Capítulo 04 – Mulher Gato
Ela sempre foi duas.
A consciência que ela tinha dela mesma era muito diferente da imagem que ela passava para o mundo – ela sempre soube disso. Ela era a menina patética e doente que dependia de remédios e não conseguia terminar um mês de aula sem ter um ataque no meio da sala, ela não podia negar que era isso, estava nos comentários de todos, nos vídeos na internet, nas roupas que tinha que usar para não se machucar. Ela tentou ignorar, ela tentava fingir que estava tudo bem, mas ela sabia que ela nunca deixaria de ser isso.
Mas então ele surgiu, no hospital, como se fosse o único lugar no mundo em que ela poderia ser encontrada para conversarem com segurança. Ele a olhou como se isso não fosse importante. Ele a via. Ele a via do jeito que ela se via. Ele olhava para a menina doente e sabia que havia tão mais ali.
E ele a beijou como nenhum homem havia feito até então, e a mordeu, e então ela surgiu, como em seus sonhos, como em seus delírios enquanto se olhava no espelho vendo seu corpo mudar durante a adolescência: surgiu a Erica que somente ela sabia que existia até Derek olhar para ela. A Erica que era loira e alta e linda como ninguém nunca havia reparado. A Erica que podia vestir a roupa que queria vestir e andar como alguém que sabe o quanto sua presença mexe com as pessoas. A Erica que não tinha medo de responder às perguntas de professores porque agora a sua voz tinha firmeza o suficiente, a Erica que podia olhar nos olhos do menino que amou por anos e dizer que gosta dele e que ele é um bom Batman para a Catwoman. A Erica que tinha domínio sobre o seu corpo e podia usá-lo para o que quisesse.
Mesmo para se transformar em um lobisomem.
E ela não esperava a dor, mas não se importava, porque ela estava acostumada a ela. Ela não esperava o risco e as ordens, e ela queria viver e ser livre como sentia que poderia ser, como sentia que sempre quis ser e nunca pode, e tudo isso a angustiou por muito tempo e por muitas vezes ela tentou fugir, mesmo duvidando de que conseguiria sobreviver, até entender que ter pessoas por perto que a enxergavam como Derek ou Stiles a viam, e ser admirada por tudo o que ela era, se tornou algo mais importante do que ser simplesmente livre.
Porque sua principal transformação, aquela que a lua lhe deu mês após mês, em uma construção contínua, foi somente ela virando-se em si mesma.
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