Capítulo 3
Harry esperou que Malfoy reagisse, mas Malfoy apenas o fitava estupidamente. "Huh?"
"Um acordo, Malfoy," disse Harry lentamente. "Tu sabes, eu faço uma coisa por ti e depois tu fazes outra coisa por mim."
"Pois, claro, sim… Então qual é o acordo?" perguntou Malfoy.
"Bem," começou Harry. "Poções esta manhã foi um desastre completo e eu sei que tiveste alguma coisa a ver com isso portanto não tentes sequer negar, e eu comecei a pensar que, uh, se eu não te enfeitiçasse de cada vez que tu, er, bem… tu sabes… e depois tu deixavas toda a gente em paz e… Malfoy?"
Os olhos de Malfoy estavam focados com uma intensidade alarmante na boca de Harry. "Hmm?"
Harry suspirou. "Ouviste alguma coisa do que eu acabei de dizer?"
"Yeah," veio a fraca resposta. "Alguma coisa… Poções… outra coisa…"
Harry começava a sentir-se desconfortável agora. Se calhar ele devia ir embora e acabar com aquilo. Inspirou profundamente.
"Olha, Malfoy, se eu deixar que tu me beijes, prestas atenção?"
Isso conseguiu com que os olhos do Malfoy voassem para cima. "A sério?" perguntou, um tanto ávido demais.
Harry já se estava a arrepender daquilo. "Sim, acho eu. Se conseguir com que tu—oof!"
Muito subitamente, Draco atirou-se mais uma vez a Harry, uma experiência que se estava a tornar familiar demais para ele, no entanto, desta vez ele estava ao menos semi-preparado para isso. Foi definitivamente difícil resistir ao impulso de combater Malfoy, mas Harry aguentou-se, ficando rigidamente de pé enquanto Malfoy enterrava o rosto no seu pescoço.
Após cerca de dois minutos de estar ali em silêncio a receber festinhas de Draco Malfoy, Harry decidiu que aquilo já chegava. Hesitantemente, ele tentou descolar o braço do Malfoy das suas costas.
"Não, ainda não, por favor," choramingou Malfoy, e Harry parou de tentar libertar-se, ligeiramente alarmado com o quão carente o loiro parecia e lembrando-se do conselho de Snape: 'o Malfoy é que sabe'. Sentiu uma súbita onda de culpa por afastar Malfoy durante toda a semana.
"Está bem, ainda não, mas quando, exactamente?" perguntou Harry. "Não quero ficar aqui a noite toda, Malfoy. Ainda temos de falar."
"Então fala," murmurou Malfoy.
"Eu…" começou Harry, apanhado desprevenido. "Queres dizer assim? Agora mesmo?"
Malfoy fez um ruído que Harry presumiu ser 'sim'. Sentindo-se agora bastante incomodado, Harry mentalizou-se de que a sua vida ia ser estranha (mais que o habitual) pelo próximo mês de qualquer maneira; mais valia aceitá-lo.
"Okay, vou mantê-lo curto," disse ele, corajosamente ignorando a sensação do hálito húmido de Malfoy no seu pescoço. "Basicamente estou disposto a deixar-te, hum… fazer a tua coisa… todos os dias até te veres livre desta poção, desde que deixes de ser um sacana para os meus amigos."
Malfoy levantou a cabeça em descrença. "Essa é a tua única condição? Que eu seja simpático para os Gryffindors?
Harry subitamente percebeu que estava a lidar com um Slytherin; ele tinha de usar palavras específicas para assegurar que o Malfoy não encontrava uma maneira de não ser um cretino.
"Não," disse ele firmemente. "Não só Gryffindors. Eu quero dizer que não podes ser horrível com ninguém. A não ser que, tu sabes, eles mereçam. E eu quero dizer que mereçam a sério, não que sejam apenas nascidos-Muggle ou pobres ou algo assim.
"Hmm, consigo viver com isso," disse Malfoy, apoiando a sua cabeça no ombro de Harry. "É só isso?"
Harry hesitou. Malfoy soava demasiado feliz com o acordo. Tinha de haver alguma coisa que lhe tivesse escapado.
"Eu… uh, acho que sim."
"Então estás a dar-me o direito de fazer o que quer que eu queira contigo? É muito corajoso da tua parte, Potter," disse Malfoy seriamente, e Harry compreendeu de repente que deixar o Malfoy fazer o que quer que ele quisesse com o seu corpo seria provavelmente pior que tudo com que tivera de lidar até agora. Até e incluindo involuntariamente a ressurreição de Voldemort.
"Bem," disse Harry. "Quer dizer. Não… tu sabes, coisas perversas. Nada de dor ou algo do género. Obviamente. E se pudesses ficar por, tu sabes. Beijos. Então ficar-te-ei muito agradecido. Raios partam, Malfoy, ouviste o que o Snape disse. És o único que sabe o que é que se passa com esta coisa Votum. Eu só estou a ser arrastado para o voo."
"Se isto é um voo, Potter, então eu certamente não sou o que controla a vassoura," disse secamente Malfoy. "Tu realmente achas que eu te estaria a abraçar se fosse esse o caso?"
Harry não disse nada. Talvez isto fosse mesmo mau para o Malfoy, também. Era provavelmente muito pior para ele, lembrou-se Harry, sentir verdadeiramente estas coisas do que apenas testemunhá-las. Ele estava quase a pedir desculpa por ser tão imprevidente quando Malfoy finalmente se separou dele.
"Okay," disse ele. "Eu aceito as tuas condições. Mas não sei como é que vamos fazer isto. Eu teria sugerido encontrarmo-nos aqui, mas se conseguiste encontrar-me tão facilmente, eu preferia não deixar ao acaso que mais alguém tropeçasse em nós."
Harry decidiu não contar a Malfoy sobre o Mapa dos Salteadores ainda. "Estás provavelmente certo," disse ele. "Mas tenho uma ideia. Conheces a tapeçaria de Barnabás, o Louco no sétimo andar?" Malfoy acenou. "Bem, vai lá ter amanhã às oito e estará uma porta mesmo em frente. Podemos ir aí."
"Espera aí um minuto…" disse Malfoy lentamente, cerrando os olhos. "Não era aí onde tu tinhas as tuas reuniões do teu grupinho de Defesa no quinto ano? Tens a certeza que ninguém nos encontra?"
"Absoluta," disse Harry. "Explico amanhã. Está lá às oito, okay?"
Malfoy franziu o sobrolho mas pareceu decidir que era melhor não discutir, pelo que Harry ficou feliz. Estava quase atrasado para a sua reunião com o Dumbledore.
"Tenho d'ir agora," disse ele. "Ficas bem até amanhã à noite?"
Malfoy sorriu afectadamente, parecendo-se muito mais com o seu 'eu' habitual. Harry nunca pensara que ficaria feliz de ver a cara pontiaguda de Malfoy torcer-se num sorriso escarninho, mas estava. "A tua súbita preocupação acerca do meu bem-estar é tocante, Potter. Eu aguento-me de alguma maneira." disse ele.
"Certo," disse Harry, não sabendo na verdade como acabar o seu pequeno encontro. "Bem. Acho que te vejo amanhã." Acenou com a cabeça para Malfoy e dirigiu-se à porta.
"Potter?" perguntou Malfoy quando Harry estava quase a virar a maçaneta. Harry voltou-se.
"Sim?"
"Tu perguntaste-me se eu prestaria atenção se tu me deixasses beijar-te." disse Malfoy casualmente.
"Sim…" disse Harry cautelosamente.
"Bem, ainda não te beijei. E eu prestei tanta atenção."
"Er…" disse Harry eloquentemente.
Malfoy sorriu de novo. Harry não estava tão feliz de vê-lo assim desta vez.
"Não te preocupes, Potter," disse Malfoy, estando um pouco perto demais para Harry estar de todo confortável. "Eu não mordo."
E com isso, inclinou-se para a frente e capturou a boca de Harry. Harry não correspondeu, é claro, mas ao mesmo tempo sentiu-se claramente desconfortávelcom os lábios de Malfoy pressionados contra os seus e o Malfoy a fazer pequenos arquejos dos quais ele estivesse ou não consciente. Era tudo o que Harry podia fazer para não comprimir a boca numa fina linha e empurrar Malfoy para longe dele.
Ele realmente não tinha o melhor recorde de beijos, reflectiu Harry, tentando não pensar no facto queo Malfoy o estava a beijar! Primeiro Cho, que estava a chorar pelo namorado morto durante a coisa toda, e agora Malfoy, que apenas gostava dele porque estava debaixo do controlo de uma poção de luxúria aterradoramente poderosa. Não que ele quisesse que o Malfoy gostasse dele assim, poção de luxúria ou não, claro. Era só que, para uma suposta celebridade, ele realmente não era assim tão popular no departamento do romance.
Harry suspirou e Malfoy aparentemente interpretou como a deixa para afastar-se. Parecia espantado.
"Wow," ele respirou. "Esta poção pode ser provavelmente o pior que já me aconteceu, mas sabe definitivamente o que sabe bem. Merlin."
"Gostaste, então?" perguntou Harry mordazmente, sabendo que Dumbledore estava à espera e provavelmente até a espiá-lo agora mesmo, mas não se conseguindo conter.
"Oh sim!" replicou Malfoy, ainda sem fôlego. "É como… algo dentro de mim, sabes? E ganha vida quando te toco." Passou as pontas dos dedos pelo lado da cara de Harry e arrepiou-se. "Soa estúpido. Eu certamente sinto-me estúpido. Espero que Snape me dê uma Poção de Esquecimento quando tudo isto acabar, porque eu acho que quando o Natal acabar nunca mais vou querer pensar nisto."
Harry concordou com todo o coração.
Os olhos de Harry focaram o relógio pela terceira vez em cinco minutos. Sete e meia. Ele devia provavelmente ir em breve. Provavemente agora mesmo, na verdade, se queria ter a Sala pronta e ter a certeza que 'Eu preciso de uma sala onde o Malfoy me possa fazer coisas' não fosse drasticamente mal interpretado e resultasse numa câmara horripilante de tortura cheia de chicotes e correntes e… outras coisas.
Ele estremeceu um pouco e juntou as suas coisas de Encantamentos. Hermione olhou para ele da sua própria composição, cujo início atravessava a mesa. A cabeça de Ron estava virada num ângulo engraçado a tentar lê-la.
"Vais a algum lado, Harry?" perguntou ela inocentemente.
"Yep," disse ele, sabendo que não deveria confiar na expressão da cara dela. "Reunião com o Dumbledore." Atirou o seu saco por cima do seu ombro.
"Não tiveste dessas ontem?" perguntou Ron, endireitando-se e retraindo-se.
"Sim," disse Harry, tentando parecer injustiçado. "Mas ele diz que encontrou algo, queria que eu fosse lá outra vez hoje à noite. Não sei o que eu posso fazer, mas não se discute com o Dumbledore, certo?"
"Devias fazer uma queixa formal," disse Ron seriamente. "Quer dizer, é sexta."
Harry bufou. "O que é que eu ia estar a fazer em vez disso? Não é como se algum de nós tivesse uma agenda social exigente para nos manter ocupados." Relanceou o olhar pela sala comum onde uns bons nove décimos dos Gryffindors estavam espalhados e Ron pareceu ceder.
"Está bem," disse ele, afundando-se no assento. "Até depois."
"Yep. Adeus, Hermione!" Hermione, que voltara à sua composição, acenou-lhe distraidamente.
Harry levou menos de cinco minutos a chegar à tapeçaria de Barnabás o Louco, mas quando lá chegou, encontrou um Slytherin irritável à espera dele.
"És um mentiroso sujo, Potter!" cuspiu Malfoy. "Suponho que aches que isto é divertido, não? Oh yeah, conseguir com o que o Malfoy fique por aí à procura de uma sala que não existe, que divertido que isso vai ser!"
"Malfoy," disse Harry calmamente. "Cala-te." Ignorando os perdigotos de indignação de Malfoy, Harry fechou os olhos e passou pela tapeçaria três vezes. Após a terceira volta, uma pequena e confundível porta apareceu de repente e Malfoy parou abruptamente de falar.
Harry, arrependendo-se ferozmente de não ter tido tempo de olhar para a sala antes de Malfoy a ter visto, empurrou-a timidamente.
A sala… não era assim tão má quanto isso. Não parecia nada como quando ele a usara para o ED, claro – apesar da sala ser espaçosa, era impossível que lá dentro coubessem trinta e tal pessoas todas a praticar feitiços e maldições – mas não era nada como Harry temera.
Não haviam correntes, pelo qual Harry estava grato. De facto, não havia nada que não se pudesse encontrar numa sala de estar Muggle perfeitamente normal. Haviam dois sofás – um deles era um sofá mole de dois lugares de um vermelho escuro que parecia que tinha estado na sala comum dos Gryffindor, o outro uma esguia chaise-longue de couro num verde tão escuro que era quase preto – e uma secretária contra a parede mais longínqua próxima de uma grande janela que Harry pensou que talvez tivesse vista para o campo de Quidditch (era difícil ver bem; uma noite escocesa de Novembro não era a melhor altura para ver as vistas).
Malfoy dirigiu-se à janela e espreitou. "Aquilo é o campo?" perguntou ele, cerrando os olhos. "Como é que isso é possível? É no outro lado da escola."
Harry sorriu-lhe. "Chama-se magia, Malfoy," disse ele. "Tu sabes, rodar e apontar e essas coisas."
Malfoy olhou para ele estranhamente, como se inseguro sobre se Harry estava a gozar ou não. Harry decidiu apenas ignorar e explicar.
"Este lugar chama-se a Sala das Necessidades," disse rapidamente. "Torna-se no que quer que precises que ela seja. Não acho que alguém fora do ED e alguns dos professores – e os elfos domésticos – nem sequer sabem o que há aqui, e eles não conseguirão entrar se nós não quisermos que eles o façam.
"Mas a Umbridge conseguiu no quinto ano," disse Malfoy bruscamente, cruzando os braços, claramente não impressionado.
"Sim, mas ela sabia o que era porque aquela rapariga Edgecombe contou-lhe sobre isso," replicou Harry. "Se não contares a ninguém que vens aqui para estares a beijar-me, Malfoy, então ninguém nos vai conseguir encontrar."
Harry desejou que não tivesse dito aquilo quase imediatamente a ter saído da sua boca. Antes de ter sequer terminado a palavra 'beijar', os olhos de Malfoy tinham voado para os lábios de Harry e ele agora fitava-os com uma intensidade febril.
Apesar de estar um bocado arrepiado com o olhar fixo de Malfoy, como habitualmente, Harry supôs que em breve se iria habituar a isso, então abriu os braços em derrota. "Anda lá, então," disse ele cansadamente, e o Malfoy estava ao seu lado em menos de um instante.
Não o abraçou desta vez; em vez disso foi directo à boca de Harry, agarrando firmemente o seu queixo e inclinando-se para a frente até os seus lábios se tocarem. Harry perguntou-se se deveria sentir algo mais excepto algum desconforto. As pessoas falavam em mudanças de vida por causa de um único beijo, certo? Então mesmo que fosse o Malfoy, não devia estar a gostar mais disto?
Harry contemplou como o Malfoy devia estar a sentir-se agora mesmo enquanto puxava o Harry mais próximo dele e soltava um pequeno gemido de apreciação. Pela descrição do Malfoy ontem, a poção não soava assim tão mal. O que é que ele tinha dito? Algo dentro dele que ganhava vida quando ele tocava Harry. Se ele pensasse demasiado sobre isso, era um pensamento realmente perturbante.
Apesar de tudo, Harry perguntou-se como é que isso seria. Nunca na sua vida tinha tido uma paixão por algo como aquilo. Sim, ele gostara de Cho por um bocado, mas era mais numa maneira 'Oh, ela é bonita' do que 'Oh meu deus eu quero-a agora mesmo'. Na verdade, pensar em Cho nesse contexto fazia-o sentir-se um pouco enjoado.
Afastou-se um pouco da boca de Malfoy.
"Malfoy, tu já alguma vez… tu sabes, te sentiste como a poção te faz sentir, mas antes de a tomares?" deixou ele escapar. E arrependeu-se imediatamente.
Malfoy olhou-o incrédulo, parecendo tão desdenhoso tanto quanto uma pessoa podia com as bochechas coradas, lábios rosa e inchados e uma mão ainda emaranhada no cabelo de Harry.
"Potter," disse ele. "Eu não estou aqui para uma conversa amigável. Nós não gostamos um do outro. Eu estou óptimo com isso, como tenho a certeza de que tu também estás, então por favor, por favor pára de fazer palavras saírem da tua boca."
Harry desviou o olhar, com a cara a queimar. Em que é que ele estivera a pensar? Tentar falar sobre coisas como aquela com o Draco maldito Malfoy. Mais valia ter ido até Voldemort e perguntar-lhe pelo seu historial sexual. Urgh.
Harry ficou em silêncio até que Malfoy estivesse aparentemente satisfeito, finalmente parando de morder o pescoço dele e afastando-se lentamente.
"Acabaste?" perguntou Harry curtamente. Malfoy acenou, uma expressão estúpida de satisfação na sua cara estúpida. "Óptimo. Até amanhã." Ele agarrou o seu saco e dirigiu-se para a porta, planeando passar o resto da noite deitado acordado na cama e agredindo-se mentalmente por se esquecer exactamente com quem tinha feito um acordo. Mas então—
"Não, nunca." A voz de Malfoy era baixa. Harry parou.
"O quê?"
"Nunca quis ninguém tanto quanto te quero a ti."
Nota da autora:
E chegamos assim ao final de mais um capítulo! Espero que estejam a gostar desta maravilhosa fic da Crystal, o mérito é todo dela, sou apenas um mero veículo.
Este capítulo tem que se lhe diga, hã? Não é propriamente revelador, mas ficamos a saber mais uma ou duas coisas sobre a relação entre os dois. Espero que gostem!
Já sabem, deixem review, queremos saber as vossas opiniões :) Anónimas também permitidas.
Nota de Beta-Reader:
OMG… *-*
As beijocas do Draquinho fazem com que o nosso morenito comece a pensar na vida… xD Venham mais beijos! E ainda melhores!
Beijocas a todos!
2Dobbys
