Capítulo Quatro: A Relação Perfeita

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Durante os dias em que Neji esteve fora, Tenten retornou ao trabalho. Não se recordava da última vez em que havia obtido férias. Estava habituada ao ritmo incessante e não pretendia mudar a sua rotina em prol de qualquer relacionamento. Sempre punha o serviço acima dos homens por uma única e óbvia questão de praxe. Não os desmerecia, entretanto. Não houvera conhecido até então um que fosse tão exigente a ponto de romper suas estruturas.

De uma maneira que não sabia descrever, o Hyuuga se destacava naquela lista mental. Não apenas por seus hábitos ou elegância, mas por aquela autonomia exasperadora. Mais ainda pelo jeito como conseguia moldá-la a seu bel prazer. Descobrira que o desejava. Era um desejo físico, entretanto também pessoal.

Alguém com quem conversar independente da hora ou data. Conversas inteligentes! Ela acabara por perceber, conforme se relacionava, que não era fácil manter um diálogo que a atraísse demasiado. Era difícil, na verdade. Porque tinha uma tendência a se sentir atraída por tipos esportivos que não priorizavam a intelectualidade. De modo que, passando os anos, se habituou a discutir esportes ou trivialidades tamanhas. Uma rotina tétrica. Não que acreditasse que a palavra "tétrico" expressasse o verdadeiro significado do aborrecimento da sua história.

Estava ciente de que o seu relacionamento com Neji era mais do que uma simples amizade. Ao mesmo tempo em que tinha dúvidas de que pudesse ser considerado um compromisso. Eles jantaram e almoçaram e saíra juntos várias, muitas vezes. Trocavam toques íntimos em público. E não se importavam de passarem os seus germes dividindo refeições ou bebidas.

Ainda assim, existia uma parte do Hyuuga que se negava a se entregar.

Raramente conversavam sobre a sua vida particular. Os beijos estavam lá, perturbadores, contudo acabavam antes que pudessem deixá-la tonta. E depois disso o maxilar masculino estava sempre rígido como uma pedra e ele desviava o olhar e a sua atenção, passando a mão pelos cabelos, e logo relaxava.

Neji não era o tipo de homem que se permitia perder o controle. Tenten não o incitava a fazer mais do que estava disposto. Era impaciente por natureza, mas aprendera a controlar a própria excitação, de modo a não esperar mais do que poderia receber. Aquele controle férreo sobre as próprias emoções a cansava, apesar disso. Ao final do dia ou ao término dos encontros, havia uma leve alteração no seu humor. Não houvera uma tentativa que os levasse ao sexo desenfreado até então e toda a pele da morena formigava em contato com a do Hyuuga.

- Sakura quer marcar um jantar no sábado na casa dela. Reunir as garotas - a voz de Temari era arrastada. - Ino alegou ter uma novidade bombástica. Mas nada pode ser bombástico agora.

A Arata riu contra o bocal do telefone.

A separação dos Uchiha fora suficientemente surpreendente, obrigada. A verdade é que decorrida uma semana da saída de Sakura do hospital, Sasuke acabou por aceitar o divórcio. A guarda dos pequenos Akira e Momo seria dividida e o ex-marido concedeu a Sakura uma generosa pensão e lhe alugou um luxuoso apartamento no centro da cidade, dando-lhe toda a liberdade financeira para decorá-lo. Era um belo apto, o qual, alegara a nova dona, só aceitara por não querer negar aos filhos o conforto ao qual tinham direito.

Os tablóides especularam o assunto até o limite, até que outro tópico preencheu as suas capas. "Eles terminaram amigavelmente", garantira Haku, o assessor de imprensa de Sasuke. E, decorridos quase dois meses, o moreno não fora visto em público com nenhuma mulher. Ao contrário, pois todos os dias, depois das crianças haverem chegado da escola, ia visitar os filhos.

Sakura apreciou a mudança e foi só. Com a ajuda de Neji, conseguiu um emprego de secretária numa pequena empresa de cosméticos e retornara à faculdade quase terminada de Medicina no período noturno. A senhora Haruno fora morar com a filha e cuidava dos netos quando a mesma não podia fazê-lo. Não havia muito tempo para as amigas na sua nova vida agora. Tenten estava feliz por ela, apesar da recém criada distância. E estava certa de que acabaria por encontrar um homem que a merecesse.

- Apoio a idéia - disse, distraída com um documento. - Estou com saudades. Nós nos vemos no sábado então. Um beijo para você.

- Outro para você. Ahh, babie, eu vou me casar! - e a loira desligou, rindo.

Tenten se engasgou com o café que acabava de levar à boca.

O casamento de Temari estava marcado para dali a seis meses. Tempo o suficiente, apenas o suficiente, para que pudesse ajeitar os principais detalhes. A morena detestaria as provas do vestido. Eram sempre terrivelmente desconfortáveis.

Soltou do serviço às oito. Combinara de encontrar Neji na residência Hyuuga. Estava cansada de sair para jantar todas as noites, de modo que optou por aceitar o terceiro convite feito por Hanabi e Hinata, que queriam conhecê-la melhor (tinha dúvidas de que Hinata realmente estivesse interessada, ou mesmo que compareceria, levando em conta a sua natureza introvertida). Gostava da casa da família. Aquela construção sólida e aconchegante.

Os portões se abriram quase imediatamente assim que o Hachi-Roku parou de fronte aos mesmos. Ela deslizou devagar pela pista do jardim, apreciando a vista colorida por lâmpadas policromas. Os Filas malhados, Myako e Akemi, a acompanharam, latindo e abanando a cauda quando desceu do automóvel, fechando a porta atrás de si.

Neji já a esperava no topo das escadas. Não vestia os seus habituais ternos, mas calças confortáveis e um suéter. A noite estava agradável.

Ela estava de bom humor. Ainda que os cabelos não estivessem no seu melhor dia, presos em dois coques frouxos. Acariciou ambos os cães enquanto subia os degraus. Gostava de animais, embora nunca houvesse se atrevido a ter um, por pura e simples incapacidade de tratá-los como seres vivos.

Cumprimentou ao moreno com um leve roçar de lábios.

- Bom dia no trabalho? - foi a sua primeira pergunta, se permitindo ser rodeada pelos braços masculinos. Sorriu. Gostava daquelas tão deliciosas demonstrações de afeto. Passou a mão pelo seu pescoço, escondendo os dedos por debaixo dos cabelos castanhos da nuca.

- Nunca é um bom dia no meu trabalho - ele disse, movendo a cabeça em negativa. - Você cheira maravilhosamente bem hoje - e afundou o nariz na clavícula da morena.

Riu quando aquele roçar lhe provocou cócegas. Empurrou-o logo depois, cortando o contato. Havia percebido que uma das suas irmãs mais novas os observava da janela da sala de estar e não gostaria que fizessem uma imagem distorcida daquele relacionamento. Os orbes pérola de Neji estavam prestes a devorá-la e Tenten sentiu um profundo comichão ao percebê-lo. Todos os seus nervos entraram em estado de alerta.

Entreabriu os lábios para mandar-lhe, com palavras, fazer o que não conseguia com as pernas, mas então os mesmos foram capturados num beijo sufocante e o aperto não diminuiu um milímetro. A morena se agarrou ao peito maciço em busca de equilíbrio. Dedos ásperos roçaram a sua cintura, por debaixo do casaco. Myako e Akemi ainda latiam à sua volta.

Assim que aquela boca delirantemente instigadora a deixou, Tenten soube que queria mais. Muito mais. Já não era o suficiente.

- Neji - murmurou ante a recém criada distância. Sua mente articulou mil frases distintas, mas todas acabaram por serem esquecidas diante da assustadora forma da expressão do homem à sua frente.

Os orbes claros estavam em chamas. Havia uma rudeza perturbadoramente selvagem e o fogo parecia consumi-lo de cima a baixo com crescente rapidez, de modo que não restava a ela a mísera chance de escapatória. Seus joelhos tremeram perante aquela tão avassaladora análise, a tal ponto em que necessitou das mãos dele para a segurarem, evitando que desfalecesse por uma óbvia situação de deslumbramento.

Um deus. Era a única descrição que lhe vinha à cabeça. E Tenten não faria tentativas de resistência. O seu autocontrole havia sido destroçado. O semblante majestoso e o perfume cítrico a dominavam.

- O jantar está pronto - ele anunciou, a sua voz rouca soando como uma carícia instigadora.

Ela procurou o domínio dentro de si. Moveu-se primeiro com vagareza e assim foi aumentando a velocidade dos gestos na medida em que permitia que sua mente se livrasse daquele poderoso entorpecente. As pérolas brilhantes ainda a fascinavam.

Onde as mãos masculinas antes estiveram sobrou apenas um vazio sem calor. Estranhamente aborrecido.

- Ótimo - pigarreou para que tornasse a adquirir clareza na pronúncia. - Eu estou mesmo faminta - sussurrou, fitando a boca corada à sua frente.

Sorriu-lhe quando ergueu a cabeça para mirá-lo. Mas os olhos cor de chocolate, que traziam sempre consigo mistérios insolucionáveis e milhões de segredos e truques capazes de tirar de um homem toda a centelha de razão, lhe diziam sem precisar de palavras aquilo que não fora verbalizado. Era como se murmurassem o seu desejo avassalador.

Hinata fez um prato típico para o jantar. Ela era excessivamente tímida, de modo que, na sua parte, não houve grande falatório durante a refeição. Seu absoluto inverso, Hanabi fez troça, falou sobre si mesma e o irmão e fez inúmeras perguntas - indiscretas ou não - a respeito da vida e emprego da Arata, para as quais a mesma deu respostas bem humoradas. Joe lhes serviu um café após haverem terminado e a caçula Hyuuga tocou uma agradável sinfonia antes de se ela e a irmã se recolherem.

Eram já duas horas da madrugada e ela precisava trabalhar às cinco. Remexeu-se na poltrona, bocejando.

- Você trabalha amanhã? - perguntou. Neji ainda segurava um copo de conhaque.

O moreno negou.

- Trabalhei durante o final de semana. Sasuke não é um carrasco - havia um pequeno sorriso sarcástico na face, denunciando que às vezes ele próprio tinha dúvida daquele tipo de afirmação possível de ser contestada.

- Eu e ele não somos os melhores amigos - ela encolheu os ombros com certa hostilidade.

Dizer que não o suportava, porém, era uma mentira. A mulher preferia se privar da presença do Uchiha o quanto fosse possível, porque não podia perdoá-lo pelo que fizera à amiga. Mas sabia que Sasuke já deveria se sentir suficientemente mau, sabendo que perdera a esposa perfeita em troca de algumas noites de sexo selvagem. E Tenten não era o tipo de pessoa a quem lhe agradava a desgraça alheia, de modo que preferia manter o ex-marido de Sakura fora da sua mente o quanto fosse possível.

Tinha outras coisas com que se ocupar, além disso. Como o fato de que seu pai recém iniciara um relacionamento com a Senhora Inoue e de que ela fora convidada para a festa de aniversário da mesma, a qual não pretendia ir. Não que a Inoue a desagradasse, era apenas que se sentiria uma estúpida intrusa naquela família perfeita. Não estava acostumada a festas domésticas.

Comentara a respeito daquilo com Ino por telefone, cerca de meia hora depois de receber o convite pelo correio. A loira evidenciara a sua idiotice em se negar a aceitar as mudanças. Mas Tenten nada tinha contra mudanças. Apenas não estava habituada, há muito não sabia o que era aquilo, aquela reunião íntima e cheia de parentes em datas especiais. O velho Bunta sempre fora um anti-social nato e eles se divertiam muito assim, assistindo hóquei na noite de Natal e indo à seção de congelados para comprar a ceia do Ano Novo. Há alguns dias que não conversava com o pai. Não sabia como ele se sentia a respeito disso.

Aqueles pensamentos a corroeram por algum tempo, até que o ruído ocasionado por Neji a removeu dos seus devaneios.

- No que estava pensando? - perguntou, tornando a se ajeitar sobre o sofá depois de ter largado o copo vazio sobre a mesa de centro da sala de estar. O sorriso torto nos lábios ainda estava lá, como se a estivesse provocando. - Se é que eu posso saber - concluiu, arqueando uma sobrancelha.

- Não é nada - respondeu ela. - É só que, bem... - parou para encontrar as palavras certas. - Meu pai arranjou uma namorada. E ela me mandou um convite. Para uma festa. De aniversário.

- E qual é o problema?

- Não há problema. Eu apenas... acho que não vou - disse, deslizando a língua pelo lábio, num gesto sistemático de nervosismo. - O velho disse que ela é uma daquelas afortunadas que têm tantos parentes vivos e ativos que não pode contar em uma mão. Seria estranho.

- Uma mão? - indagou Neji, parecendo haver se divertido com a sua conclusão. - Você realmente acredita que possuir cinco familiares vivos é um número tão absurdo? Normalmente, as pessoas possuem mais, bem mais do que isso. Portanto deveria agradecer pela sua afortunada sorte em não ser obrigada a conhecer vinte irmãos, irmãs, netos, sobrinhos e toda a demais patota habitual.

- Você está brincando - Tenten lhe lançou um olhar incrédulo. - Somos só eu e meu pai. Como pode haver famílias dessa magnitude? É um roubo.

O homem fez um gesto de descaso.

- Quando será? - questionou.

- Daqui a uma semana, no sábado.

- Precisa de companhia? - ela o encarou, surpresa pela sugestão.

- Não é na cidade - explicou, como se aquele fato fosse demovê-lo de tal idéia. Mas Neji apenas sorriu.

- Não tem problema. Tenho mesmo uns CDs que você gostará de ouvir.

Dali, ela passou em casa para tomar uma ducha e trocar de roupa e depois foi para o serviço. Não teria tempo de dormir. E, se tudo desse certo, naquele dia sairia às duas da tarde, de modo que teria todo o resto do tempo para retomar as horas insones. Comprou um enorme copo de cappuccino no caminho da Central. Eram quase quatro horas da madrugada quando chegou e a secretária do período noturno cochilava.

Genma, um dos oficiais que se encarregara do turno da noite, ergueu a cabeça do maço de papéis que segurava ao vê-la. Trazia um cigarro no canto do lábio e tinha uma xícara de café fumegante sobre a mesa, ao lado dos pés, com botas e que estavam desleixadamente posicionados sobre a madeira.

Eles ligaram a televisão cerca de quinze minutos depois, para assistir a reprise de um dos jogos de beisebol no canal de esportes. O elevado nível de cafeína no sangue a manteve desperta e não houve nenhuma ocorrência durante aquele tempo. Perto das seis, Anko chegou. Sempre excessivamente ativa, os entreteve com piadas de extremo mau-gosto e comentários ácidos até que Naruto e Ibiki adentraram a Central, o primeiro bocejando. Quando todos os policiais em serviço já estavam no local, o telefone tocou, era uma chamada que havia sido repassada pela secretária diurna, Kurenai.

Era para o Uzumaki. Aparentemente seu irmão mais novo havia brigado na escola.

Ainda que detestasse fazê-lo, às vezes o chefe precisava renunciar suas preocupações familiares. Como o diretor do colégio do rapaz estava ciente, o responsável pelo mesmo não estava disponível em horários satisfatórios e grande parte dos seus subordinados o representava em reuniões. O escolhido da vez fora ela.

Konohamaru estava sentado na porta em frente à sala do velho Sarutobi, para onde a morena foi encaminhada assim que chegou. Era a segunda briga em um mês e o diretor, além de pouco receptivo ao diálogo, começava a ficar preocupado. Sugeriu que o menino fosse levado a um psicólogo, que talvez ele necessitasse de uma mãe ou de uma presença feminina em sua vida, pois vivia apenas na companhia do irmão mais velho, e que não era saudável deixá-lo sozinho demasiado tempo.

Após meia hora de conversa, na qual a Arata mal participou, os dois foram dispensados. O caçula Uzumaki havia sido dispensado das aulas e levava para casa dois dias de suspensão pela insubordinação. Ele bateu com força a porta quando entrou no carro da polícia.

- Não é tão divertido ou satisfatório ter um parente sugado pelo trabalho, eu sei - Tenten quebrou o silêncio até então imposto entre eles assim que se acomodou no banco do motorista. Konohamaru colocava o cinto, os lábios crispados em sinal de raiva, e não deu mostras de escutá-la. - Mas você está agindo da maneira errada se espera ter mais tempo com o chefe, mocinho - franziu o cenho.

- E quem disse que eu o quero, sua enxerida? - reiterou ele, revirando os olhos com hostilidade.

- Não seja mal-educado, Konohamaru - grunhiu a morena, fazendo-o encolher os ombros perante o tom imperativo. - Ambos sabemos que o seu maior sonho é ser reconhecido pelo seu irmão, você me contou isso, lembra? - arqueou uma sobrancelha. O rapaz se virou para encarar a janela, sem contestar. - E por isso digo que brigar com os seus coleguinhas idiotas não é o melhor método! Você já tem quinze anos, pare de agir como um bebê - ligou o carro. - Agora vamos tomar um sorvete.

Conversaram sobre banalidades enquanto estiveram sentados na mesa da sorveteria, ela se esforçou para não pressioná-lo. Obviamente, a respeito do que quer que estivesse acontecendo, o irmão de Naruto era tão cabeça dura quanto o mesmo e não cederia a qualquer tipo de coação.

Mas logo o seu celular tocou, os interrompendo. Kurenai ligava em nome do chefe e requeria a sua volta imediata à Central. Tenten se prontificou a deixar Konohamaru em casa durante o caminho e disse que chegaria em menos de meia hora, pegando um bom trânsito. O garoto chiou às suas palavras, não se sentia tentado a ir para a residência Uzumaki, e indagou-lhe se poderia acompanhá-la ao seu local de serviço. Ela cedeu após alguma insistência. Ele estava mesmo habituado a passar algumas tardes lá. E alguém poderia forçá-lo a fazer as tarefas de classe.

Sábado à noite, como fora combinado, a Arata, mais Temari e Ino, batiam à porta do recém comprado apartamento de Sakura. A dona as recepcionou com efusão.

- Oh meu Deus! - exclamou, abraçando uma a uma antes de lhes ceder passagem. - Parece que faz meses que não nos vemos - cantarolou, alegria em sua voz. Os cabelos compridos estavam trançados e ela trajava roupas casuais (calças jeans e uma blusa), o que raramente ocorria quando ainda era uma Uchiha. - Entrem, garotas, nós temos muita coisa pra conversar!

Nenhuma delas cozinhou o jantar. Pediram comida italiana por telefone e comeram na sala de estar, acomodadas sobre o fofo tapete enquanto conversavam. A Haruno lhes contou a respeito da faculdade, as cadeiras e colegas, e disse ter encontrado sua antiga professora de Anatomia, Tsunade, com a qual perdera contato após haver abandonado o curso. Ambas haviam reatado a amizade esmaecida e Sakura alegou, e reafirmou quando necessário, estar plenamente bem, em paz e satisfeita.

Temari estava ocupada com os preparativos do casamento. O seu salão continuava obtendo o mesmo sucesso que obtivera na estréia e ela pensava em expandi-lo com a ajuda de Shikamaru, que trabalhava como economista e contador. Lee, seu melhor cabeleireiro, acabara de principiar um caso selvagem com Juugo, um campeão de pesos pesados do boxe.

- Então - falou Ino, levando o copo de vinho aos lábios. - eu conheci essa garota numa daquelas festas para modelos.... - principiou.

- Espera - a outra loira a interrompeu, o cenho franzido. - Você disse... você disse garota? - perguntou, ainda que não aparentasse surpresa. Estava certamente curiosa. A Yamanaka era uma daquelas que adorava aos homens, principalmente os ricos ou sexualmente bem dotados.

- Sim - ela tinha um pequeno sorriso de canto nos lábios, um quê de safadeza na face. - Bem, não é exatamente uma garota, está mais para um mulherão. E eu já havia bebido uma meia garrafa de champanha desde que Kisame começou a me paquerar, então não fiz resistência quando ela me convidou para ir até a sua casa. Vocês sabem, eu nunca me envolvi com vaginas antes. Já me bastava a minha. Mas a verdade é que ela faz um oral melhor do que qualquer macho que pôs os dedos no meu clitóris.

- Okay - murmurou Tenten, após o gritinho surpreso de Sakura. - Isso certamente foi uma novidade bombástica, como você disse que seria.

- É - Temari soltou um riso baixo. - Então... - mirou Ino. - Vocês estão namorando ou algo assim?

- Algo assim - ela encolheu os ombros. - Combinei de encontrá-la amanhã à tarde para que possamos assistir a uma peça de teatro. Mas não esperem conhecê-la. Konan está mais para um passatempo relâmpago. Fugir um pouco do marasmo. E sóbria talvez eu descubra que realmente fui feita para ser heterossexual.

- E Neji? - a Haruno voltou os orbes claros para Tenten, que se espreguiçava, sentindo os músculos reclamarem por ficar naquela posição desconfortável. - Há dois dias falei com Joe, você sabe, o mordomo, e ele disse que seu patrão havia saído com a nossa policial preferida - suspirou, divertida. - No que me cabe, posso dizer que esse foi o melhor casal que já juntei, afora Temari e Shikamaru. E vocês sabem como sou crítica - declarou. - Só me falta saber se o sexo é igualmente satisfatório para ambas as partes, assim como a companhia o é.

A morena sabia que seria alvo daquela pergunta cedo ou tarde. Não tinha o que se podia dizer de "amigas discretas", e detalhes de suas vidas pessoais eram constantemente postos em voga, o que não representava aborrecimento para as outras três, que punham seu gosto pela fofoca acima do embaraço.

E a verdade é que não tinha uma resposta concreta. Não podia chegar a nenhuma conclusão aceitável se tudo o que habitualmente obtinha eram alguns beijos arrancadores de razão. Maravilhosos, estupendos, surpreendentes beijos arrancadores de razão, mas que não lhes permitiam ultrapassar a linha namoro colegial para um profundo conhecimento anatômico. Aquela escassez estava a ponto de enlouquecê-la. Mas não gostaria que qualquer um o soubesse.

Fitando os rostos ansiosos, cabeças recheadas de pensamentos maliciosos, nada pôde fazer além de soltar um gemido imperceptível.

- Nada posso dizer sobre isso - desabafou por fim. - Nós ainda não chegamos ao estágio pelados, úmidos e satisfeitos. E não façam questionamentos.

- Talvez Neji seja um puritano - arriscou Sakura, postando o dedo indicador sobre o lábio, uma expressão pensativa. Sua réplica demorara um segundo para ser proferida, tempo que as ouvintes demoraram em compreender o que fora dito. - Sempre me disseram que os Hyuuga eram tradicionais.

- Não penso ser isso. Todas nós sabemos que Tenten já não é virgem há uns bons anos, portanto não haveria necessidade em tal espera. E tampouco eles a aceitariam - reiterou Temari, apoiando o cotovelo sobre a mesa de centro, onde estavam ajeitadas à volta. - Acredito ser mais provável que Neji goste de você - mirou a citada. - E, se como nos garantiu a Sakurinha-babie, ele saiu de um casamento mal sucedido, é provável que tenha receio em se envolver demasiado e perder o controle. Sexo é descontrole, garotas.

- Eu adoraria vê-lo descontrolado. Conte-nos quando conseguir, amour - falou Ino para a Arata.

Durante a semana seguinte, o Hyuuga estava preso em um grande caso e eles não se viram mais do que duas vezes para jantar. Foram dias razoavelmente tranqüilos na Central, de modo que Tenten obteve tempo o suficiente para acompanhar Temari na escolha da decoração e ajudou Konohamaru com seus deveres de Álgebra.

Bunta ligou, perguntando-lhe se compareceria aos festejos de Inoue, e ela concordou, adicionando, com certo receio, que levaria um amigo. O velho não fez perguntas. Nunca era indiscreto, mas a morena pôde sentir em seu tom de voz algum aborrecimento. Jamais lhe apresentara quem quer que fosse, além das amigas da escola com quem crescera. Homens nunca figuraram a lista de pessoas com quem Tenten se permitia ter confiança o bastante para fazer confidências, que dirá apresentar ao seu único familiar.

Aparentemente, Inoue estava animada pela sua concordância. E talvez um pouco surpresa pelo fácil recebimento da mesma - assim como ela própria se sentia.

Na sexta-feira, Ino deixou o trabalho meia hora mais cedo e apareceu na casa da Arata para ajudá-la com a escolha da roupa. A loira optou por um estilo casual: calças jeans, botas e um sobretudo sobre uma blusa de mangas compridas. A aniversariante ressaltara por duas vezes que seriam apenas comemorações familiares, portanto nada de ostentação ou sofisticação.

Perto da meia noite o telefone tocou. Tenten estava jogada sobre a cama, ouvindo a respeito da recente aventura bissexual da Yamanaka, quando o ouviu.

- Sim? - questionou, levando o bocal ao ouvido.

- Espero não estar sendo inconveniente - havia certo divertimento na voz de Neji. Ela sorriu ao ouvi-la, tão melódica, de uma maneira certamente perturbadora. - Imaginei que não conseguiria achá-la em casa, mas vejo que a minha sorte mais uma vez me favorece.

- Começava a pensar que havia repensado a oferta - zombou.

- Eu não volto atrás nas minhas palavras, Ten - ele reiterou quase de imediato, suave, mas enérgico. Pôde ouvir vozes masculinas estranhas ao fundo. - Preciso ir agora. Estou num jantar de negócios com Kakashi. Passo para pegá-la às nove. Esteja pronta. E leve o café da manhã, pois eu estarei esfomeado - então desligou.

Acontece que Tenten não tinha nada de não perecível para levar numa viagem, portanto precisou ir a um supermercado 24h à procura dos alimentos perfeitos. Ino acreditava que não eram nada românticos os biscoitos e sugeriu, assim sendo, croissants de chocolate, mas a morena não conseguiria colocar tamanha quantidade de açúcar para dentro do corpo logo nas primeiras horas da manhã. E andava evitando achocolatados e derivados do cacau, porque lhe deram umas terríveis espinhas.

Após alguns momentos de discussão, ambas se decidiram pelo sanduíche natural e uma jarra térmica com café (como se não bastasse a despesa, também teria de passar na casa da Yamanaka para apanhar a famigerada térmica) e suco natural. Ela não podia acreditar, quando pagaram, que havia recebido ajuda para comprar um simples punhado de comida.

Dormiu tarde. O despertador tocou às oito e foi como se a houvesse tirado de um torpor inacabável.

Tomou um demorado banho e delongou a se vestir, preguiçosa. Prendeu os cabelos em dois coques frouxos com fitas azuis escuras. Foi preparar o café cerca de meia hora depois. Deixou a cafeteira ligada enquanto ligava a televisão da sala para assistir o telejornal da manhã. Estava pronta - e nervosa - quando a campainha tocou, no exato horário informado pelo Hyuuga.

Sua fisionomia estava distorcida pela ansiedade quando abriu a porta e permitiu que o homem a vislumbrasse.

- Acho que mudei de idéia - murmurou ao fitá-lo, sem lhe dar passagem. - Vamos ligar e dizer que tive uma emergência no trabalho e podemos comer aqueles sanduíches no sofá - sugeriu, mas pela expressão de Neji não parecia que seu desejo seria facilmente atendido.

- Não fique nervosa, Tenten - sorrindo, ele ergueu a mão e acariciou o queixo feminino numa tentativa de acalmá-la. - Você está ótima. Adoro o seu cabelo desse jeito - deu um passo a frente, depositando um beijo sobre os lábios desprovidos de pintura. - Além do mais, precisariam ser loucos para desgostarem de uma coisinha como você - soprou contra a sua boca, massageando a parte inferior com a língua.

Ela não apresentou resistência à carícia. Os dedos ásperos se embrenharam nos seus cabelos, deslizando pela nuca, puxando-a contra o peitoral do Hyuuga.

O beijo não durou o suficiente para deixá-la sem fôlego. Logo o moreno tornava a tomar distância, roçando o nariz pela sua bochecha. Tenten sentia o coração bater violentamente em seu peito, bombeando o sangue com força. Descerrou os olhos, fechados instantes atrás, para observá-lo. Adorava os detalhes do rosto varonil.

Neji sorriu ao notar aquela minuciosa análise. Era aquele sorriso com o qual já se habituara, o fugaz e brejeiro, tão sabido, enlouquecedor. Levando um pequeno fio que escapara do coque para trás da orelha dela, ele baixou a cabeça para capturar-lhe a boca mais uma vez. E mais uma vez. E outra. E outra. Até que ela se apercebeu totalmente aérea, envolvida pela magia que até então permitira manter inominável.

Embrenhou a mão pelas madeixas úmidas, que caíam soltas sobre os ombros do Hyuuga.

- É um bom jeito de começar o dia - sussurrou assim que tomou distância, apenas o bastante para poder falar. - Mas você não pode continuar fazendo isso se pretende me tratar como uma donzela vitoriana - ele riu baixo à comparação e enfim se afastou.

- Vamos - deu-lhe as costas. - Precisamos sair cedo se quisermos chegar cedo - começou a andar na direção do reluzente carro escuro.

- Você nem ao menos sabe o caminho para insinuar algo, Hyuuga - exclamou ela, zombadora, enquanto agarrava a bolsa recém preparada e fechava a porta, guardando a chave num dos bolsos.

- Isso é o que você pensa, Ten - disse Neji, abrindo-lhe a porta do automóvel.

Eles chegaram depois do meio dia, tendo feito uma parada na estrada para o almoço. Havia uma imensa movimentação em torno da casa amarela, endereço obtido no cartão enviado por Inoue, e o moreno estacionou do outro lado da rua, pois a entrada da residência estava tomada de carros. A Arata retesou àquela visão.

Certamente, ali haveria mais do que cinco parentes contados numa mão. Aquela premissa a perturbava. Não era uma pessoa retraída, mas não podia encarar facilmente uma reunião de família que não a pertencia - e que agora pertencia ao seu pai. Por mais que procurasse ser cordial, não conseguiria ser natural. Fora um erro, pensou quase de imediato. Teria sido mais fácil se houvesse dado uma desculpa a Inoue, então não a feriria com a sua óbvia reclusão social. Ser filha do seu novo namorado não a fazia parte da linhagem.

Assim que desligou o automóvel, Neji apertou os seus dedos num gesto gentil, procurando demovê-la daqueles óbvios pensamentos.

O toque a despertou do torpor em que se impingira. Piscou, voltando o rosto para observá-lo, e lhe deu um sorriso vacilante. Não expôs verbalmente aquilo que a incomodava, devia estar exposto em sua fisionomia tensa.

- Não se preocupe - disse em voz baixa, aproximando-se para beijá-la num toque suave. Ao se afastar, soltou o cinto de segurança e logo depois a mão feminina. - Fique onde está. Irei abrir a porta - avisou, deixando o assento do motorista. Ventava um pouco gelado na rua, balançando as árvores, e ela sentiu aquele sopro frio contra o seu rosto, mantendo-se imóvel. - Nós iremos embora cedo - garantiu ele, assim que chegou ao outro lado, estendendo o braço para que pudesse capturar a sua mão firme e quente.

Ela não disse coisa alguma enquanto punha os pés sobre o asfalto. Encolheu-se dentro do sobretudo num gesto de proteção inconsciente. Segurou-o perto de si, hesitante em encarar aos estranhos sozinha. Não era uma reação adulta, pensou num instante, mas logo se convenceu de que nada adiantaria tentar pensar logicamente naquele momento.

Atravessaram a rua, parando em frente à bela residência, nem muito pequena nem muito grande, subindo as escadas que levavam à varanda, e pararam em frente à porta de cor branca.

Ainda que Tenten houvesse o apertado num silencioso apelo para que não o fizesse, deixando escapar sua última chance de ir embora, Neji tocou a campainha com segurança. Em poucos segundos um rosto sorridente, viçoso, tão jovial, estava de fronte a eles.

- Boa tarde - cumprimentou-os a jovem, cabelos claros emoldurando o rosto rosado e ofegante. - Você deve ser a filha de Bunta - fitou a morena.

- Tenten - ela anuiu, silenciosa.

- Claro - reiterou a outra, movendo-se para o lado para permitir que passassem. Podiam ouvir sons de algazarra e muitas vozes vindas de dentro da casa. - Vovó a está esperando! Estava começando a ficar temerosa, achando que não viria. Vocês perderam o almoço, estava delicioso. Foi minha tia quem cozinhou - sorriu. - Ahh, sim, estão todos na sala - avisou, seguindo-os pelo hall. - Podem pendurar os casacos aqui - apontou para o cabideiro, saltitando na direção em que lhes apontara.

Após retirar o seu casaco, permanecendo apenas com uma camisa social de mangas compridas, o Hyuuga ajudou a mulher a remover o seu. Curvou-se, roçando a ponta do seu nariz na parte de trás da orelha feminina, fazendo-a suspirar, distraindo-a. A dureza do seu corpo diminuiu.

Naquele momento apareceu Bunta. Num reflexo natural, Tenten se afastou de Neji. Sorriu para o velho, os cabelos ainda muito negros para um homem da sua idade, e caminhou na sua direção, abraçando-o. Ele estava confortavelmente vestido em calças gastas e uma camiseta comum. Embaixo das unhas e cutículas havia um círculo negro, habitual de quem mexia diariamente com graxa, e toda a sua pele morena emitia aquela mesma impressão de dureza implacável que os dedos manchados.

Os olhos eram escuros, mais do que os da filha, e muito espertos. Perscrutavam o visitante, como se procurando atemorizá-lo ou mesmo descobrir segredos que nem mesmo a Arata descobrira. Não eram amigáveis.

- Bom ver você, pai - sussurrou Tenten num silvo satisfeito, aspirando aquele forte aroma de madeira e um pouco de ferrugem que exalava das suas roupas.

- Sim - ele concordou, afastando-a. Observou-a e sorriu. - Você continua igual à última vez em que a vi, Tenie - ela fez uma pequena careta ao ouvir o apelido de infância, mas riu. - Isso foi o quê...? - parou para pensar. - Uns dois meses?

- Um pouco mais - reiterou Tenten, num pequeno sorriso tímido. Bunta sempre tivera a capacidade de coagi-la e constrangê-la. Admirava-lhe aquela força magnetizadora da sua personalidade. Desde criança, fora o seu maior exemplo. Nunca derramara uma lágrima pela mãe que a deixara e não permitira que ela o fizesse. De repente se lembrou de Neji e se virou para mirá-lo. - Pai, este é Hyuuga Neji, um amigo - apresentou.

O rosto do advogado não pareceu satisfeito com a alusão. Ela podia compreendê-lo perfeitamente, mas achava que já passara da época em que a sociedade se distinguia entre amigos e namorados, isso era para adolescentes. Namorar era uma condição supérflua. E nenhum deles jamais dissera ter um relacionamento real. Eram só jantares, beijos e fidelidade. A princípio.

Embora contrariado, Neji se aproximou e sorriu enquanto estendia a mão para o Arata, que não teve a mesma expressão respeitosa em sua face. Apertou os dedos do outro com força.

- É um prazer, senhor Arata - disse, seguro.

- Digo o mesmo - a voz agradável de barítono do Hyuuga contrastava com o timbre rouco e levemente gutural de Bunta. Era uma discrepância tão óbvia que ela os observou, surpresa por tamanhas diferenças, não apenas fisionômicas, mas psicológicas. - Bom, vocês chegaram na hora dos parabéns. Vão entrando, vou na varanda fumar um pouco.

Como Tenten não se mostrasse tentada a fazê-lo, Neji a guiou. Havia mais de dez pessoas, incluindo crianças, amontoadas na confortável sala de estar. Todos voltaram as cabeças para recepcioná-los e ela pôde reconhecer imediatamente a doce fisionomia de Inoue, que lhe abriu um sorriso enquanto se punha de pé, vindo na sua direção. Cumprimentou-a e ao seu acompanhante com graciosidade. Corou um pouco quando recebeu as felicitações.

Ao fitá-la, a Arata soube que a senhora à sua frente tinha receios idênticos aos seus. Hesitava em aceitá-la, não por ela própria, mas pela sua grandiosa e expansiva família. Se o fazia, certamente era por Bunta. E, da mesma maneira, Inoue também hesitava. A opinião da filha nunca contara demasiado para Bunta, contudo provavelmente sua companheira não o sabia e temia não obter a sua aprovação. Ela quase riu àquele pensamento estapafúrdio. Mesmo que muito o quisesse, seria impossível desgostar de uma pessoa tão carismática. Era exatamente daquela simpatia e docilidade que o velho precisava em sua vida, pensou.

Depois de feitas as apresentações (a Arata esqueceu os nomes após o terceiro irmão extremamente parecido), uma das netas mais velhas da aniversariante trouxe o bolo e as velas foram acesas. Todos cantaram e bateram palmas. Um dos homens fez uma gravação com a câmera digital.

O clima festivo surpreendeu e ao mesmo tempo assustou Tenten. Nenhum dos seus aniversários fora daquela maneira tão festivo. E povoado.

Fugiu para a cozinha na hora das fotos. Sentia-se uma intrusa. Escorou-se no balcão, tendo enchido um copo de água. Aproveitava aquele momento de solidão para ajeitar as suas idéias desordenadas. Mas logo Sora, a filha mais velha, apareceu no umbral carregando uma bandeja recoberta de pratos sujos de bolo.

- Você e seu pai são parecidos - comentou, parecendo não se importar em interromper a sua reclusão. Dirigiu-se para a pia, onde abriu a torneira e arregaçou as mangas para começar a lavar a louça. Os cabelos ruivos estavam presos em um coque. Era, junto das duas filhas, a única ruiva, provavelmente igual ao falecido pai. - Bunta sempre teve a mesma reação que você quando se sentia desconfortável. Fugia, achando que não o perceberíamos.

- Desculpe - disse Tenten, aproximando-se para ajudá-la. - É um mecanismo de defesa próprio - aquela estúpida justificativa fez com que tivesse vontade de morder a língua. - Nossa família nunca foi grande. E tampouco somos sociáveis - principiou a juntar os restos de comida num único pires, passando-lhe os pequenos garfos.

- Tudo bem se sentir acuada. Não deve ser agradável se deparar com tanta gente assim de repente - reiterou a mulher, suavemente. - Seja bem vinda.

A Arata sentiu sua garganta apertar com aquela recepção. O arrependimento queimou-lhe o peito quando se lembrou de que não tencionava comparecer, e assim provavelmente desapontaria muitas pessoas. Tudo o que pôde fazer foi agradecer, um murmúrio engasgado e praticamente inaudível, e recebeu um gracioso sorriso em troca. Era como encontrar um lugar no mundo depois de anos garantindo a si mesma que não se importava em não ter mãe, avós ou primos.

Quando voltou para sala, Neji estava entretido conversando com os demais homens. Tinha um copo plástico de refrigerante nas mãos, o que nada condizia com seu porte fino, e parecia muito mais à vontade do que ela parecera em todo o tempo em que estivera entre eles. Bunta estava sentado numa poltrona ao lado de Inoue e o observava, mas voltou-se para fitá-la quando a percebeu ali. A expressão dura em seu rosto se desfez e ele lhe sorriu. Com passos incertos, Tenten caminhou na sua direção e se sentou sobre a guarda do assento, estendendo a mão para que o pai a agarrasse, um hábito que cultivava desde a infância.

A partir dali, manteve um diálogo agradável com os demais visitantes.

Era perto das seis quando Neji apareceu na porta do quarto de Mimiko, de sete anos, escorando-se no umbral. A garotinha e Tenten estavam sentadas sobre o tapete felpudo, a maior apoiando as costas contra a cama de ferro, e elas penteavam e vestiam uma pequena coleção de Barbies espalhadas pelo chão que se preparavam para uma grande noite de desfile.

- É bom que saiamos agora, pois chegaremos tarde em Tóquio, Tenie - havia uma diversão gentil na voz do Hyuuga, tirando-as do seu mundo infantil. A morena ergueu a cabeça ao ouvi-lo, surpreendida por não tê-lo percebido antes, e notou como seu apelido soava ingênuo vindo dos lábios dele. Durante a adolescência, odiava quando o velho a chamava daquela maneira na frente das amigas, porém acabara por se habituar e a gostar, como uma prova de que era especial.

Uma das poucas lembranças que tinha da sua mãe era da mesma lhe dizendo que as pessoas só davam apelidos às outras pessoas ou coisas que amavam.

Ela piscou àquela súbita recordação. Observou a boca corada do homem à sua frente. Pestanejou como se ouvisse com perfeição a maneira ilegal com que a chamava, rouco e perturbador, e a sua expressão, seu universo inteiro se amaciou.

- Sim - balbuciou, ternamente. - Apenas vou ajudar Mimi a guardar as garotas - sorriu.

Na hora da despedida, foi abraçada por todos, assim como na chegada. Bunta e Inoue os acompanharam até a varanda. Ela prometeu que voltaria em breve, num próximo aniversário ou o que fosse, e acenou quando já estava dentro do carro e Neji deu a partida.

A volta foi feita em razoável silêncio. Cochilou por metade do caminho, ouvindo o CD de música instrumental posto pelo moreno. Pararam para jantar no mesmo restaurante à beira da estrada onde pararam para o almoço. Ele leu o jornal durante toda a refeição. O ambiente estava quente e agradável. Havia alguns poucos outros aventureiros que retornavam também. Já estava tarde quando chegaram à capital. Reconheceu as primeiras ruas que levavam à sua casa.

- Não - disse, pousando a mão sobre os dedos quentes que seguravam o câmbio. - Vamos para a sua casa - pediu, no que foi rapidamente concordado.

A residência se mostrou com esplendor quando os portões se abriram. Ela ficou sem fôlego, como ficara da mesma maneira em que a vira pela primeira vez, e logo seu perfeito deslumbramento deu lugar a um riso divertido quando os cães Fila passaram a seguir o automóvel que irrompia pelo jardim, latindo e fazendo balbúrdia.

Daquela vez, o Hyuuga não estacionou diante das escadarias. Ele seguiu direto para o estacionamento. A porta automática se abriu. Havia outro automóvel de uma cor preta impecável estacionado lá dentro. Sem qualquer ruído, o carro parou na vaga disponível e Neji desligou o motor. Tenten permaneceu imóvel enquanto ele descia, como já havia aprendido, e esperou que a porta fosse aberta para que movesse as pernas e se pusesse de pé.

Espreguiçou-se, soltando um bocejo. Embora o dia não houvesse sido cansativo, a tensão matinal levara toda a sua disposição.

- Cansada? - perguntou ele, presenteando-a com um pequeno sorriso enquanto estendia os braços, posicionando-se atrás do seu corpo, massageando-lhe os ombros com delicadeza.

- Hmmm - ela ronronou em resposta, curvando a cabeça para trás, apoiando-a contra o peitoral masculino. Os seus coques estavam quase desmanchados. - Eu poderia dormir aqui mesmo, assim, com você - sussurrou, sentindo a respiração quente contra o seu ouvido, excitando-a.

- Vamos para a cama - sua voz era como um sopro, quase imperceptível, enquanto descia as mãos pelos braços, chegando à cintura esbelta.

Livrando-se do aperto, ela se virou para mirá-lo, os olhos chocolate brilhavam de satisfação, a ponto de os deixarem nublados. Ficando na ponta dos pés, encostou a sua testa na dele, sentindo a proximidade dolorosa da sua boca tentadora. Espalmou a mão sobre o seu tórax. Analisou os orbes pérola preciosos e então delicadamente fechou as pálpebras, apenas ouvindo o barulho ritmado do coração de Neji, tão diferente do seu.

Procurou palavras para expressar tudo o que sentia naquele momento, mas era como se toda a sua capacidade intelectual houvesse se escoado por entre os seus dedos, deixando-a apenas à mercê da emoção. Procurou na memória tudo o que vivenciara junto dele, detalhes que sua lembrança distraída ignorava, e o comparou àquela tarde, àquele momento.

- Obrigada - cochichou, ainda que soubesse que simples agradecimentos não eram o suficiente. - Você foi maravilhoso hoje.

- Não há nada que você precise que eu não lhe darei, Ten - ele a observava quando abriu os olhos, devagar. A intensidade queimante do seu olhar e das suas palavras a fizeram tremer e logo mãos firmes estavam em sua cintura, a mantendo em pé mesmo que os joelhos lhe tremessem.

- Faça amor comigo - pediu, afastando-se apenas um pouco, para que pudesse vasculhar as suas emoções sempre tão passíveis de comentários.

O queixo maciço estava rígido. Não havia nenhuma máscara para protegê-lo naquele instante. Tenten se deparou com toda a magnitude esplendorosa dos sentimentos agitadores que o dominavam. Pela primeira vez desde que o vira, foi como ler um livro aberto. Nada foi deixado para trás. Ela devorou cada detalhe do rosto harmônico com ânsia, querendo guardá-lo com toda a majestade em seus pensamentos.

Os orbes claros estavam escurecidos, brilhantes, nebulosos, de uma maneira capaz de devorá-la. Aproximou os lábios dos dele, roçando-os, sentindo o corpo explodir em chamas. Foi como se ferro retorcido invadisse suas veias, chegando até o estômago, embrulhando-o.

Ela sentiu a língua quente invadindo sua boca e suspirou. Os movimentos primeiramente eram vagarosos, como se experimentais, para aumentarem gradativamente de intensidade.

Enfiou as mãos pela gola da camisa de Neji, sentindo a pele quente sob seus dedos trêmulos. O beijo a atingiu com tal impetuosidade, livrando-a de toda e qualquer outra lembrança ou sensação da realidade à sua volta, que Tenten antegozou o momento em que seria dominada e subjugada, em que seria invadida e tomada, eliminando por completo toda aquela urgência enlouquecedora. O gemido que deixou sua garganta fez com que ele se afastasse.

- Vamos para a cama - repetiu, rouco, em voz baixa, tocando-lhe o pescoço com a boca.

Mas ela não poderia. Não tinha forças para se mover.

- Não - apertou os seus ombros, fazendo-o perceber o vigor com que o desejava. - Eu estou pronta - procurou pelos seus lábios mais uma vez, mordiscando-os, começando a abrir os botões da camisa social. - Quero você agora - gemeu ao percebê-lo principiar a corresponder aos seus estímulos, invadindo a sua camiseta com uma das mãos, chegando até o seio. - Aqui - o sussurro não seria ouvido se não o houvesse dito contra a sua boca.

Todo o resquício de controle se esvaiu da mente do Hyuuga. Agarrando-lhe a cintura com força, puxou-a contra si, fazendo-a perceber o quanto a desejava. Tirou o sobretudo branco que ela usava, deixando-o cair sobre o chão úmido. A pele morena se arrepiou, para logo depois ser umedecida pela saliva dele, que acabara de baixar a cabeça na direção do seu ombro.

Tenten suspirou ao sentir o corpo ser empurrado violentamente contra o automóvel. Ele ergueu as suas pernas, fazendo-a sentar sobre o capô, enquanto arrancava a perfeita blusa escolhida por Ino sem qualquer cuidado. A boca desceu pelo seu colo inteiro, até atingir a peça íntima. Seus mamilos intumescidos estavam visíveis por debaixo do tecido branco e doíam com o tamanho do seu desejo. Neji não os tocou, porém. Desceu as mãos para o botão da calça jeans, abrindo-o.

Levantando-a com apenas um braço, ajudou-a a remover a peça. Um segundo depois, ela sentia-o acariciar-lhe o ponto mais sensível e arqueou o corpo para trás mediante a fúria com que o prazer a dominou. Ofegou contra a sua boca, puxando-o contra si. Acariciou o peito masculino, correndo os lábios por sobre ele.

Neji soltou um grunhido quando ela fechou as pernas em torno do seu quadril, abrindo-lhe a braguilha.

Logo, já não havia barreira nenhuma entre eles. O moreno não pôde nem mesmo remover-lhe a calcinha, apenas colocou-a para o lado, penetrando-a forte e subitamente. Tenten ouviu a si mesma soltar um grito, mas era como se estivesse fora de si. Mal começara o movimento e pôs-se a tremer inteira. Era como estar à frente de um abismo e não ter a mínima chance de salvação. Um milhar de sensações se ascendeu como uma pequena chama, aumentando e se expandindo por todo o seu corpo, até que os dedos se contraíram e toda ela estremeceu, vibrando em seus braços.

A contração e espasmo, o rubor que dominou a face feminina fez com que ele a segurasse com mais força. Ela gemeu em seu ouvido, fazendo-o enrijecer, então Neji a invadiu com força, a penetrando mais profundamente, e arquejou.

Eles ofegavam quando o tufão se foi lentamente.

Os olhos pérola ainda estavam enegrecidos de prazer e desejo.

- Eu quis você desde a primeira vez em que a vi - disse, enfiando uma das mãos por debaixo do sutiã.

Tenten ofereceu seu corpo a ele, estremecendo com aquele toque.

- Você me tem - murmurou ela, cerrando os orbes para sentir aquela carícia.

- Não vou permitir que você vá embora, Tenie - Neji beijou a sua têmpora úmida, rodeando-lhe a cintura com o braço desocupado. Com o ouvido sobre o peito masculino, pôde escutar o ribombar furioso do seu coração, parecendo tão desenfreado.

- Eu não irei - garantiu, silenciando para então se aperceber do barulho harmônico das suas respirações.

Quando o moreno a colocou na cama, Tenten dormiu quase que imediatamente. Foi um sono sem sonhos, mas perfeitamente restaurador. Ela não teve a mínima pressa para acordar, porque sabia que não precisaria partir.

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N/A: Então, garotos, garotas, chegamos ao maravilhoso final. Apesar da demora e das pedras pelo caminho, é claro. Não houveram muitos espaços para os coadjuvantes, mas não se preocupem. Eu pretendo fazer um epílogo mostrando algumas cenas bacanas, em que alguns dos queridinhos de vocês se ajeitam. E outros nem tanto. Sem previsão de postagem, já aviso. Infelizmente a vida real anda me sugando, mas como sempre digo... eu tardo, porém não falho.

Agradeço àqueles e àquelas que leram, acompanharam, choraram, riram, me cutucaram para postar mais rápido! Amo vocês por tal receptividade e carinho. Espero que continuem acompanhando meus demais projetos e não se esqueçam de dar o seu parecer a respeito deste final.

Pra quem acompanha minhas outras obras simpáticas, deve ter percebido que este foi o primeiro hentai consumado. Como eram só quatro capítulos, decidi não deixá-los na tentação!

GOGOGOGO REVIEWS! E até a próxima ;D