Saint Seiya não me pertence. Eu só escrevo para ganhar o meu dia e, eventualmente, o de outras pessoas também.
A intenção desta fanfic é destacar o afeto entre os protagonistas: dois caras. Não gosta, é contra e tem pavor? Que bom que não escrevi para você. Pode sair daqui, ninguém vai te obrigar a ler, não. No hard feelings, sério.
Pessoal, acrescentei um toque meu na história do tio Kurumada: além de ser competente, um cavaleiro só é ordenado como tal quando se sentir merecedor do título. Isso é algo pessoal que cada cavaleiro tem de descobrir por si mesmo. É só um modo que encontrei de tentar fazer parecer menos aleatórias as idades com que cada um dos dourados se firmaram em seus postos oficiais. Espero que não comprometa a história como vocês a conhecem. Tentei não mexer muito nisso, though. Vejam aí!
Enjoy your flight!
Muito satisfeito consigo mesmo, Shura deixou o colega e partiu escadaria acima. Teria de comunicar Aiolos e Ares, o assistente do Mestre, sobre as mudanças que implicaria a troca de turnos. Era provável que Saga ainda não houvesse retornado da missão a que fora indicado, o que significava ter de cobri-lo naquele mesmo dia, e talvez nas próximas três tardes também, se Aiolos não pudesse ajudá-lo. Shura suprimiu um suspiro. Aquilo ia lhe dar muito trabalho por um tempo, mas não se arrependia da decisão que tomara. Tinha certeza de que ajudaria Carlo a se reintegrar à convivência social daquela forma, nem que fosse apenas um pouquinho.
A mera Ideia de que um incidente grave pudesse ocorrer novamente sob sua supervisão já o deixava ansioso. Não permitiria, em hipótese alguma, que qualquer coisa parecida acontecesse novamente. Para isso, teria de manter um olho no italiano sempre. Ou até que ele começasse a mudar o comportamento.
Ante esse pensamento, Shura deixou escapar aquele suspiro reprimido. Retomou vagarosamente sua caminhada rumo à casa do Grande Mestre.
- Um longo caminho pela frente até isso acontecer – concluiu, com pesar.
- Do que é que você está reclamando tão cedo, Shura? – o espanhol ouviu a voz vinda atrás de si e virou-se para encarar seu dono.
- É você, Aldebaran – Shura abriu um pequeno sorriso – Também tem que subir?
O outro deu de ombros, retribuindo o sorriso.
- Um pouco de exercício não faz mal a ninguém. Vi que você saiu da casa de câncer. Carlo ainda está irritado com a vida?
Shura esperou que o colega o alcançasse para retomar a subida ao lado dele.
- Não fala assim. Ele está bem menos irritado do que de costume, na verdade.
- É mesmo? Veja só! – Aldebaran riu com gosto – Acho que ninguém consegue falar com ele e sair ileso pra contar a história se não for você, Shura. Qual é a sua tática?
De fato, Aldebaran estava frustrado por não conseguir ganhar a simpatia de todos os seus companheiros. Era do tipo muito amigável e Shura sentia que ele realmente estava disposto a ser amigo de Carlo um dia.
- Não é bem assim... – disse, o sorriso se tornando apenas um esboço em seu semblante – Eu não sou o único que consegue: o Afrodite se dá muito bem com ele.
"Eu estou triste...?", Shura se apanhou pensando. Sacudiu a cabeça vigorosamente antes de continuar, em tom mais animado.
- Mas as coisas vão melhorar pra ele. Hoje à tarde vamos mudar o esquema de treinamento dele. Pouco a pouco, nós vamos notar a diferença, você vai ver.
Shura não sabia dizer por que, mas sentia que isso era mais do que possível – era questão de tempo. É claro que nem todo mundo iria simpatizar com o italiano de qualquer maneira. Certos traços de sua personalidade não mudariam, e talvez eles fossem mais do que muitos poderiam agüentar. "Por outro lado", pensou Shura, olhando de esguelha para o cavaleiro ao seu lado, "foi só falar pro Aldebaran que ele já ficou animado pra te conhecer melhor, Carlo".
- Bom, então eu faço questão de aparecer mais tarde lá na arena. Quero ver para crer! – desafiou Aldebaran, soltando mais uma de suas famosas gargalhadas...
Shura conhecia muito pouco sobre Aldebaran, apesar de apreciar sua companhia todas as vezes que o encontrava no santuário. Todos diziam que havia apenas dois cavaleiros dourados inigualáveis em força física: um deles era Shura, que não era propriamente mais forte que os demais companheiros, apenas mais habilidoso no combate corpo a corpo. O outro cavaleiro, e esse sim dono de uma imensa força física, era Aldebaran.
E apesar da fama, Aldebaran não era o tipo de grandão intimidador. Normalmente, todas as pessoas com quem ele falava acabaçam gostando muito dele, e vários servos já o consideravam seu cavaleiro favorito. Ter sofrido tanto ao longo dos seus poucos anos de vida e ainda assim ser capaz de ser tão gentil com todos era algo que Shura sempre admirou em seus companheiros, inclusive em Aiolos.
- Então você está indo visitar alguém lá em cima? – perguntou, curioso.
Aldebaran parecia um tanto embaraçado.
- Mais ou menos. Estou indo ver o Grande Mestre.
- Aconteceu alguma coisa? – indagou o espanhol, que nos últimos dias só havia se dirigido ao Grande Mestre para tratar de más notícias.
- Ah, dessa vez não, ainda bem – Aldebaran comentou displicentemente – hoje eu queria falar de algo mais pessoal.
"Uau", pensou Shura espantado, "Não me diga que ele...?"
- Eu já estou pronto para partir numa missão como o verdadeiro cavaleiro de touro do Santuário – completou, encarando o amigo com seriedade.
Shura estacou instantaneamente. Aquilo era formidável! Aldebaran acabara de lhe dizer que já poderia se tornar o mais novo cavaleiro de touro das últimas gerações e solicitar o título de guardião de Atena oficialmente! O garoto estava sem palavras, tamanho o seu arrebatamento.
- Aldebaran, eu nem sei o que dizer...
O mencionado cavaleiro riu muito alto e Shura teve um sobressalto.
- É engraçado, na verdade. Eu decidi essa manhã. Estava apenas treinando quando finalmente me dei conta de que queria começar já. Imagino que a única coisa que falta para eu já sair daqui ajudando as pessoas é a autorização do Mestre pra vestir a armadura.
Os dois continuaram conversando sobre os motivos que Aldebaran encontrara para continuar elevando seu cosmo infinitamente até que atingiram a casa de sagitário. Lá eles se separaram, e Shura percorreu a entrada da casa com o olhar, em busca de Aiolos. "Um dia, eu também vou encontrar a minha razão de ser cavaleiro", Shura pensou, decidido, "E quando isso acontecer, eu serei um dos mais honrados cavaleiros de Atena, Aiolos".
Shura não sabia o que esperar daquela tarde, mas pensava que ao menos Carlo viria. Já era hora de iniciar os treinos vespertinos e todos os aprendizes e cavaleiros escalados para aquela sessão já estavam presentes e se aquecendo, com uma ressalva. Carlo ainda não aparecera. Shura estava ficando mais frustrado a cada segundo que se passava: não poderia esperar mais. Era hora de dar início às atividades. Carlo de fato jogara fora a sua última chance.
- Por que é que você parece tão angustiado? – Shura reconheceu a voz maliciosa do italiano às suas costas.
O garoto se recuperou do susto a tempo de não deixar transparecer que fora pego desprevenido. Como é que Carlo conseguia aparecer tão de repente, sem que ele pudesse perceber? Ignorando o riso debochado do outro, disse:
- Finalmente! Vamos começar logo com isso.
Muito mais aliviado, Shura iniciou as atividades. Tudo corria muito bem, o que era algo admirável, considerando-se os acontecimentos recentes. Se tudo aquilo terminasse tranquilamente, estaria muito satisfeito. Decorridos longas duas horas, ele parou o que estava fazendo e ergueu a voz.
- Hora do combate físico. Vocês têm até o final da sessão pra praticar com um companheiro a agilidade, a precisão e a força dos golpes – anunciou o garoto, enxugando o suor da testa com as costas da luva – Nada de bater até a morte. Não é pra exagerar, ouviram?
Os jovens começaram a se separar em duplas e logo iniciaram seus combates individuais. Carlo, entretanto, veio em direção ao seu supervisor.
- Você sempre faz essa recomendação ou só começou a fazer depois que eu cheguei aqui? – perguntou ele, sorrindo maroto e se colocando em posição de luta.
- Eu sempre fiz – Shura disse, imitando a atitude do oponente, com um sorriso no rosto – Você pode não acreditar, mas tem vários cavaleiros aqui que parecem querer as cabeças uns dos outros quando entram na arena.
Essa foi a deixa para ambos avançarem, tentando atingir o adversário. Num piscar de olhos, eles se enfrentavam numa longa luta técnica, mas intensa, em que o menor erro poderia significar alguns ossos partidos, na melhor das hipóteses.
"Carlo é muito rápido", Shura analisou, "Consegue se esquivar dos meus golpes com facilidade! É como se conseguisse ler minha mente e prever os meus ataques". O que era um feito memorável, uma vez que eram poucos os que conseguiam manter o ritmo de luta agressivo do espanhol.
O braço direito de Shura mirava o estômago do italiano, mas foi bloqueado pelo antebraço deste a tempo. Surpreso, Shura protegeu a cabeça, pronto para receber o impacto do chute de Carlo, que chegou com atraso. "Ele demora mais para contra-atacar. É aí que está sua falha, Carlo! E eu vou expô-la agora!"
Por um milésimo de segundo, a visão de Shura se anuviou e ele não pôde se mover. No instante seguinte, seu corpo flutuava no ar, arremessado com força contra o chão. Shura mal conseguia ouvir as pessoas que se reuniram à volta deles exclamarem de surpresa: um zumbido incômodo ecoava em seus ouvidos.
Ele se apoiou sobre um cotovelo, sentindo a cabeça rodar. Atordoado, o garoto percebeu que era puxado pela gola de seu uniforme, mas não encontrou forças para se desvencilhar. Piscou algumas vezes e finalmente conseguiu discernir os olhos acobreados de Carlo, que sorria atroz.
- Você trapaceou – disse entre-dentes, recobrando um pouco do domínio sobre seu corpo e levando uma das mãos ao braço que o segurava – Usou suas habilidades psíquicas num combate físico!
Carlo aproximou o rosto do dele, ainda sustentando aquele sorriso cruel.
- Eu não trapaceei – disse, a voz suave – Só usei minha especialidade pra vencer a sua. Não é justo que você possa abusar do seu estilo de luta num combate e o seu adversário não possa, não é mesmo?
Shura desviou o olhar, estarrecido. O argumento do colega era válido, mas por Atena!, numa luta real, quem sabe: aquilo era só um treino! Ouviu a voz de Shaka, perguntando se ele estava bem, e então reparou que todos os presentes agora os observavam, apreensivos. Aparentemente já haviam extrapolado o fim da sessão de treinamento, tão compenetrados que estavam naquela luta.
Um pouco envergonhado pelo lapso que lhe permitira ser nocauteado, o espanhol fez menção de levantar, mas foi impedido por Carlo, que tocou o canto de sua boca com a mão direita. Shura notou que seus dedos haviam-se manchado de sangue. O italiano observou-o por alguns segundos e então disse, em sua voz arrastada:
- Não sei se já te disseram, mas você fica muito atraente com o rosto coberto de sangue.
Os olhos de Shura se arregalaram e ele corou. Num ímpeto, ele se desvencilhou enfim da mão que o prendia e se levantou. Batendo nas vestes para tirar a sujeira, comentou, dando risada:
- Que coisa pra se dizer, Carlo! – e limpou o sangue dos lábios com um gesto rápido, procurando manter o bom-humor – Sangue é sangue... Não é legal vê-lo fora das suas veias de qualquer jeito.
Rapidamente, deu as costas para Carlo e anunciou aos outros jovens que o treino acabara e que todos já estavam dispensados. Sem delongas, a arena se esvaziou, enquanto os cavaleiros e aprendizes iam embora um a um. Shura só se voltou para onde Carlo estava depois de se certificar que todos já haviam deixado o local. Para seu alívio, não viu nem sinal do cavaleiro que o enfrentara. Assim como tinha chegado, Carlo foi embora sem que o outro percebesse.
- Você tem cada idéia... – Shura murmurou para si, sacudindo a cabeça, embaraçado.
Ele também deixou a arena eventualmente, menos tranquilo do que quando entrara mais cedo.
Espero que tenham gostado!
Deathmask finalmente mostrando a que veio! Não é muita coisa, mas é o começo, é o começo...
Até o próximo capítulo!
