Meu indicador direito permanecia na letra N, enquanto o esquerdo passeava pelo S. Era uma decisão fácil e complicada ao mesmo tempo, uma resposta deliciosamente arriscada.
Será que a vontade de conhecê-lo valeria o risco desse encontro?
L. Cuddy says: S
S, Enter e não tinha mais volta, eu iria pra Nova York conhecê-lo e ver o que o destino reservava pra mim.
Terminamos a conversa e marcamos de combinar tudo no dia seguinte, quando eu já estivesse pronta para ele.
Eu tinha meu coração livre, mas precisava ter uma conversa franca com Adam, o que seria difícil pois terminar com alguém que você gosta é sempre muito complicado. Apesar de que, pensando pelo lado positivo, uma vez eu terminei com alguém que eu amava, então... Qualquer coisa depois daquele dia doloroso seria fácil, ou ao menos correto.
No dia seguinte tivemos uma conversa franca, pela primeira vez em quase dois anos de relacionamento, entre muitas coisas, contei à ele o real motivo para eu ter me mudado pra Chicago.
"Eu nunca iria imaginar que você e o doutor House namoravam."
Era tão difícil imaginar isso? Digo, nós trabalhamos juntos por muitos anos e eu sempre fugia da conversa quando o assunto era ele...
Adam era desligado demais ou não me conhecia direito, House seria capaz de ler minhas reações sem qualquer esforço.
E lá estava eu, pensando e falando sobre ele novamente.
"Foi um término complicado e o nosso relacionamento seria impossível depois disso, então eu decidi seguir em frente em algum lugar onde ele não pudesse habitar meus pensamentos, por mais que ainda esteja no meu coração."
Ele me questionou se eu ainda o amava e eu disse que sim, mas o problema em questão era eu estar envolvida com outra pessoa.
"Eu me sinto diferente, encantada. Acho que a palavra certa é essa: encantada."
Não consegui explicar que estava apaixonada por alguém que eu conheci pela internet, Adam não entenderia, se nem Wilson não entendeu, qualquer outra pessoa no mundo acharia loucura.
Nossa conversa foi sincera e mais simples do que imaginei que pudesse ser.
Por mais que ele tenha ficado surpreso, Adam finalmente entendeu o que eu estava sentindo e respeitou isso. Ele era um grande homem.
Terminamos de uma forma tranqüila, sem brigas, mágoa ou dor, diria até que poderíamos ser amigos depois disso.
Combinamos que ele ficaria com a casa e a direção do hospital e eu comecei a ajeitar nossas coisas e comprar as passagens.
Rachel estava radiante pela nossa volta.
V says: Td certo?
L. Cuddy says: Espero que a sua proposta ainda esteja de pé, pq eu praticamente não tenho mais casa e nem trabalho em Chicago.
V says: =) Está td perfeitamente pronto pra gente se encontrar.
L. Cuddy says: E como vamos fazer isso?
V says: Lembra que eu disse que estava ensaiando uma música nova no piano?
L. Cuddy says: Man in the Mirror?
V says: Vc disse que gostava e eu resolvi incluí-la no concerto. Vai ser no restaurante de um hotel, eu te mando o endereço por email. Vc tem apenas que estar lá sábado às 19 horas... Eu vou tocá-la pra vc =)
L. Cuddy says: E como vc vai saber quem sou eu? =p
V says: Como vc vai estar vestida?
L. Cuddy says: Hum.. deixa eu ver..
V says: Vestido azul? Vc tem?
L. Cuddy says: Tenho, pq?
V says: Acho que vc fica bonita de azul, combina com seus olhos.
L. Cuddy says: Quem te disse que eu tenho olhos azuis? ¬¬
V says: Vc.
L. Cuddy says: Eu nunca te disse isso hahaha!
V says: é mesmo? Então eu devo ter sonhado com seus olhos.
L. Cuddy says: Hum.. ok. Vestido azul, oq mais?
V says: Que tal vc segurar uma rosa vermelha?
L. Cuddy says: Hahaha sério?
V says: Não, isso é mto brega, era só brincadeira hahaha
L. Cuddy says: Ufa.. Por um momento pensei em desistir de vc =)
V says: Hey!
Vc desistira de mim pq eu sou brega? Como vc é volúvel! E o interior? Eu sou um cara bacana...
L. Cuddy says: Eu espero que sim. =)
V says: ¬¬
Bom, continuando... Vc entra, me espera no bar e quando ouvir Man in The Mirror no piano, é só seguir a música e me encontrar.
L. Cuddy says: Quem nem Alice seguindo o coelho branco?
V says: Exatamente, eu sempre te disse que pra mim vc era um tipo de Alice no pais das maravilhas, não disse?
L. Cuddy says: Sim, pq vc sabe que esse nosso "mundo" é meio Wonderland.
V says: Vc poderia imaginar que algo assim acontecesse com vc?
L. Cuddy says: Nunca hahaha e vc?
V says: Me apaixonar por alguém que eu nunca vi? Sim, sempre. Internet sempre foi meu ideal de alma gêmea.
L. Cuddy says: Steve Jobs é que deve ser feliz.
V says: Absolutamente. Quem não morderia a maçã dele?
L. Cuddy says: Hahahaha eu morderia com todo o prazer.
V says: Heyyyy ¬¬
L. Cuddy says: Hahahaha ele é rico e inteligente, não é alguém de se deixar passar, sabe? =p
V says: Cuddy, Cuddy, vc não era assim.
L. Cuddy says: =P Acho que eu estou feliz demais hoje.
V says: Espero que esteja feliz demais amanhã =p
L. Cuddy says: Td depende de vc =)
Nunca terminamos uma conversa tão bem. Eu estava ansiosa e animada para a viagem do dia seguinte e quase não consegui dormir. Peguei no sono às 5:30h e às 6h Rachel veio me acordar, dizendo que estava pronta pra voltar pra casa. Ela nunca me dissera o quanto sentia falta de Nova Jersey e eu me senti um pouco culpada em tirá-la de lá tão cedo.
Pegamos o avião um pouco antes do almoço e chegamos lá às 14 horas.
"Cuddy?"
Cheguei na casa do Wilson sem avisar e cheia de malas.
"Surpresa!"
Ele percebeu que eu sorria mais do que o normal e ficou intrigado por aquela situação, me convidando para entrar quase que imediatamente.
"O que você está fazendo aqui? E o que é tudo isso?"
Wilson apontou para as malas e eu expliquei que tinha voltado pra casa.
"Algum motivo em especial?"
"Eu vou pra Nova York amanhã encontrar uma pessoa."
Rachel já estava brincando em algum canto da casa dele quando eu me sentei e contei sobre a minha decisão de conhecer V.
"Você tem certeza?"
Ele parecia mais calmo do que estava na primeira vez em que eu contei à ele sobre isso.
"Claro."
"Bom.. Eu espero que você seja feliz."
Ele sorriu e eu não entendi o motivo dessa mudança repentina, mas estava contente por ele ter aceitado minha decisão e estar me apoiando.
"Obrigada. Você sabe que o seu apoio é muito importante pra mim."
Ele me abraçou e me fez sentir a pessoa mais segura do mundo. Tudo parecia perfeitamente certo e eu estava prestes a dar um giro de 180 graus na minha vida.
Mas como alegria demais é sempre sinal de alguma tragédia, ouvi o barulho da porta se abrindo e o som de uma bengala se chocando contra o chão de madeira.
Por alguns segundos meu coração acelerou e eu senti meu corpo gelar, tremendo de medo de me virar para trás e me encontrar em ELE.
"Você por aqui?"
Aquela voz foi a gota d'água para me desestabilizar. Wilson percebeu e me segurou firme enquanto eu tentava decidir se me virava ou não.
Ele jogou as chaves na mesa, pelo que pude ouvir e veio em minha direção, me obrigando a tirar coragem não sei de onde para olhar para ele.
"Eu estou de volta."
Disse enquanto me virava para, depois de tantos anos, encarar aqueles olhos que me faziam bem e mal ao mesmo tempo.
E então eu estava frente à frente com o único homem que eu havia amado, até então.
House havia envelhecido um pouco e estava abatido, a dor na perna parecia ser maior pela forma como ele andava, mas ele continuava tão bonito como sempre foi. Era incrível como ele se tornava incrivelmente sexy quando me olhava daquele jeito, como se estivesse invadindo meu corpo através do olhar.
Meu coração reagiu instantaneamente, assim como um arrepio tomou conta do meu corpo. Estar diante dele depois de tanta tempo era tão esquisito.
"Seja bem vinda."
O clima não era de hostilidade, tão pouco de hospitalidade, não sabia distinguir se ele estava sendo sarcástico, mas me parecia que ele havia mudado muito durante esse tempo.
Eu sorri para ele e me voltei para Wilson , perguntando se ele poderia ficar com Rachel durante o final de semana.
"Claro, será um prazer."
Essa resposta foi o necessário para me fazer pegar uma pequena mala que eu havia separado para Nova York e procurá-la para me despedir.
Rachel estava brincando no quarto que parecia ser do House quando eu a achei.
"A mamãe volta logo, está bem? Se comporte e obedeça House e Wilson, ok?"
Aquele nome parecia mexer com ela tanto quanto mexia comigo. Rachel abriu um lindo sorriso e saiu correndo de lá, agarrando House quando chegou na sala e deixando ele um pouco constrangido pela demonstração de carinho.
Eu não sabia de onde vinha todo esse sentimento, mas ela realmente gostava dele.
Wilson perguntou se ela queria comer alguma coisa e a levou até a cozinha e House e eu ficamos sozinhos enquanto eu estava prestes a sair pela porta, completamente mexida pela presença dele.
Ele impediu minha passagem e me fez um certeira e inesperada pergunta:
"Você deixou de me amar?"
Eu perdi a fala pelo susto, mas senti vontade de ser sincera com ele.
"Eu ainda amo você. Mas estou apaixonada por uma outra pessoa."
Nunca uma resposta foi tão fácil e verdadeira, era um fato e não era doloroso de dizer. Não havia medo nem ressentimento nessa conversa, por mais estranho que estivesse parecendo.
Eu estava bem em dizer isso à ele e ele parecia bem em ouvir, sem dor, sem mágoa.
"Seja feliz."
Foi a última coisa que ele me disse, sorrindo meio sem jeito e abrindo a porta para que eu fosse de encontro com o mais novo amor da minha vida.
