Capítulo Quatro
All Good Things
(Todas As Coisas Boas)
Ginny cuspiu a pasta de dente na pia. Olhou para Harry, escovando os dentes em aparente serenidade. A não ser que se analisassem os olhos. A pele ao redor deles estava enrugada com tensão, e ele ficava olhando rapidamente para ela pelo canto dos olhos.
- O quê?
Ele balançou a cabeça, colocando uma mão sob a torneira e usou a água em sua mão para enxaguar a boca.
- Nada.
- Não era um olhar que dizia 'nada'. – Ginny respondeu, enxaguando a escova de dente.
Harry deu de ombros, evitando o olhar de Ginny.
- Tem certeza de que isso é normal?
- O que é normal? Escovarmos os dentes ao mesmo tempo?
- Não... – Harry secou o balcão com uma toalha e a jogou no cesto no canto. – Não parece certo...
Ginny começou a sair do banheiro, e foi até a cama, afastando o cobertor, antes de subir.
- Você vai ter de explicar isso. – falou. – Os meninos estão na cama, dormindo, a casa está fechada e protegida... Hermione está bem. Ninguém deixa ameaças de morte na nossa porta há quase dois anos. Mamãe e papai estão bem e, até onde eu sei, o resto da família também.
Harry passou uma mão ao redor do poste da cama, descansando um joelho no colchão.
- Eu estava falando de você. – se sentou na ponta da cama.
Ginny o olhou com descrença.
- Do que está falando? – perguntou distraidamente, pegando um livro e o folheando.
- Como tem se sentido?
Ginny correu uma mão pelo cabelo, afastando-o do rosto.
- Bem. Ótima, na verdade.
- Viu! – Harry exclamou. – Isso não é normal.
- Você escorregou no gelo, quando foi buscar a correspondência trouxa, e bateu a cabeça? – Ginny perguntou desconfiadamente. – Você não está fazendo sentido nenhum.
Harry esfregou o rosto com a mão.
- Você não se sentiu nem um pouco mal. – disse pacientemente.
- E isso é algo ruim? – Ginny perguntou divertidamente.
- Bem, não. – Harry admitiu. – Mas, com Al, você estava mal o tempo todo. E quando você estava grávida de James, você nem conseguia tolerar o cheiro de algumas comidas, mas essa... – ele gesticulou para a barriga relativamente reta de Ginny. – Nada.
- De novo... Isso é algo ruim?
Harry suspirou e engatinhou até a cabeça da cama, escorregando sob o cobertor.
- Suponho que não. – brincou com a ponta do lençol.
Ginny colocou uma mão sobre a dele, parando os movimentos de seus dedos.
- Sobre o que você está realmente preocupado?
- Quem disse que estou preocupado com algo?
- Eu disse. – gentilmente, Ginny tirou o lençol de entre os dedos de Harry. – Você não está preocupado comigo, ou o bebê. Bem, está. – disse apressadamente quando a boca de Harry se abriu para protestar. – Mas não assim.
Harry tirou os óculos e o colocou no criado mudo, antes de deitar na cama, o rosto escondido no travesseiro.
- Victor Crabbe e Garrett Goyle estão saindo de Azkaban. – disse irritadamente.
- O que vai acontecer com eles?
Harry se virou e olhou para o teto.
- Condicional. Eles vão precisar de autorização do Ministério para sair do país. Precisarão informar qualquer intenção de ir para a Bretanha ou Irlanda. Têm de registrar suas varinhas. Se não, é uma sentença automática a Azkaban. Se eles ainda tiverem uma varinha, isso é. As deles foram destruídas depois da guerra.
- O que acontece se eles usarem a varinha de outra pessoa?
Harry fez uma careta.
- Eu vou ver. Quando usar Legilimência neles. – seu rosto se torceu levemente e suas narinas dilataram, enquanto seu estômago pesava. Odiava usar Legilimência em Comensais da Morte, mesmo depois de uma década. – Eles recebem outra sentença em Azkaban. Se eles forem pegos fazendo algo, como atacar Trouxas, é perpétua em Azkaban...
- Quando eles vão sair?
- Em junho. Nós temos que preparar a papelada deles com o DELM antes.
- Mas ainda é janeiro.
- E DELM opera na agilidade de um melaço em fevereiro. – Harry retorquiu.
Os lábios de Ginny se torceram.
- Essa é uma imagem que eu não precisava. – murmurou. Conseguia imaginar o Supremo Tribunal Bruxo como bolas de melaço semicongelados, andando ao redor do ministério. Era apropriado, considerando sua natureza conservativa.
Harry não a ouviu.
- Isso nunca vai acabar, vai?
- O quê?
- Eles. A maneira que ele me fazem me sentir, como se eu tivesse passado por doze metros de lama mental.
- Eu não sei. – Ginny se deitou de lado, encarando Harry. Ele estava deitado de costas, com um braço sobre os olhos. – Elas estão chegando, não? Seus interrogatórios de condicional? – perguntou hesitantemente.
- Semana que vem. Segunda-feira.
- Vou ver se a mamãe pode ficar com os meninos, então. – Ginny refletiu.
Harry ergueu o braço do rosto e olhou para Ginny.
- Por quê?
- Primeira consulta com Shanti. É as dez.
- Oh, droga... – Harry suspirou. – Eu queria ir com você.
- Eu sobrevivo. – Ginny disse secamente. Tocou o ombro dele. – Quando você vai chegar em casa segunda?
- Eu não sei...
Ginny assentiu.
- Vamos jantar na mamãe. – decidiu.
Os ombros de Harry relaxaram levemente.
- Obrigado. – disse fracamente. Seriam algumas preciosas horas de solidão. Raramente voltava de um desses dias em algo parecido a bom humor. Ginny aprendera cedo a lhe dar um bom espaço nessas noites.
Quando Ginny se mudara para o apartamento de Harry em Soho, durante a sua primeira temporada com as Harpies, ela voltara do treino apenas para ser confrontada por um Harry ressentido e ríspido, que estava sentado no apartamento apagado, com uma garrafa de cerveja Trouxa nas mãos, e cercado por várias outras garrafas. Ele se recusou a falar com ela, ignorando todas as tentativas que ela fez de tentar persuadi-lo de ir para a cama. Ginny tinha se enrolado no sofá, ao lado dele, magoada quando ele se afastou bruscamente quando ela colocou uma mão sobre a dele. O som de água correndo a acordara depois de algumas horas. Silenciosamente, ela saiu da cama, e cuidadosamente espiou pela porta aberta do banheiro. Espiando pela porta, inclinou a cabeça para espiar no espaço entre a cortina e a parede, e dentro da banheira. Harry estava sentado com as costas sob o jato de água, esfregando seus braços violentamente com uma toalha de rosto. Ocasionalmente, seus ombros começavam a tremer e, tão abruptamente, ficavam tão tensos quanto uma parede. Silenciosamente, Ginny voltou para a cama e escorregou sob o cobertor. Deitou-se de lado, os olhos fixos na porta aberta do quarto, esperando Harry se juntar a ela. Finalmente, ele se deitou na cama, deliberadamente mantendo sua distância dela. Depois disso, Ginny ficara até mais tarde no trabalho, ou treinando mais ou, depois de se aposentar, ficava no escritório do Profeta, trabalhando em um artigo. Quando James nascera, ela o levava para a casa de seus pais pelo dia, e encontrava motivos para ficar para o jantar. Era algo que continuara a fazer quando Albus nascera.
Ginny odiava os dias de condicional, mesmo que só acontecessem duas vezes por ano. Ela sabia por que Harry os evitava quando voltava para casa. Ele não queria ligá-los com esse aspecto em particular de seu trabalho, não importava o quanto ele pudesse precisar de qualquer forma de conforto que ela e os meninos pudessem oferecer.
- Vá dormir, Gin. – a voz de Harry soou na escuridão. O cobertor ondulou quando ele se moveu para mais perto dela, seus dedos entrelaçando os dela. – Consigo ouvir seu cérebro funcionar. – disse secamente.
- Eu durmo, se você dormir. – retorquiu.
- Touché. – ele murmurou, se acomodando.
-x-
Hermione prendeu o pequeno cobertor de Rose ao redor da criança, adormecida em tranquilo abandono do lado de Ron na cama. Quietude caiu sobre o apartamento, e Hermione se acomodou contra os travesseiros, empilhados na cabeça da cama. Abriu cuidadosamente sua cópia desgastada de Hogwarts, uma História e voltou a ler, dessa vez silenciosamente. Hermione estivera lendo em voz alta para Rose até que ela adormeceu. Hermione tinha rido quietamente para si mesma, observando os olhos escuros e arregalados de Rose permanecendo teimosamente abertos, antes de se fecharem lentamente, apenas para serem arregalados novamente, e de novo, até que ela se entregasse ao sono que estivera ameaçando tomá-la.
Ron estava fora pelo dia, verificando como as coisas estavam indo na loja de Hogsmeade. Ele não voltaria até o começo da noite, então Hermione e Rose ficaram por conta. Hermione amava esses pequenos momentos à sós com Rose; dolorosamente ciente de que não durariam muito mais. Por mais que estivesse ansiosa pelo novo bebê, Hermione sabia que sentiria falta desses momentos roubados e calmos.
A mão livre de Hermione pousou sobre o contorno de seu corpo, a palma acariciando levemente sua barriga. Virando a página, sentiu uma leve agitação sob seus dedos. Tinha sido fraco demais para Ron sentir, se ele estivesse ali. Sentiu um sorriso aparecer em seu rosto.
- Hugo... – murmurou, sabendo que nunca haveria outro nome para ele. – Olá. – o livro escorregou o livro dos dedos de Hermione quando ela se focou internamente, suas mãos esticadas sobre a curva pronunciada sobre sua barrigada. Ela sorriu sonolentamente, lembrando-se.
- Você está se sentindo bem? – Ron perguntou com um tom de diversão em sua voz.
- Estou um pouco cansada, mas qual pai trabalhador não está? – Hermione se serviu de ervilhas pela terceira vez, e colocou mais um pouco de assado em seu prato.
Ron olhou para seu prato de forma significativamente.
- É só que você parece estar faminta ultimamente.
Hermione o olhou com a boca cheia de ervilhas. Engolindo, deu de ombros, enquanto cortava um pedaço da carne.
- A comida está realmente gostosa hoje.
- Hmm. – Ron amassou uma batata assada na tigela de Rose. – Você tem bastante disso... – indicou o prato de Hermione sendo esvaziado rapidamente.
Hermione se serviu de uma batata assada.
- Estou bem. Só com fome.
- Se você diz. – Ron cedeu, usando um pano de prato úmido para limpar as migalhas do jantar de Rose que estavam nas mãos e rosto da criança. – Certo, então, tampinha, vamos tomar banho, eh? – tirou Rose do cadeirão e a colocou no chão.
- Bolhas? – Rose perguntou, seu rosto iluminado com a esperança.
- Claro. – Ron respondeu, bagunçando o cabelo dela.
- Bolhas! – Rose repetiu, correndo até o banheiro, sentando-se no tapete do banheiro para tirar as meias.
Hermione começou a limpar a mesa, enchendo a pia de água, cantarolando levemente. Distraidamente, viu a data no calendário, enquanto colocava os pratos para se lavarem sozinhos. Desde o nascimento de Rose, seu ciclo estava um pouco irregular, mas não era nada com o que se preocupar. Ela e Ron não tinham discutido a possibilidade de terem outro filho, mas não estavam tão vigilantes com o controle de natalidade quanto poderiam estar. E dadas as dificuldades em conceber Rose, nenhum dos dois esperavam conceber tão facilmente. Controlava as datas por hábito. Hermione tirou o calendário da parede, e voltou algumas páginas. A última marca no calendário era de três meses atrás.
Uma bandeira vermelha se ergueu em sua mente.
Nunca houvera um intervalo de mais de doze semanas entre seus ciclos. Seis, claro. Oito, absolutamente. Mas não doze.
Doze era altamente incomum.
- Não posso estar... – murmurou. – É impossível... – encolhendo os ombros, Hermione voltou a pendurar o calendário na parede. Não lhe faria nenhum bem se preocupar com isso. Dado seu passado, provavelmente não estava. O trabalho tinha sido estressante nessas últimas semanas, tentando convencer a Suprema Corte a adicionar o Registro de Lobisomens como parte dos Serviços de Suporte aos Lobisomens, argumentando que licantropia era mais uma doença manejável ao invés de uma sentença de morte. Além do mais, o registro a lembrava inconfortavelmente de vários momentos na história Trouxa. Não achava que Lobisomens deviam ser obrigados a usar broches, ou serem submetidos à exames e exposição aleatórias a algum oficial frio e indiferente do Ministério.
Hermione se virou para a pia e começara a guardar os pratos no armário. Tentou não pensar no assunto, enquanto lia uma história para Rose e a colocava para dormir. Tentou tirar isso de sua cabeça, enquanto tomava banho. Tentou não ficar obcecada quando se deitou na cama, esperando por Ron. Tentou não se afundar nisso enquanto olhava para o teto escuro, ouvindo a respiração de Ron ao seu lado. Deitou-se de lado, irritada, incapaz de se livrar da ideia de que poderia estar grávida.
- Certo, chega. – resmungou suavemente. Afastou o cobertor e colocou os pés no chão. Vestiu um suéter sobre a camiseta que usava, e vestiu os tênis. – Ron? – sussurrou, balançando-o um pouco.
- Qu...?
- Preciso sair. – Hermione o avisou.
Ron ergueu a cabeça e esfregou os olhos, olhado para o relógio.
- Já passa da meia noite, mulher. – bocejou. – Onde está indo?
- Apenas preciso ir fazer algo. Voltou daqui a pouco. – Hermione saiu do quarto e Ron ouviu o fraco 'pop' da aparatação dela. Suspirando em resignação, se sentou, escorado na mesa de cabeceira. Ele não ia voltar a dormir logo. Quando Hermione cismava com algo, era difícil para ela deixar de lado.
Voltou ao apartamento vários minutos mais tarde, carregando uma sacola do Tesco Express, na Charing Cross, onde compravam coisas como leite e sorvete tarde da noite. Desapareceu dentro do banheiro, o som de uma caixa sendo aberta alcançando os ouvidos de Ron, depois de ouvir a porta do banheiro ser firmemente fechada. Quando Hermione não saiu do banheiro por vários minutos, Ron saiu da cama, sua curiosidade atiçada, e parou em frente à porta.
- Hermione? – Ron tentou abrir a porta, mas ela estava trancada. Olhou por sobre o ombro para sua varinha, descansando no criado mudo e suspirou. Voltou para o quarto e a pegou, apontando-a para a porta. Estava prestes a falar o encantamento para fazê-la abrir quando ela foi aberta, revelando uma Hermione surpresa, silenciosamente lhe passando algo. Confuso, Ron caminhou os passos que os distanciavam, e pegou o objeto equilibrado na palma da mão dela.
Segurou sob a luz, apertando os olhos para as duas linhas.
- Isso não pode estar certo. – a informou.
- Foi o que eu pensei. – ela concordou. – Por isso fiz dois. – passou o segundo teste a Ron.
Ron o olhou, seus olhos indo de um para o outro.
- Eu sabia! – exclamou. – Sabia que alguma coisa estava acontecendo com você!
- Shh! – Hermione gesticulou para ele ficar quieto. – Você vai acordar a Rosie. – empurrou Ron de volta para o quarto, e fechou a porta.
- Quando isso aconteceu? – Ron perguntou, estudando Hermione.
- Eu não tenho ideia. – ela disse fracamente. Hermione apertou a mão de Ron. – Nós nunca conversamos sobre ter outro.
Ron piscou para o teste em sua mão.
- Não realmente.
- Então...? – Hermione esperou ansiosamente pela resposta de Ron.
Ron ergueu os olhos para ela, uma fraca ruga aparecendo entre suas sobrancelhas. Ele se lembrava do quão desafiador tinha sido para eles quando estavam tentando conceber um bebê pela primeira vez. E aqui estava algo inteira e completamente inesperado, mas ainda assim um presente. Fracamente, Ron decidiu que devia ser assim que os outros se sentiam quando descobriam que iam ter um bebê. Sem preocupações, sem esperar, sem contar os dias, esperando ansiosamente enquanto cada semana passava.
- Eu nunca quis que Rosie fosse filha única. – respondeu.
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Hermione acordou; o corpo aquecido e flexível de Rose estava pressionado contra o seu. Ron estava deitado do outro lado de Rose, as observando dormir.
- Há quanto tempo está aí? – ela perguntou roucamente.
- Há pouco. – Ron cedeu. Estava em casa há mais de uma hora. – Vocês duas pareciam tão calmas; eu não queria acordá-las. – notou a mão de Hermione se mover sobre a lateral da barriga. – Como vocês estão? – perguntou, sua mão cobrindo a dela.
Hermione sorriu.
- Estamos bem, Hugo e eu. – Hugo começou a dar saltos mortais novamente, e as vibrações que ele gerava corriam em ondas por ela.
- Hugo?
- Sim. É o único nome que parece certo.
- Hugo, então... – Ron passou a cabeça por cima do corpo adormecido de Rose e beijou Hermione suavemente.
- Eu quero torta... – Hermione murmurou, esperando que Ron se lembrasse de uma conversa há muito tida.
- Mas não temos torta... – Ron a informou.
- Não, Ron... Eu quero torta. – falou, erguendo e abaixando as sobrancelhas no que esperava ser um modo lascivo.
- Quer torta... – uma voz sonolenta soou entre eles. Rose esfregou os olhos e se levantou. – Torta, papai! – pediu.
- Depois do jantar, Rose. – Ron prometeu distraidamente, estudando o rosto de Hermione. Ela levou sua mão até a boca e lhe beijou a palma, fazendo Ron puxar o ar tremulamente. – Oh... Esse tipo de torta... – ele saiu da cama, pegou Rose e a pendurou no ombro, fazendo-a rir. – Acho que posso providenciar isso. – marchou até a cozinha, fazendo cócegas em Rose. – Quer ajudar o papai a fazer torta para sobremesa? – perguntou para ela, sua voz diminuindo conforme se aproximavam da cozinha.
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As mãos de Ron estavam pousadas sobre os seios de Hermione.
- O que trouxe isso a tona? – murmurou, seu nariz a centímetros do dela.
Hermione encolheu os ombros languidamente, o movimento fazendo a pele se mexer sob os dedos de Ron, enviando ondas de deleite por seu corpo. A gravidez tinha intensificado seu olfato, e ela sempre sabia onde Ron estava. Ela sabia quando ele acabara de sair do banho, a fragrância amadeirada de seu sabonete invadindo seus sentidos. Ou quando ele passara o dia nos fundos da loja, produzindo e embalando produtos. Conseguia sentir o cheiro das ervas e outros ingredientes que ele usara. E, sob isso tudo, uma pitada do próprio Ron. Quando acordara de seu cochilo mais cedo, o cheiro dele tinha a impregnado. Quase perdera toda a noção de controle quando ele pousara a mão sobre a sua. Durante todo o jantar, ela se vira dando todas as desculpas patéticas que conseguia pensar para tocá-lo. Parecia que Rose demorara demais para ir dormir.
- Não sei... – Hermione murmurou.
Ron riu suavemente, pressionando um beijo em seu ombro nu.
- Seja lá o que for, eu não vou reclamar.
Hermione se espreguiçou contra Ron, seu corpo pressionando o dele em uma pergunta silenciosa.
- Aproveite enquanto pode. – respondeu. – Em três meses, momentos como esse serão difíceis de acontecer.
Ron enrolou a mão no cabelo dela, ajeitando-se para que ela ficasse esparramada sobre seu corpo.
- Eu vou considerar isso, mulher...
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Ginny se sentou à mesa de exame, seus pés balançando distraidamente acima do chão. Sob a barra da camisola verde claro que usava, notou que suas meias não combinavam. Na clara luz do consultório de Shanti, percebeu que uma era azul escura e a outra era preta. Elas não eram nem do mesmo estilo. Ajeitou-se quando a porta abriu, e Shanti entrou na sala, calmamente eficiente como sempre. Shanti se sentou na ponta de um banquinho alto, o arquivo de Ginny em mãos.
- Você está definitivamente grávida. – Shanti informou Ginny. – Oito ou nove semanas. – deixou o arquivo de Ginny no balcão atrás de si. – Ginny...
- Eu sei...
- Três crianças em quatro anos. – Shanti afirmou. – Albus ainda não tem nem dois anos. – continuou. – É demais para seu corpo processar.
- Eu sei.
- Que diabos estavam usando como contraceptivo? – Shanti perguntou, pegando o arquivo de Ginny e o folheou.
- Camisinhas trouxas. – Ginny suspirou.
Shanti sentiu sua sobrancelha se erguer.
- Mesmo? Normalmente, elas são bastante eficazes.
- É... – Ginny começou a rir. – O irônico é que tínhamos decidido esperar até Albie ter pelo menos três anos, antes de tentarmos ter mais um. – pousou uma mão sobre a barriga. – Foi quando isso aconteceu.
Shanti voltou a colocar o arquivo no balcão.
- Quando o bebê nascer, vamos ter de procurar formas alternativas de controle de natalidade para você. A não quer que vocês queiram mais filhos?
- Não. – Ginny balançando a cabeça enfaticamente. – Esse é o último.
- Há algumas opções que podemos seguir. A maioria é temporária, mas há algumas que são mais permanentes. Mas podemos discutir isso depois. – Shanti saiu do banquinho e parou ao lado da mesa de exames. – Certo. Você sabe a rotina...
- Sem náuseas. Um pouco cansada, mas nada demais ainda. O de sempre...
- Certo. – Shanti escreveu algumas coisas no arquivo de Ginny. – Nada de Quadribol. Eu sei o quão intenso os jogos da sua família podem ser. – adicionou quando Ginny abriu a boca para protestar. – Você ainda pode voar, mas nada de truques perigosos. Descanse bastante. Venha me ver se algo não parecer certo. Mesmo que não saiba dizer o que é. – tamborilou os dedos no arquivo de Ginny, franzindo o cenho. – James e Albus já tiveram dragonite?
- Não. Por quê?
- Se algum deles tiver, você vai ter de achar outro lugar para passar a semana, até que eles não sejam mais contagiosos.
- Brilhante...
- Eu iria para um hotel bacana, com serviço de quarto. – Shanti refletiu. – Assistir programas ruins de televisão e ler péssimos livros trouxas...
Ginny sorriu.
- Eu sabia que gostava de você.
- Mentes brilhantes, e tudo o mais. – Shanti escreveu mais alguma coisa no arquivo de Ginny. – Marque uma consulta com a recepcionista para o mês que vem, depois que se vestir. – apertou levemente o ombro de Ginny. – Você está bem com isso? Eu sei que é bem mais cedo do que você queria.
- Sim, na verdade estou. Fiquei um pouco chocada no começo, mas talvez dessa vez seja uma garota.
- Algo pelo que esperar depois de dois garotos, eh?
Ginny escorregou para fora da mesa de exame com uma risada.
- Algo do tipo.
-x-
Ginny guiou os meninos pela porta dos fundos da cama, ajeitando um Albus adormecido em seus braços, enquanto usava a varinha para abrir a porta. Mandou James entrar na cozinha escurecida na sua frente.
- Mamãe, onde está o papai?
- Ele está deitado, Jemmy. – Ginny respondeu distraidamente, acenando a varinha, iluminando o caminho até as escadas. Colocou Albus no berço e tirou o agasalho e suéter dele, deixando-os na cadeira de balanço. Gentilmente, tirou o tênis e o colocou no chão, antes de tirar as pequenas calças e a jogar na cadeira de balanço com o resto de suas roupas. Molly tinha colocada uma fralda limpa nele antes de saírem d'A Toca, então ela podia deixá-lo quieto até a manhã. Ginny prendeu o cobertor ao redor de Albus, pressionando um beijo em sua testa.
Ginny levou James para o quarto dele e se ajoelhou a sua frente.
- Levante os braços. – disse, prendendo a barra de seu suéter em suas mãos. Obedientemente, ele ergueu os braços, permitindo Ginny tirar a peça de roupa. Ela o fez tirar o tênis e as meias, enquanto procurar um par de pijama limpo para ele.
- Quero que papai leia para mim. – James murmurou, enquanto Ginny tirava seu jeans.
- Eu já te disse, Jem, papai já está dormindo. Como você deveria estar.
- Por quê?
- Por que ele não está se sentindo bem.
- Po-Por-Por quêêêêê? – James perguntou em meio a um bocejo.
- Por que ele teve um péssimo dia. – Ginny respondeu cansadamente. – E está na hora de um garotinho chamado James Sirius Potter ir dormir. – ajudou James a vestir o pijama e o mandou para a cama com um tapinha no traseiro. Puxou o cobertor até o queixo de James e o beijou. – Durma bem, Jemmy.
Ginny fechou parcialmente a porta de James e abriu a porta de seu quarto. Podia ver a forma de Harry encolhida sobre a cama com a fraca luz do corredor. Fechou a porta, e caminhou na ponta dos pés até o banheiro para escovar os dentes rapidamente. Tirou a roupa com um suspiro, e a deixou na cesta de roupa suja no canto. O banheiro estava impregnado com a fragrância de sândalo do sabonete de Harry. Ginny imaginou há quanto tempo ele estava deitado. Não achava que fazia muito tempo, considerando que o banheiro ainda estava aquecido e úmido. Apagou a luz, e cegamente procurou sua camisola no armário.
- Você pode acender a luz, Gin. – a voz rouca de Harry veio da cama.
- Achei que você estava dormindo.
- Ainda não...
Ginny acenou a varinha para o pequeno candelabro sobre a cômoda e tirou a camisola de um sob um monte de camisetas e jeans que tinha jogado dentro do armário pela manhã. Vestiu a peça de roupa, o suave algodão correndo por seu corpo. Foi até a cama e subiu nela, assustando-se quando Harry imediatamente a procurou.
- Harry...? – murmurou.
- Eu só... – Harry soltou o ar lentamente e passou os braços ao redor de Ginny, sua cabeça se afundando no pescoço dela. Uma de suas mãos correu pela barriga de Ginny. – Eu preciso me lembrar do por que de estar fazendo isso...
Continua...
