APENAS AMIGOS?
por Nina Neviani
Capítulo IV
20 de abril...
Mais um "parabéns pra você!".
Para a June, que fez aniversário três dias atrás.
Outro "parabéns pra você!".
Aniversário da Shunrei. Que é hoje mesmo.
Estamos todos na casa do casal Suiyama. Ou melhor, estamos quase todos aqui.
Adivinhe que não está?
Bingo: Ikki Amamiya.
Será que ele vai chegar mais tarde e levar a June e a Shunrei pra cama, como fez comigo?
Acho que não. Afinal, elas têm homens lindos e maravilhosos para protegê-las. E mesmo Ikki sendo um cretino, ele não chegaria ao ponto de levar a cunhada para cama. Assim como também não levaria uma mulher casada.
Aconteceu comigo, provavelmente, porque eu não tenho nenhum namorado lindo e maravilhoso para me proteger. Estava completamente encalhada, e ainda continuo assim, e talvez ele tivesse sentido pena de mim por estar naquele estado, justamente no dia do meu aniversário e resolveu fazer um gesto de caridade.
E que caridade!
No entanto, quando eu acordei, na manha seguinte, ele não estava mais lá. Assim, como não estava lá nenhum bilhete também.
Afinal, o que eu queria? Um buquê de rosas?
Impossível, estou falando de Ikki Amamiya.
Ikki Amamiya, aquele que faz a mulher ter a melhor noite da sua vida e depois some do mapa. Não que eu tenha tentado entrar em contato com ele, óbvio! Ainda tenho o meu orgulho. Mas o fato do Ikki não estar ali, naquela reunião, podia ser tomado como um exemplo do distanciamento que ele estava tentando impor. Tudo bem que isso é apenas uma suposição da minha mente insana, mas eu acho que pode ter um fundo de verdade.
– Não adianta nada você ficar aí criando mil hipóteses para a ausência dele, Minu.
Não, não era a voz da minha consciência, embora se assemelhasse muito a ela. Era a minha fiel amiga Eire. Ela era a única pessoa para quem eu tinha contado sobre a visita do Ikki no dia do meu aniversário. E só contei só depois de ela ter jurado uma centena de vezes de que não contaria pra ninguém.
– E o que você sugere que eu faça?
Falei no mesmo tom baixo que ela falara, mesmo com todos entretidos na conversa principal, era melhor não correr o risco de alguém mais saber.
– Vá até a casa dele e pergunte se a ausência dele aqui está relacionada com... com você sabe o que!
– Você sabe que eu tenho vergonha! E se pra ele foi insignificante?
– Eu duvido muito! Já disse milhões de vezes que você se subestima, Minu. E quanto a vergonha... O que é melhor? Passar vergonha por, no máximo, cinco minutos ou continuar como você está por sabe-se lá quanto tempo? Horas, dias, semanas, meses...
– Tá bom, Eire!
Ops! Esqueci de falar baixo e agora todos olhavam pra mim e pra Eire.
– Não, é nada pessoal. Só que a Minu está com muita dor de cabeça, mas não quer sair tão cedo pra não magoar a Shunrei e a June.
Quantos anos será que uma pessoa passa na cadeia depois de enforcar a sua melhor amiga?
Poderia perguntar para o Hyoga, mas a amiga em questão era a namorada dele.
– Minu, querida! Não se preocupe conosco! Vá para casa descansar.
Era June, meiga como sempre.
– Claro, Minu. – Shunrei apoiava. – Faz tempo que você está se sentindo assim?
Ótimo! Eire esqueceu que ali estavam presentes um médico e uma enfermeira.
– Não, é que hoje foi um dia bastante complicado no Jornal.
O que não era mentira.
– Ah, sim. Mas se você piorar, nos ligue, sim?
Shunrei, definitivamente, era um amor.
– Viu, Minu! Não falei pra você que elas não iam achar ruim!
– Você está em condições de dirigir, Minu? Se não o Seiya pode te levar em casa.
Era Saori, que desde o anúncio do seu noivado estava se tornando realmente minha amiga.
– Não precisa, está tudo bem. Obrigada.
Despedi-me de todos, e vi o quanto eu tinha sorte de ter amigos tão maravilhosos. Se fosse eu que tivesse inventado aquela mentira teria me sentido muito mal, com a preocupação genuína dos meus amigos, mas como foi Eire, eu senti apenas um pequeno desconforto. Ah, era só uma pequena mentirinha!
E a minha melhor amiga, antes de eu sair me lembrou da razão pela qual eu estava saindo mais cedo. De onde ela estava sentada, movimentou a boca para que eu pudesse fazer leitura labial das seguintes palavras:
"Vai-pra-casa-dele! Senão-eu-te-mato". E passou o dedo indicador pelo seu próprio pescoço, para dar mais veracidade a sua ameaça.
É para isso que servem as melhores amigas!
Quase meia hora depois eu chegava ao edifício no qual Ikki morava. Involuntariamente me lembrei do episódio que ocorrera há mais de um mês. A carona do Ikki. E, lógico, me lembrei do beijo que aconteceu em seguida.
Suspirei, e decidi que ficar ali parada dentro do carro relembrando o quanto ele beijava bem não iria adiantar de nada.
Subindo as escadas tentei não dar importância ao fato de as minhas pernas estarem tremendo.
"Isso não tem nada a ver com ele! É apenas porque eu sou uma sedentária e não estou acostumada a subir escadas! Ou seja, nada tem a ver com ele!"
Eu falava baixinho enquanto subia as escadas. Entretanto, quando cheguei ao andar dele fiquei sem fala.
Ikki Amamiya se despedia de uma morena com um corpo, que parecia ter saído da capa de uma revista masculina, muito mal escondido por um minúsculo vestido.
Estava dando meia-volta discretamente quando ouvi.
– Minu?
Tudo bem, talvez eu não tenha sido tão discreta assim.
– Ikki! Não sabia que você estava ocupado, outra hora a gente conversa. Não era nada de muito importante!
A morena me olhou estranho antes de dizer.
– Tudo bem, eu já estava de saída.
E olhando com quase adoração pro Ikki, disse.
– Quando quiser, ligue.
E qual seria a pena por estrangular a atrevida que dá em cima do cara pelo qual você é apaixonada?
Ok, estrangular seria muito forte.
Que tal apenas deixar, acidentalmente, o pé na frente do dela, para que ela, acidentalmente, rolasse escada abaixo?
Não, não. Enquanto eu apodrecesse na cadeia Ikki continuaria saindo com outras mulheres voluptuosas.
– Entre, Minu.
O apartamento do Ikki era a versão perfeita do apartamento de um conquistador. Um bar muito bem abastecido, um aparelho de som de última geração, móveis caros e modernos, réplicas de carros por vários lugares.
– A que devo a honra da sua visita, Minu?
– E porque não tivemos a sua honrosa presença na comemoração dos aniversários da June e da Shunrei?
Isso, Minu! Um a zero pra mim!
Ikki sem resposta.
Dois a zero pra mim!
– É por esse motivo que você deve a honra da minha presença, Ikki.
– E que motivo seria esse?
– O que aconteceu entre a gente há quinze dias.
– Vem contando os dias, Minu?
Dois a um.
– Será que você não consegue conversar dez minutos sem ser sarcástico, Ikki?
– Tudo bem, vamos conversar sério, então. Sente-se.
Ele apontou o sofá de couro.
A imagem que me veio à cabeça foi a daquela morena se insinuando para o Ikki naquele sofá. Contudo, sentei.
– Quer beber alguma coisa?
– Não, obrigada.
Estava realmente começando a ter aquela dor de cabeça que Eire inventou. Talvez fosse castigo. Ele levantou aquela arrogante sobrancelha.
– O quê? Minu Setsuna rejeitando álcool?
Apenas revirei meus olhos, e ele logo disse.
– Tudo bem. Sem provocações. Vamos ter a nossa conversa civilizada. Pode começar.
Era mais difícil do que eu pensava.
– Ikki... Eu e você nos conhecemos há mais de dez anos, e conhecemos o Seiya, o Shun e o Shiryu desde esse tempo também.
– Eu conheço o Shun há mais tempo. Não se esqueça que ele é meu irmão.
– Ok! Eu vou embora. Se você não quiser mais aparecer, não apareça! O problema é seu! Estou pouco me importando!
Agora assim eu tenho o exemplo de uma grande mentira!
Eu já estava em pé. E Ikki, também.
– Certo, Minu. Não falarei mais nada sem você mandar. De verdade.
Respirei fundo. Voltamos a nos sentar.
– O que eu estou tentando dizer, Ikki. É que não acho que seja certo que você se afaste dos seus amigos, só porque nós passamos uma noite juntos.
Sem dúvida, hoje eu estou me superando! Pareço uma mulher moderna que nunca sonhou em passar uma noite com Ikki. Ou seja, parecia qualquer mulher do mundo, menos eu.
Ikki não falava nada.
Ah, chega de marcar pontos!
Continuei a falar.
– Você é tão amigo deles quanto eu. Não seria justo que eu continuasse com a amizade deles e você não.
– Eu, entendo, Minu. E concordo com você. Apenas achei que talvez você... Bem, de qualquer forma, está bem assim.
– Que bom que você concordou.
Após um pequeno momento de silêncio, Ikki voltou a falar.
– E então mais nenhum anúncio de noivado dessa vez?
O verdadeiro Ikki Amamiya estava de volta!
– Não, Ikki. Nenhum anúncio de noivado.
– E você, Minu? Continua solteira?
– Sim. Ainda não conheci o homem ideal.
O que não era mentira. Ikki não era o homem ideal, era apenas o perfeito pra mim. Uma pena que ele ainda não se deu conta disso...
– E você? Quem é a vítima da vez?
Vendo a cara que ele fez, percebi que me expressei mal. Se bem que algumas mulheres adorariam ser vítimas dele. Eu, por exemplo. E aquela amiguinha dele, também.
– Desculpe-me, não usei a palavra correta.
– O fato é que atualmente não tenho nenhuma vítima. Percebi que logo faço vinte e oito anos e está na hora de eu encontrar uma companheira estável para daqui algum tempo me casar.
Eu ia falar alguma coisa, mas me engasguei com a minha própria fala e começou uma crise de tosse.
– Tudo bem, Minu?
Fiz que "sim", e quando consegui fôlego para falar novamente perguntei.
– Você está apaixonado?
– Sim. Acho que sim.
Para registros futuros:
20 de abril de 2006: o pior dia da vida de Minu Setsuna. O dia em que ela percebeu que suas chances estavam decididamente encerradas com Ikki Amamiya.
– Pela Esmeralda?
– Não, não. Esmeralda é só uma amiga. Foi um alívio quando ela me disse que tinha reencontrado o "amor da vida dela". Acho que nós dois confundimos as coisas.
– Hum, sim. Não me diga que é aquela morena que acabou de sair daqui?
– Também, não. Pandora é só uma grande amiga.
Será que Ikki Amamiya é ingênuo e não enxergou que essa tal de Pandora quer ser muito mais que uma grande amiga?
– Sim, essa sua amada, seja lá quem ela for, não está com você, por quê? Não me diga que ela te chutou também?
Aquele tão famoso sorriso cínico ganhou vida, antes de seu dono responder.
– Não, Minu. Eu, ao contrário de algumas pessoas, não sou chutado. E ela não está comigo porque ela ainda não sabe o que eu sinto por ela.
Quanto tempo será que eu ainda agüentaria sem chorar de frustração?
– E por que você não conta pra ela?
– É que eu desconfio que ela goste de outra pessoa.
Conheço bem essa história.
– Quem eu amo não me quer. É até com você, Ikki Amamiya? Mas por que você não diz o que sente pra essa mulher?
– É, estou pensando em fazer isso.
– Faça.
Nunca pensei que incentivaria Ikki Amamiya a se declarar para outra mulher. Bom, mas tinha o lado bom. Quanto antes ele se declarasse, antes ela daria um possível fora nele, e antes ele estaria triste e precisando ser consolado. Então, eu entraria em ação.
Não, sonhe, Minu! Ninguém em sã consciência dispensaria Ikki Amamiya.
– Bom, mas agora eu vou pra casa. Fico feliz em ver que tudo foi acertado. Até a próxima reunião.
Ele me acompanhou até a porta.
– Até.
Deu-me um rápido beijo no rosto, e disse.
– Obrigado pelo conselho. Eu o seguirei.
Continua...
Revisado em 27/01/2010.
