(Escrita para o Opus Tessalatum e para o Good Night, Bad Morning, do fórum 6v, inspirada em Shoot The Head, da Scila)

Only Girl (In The World)

Tiros. Eu tenho um revólver na mão, Ginny foi quem me ensinou a usar. "Você não pode achar que se usar somente magia vai sobreviver, Malfoy!" E então ela me ensinou a mirar, a atirar, a puxar o gatilho, a não temer, a prever a hora certa para disparar e o principal: Sempre atirar duas vezes. Só por precaução. Era uma das regras dela. A principal, eu acho. (Ela fala de mais e nem sempre me lembro de tudo que ela diz, pode ser que esta seja a regra principal. Pode ser que aquela outraseja a regra principal.)

A outra regra (Acho que é esta a principal, tenho quase certeza) é que só conversaríamos o essencial. E eu concordei com isso, claro que sim. Ela era tão insuportável. Mas ela mesma quebrava esta regra o tempo todo e e eu me perguntava se o problema dela era com a noção de regra ou com a noção de essencial. Ela falava por horas. Incansavelmente. Sobre quadribol, sobre os tempos de Hogwarts, sobre Potter (e era aí que eu tinha vontade de esfregar na cara dela que ela quebrava mais as regras do que eu) sobre as músicas bruxas, sobre cantores trouxas e suas músicas (e as cantarolava desafinada, mais fazia uma dancinha graciosa para acompanhá-las), sobre os irmãos, sobre o que faria quando os encontrasse (eu queria dizer que a frase mais correta seria "se os encontrasse", mas a cabeça dela estava pousada no meu ombro quando ela disse isso, então eu escolhi a paz, tão rara). Eu acho que o problema não era com a noção de essencial. Afinal, nós éramos os únicos seres humanos que sabíamos que estavam vivos. Bem, os únicos além daqueles outros que queriam comer nossas tripas, então acabava que aquele realmente era o essencial, embora ela sentisse mais necessidade de falar do que eu. E eu também sentia falta de alguém. Meus pais, mortos. Astória, transformada em Zumbi. Blaise, Pansy e Theodore, todos deixaram o país quando tudo começou e eu não tenho mais notícias deles. Ginny, a menina que me salvou dando um tiro que passou a um centímetro da minha orelha esquerda, mas acertou em cheio na cabeça do zumbi que me perseguia era a minha única companhia, e creio que por isso que eu me encantei por ela. Não havia ninguém mais, só ela. E de repente, ela parecia ser tudo de que eu precisava. (E pergunto se sem esse apocalipse zumbi eu seria capaz de admitir isso, ou sequer me aproximar dela e perceber a pessoa maravilhosa que ela é. E acho que a resposta é não. Porque eu sou muito tapado, pelo que será visto a seguir.)

Nós havíamos brigado. Porque eu disse que gostava dela mais do que imaginava que poderia gostar. Ela ficou feliz em saber e eu, inconsciente e instintivamente fiz o que meu corpo me obrigou a fazer. Pus a mão no peito dela. Foi um acidente, ou pelo menos poderia passar por um, se ela acreditasse na minha justificativa. Eu estava carente, há meses sem sexo e ela era o único ser humano que eu comeria (no sentido figurado) sem acabar sendo comido (no sentido literal). Ela se ofendeu, é claro. Falou que eu estava dizendo, nas entrelinhas que ela era feia ou chata ou as duas coisas e eu só estava a fim dela porque ela era a última mulher do mundo. Então eu piorei as coisas e disse que ela só estava se estressando desse jeito porque não transava a muito tempo também. E aí ela saiu pisando duro e foi para longe da caminhonete e da fogueira, que espantava os zumbis. E ficou por lá por muito tempo. Eu não queria admitir que estava errado e ir atrás dela pedindo perdão (deixando ir por água abaixo todas as minhas justificativas que poderiam ser sim, muito plausíveis). Só esperava que ela não tivesse ido embora para sempre, rezando para que ela não fosse louca o suficiente para sair num mundo cheio de zumbis famintos sem uma arma, sem fogo, sem um carro, sem comida, e pior, me deixando pra trás, sozinho.
Então, ouvi o grito dela. E num impulso que ia contra meu instinto de sobrevivencia, pulei no banco do motorista e dei a partida. Dirigi mal e porcamente, porque ela ainda não se convencera de que eu podia dirigir, e estava me ensinando aos poucos, talvez até mesmo para ter o gosto de dirigir por ela mesmo. Fui em direção aos gritos dela. Ela estava sentada no galho de uma árvore tentando ir mais para o alto, e havia uns quinze zumbis tentando pegar a perna dela. Não hesitei: passei com o carro por cima deles, atropelei a maioria, mas como ela bem me ensinara, não é o suficiente. Agarrei o revólver no console do carro e atirei em todos que alcancei, na cabeça. Minha mira era boa, graças ao que Ginny me ensinou e então eu fiquei com metade do meu corpo para fora e atirei nos que havia atropelado. Parei o carro embaixo de onde ela estava. Ela pulou sobre o carro e passei uma espingarda para que ela pudesse atirar nos que ainda faltavam. Pela janela fui para o alto do carro também e atirei nos zumbis que ela ainda não tinha derrubado. Os monstros derrotados, houve silencio. Eu olhei para ela e fiz a única coisa que me cabia fazer naquele momento: a beijei. Ela me beijou de volta com tanta vontade, e fomos para a parte de trás da caminhonete e aí vocês sabem o que aconteceu. Só existíamos nós dois no mundo, afinal.

Depois de fazer nossa parte para tentar repovoar o mundo de humanos saudáveis e não-canibais, ela apoiou a cabeça no meu ombro, e, num momento de rara paz, tão rara. E me disse: "Você tinha razão, eu precisava disso." Ela deve ter percebido meu sorriso cínico de vencedor e, espero eu que, só por isso, ela acrescentou: "Mas foi só porque você era o último homem do mundo".