Inverno

Antes da ida a Hogsmeade, Goyle achava que as coisas não poderiam ficar piores do que já estavam. Lá, na Casa dos Gritos, ele descobriu que estava enganado.

Depois de flagar Vincent com aquela garota, ele voltou para a acolhedora masmorra da Sonserina e se preparou para partir no dia seguinte, para passar o feriado de Natal com seus pais. Crabbe chegou logo depois dele e tentou conversar. Mas foi inútil.

- Cara, você sabe qual é a minha. Sempre soube.

Sliêncio.

- Olha, eu juro que não queria que fosse assim. Eu não te falei porque não queria que você ficasse chateado, tá legal? Só por isso – continuou Crabbe. – Como eu ia adivinhar que você ia aparecer lá na Casa dos Gritos? O que você foi fazer lá?

Mais silêncio. Crabbe insistiu pela última vez.

- Greg – ele falou baixinho, se aproximando e tocando o ombro do amigo. – Por favor, Greg, me escuta...

Goyle pegou a mão dele e aproximou do rosto. Depois a largou com cara de desdém.

- Você ainda tá com o cheiro da buceta daquela menina nos dedos, Crabbe. Me faz um favor: sai daqui, vai lavar a mão e finge que eu morri, tá legal?

Atônito, Vincent observou o colega abandonar o quarto enquanto cheirava, em seus próprios dedos, a intimidade da garota com quem estivera há pouco.


O feriado de natal foi miserável para ambos. Poucos metros os separavam, mas eram como se fossem anos-luz. Crabbe já tentara se aproximar, ele achava que havia feito a sua parte. Goyle não conseguia suportar a visão de Crabbe agarrando a garota, que voltava à sua mente o tempo todo. Durante os festejos, ambos beberam mais do que deviam, cada um em sua casa, e foram dormir cedo. Da janela do quarto, Gregory observava as luzes acesas na casa dos Crabbe, enquanto Vincent, em seu quarto, ouvia os ruídos de festa que vinham da casa dos Goyle.

Finalmente o estúpido feriado acabara, sem que Vincent e Gregory se aproximassem ou trocassem palavras. Cada um dos rapazes esperava que o outro fosse mais razoável no próximo ano, para que pudessem se reaproximar. Mas a natureza humana é tão mesquinha a ponto de permitir que ambos ficassem frustrados quando, logo no primeiro dia de aula do ano novo, viram que nenhum dos dois tentaria nova reaproximação.

Crabbe chegou primeiro na escola. Ele se instalou em uma grande poltrona de veludo verde, perto da porta da masmorra, e ficou esperando por Greg. Quando ele entrou, ainda mais redondo do que de costume, Draco não perdeu a chance de fazer uma piada, levando todos os outros sonserinos às gargalhadas, às custas do aspecto inchado do colega. Goyle não respondeu nada, só olhou friamente para Vincent. Este, na poltrona, sentiu o sangue subir e as orelhas esquentarem. Ele até queria defender o amigo, mas jamais se exporia ao ridículo na frente de todos os colegas. Não enquanto corresse o risco de, além de parecer um idiota, ainda levar um fora do Greg, que estava de mau humor o tempo todo. Então, não recebendo nenhuma manifestação a seu favor, Goyle deu as costas aos colegas e foi para o dormitório.

O ano letivo continuou, agradável para os partidários de Voldemort, aterrorizante para todos os demais. Não havia mais nenhum aluno nascido trouxa na escola, e mesmo os mestiços temiam ser castigados por nada a cada passo.

Na sala de aula, Crabbe e Goyle continuavam sentando perto de Draco, mas a amizade que unira o trio durante os seis anos anteriores parecia irremediavelmente arruinada. Draco sabia que não estava em bons lençóis, apesar de ser sonserino e do sangue puro dos Malfoy que corria em suas veias. Os dois mal falavam com ele, deixando o rapaz mais preocupado a cada dia. Entretanto, eles também não estavam conversando muito entre si, e Draco não conseguia entender o motivo, embora não passasse muito tempo tentando.


- As coisas não podem continuar assim, Goyle. Você precisa de apoio – comentou Mme. Pomfrey, olhando penalizada para a garota gordinha deitada no leito privativo da ala hospitalar. – O que vocês fizeram foi muito sério, tem uma criancinha vindo por aí. Agora vocês precisam fazer as pazes, parar com essa briga, porque depois que o bebê nascer, as coisas ainda vão piorar muito.

Goyle fungou. Mensalmente, ele ia até a ala hospitalar e, atrás da cortina que mantinha um leito privativo separado dos demais, se transformava em garota para ser examinado pela enfermeira. Mme. Pomfrey havia concordado em manter seu segredo, pois ele a fizera acreditar que seria expulso de casa e da escola se mais alguém soubesse, o que talvez acontecesse de verdade. Goyle não fazia idéia do que o diretor Snape faria se soubesse. E seus pais? Eles certamente arrancariam sua pele!

- Eu sei, madame – ele respondeu, com a voz fina de garota soando estranha aos seus ouvidos. – Mas o que eu posso fazer se ele não vem falar comigo? Eu já me humilhei tanto...

A enfermeira tentava consolar a garota como podia. Em todos os seus anos, nunca se vira em uma situação tão complicada. Se ao menos o diretor fosse o bom e velho Dumbledore, ao invés daquele arrogante Snape que agora ocupava o lugar... Dumbledore saberia o que fazer para consertar aquela situação e ela não precisaria ficar ali, explicando ao jovem Goyle como funcionava a cabeça de uma mulher.

- Sr... Srta. Goyle, a criança precisa de um pai, concorda? Seria bom se vocês conseguissem fazer as pazes. Faça um pequeno esforço, tenho certeza que ele seria receptivo. Afinal, o bebê também é dele!

Goyle olhou para ela desanimado. Não procuraria Crabbe. Ponto. E não importava a opinião daquela cretina amiga de sangues-ruins. Será que a Pomfrey achava que ele estava feliz com aquela situação? Claro que não estava. Mas não iria atrás dele. Já havia feito demais por seu amor, mas ele claramente não estava interessado. Quantas vezes mais teria que ouvir Vince dizendo que gostava de garotas? Como poderia passar a vida ao lado dele, achando que a qualquer momento seria trocado? E a criança que se danasse. Ele provavelmente daria aquela peste para a adoção assim que saísse de dentro de seu corpo, e nem se interessaria em saber para quem. Goyle simplesmente desejava que a criança nascesse, que o ano letivo acabasse logo, que todo aquele pesadelo chegasse ao fim. Ele então voltaria para casa, pediria ao Lorde um emprego bem longe, talvez na Normandia, e nunca mais veria a carranca de Vince novamente.

A enfermeira terminou os exames habituais. Era a sexta vez que repetiam aqueles procedimentos.

- Apesar de todas essas emoções negativas e das constantes transfigurações, a criança está muito bem, Srta. Goyle. Pode ficar aí descansando mais um pouco, se quiser, e nos veremos novamente no mês que vem. E não se esqueça, qualquer dor mais súbita em seu... ventre, venha para cá correndo.

Goyle fitou o teto demoradamente. Aqueles exames eram um saco, como as garotas suportavam ser analisadas assim? Devia ser por isso que as mães eram tão chatas, depois de ter um medibruxo remexendo suas entranhas daquele jeito durante nove meses.


Já era abril, o inverno havia terminado. Goyle andava cada vez mais cansado, impaciente e letárgico. Qualquer atividade física o deixava exausto. Os colegas passavam horas zombando de sua barriga protuberante, acreditando ser apenas gordura e escondendo os pratos quando ele passava, nos horários de refeições. Ele achava aquelas atitudes extremamente irritantes e uma vez, contando para Mme. Pomfrey durante um dos exames em que estava transfigurado, Goyle chegou a se debulhar em lágrimas sentidas e, quanto mais tentava fazê-las parar, mais elas se derramavam, escorrendo por sua face gorducha.

Crabbe nunca falava nada para defendê-lo. Tampouco o ofendia. Os outros falavam, apontavam e riam, enquanto Vincent permanecia de canto, sério, como se não estivesse entendendo a brincadeira, ou como se não fosse com ele. Um dia, aborrecido e com dor nas pernas depois de descer escadas ao longo de quatro andares do castelo, Goyle virou-se para o sonserino mais próximo durante o almoço, apontou a varinha e disse calmamente:

- Imperius – e o rapaz ficou imediatamente inerte, com o olhar fixo em algum lugar no horizonte. Na mesa principal, alguns professores se levantaram indignados, mas os irmãos Carrow pareciam agradavelmente surpresos. Goyle então deu a ordem: - Vá bater a cabeça na parede até desmaiar.

Foi uma única pancada seca antes que qualquer pessoa conseguisse segurar o pobre aluno. O rapaz caiu para trás com sangue empapando seus cabelos cor de rato. Não era a primeira ou a segunda vez que Goyle lançava uma maldição imperdoável sobre um dos colegas, mas certamente foi a que ele mais sentiu prazer. O rapaz nem havia falado nada, foi algo totalmente gratuito.

Algumas pessoas se levantaram da mesa, Nott chegou mesmo a avançar em sua direção. Goyle apontou a varinha para ele e comentou, calmamente:

- O próximo imbecil que zombar de mim ou da minha barriga vai se arrepender.

Sua voz fria não deixou dúvidas: ele não estava brincando. Sua paciência estava no limite.