidade, desaparecendo por uma esquina de seguida.

"Temos de ir atrás delas!" exclamou Albertina, começando a dirigir-se para a carrinha.

"Espera! Só temos a carrinha e o Rui tem de ser levado para o hospital imediatamente." disse Rufino, agarrando o braço da cunhada. "Aquela malvada raptou a Gabriela, mas pelo menos ela não deve estar ferida agora."

Albertina hesitou, mas acabou por abanar a cabeça.

"Está bem, vamos trazer o Rui para dentro da carrinha e levá-lo ao hospital. Depois, vamos atrás da Agatha. Tenho ideia de onde é que ela vai a seguir."

Rufino e Albertina voltaram rapidamente para dentro do armazém. Dulcineia parecia muito preocupada.

"O que se passou? Porque é que a Gabriela estava a gritar?" perguntou ela.

"A Agatha conseguiu, sabe-se lá como, fugir. E raptou a Gabriela." respondeu Albertina. Dulcineia abriu muito os olhos. "Mana, agora não há tempo para histerias. Vamos levar o Rui para o hospital e depois salvamos a Gabriela."

Dulcinia acenou afirmativamente. Juntamente com Rufino e Albertina, conseguiram pegar em Rui, para o levarem para a carrinha.

A Mala

Nas traseiras da carrinha, Alvin conseguiu libertar os seus braços. Logo depois, tirou a mordaça, desamarrou as pernas e fez o mesmo a Eugene.

"Finalmente livres." disse Eugene.

Os dois saíram pelas traseiras da carrinha.

"Nós dever fugir." sugeriu Alvin. "Ei, nós estar perto do armazém."

"Já percebi, esperto. Espero que a Agatha e a Hayley acabem com todos eles."

Eugene foi até à porta dianteira da carrinha e encontrou uma pistola no tablier. Pegou nela e tirou a patilha de segurança.

"Mas se não os tiverem matado a todos ainda, então eu ajudo." disse ele, fazendo um esgar, devido à dor que sentia no braço que fora baleado.

Nesse momento, Dulcineia, Rufino e Albertina, carregando Rui, saíram do armazém. Alvin apontou para eles, mas Albertina já os tinha visto. Largou as pernas de Rui e pegou na sua arma. Eugene virou-se para disparar contra Albertina.

"Agora é que morres, vadia!" exclamou ele.

No entanto, Albertina foi mais rápida. Disparou dois tiros. Um acertou no peito de Eugene e outro acertou-lhe na cabeça. Ele cambaleou e acabou por cair no chão, com sangue a escorrer-lhe da boca e das feridas. Alvin deu um passo atrás, chocado. De seguida, virou costas e fugiu. Albertina disparou mais dois tiros, mas não acertaram em Alvin, que contornou uma esquina e desapareceu.

Dulcineia, Rufino e Rui estavam chocados por aquela cena. Albertina colocou a sua arma no bolso do casaco, encaminhou-se para o corpo de Eugene e confirmou que ele estava morto. Tirou-lhe a arma e colocou a patilha de segurança. Depois, voltou para perto dos outros.

"Ok, não esperava que o Eugene e o Alvin conseguissem escapar, mas o Eugene está arrumado. Quanto ao Alvin, ele não é exactamente perigoso de todo, só num caso extremo, portanto deixei-o ir. É mais importante levarmos o Rui até ao hospital."

"Albertina, acabaste de matar assim uma pessoa e reages dessa maneira?" perguntou Dulcineia.

"Não há tempo para reagir de outra maneira, mana. Temos de nos apressar." disse Albertina, pegando nas pernas de Rui. "Vamos lá."

Com o esforço dos três, conseguiram colocar Rui no banco traseiro. Dulcineia sentou-se perto dele. Rufino foi à frente e Albertina pôs-se ao volante.

"Temos de avisar a polícia." disse Rufino. "A minha mãe está morta, a Gabriela foi raptada e...

"E não sejas louco ao ponto de meteres a polícia nisto." disse Albertina, colocando a carrinha em movimento. "Se a Agatha sonhar sequer que a polícia está envolvida, mata logo a Gabriela. Além de que o teu filho matou uma pessoa, eu estou envolvida no esquema e há muita coisa para explicar. A policia só iria atrapalhar e reter-nos."

A carrinha avançou, em direcção à saída da zona industrial. Mais atrás, um carro branco surgiu. Alvin ia ao volante. Depois de sair dali a correr, encontrara um carro parado à frente de outro armazém. Conseguira forçar a porta e fazendo uma ligação directa, pusera o carro a funcionar. Agora, preparava-se para seguir o grupo até onde eles fossem.

Depois de saírem da zona industrial, Albertina começou a conduzir até ao hospital mais próximo. Rui respirava fundo, cerrando os dentes.

"Aguenta, querido, mais um bocadinho e estamos lá. Os médicos vão ajudar-te, vais ver." disse Dulcineia.

"Afinal como é que tu te envolveste neste esquema, Albertina?" perguntou Rufino, olhando para a cunhada. "Queremos saber."

"Ok, bom, eu estava a trabalhar no banco que foi assaltado. Ajudei-os a roubarem o banco, fornecendo informações." explicou Albertina. "Ia receber a minha parte, só que houve algo que foi roubado além do dinheiro."

"Não estou a perceber. Se bem me lembro do tal assalto, que foi falado nas notícias, só o dinheiro foi roubado." disse Rufino.

"Eu nem sabia que estavas a trabalhar no banco." disse Dulcineia, lançando um olhar à irmã. "Não me disseste."

"Pois não, não disse, mana. Não importa agora. Prestem atenção ao que vou dizer. A Agatha, aquela mulher fugiu com a Gabriela, é a líder da organização. Ela, em conjunto comigo, com o Eugene, que eu matei, com o Alvin, que fugiu e com a Hayley, que o Rui matou, participámos no assalto. Só que o objectivo deles não era só o dinheiro. Só depois do assalto é que eu percebi e já era tarde demais."

"Não percebo." disse Rufino. "O que roubaram mais além do dinheiro?"

"Um chip muito, muito importante. Tão importante que o seu conhecimento é bastante reduzido e não se falou disso em lado algum, porque queriam manter esta informação restrita. O chip estava escondido no nosso país, porque acharam que seria seguro, já que haveria poucas probabilidades de alguém pensar que o chip estava aqui, mesmo que soubesse da sua existência. Mas a organização da Agatha chegou à informação de que ele estava naquele banco." disse Albertina. "O chip tem uma avançada tecnologia e, se usado pelas mãos erradas, pode significar destruição. Em grande massa. A Agatha está a planear vender o chip por um bom dinheiro. Uma quantia muito, muito elevada mesmo."

"Então tu também foste usada. Eles queriam o chip e o dinheiro e tu pensaste que era só o dinheiro." disse Dulcineia.

"Exactamente mana. Se bem que este não é o primeiro negócio ilícito onde me meto. Já tive de matar outras pessoas que me tentaram fazer mal a mim. Mas isso agora não interessa." disse Albertina. "O que importa é que quando eu descobri o que a Agatha queria fazer e que isso pode custar a vida a muitas pessoas, roubei o chip, coloquei-o no meio de um maço de notas, que coloquei na mala e fugi. E a mala acabou por ficar à porta da vossa casa e agora a Agatha tem a mala consigo, pelo que tem o chip também em seu poder."

"Mas ela quer vendê-lo a quem exactamente?" perguntou Rufino.

"A um homem muito influente nos países do leste." respondeu Albertina. "Ouvi a conversa e foi assim que descobri tudo e fugi. Ele está hospedado num hotel da cidade. Espero que ainda esteja no mesmo hotel. E ele vai usar o chip para ataques de terrorismo."

Dulcineia tapou a boca com as mãos, chocada. Nas últimas horas, tinha acontecido de tudo, mudando completamente a sua visão da vida e do mal no mundo. Rufino respirou fundo.

"Então, temos de a parar e recuperar a Gabriela também." disse ele.

Alguns minutos depois, Albertina parou a carrinha à porta do hospital. Rufino saiu da carrinha e correu para dentro do hospital. Pouco depois, voltou a sair, com dois enfermeiros com uma maca atrás de si. Dulcineia abriu a porta e saiu. Os dois enfermeiros, com a ajuda de Rufino, conseguiram colocar Rui na maca.

"Mãe, estou com medo." disse Rui, agarrando a mão de Dulcineia.

"Vai correr tudo bem, querido." disse ela. "Vais ver. Aguenta firme."

Um dos enfermeiros tinha tirado a tira de tecido que estava à volta da ferida que Rui tinha na perna. Abanou a cabeça.

"Ele já perdeu muito sangue e a bala continua aqui. Temos de o levar para a sala de operações de imediato." disse ele.

O outro enfermeiro acenou afirmativamente. De imediato, os dois começaram a empurrar a maca para dentro do hospital. As pessoas ali à volta iam olhando, para perceber o que se estava a passar. Dulcineia agarrou as mãos do marido.

"Querida, fica com o Rui. Eu e a Albertina vamos atrás daquela malvada e da nossa filha."

"Estou com muito receio, Rufino."

"Tem esperança. Reza por nós. Eu vou trazer a Gabriela de volta, sã e salva."

Os dois deram um beijo rápido e depois separaram-se. Dulcineia apressou-se a entrar no hospital e Rufino entrou na carrinha. Albertina não perdeu tempo e pô-la em andamento.

Ali perto, Alvin tinha estacionado o carro. Tirou do bolso o telemóvel e ligou a Agatha. Ela demorou alguns segundos a atender.

"Alvin, és tu?" perguntou Agatha, surpreendida.

"Sim. Eu conseguir escapar. A Albertina apanhar-me a mim e ao Eugene. E ele estar morto."

"A Hayley também está morta, portanto restamos apenas nós. Onde estás?"

"Eu estar à porta de hospital. Albertina deixar aqui um rapaz baleado com a irmã dela."

"Ah, então eles levaram o rapaz até ao hospital. E a Albertina, foi embora?"

"Sim, ela e o homem terem partido na carrinha. Já os perder de vista."

"Incompetente! Bom, pronto, não importa. Vais fazer o seguinte então. Vais matar a irmã da Albertina e o filho dela, ouviste?"

"Eu? Matar eles?"

"Exactamente. Não aceito um não, Alvin, senão encontro-te e sou eu que acabo contigo. Arranja maneira de os matares aos dois. Eu depois preocupo-me com a Albertina e o outro. Agora faz o que te mandei, senão considera-te um homem morto."

Agatha desligou a chamada. Alvin suspirou.

"Ok, eu conseguir fazer isto." disse ele. "Só ter de acabar com a vida deles e estar tudo arrumado. Eu nunca ter matado ninguém, mas... eu ir conseguir, por minha vida."

A Mala

Nesse momento, o carro que Agatha tinha levado estava parado à beira da estrada. Ela colocou o telemóvel no bolso. Com a outra mão estava ainda a apontar a pistola a Gabriela, sentada no banco do lado e segurando a mala com o dinheiro e o chip.

"Ok, tivemos de fazer esta pequena paragem para esta chamada urgente." disse Agatha. "Parece que o teu irmãozinho foi levado até ao hospital. Levou um tiro, sabes?"

"O quê?"

"É verdade. Mas agora não importa. Ele e a tua mãe vão morrer. Depois tratamos da tua tia e do teu pai, mais tarde." disse Agatha. "Agora temos coisas para fazer."

Agatha colocou o carro em movimento novamente. Como o carro tinha mudanças automáticas, estava a conseguir conduzi-lo com uma mão enquanto a outra apontava a arma a Gabriela.

"Para onde é que me está a levar?" perguntou Gabriela. "O que é que quer de mim afinal? Queria a mala, não era? Aqui a tem. Deixe-me ir."

"Ah, isso querias tu. Não, nem pensar." disse Agatha. "Tens duas hipóteses. Ou ficas comigo e cooperas ou morres. Apenas isso. Não é uma opção eu deixar-te ir embora assim sem mais nem menos."

A Mala

Na carrinha de Albertina, ela tinha parado num semáforo vermelho e batia impacientemente com uma mão no volante, esperando que o sinal passasse a verde. Apetecia-lhe passar o sinal vermelho, mas podia provocar um acidente ou algum policia vê-la e mandá-la parar, o que iria atrasar as coisas ainda mais.

"Albertina, eu espero que consigas recuperar a minha filha sem que ela esteja ferida." disse Rufino.

"Espero o mesmo. Até nem sei porque é que a Agatha a levou. Talvez para depois me obrigar a ir até ela ou assim."

"Ouve uma coisa, quando isto terminar, eu vou contar tudo à polícia." disse Rufino. "O que está a acontecer é tudo culpa tua."

Albertina olhou para o cunhado.

"Desculpa? Não fui eu que baleei o Rui ou que matei a tua mãe e..."

"Mas foste tu que nos envolveste nisto tudo! Se não tivesses deixado a maldita mala à porta da minha casa, a minha mãe estaria viva, o meu filho estaria bem e a minha filha também. Portanto, tu és a responsável por tudo o que se está a passar." disse Rufino, numa voz firme. "E serás responsabilizada por tudo o que acontecer à minha família e a qualquer inocente envolvido nisto."

Albertina acabou por ficar calada, sem saber o que dizer. Tinha sido realmente ela a envolver Dulcineia e a sua família em tudo aquilo. Se não tivesse levado a mala até à casa deles, tudo poderia ser diferente naquele momento.

"Mas agora também não é altura para estar a pensar assim." pensou ela. "Não vale a pena. Não vai corrigir os erros que cometi."

Alguns segundos depois, Rufino voltou a falar.

"Sabes realmente para onde a tal Agatha foi?" perguntou ele.

"Com quase toda a certeza foi ter com o homem influente de que eu falei. Ele queria o chip, ela tinha ficado sem ele porque eu o roubei, mas agora que o tem novamente na sua posse, com toda a certeza que lho vai levar. E deve estar à espera que eu pense exactamente nisto também, portanto já deve estar preparada para nós, mas não temos escolha a não ser irmos ter com ela."

"Pois, senão ela vende o tal chip, se bem que isso é o que menos me importa agora. Quero é salvar a minha filha."

A Mala

Agatha parou o carro no estacionamento subterrâneo do Hotel Sol Dourado. Não tinha sido difícil entrar no parque subterrâneo, já que Agatha tinha visitado o hotel algumas vezes, para se encontrar com o comprador do chip. O segurança que estava à entrada do parque já a conhecia e deixou-a entrar de imediato.

Gabriela tentou dizer-lhe alguma coisa, para ele a ajudar, mas Agatha pressionou-lhe a pistola contra a barriga e Gabriela calou-se. Entraram no parque de estacionamento e ninguém viu que Agatha tinha uma arma. Já paradas num lugar no fundo de estacionamento, Agatha suspirou.

"Pronto, isto está quase a acabar." disse ela.

"Quer dizer que vai matar-me entretanto? É que convém, se é isso que quer. Mais vale morrer já do que ter de andar consigo de um lado para outro, a apontar-me essa arma." disse Gabriela.

Agatha abriu o porta-luvas e tirou de lá um pedaço de corda. Tirou a mala das mãos de Gabriela, colocou-lhe os braços atrás das costas e amarrou-lhe as mãos. Gabriela lançou-lhe um olhar irritado.

"Vai deixar-me aqui amarrada, é? Mas qual é a sua ideia?" perguntou ela, ainda mais zangada.

"Estou na esperança de que tu reflictas e te decidas juntar a mim. Fiquei sem dois dos meus colaboradores mais experientes, a tua tia traiu-me e tenho apenas um agente meu em campo e ele não é grande coisa." respondeu Agatha. "Portanto, preciso de novos recrutas."

"Está a falar de mim? Nem pensar!"

"Acho que deves pensar bem." disse Agatha, pegando na mala e acenando com a pistola no ar. "Uma rapariga bonita como tu ainda tem muitas coisas para viver na vida, sabes? Podes ter muito dinheiro se te juntares a mim. E outras coisas também."

Agatha passou a língua pelos lábios e Gabriela arregalou os olhos.

"Ora bolas, era só o que me faltava." pensou Gabriela. "A minha família está em perigo, eu estou em perigo e tinha de me calhar na rifa uma maluca, estúpida e lésbica ainda por cima, que me está a tentar tornar numa vilã psicopata e tem interesses sexuais em mim. Eu não me devia ter levantado da cama hoje!"

Agatha tirou do porta-luvas um pedaço de pano e sorriu.

"Para que não faças barulho, vou ter de te amordaçar. Mas não hei-de demorar muito." disse Agatha.

Quando ela estava prestes a amordaçar Gabriela, ela mexeu-se.

"Espere. O que é que aconteceu realmente ao meu irmão? Como é que ele foi baleado?"

"Resumindo, uma colaboradora minha, a Hayley, matou a tua avó, portanto o teu irmão matou a Hayley e eu fiquei aborrecida e dei-lhe um tiro na perna." disse Agatha, encolhendo os ombros. "Nada demais."

"A minha avó está morta? E você atirou sobre o meu irmão?" perguntou Gabriela, furiosa. "E quer que eu me alie a si! Vá para o diabo!"

No momento seguinte, Gabriela cuspiu na cara de Agatha. Agatha pestanejou algumas vezes, surpreendida. Depois tirou um lenço do bolso e limpou a cara. Viu-se ao espelho do meio do carro e não pareceu agradada.

"Agora fiquei com a maquilhagem um pouco borrada." disse ela, virando-se para Gabriela. "Gosto da tua atitude feroz, mas foste longe demais. Agora não tenho tempo para te castigar, mas quando voltar, considera-te morta. Afinal não preciso de ti para nada. Arranjo alguma outra rapariga bonita em qualquer lado."

Logo depois, Agatha amordaçou Gabriela. De seguida, saiu do carro com a mala na mão e trancou as portas. Colocou a sua pistola num bolso. Virou-se para sorrir maliciosamente a Gabriela e depois caminhou dali para fora, em direcção ao elevador.

Pouco depois, Agatha estava a entrar no elevador. De onde o carro estava estacionado, Gabriela conseguiu vê-la. Gabriela mexeu-se, tentando soltar as mãos, mas não conseguia.

"Raios partam! Eu não vou morrer assim e também não vou deixar que façam mal à minha família." pensou ela. "Bolas, eu devia ter fugido com a minha mãe, mas deixado a mala para trás. Podia ser que eles tivessem levado a mala e não viessem atrás de nós, mas não, fui gananciosa e agora estou nesta embrulhada e toda a gente está em perigo."

Gabriela mexeu-se. Pelo menos Agatha tinha-lhe deixado as pernas desamarradas. As portas do carro estavam trancadas, mas havia um botão para as destrancar. Gabriela conseguiu descalçar um dos sapatos e posicionando-se, com um dedo do pé conseguiu tocar no botão. As portas destrancaram-se, mas continuavam fechadas.

"Ok, eu consigo fazer isto. Já vi muitos filmes de espiões e tudo o mais. Os heróis safam-se sempre e espero que aqui seja o caso, se me considerar a heroína." pensou ela.

Gabriela virou-se, ainda com as mãos amarradas atrás das costas e tentou colocar as mãos no puxador da porta. Depois de muito esforço, conseguiu. Carregou no puxador e a porta abriu-se um pouco. Gabriela empurrou-a com o corpo e a porta abriu-se mais. Ela saiu do carro.

"Boa, consegui sair do carro. Estou de mãos amarradas, boca amordaçada, tenho apenas um pé calçado, mas não vou ficar quieta agora."

Continua no próximo capítulo, que é também o último.