Sabia o quanto sentir aquele olhar em mim era importante. A saudade doía, porém feriu-me ainda mais ao vê-la tão perto outra vez. Caso resolvesse sair e me evitar, não poderia condená-la. Mas a hipótese parecia mais uma das mortes que vinha acumulando desde que a deixei.

Queria falar e simultaneamente aproveitar o momento. Fitava cada detalhe de seu rosto. O breu era incapaz de ocultar sua expressão, seus olhos, suas lágrimas contidas, a mania de morder o lábio quando ficava nervosa.

Quando a vi tocando a parede, não reprimi a vontade de tê-la de novo comigo. Entrelacei a mão dela na minha, devagar, com receio dela se assustar. Mirávamos um ao outro e francamente não sei dizer por quanto tempo passamos naquela inércia tão intensa. Eu precisava me explicar e pedir perdão com palavras e não com gestos, somente. Para ela, um abraço ou um presente não seriam suficientes. E nem deviam ser. Mas o misto de sentimentos me deixou confuso, e só consegui beijar sua mão.

Ela não recuou. Então tive coragem para me aproximar com calma, mesmo que tremesse como um adolescente em seu primeiro amor – e isso estava um pouco longe de ser uma completa mentira. Enlacei suas costas e a trouxe para perto, tencionando abraçá-la. Finalmente, ela reagiu. Parecia ter saído de um transe e me levou junto.

Com a mão livre, acendeu a luz. Ao se acostumar ao clarão, a atenção dela se desviou para onde estávamos. A surpresa era evidente e muito compreensível, porque ela não esperava isso de mim.

- O que você pretende com isso, Wendell?

A força que eu admirava nela havia voltado. Eu sabia que não seria fácil contornar isso. Portanto, resolvi enfrentar e suportar qualquer coisa que viesse.

- Quando brigamos por conta do seu trabalho na escola, pensei em montar um consultório para você. Seria complicado juntar dinheiro, mas não impossível. Eu sabia que você estava trabalhando também para tentar alugar uma casa, comprar seus equipamentos. Mas eu queria fazer isso para você. Como um pedido de desculpas pela minha ignorância e egoísmo e demonstração do quanto admiro seu trabalho, independente da maneira que você o faça.

- Não serei orgulhosa. Eu preciso de um emprego. Porém, faço questão de pagar um aluguel para você. De modo algum vou viver às suas custas.

- Discordo disso. Mas se for para ajudar você, não ficarei discutindo. Preciso conversar com você sobre um assunto mais importante.

- A mãe do Thomas, por exemplo?

- Você vai saber tudo o que quiser sobre isto. Por favor, deixe-me contar. Quando eu terminar, sinta-se à vontade para tomar qualquer decisão. Sei que não tenho o direito de insistir em receber seu perdão. Mas farei isto enquanto puder e não fizer você sofrer mais ainda.

Ela se sentou no lugar da secretária. Minha ansiedade me impedia de parar quieto. Pus-me a andar pelo o que seria a sala de espera do consultório de Mônica. Esperava saber explicar de modo a ser compreendido. Ao menos, ela estava me ouvindo e olhando para mim. Conseguiria notar que nada era mentira.

Depois de uma dos piores momentos da minha vida, simplesmente andei até ficar muito cansado. Cheguei em um lugar conhecido, mas não me dei conta enquanto caminhava. A casa que aluguei para realizar um desejo de minha mulher. Eu tentava odiá-la, e até consegui por algum tempo. Porém, lembrava-me de todos os anos que passamos juntos. Dos problemas mais complicados, das incompatibilidades de gênio quando éramos mais jovens. Nem todas as pendências foram sanadas, porém os assuntos encerrados tornaram o nosso casamento mais forte.

Eu realmente acreditava que mudar para a Austrália seria um modo de renovar algo já muito agradável. Uma mudança de ares nos faria sentir novamente apaixonados, com todo o vigor de antes e com mais maturidade. Mas eu estraguei esses planos.

Ao invés de ceder ao desespero, quis fazer o certo ao menos uma vez. Antes daquele idiota prestar queixa contra mim, fui até a polícia e expus o caso. Andar e fazer o coração quase sair pela boca de tanto cansaço foi bom para me acalmar.

- Mas onde está a sua mulher?

- Certamente ela vai passar por aqui, só não sei a que horas.

- Se tudo isso que nos disse é verdade...

- Esse boçal me espancou! E vai ter que pagar, ficar preso!

Era a última voz que eu queria ouvir naquela madrugada, francamente.

- Olha só quem fala. O franguinho covarde!

- Basta! Não estou com paciência para briga de comadre. As medidas cabíveis serão aplicadas aos dois, fiquem descansados.

O delegado aceitou a queixa que fiz por Mônica, mas pedi para ele não falar nada para ela sobre isso. Contei o caso alegando que ela não queria nada com ele, acusei-o de agredi-la e assediá-la. Como não sabia até onde ele chegou, somente me resignei a achar prudente o delegado me prender por uma noite, certificando-se de que me controlaria. Quanto ao abusado, teve de esperar Mônica formalizar a acusação, mas na cadeia também. Longe de mim, claro. Ninguém ali era louco de deixá-lo perto de quem deu um bom jeito de deixá-lo com marcas significativas no rosto e em outros lugares.

Antes do carcereiro sair, fiz mais um pedido:

- Quando minha mulher chegar, não quero vê-la. Diga que fui embora, por favor.

- Vou falar com o delegado, mas acho que não tem problema. Boa noite, se você conseguir dormir.

- Obrigado.

Ele foi um tanto irônico, mas eu não me importei. Apenas não queria dar mais esse desgosto para Mônica, ver-me ali ou conversar naquele lugar horrível. Passei a madrugada pensando se estava sendo injusto. A minha falta de apoio quando ela arrumou emprego deve ter causado um impacto negativo no que ela sentia por mim, mas não ao ponto dela me trair. Esta idéia ora vinha, ora se afastava. Quando o delegado resolveu me soltar, já era de tarde. E antes de eu sair, ele disse:

- Sua esposa confirmou tudo o que o senhor me contou. Adrian será processado e o boletim de ocorrência está feito. Por falar nisto, ele não conseguiu chegar às vias de fato com sua mulher, se é isto que o preocupa. Mas a machucou o bastante para o exame de corpo de delito ser muito impiedoso no processo contra o rapaz.

Não conseguia respondê-lo.

- Quer saber? Se isso acontecesse com a minha esposa, eu estaria do lado dela agora. Aposto o que você quiser que ela não o traiu.

Apenas balancei a cabeça, indicando uma despedida, e fui embora.

Adiantaria voltar e por algum motivo tolo repetir a dose? Mônica devia estar cansada de agir sozinha, de ver meu desagrado com a nova vida que ela quis levar. Por isso, decidi voltar a ser o marido presente que eu era em Londres. Porém, excluindo a parte de sempre desejá-la em casa, fazendo tudo conforme a minha vontade até fora dela. Essa mania de controlar as coisas e pessoas à minha volta foi contida o quanto eu consegui, mas notei a ineficiência dos esforços. Era preciso mais força, mais garra para ser um homem melhor. Mas precisava fazer isto longe dela.

Fiquei na casa alugada mesmo com a pequena reforma – somente as paredes precisavam ser pintadas, pois estavam muito escuras –, e continuei a trabalhar. Algum tempo depois, espantei-me com a primeira falta de Amèlie. Liguei para ela, mas ninguém atendia. Liguei para a vizinha, pois ela me deixou somente este segundo número como referência, e ela atendeu com uma voz chorosa.

- Então você é o doutor Wilkins...

- Sim. O que aconteceu com Amèlie?

- Ela teve um derrame. Está em coma, eu já não sei mais o que fazer.

- Precisa de alguém que pague o hospital, ou qualquer tipo de ajuda? Conte comigo, por favor.

- A questão não é o dinheiro, e sim o menino.

- Menino?

- Thomas. Amèlie não contou que cuida do neto?

- Não.

- Estou cuidando dele por enquanto, mas tenho de voltar para o trabalho amanhã. Fico fora o dia todo e a mãe dele está viajando, faz pós-graduação na Europa. Ele está com a avó há alguns meses.

- Contrate uma babá. Eu cubro o custo.

- A mãe dele voltará no final da próxima semana. Se realmente puder fazer isso, eu agradeceria muito.

- É o mínimo que posso fazer. E onde Amèlie está internada?

Com o tempo, aprendi a gostar de minha secretária. Tinha cacoetes peculiares, mas era uma boa pessoa. Sempre me ajudou, inclusive quando estava desnorteado com a separação temporária (eu denominava a situação deste modo). Tentei me virar naquele dia, pois não tinha a quem pedir ajuda. Foi um caos. Atender telefone no meio de consultas, deixar a porta da minha sala entreaberta com avisos por tudo quanto é lado sobre a falta de Amèlie e a necessidade dos pacientes me avisarem sobre sua presença.

No final do dia, exausto, quis conhecer o neto dela. Seria uma gentileza e um jeito de explicar para a vizinha que não pude sequer pensar em procurar babás. Precisava de uma secretária também, e isso só poderia ser feito no dia seguinte. Desmarquei os pacientes do outro dia, agradeci por ser quinta-feira e segui para a casa da moça.

Ela me recebeu muito bem. Aparentava ser nova ainda e notei que estava abalada. Devia ser muito amiga de Amèlie.

- Eu cuidaria dele se pudesse. Mas sou enfermeira, mal consigo parar em casa. Moro aqui com minha irmã, mas ela é uma adolescente, sai mais do que pode, até. A mãe dele está com problemas para voltar e enquanto isso não acontece, prometi a ela dar um jeito de deixar o Thomas com alguém de confiança.

- Posso vê-lo?

- Claro! Vou chamá-lo, ele está no quarto de minha irmã.

- Desculpe, com a confusão toda nem perguntei seu nome...

- Virgínia – ela parecia se divertir com a pergunta, mas depois comecei a pensar melhor. Devo ter expressado meu constragimento por não saber o nome dela.

Thomas era um garoto baixo para seus 8 anos. Parecia ser forte, mas os olhos vermelhos denunciavam a preocupação com a avó. Olhou-me com uma certa curiosidade.

- Olá, Thomas. Eu sou o chefe da sua avó, dout... Quer dizer, Wendell.

- Dr. Wilkins, eu sei.

- Mas pode me chamar pelo primeiro nome, não me importo. Você já foi visitar sua avó?

- John prometeu me levar amanhã – ele ficou cabisbaixo, então entendi minha inconveniência.

- Desculpe ter perguntado isso – abaixei-me para olhar direto para ele. – Mas gosto muito de Amèlie, e ainda não tive oportunidade para vê-la. Sabe que vou procurar uma babá para você?

- Sei sim. Tia Gi me contou.

- E o que você acha da idéia?

- Vou continuar aqui, então pra mim tá bom.

- Ótimo. Thomas, Virgínia, preciso ir. O dia foi cheio, e amanhã não será diferente.

- Sem problemas, doutor. Conversamos amanhã, então.

Notei uma peça na mão de Thomas quando fui me despedir.

- Um cavalo?

- Gosto de jogar xadrez. Vovó me ensinou.

- Também gosto de xadrez. Atrapalhei seu jogo?

- Não. Estava só pegando as pecinhas, ninguém aqui sabe jogar, só vovó.

- Entendo.

Mirei aquele olhar triste. Era apenas uma criança que, segundo Virgínia, viu uma das pessoas que mais ama tendo um derrame em sua frente. Esperava encontrar um menino mudo, francamente. E no entanto, ele estava resistindo. Não alegre, mas tentando não ser mais uma preocupação. Aceitou pacatamente a babá, meu falatório inútil e desajeitado, pois nunca sei exatamente como agir nesse tipo de situação, então julguei estar fazendo pouco pelo garoto. O cansaço se curaria com uma noite de sono. E isso eu nem sei se ele teria naquele dia.

- Você quer jogar comigo?

- Mas o senhor disse que precisa ir. Não quero atrapalhar.

- Há tempos não me divirto com xadrez. Uma partida não me deixaria com sono e nem mais cansado. Quer?

- Tem certeza, dr. Wilkins?

- Sim. Será bom. E quero ver se você é tão hábil quanto parece, rapaz.

- Tia Gi, podemos?

- Claro, querido! Vão para o quarto da Danielle, ela não chegará tão cedo – disse, com um certo desgosto na voz ao falar da irmã.

Ele estava sério ao arrumar as peças no tabuleiro. Pensei em ajudar, mas acho que ele queria me provar que sabia organizá-las.

Começamos a partida em silêncio. Quando ele conseguiu pegar meu primeiro peão, e isso não demorou tanto quanto eu gostaria, disse:

- Há quanto tempo não joga xadrez?

- Nem sei. Minha esposa jogava comigo quando podíamos.

- E não joga mais por quê?

- Porque nos separamos por um tempo.

- Papai disse a mesma coisa, e nunca mais voltou com mamãe.

- E onde está seu pai?

- Morreu no ano passado.

- Sinto muito.

- É, eu também. E não adiantou nada você derrotar um peão meu, porque agora já tenho dois seus na mira.

Sorri sem graça, completamente surpreso com a carga que o menino carregava e sua capacidade de encarar tudo com naturalidade.

- Você é muito esperto, garoto.

- Vovó me diz muito isso. Mas não sei se ela tá certa.

- Por quê?

- Não consegui ajudá-la.

- Você não podia fazer nada, Thomas. Foi uma fatalidade.

- Demorei muito pra chamar a tia Gi, nem consegui ligar pra ambulância, nada.

Ele assumiu um olhar perdido. Não sabia se falava comigo ou consigo.

- Sabe, eu pedi pra mamãe me deixar aqui porque não queria me mudar. Vovó sempre foi sozinha, ficar um ano com ela não seria ruim, já que mamãe precisava viajar. Ela me prometeu voltar mais alegre, porque desde a morte de papai ela vivia triste e chorando quando achava que eu não via. Ela vem aqui me visitar em todo último domingo do mês. Fico contando os dias na folhinha.

As lágrimas estavam se formando. Em nós dois. Sempre odiei ver crianças sofrendo. E a solidão me deixou um pouco mais fraco do que o habitual para ouvir esse tipo de história e ser indiferente. Thomas, sem me encarar, detonou mais dois peões meus, como dissera antes.

- Você é implacável. E forte.

- Forte?

- É. Conheço caras que não agüentariam metade do que você vive. Que não agiriam como você. Fariam tudo de um jeito diferente, mais covarde.

- Eu só quero minha vó e minha mãe de volta.

- Eu sei. E admiro muito isso. Vai ficar contente mesmo com a babá?

- Vou tentar. Mas por que você tá chorando?

- Adultos não têm medo de mostrar o que sentem de vez em quando. Você também chorou.

- Só um pouquinho. E isso não é desculpa pra você jogar na minha frente, ainda é minha vez.

- Desculpe a falta de atenção, enxadrista!

- Por falar nisso, o que é placa... inca... aquilo que você disse?

- Implacável?

- É. Você tava me xingando?

Expliquei para ele com o máximo de seriedade que pude, pois tive uma vontade quase incontrolável de rir.

Estava ficando tarde, mas não nos demos conta. Virgínia nos interrompeu quando estávamos em um embate feroz, ele apenas com um bispo para defender o rei, e eu com uma rainha para fazê-lo.

- Rapazinho, já passam das dez!

- Tia, tá quase no fim...

- Você me disse isso há meia hora atrás também. Sinto muito, mas já passou da hora de ir para a cama. Tem escola amanhã cedo!

- Ele vai para a escola? – depois do ocorrido, achei aquilo um absurdo.

- Eu quero. Vou ver vovó de tarde e ela ficaria furiosa se eu não fosse estudar.

- Posso ir com vocês vê-la?

- É durante a tarde, não vai atrapalhar?

- Absolutamente. Para procurar uma secretária e uma babá não é preciso sair de casa. Resolverei isto rápido.

- Vovó vai gostar. Ela fala bem do senhor.

- Fala? Que bom!

- Bom mesmo, senão eu nem ia jogar com você. E nem te ensinar que com um bispo, eu ainda podia ganhar da sua rainha.

- Mas isso você não fez, porque o jogo não acabou!

- Sua tia disse que sim e também acho a hora muito adiantada para você.

- Quer ver? Jogue uma vez.

- Thomas, sem gracinhas!

- Tia, é só uma jogada, prometo!

Virgínia me olhou meio contrariada, meio sorrindo. Encarei aquilo como uma permissão para obedecer o garoto e joguei. Não havia muito o que fazer. Pelo menos, este era o meu pensamento. De repente, ao tirar a mão da rainha, notei a intenção de Thomas.

- Não fiz um xeque-mate, mas a sua rainha já era, doutor.

- OK, tenho de admitir a derrota desta vez! Nem precisamos continuar para saber quem vai ganhar esta. Mas quero revanche, esteja avisado!

- Vou adorar! Pelo menos você é melhor do que a Danielle, ela se cansa rápido.

Aquele garotinho jogava mais do que eu a Mônica juntos, sem dúvida. E quando menos esperava, estava rindo com ele da falta de paciência de Danielle. Ele aparentava estar mais feliz, e isso me deixou satisfeito. Até o meu cansaço estava devidamente esquecido.

No dia seguinte, procurei primeiro uma babá para Thomas. Chamei algumas para me encontrarem pessoalmente. Quando me dei conta, tinha esquecido justamente de procurar uma secretária. Com a placa e o anúncio que encomendei para estar no jornal naquele dia – e agredeci ter pensando nisso antes de fechar o consultório –, recebi uma boa atenção. E eu achava três ligações algo muito satisfatório, aliás.

Anotei os dados, combinei os horários com as babás e as secretárias e fui ver Amèlie. Cheguei no hospital e me deparei com uma Virgínia preocupada.

- Ainda bem que veio. Não tem ninguém em casa, apenas trouxe Thomas porque não havia jeito e ele ia visitar a avó de qualquer forma. Por favor, pode cuidar dele até a noite? Sei que estou pedindo demais, mas se recusar ele ficará sozinho em casa, acho perigoso.

- Fique tranqüila, cuidarei dele. Será até bom, porque as babás virão em casa e ele poderá decidir entre uma delas.

Casa. E eu poderia chamar o consultório em reforma de Mônica de lar? Arrumei um tipo de quartinho na sala de atendimento, deixei umas coisas na sala de espera. Era um amontoado organizado, digamos. Mas para uma criança passar uma tarde apenas, estava de bom tamanho, eu achava.

- Muito obrigada! Isso fará bem a ele, pois gostou muito do senhor.

- Onde está Amèlie?

- Vou levá-lo para lá. Só não posso ficar por ali porque tenho muito trabalho...

- Claro. Não se prenda por mim, somente quero saber o caminho. Longe de mim querer atrapalhá-la.

Notei a tristeza dela ao me fazer o pedido. Tive a leve impressão de que o problema não era somente deixá-lo sozinho, porém resignei-me. Especular sobre a vida dela era uma de minhas últimas intenções naquele instante. Porém, tentar ajudar não faria cair minha mão. Quando vi as indicações sobre a proximidade da UTI, disse:

- Se você precisar de qualquer coisa, por favor, me procure. É notável sua afeição pelo Thomas e estou disposto a ajudá-lo. Isto se estende a você, pois está sendo muito generosa mesmo com tantos afazeres.

- Faria até mais se pudesse!

- Sei que sim.

Ela pareceu mais tranqüila depois da breve conversa. De longe, vi Thomas encostado em um vidro, com uma enfermeira ao seu lado. De pronto, despedi-me de Virgínia e fui até ele. A enfermeira me perguntou se eu era parente dele, e entre mentir e dizer a verdade, era melhor ser sincero de vez e dizer minha intenção de acalmá-lo. Ela se convenceu e foi embora. Assim, tencionei dizer algo, mas ao ver o desespero na expressão do garoto, achei melhor consolá-lo. Aproximei-me devagar para não assustá-lo e coloquei uma mão em seu ombro. Ele abaixou a cabeça abruptamente. Não imaginava ter alguém o observando, creio.

- Sou eu, Thomas. Dr. Wilkins.

A resposta demorou a vir. A voz trêmula indicou o motivo.

- Eu sei. Vi seu rosto no vidro.

- Estão cuidando bem dela.

- Tomara.

- Não se preocupe quanto a isso.

- Você é doutor também, não pode ajudá-la?

- Sou dentista, não o tipo de médico que sua avó precisa, Thomas. Mas posso ajudá-la de uma maneira.

- Qual?

- Orando por ela e cuidando de você.

- Mas é a babá que vai cuidar de mim. E eu queria a minha avó de volta.

- Não só a babá cuidará de você. Sua avó vai voltar, seja lá como for.

- Vai vir com aquela história dela virar uma estrelinha? Disseram isso do meu pai, mas eu deixei de acreditar.

- Por quê?

- Porque já tem estrelas demais no céu. Não sei qual delas pode ser meu pai e estou cansado de perder para as estrelas. Se é tão bom assim ser uma, por que não viro uma logo? Aí fico mais perto de quem gosto. Tenho minha mãe também, mas sem minha avó eu não sei como ela vai ficar.

- Que pessimismo para uma criança! Escute, Amèlie ainda está aí, viva! Não se dê por vencido. E você virará uma estrelinha na hora certa. Viver longe de quem amamos é só um obstáculo da vida, podemos contorná-lo se pensamos nessas pessoas com carinho, se lembramos delas.

- Mesmo assim, eu só queria ficar com todo mundo que amo. Saudade é uma coisa muito chata. Virar estrelinha é injusto. Não conseguimos alcançar, elas ficam longe.

- Mas podemos vê-las e isso as deixa muito, muito perto. Você não precisa estar com alguém para saber o quanto a pessoa o ama, certo? É assim com as estrelas.

Meu objetivo era convencê-lo a ver o quanto o desânimo não valia a pena. Um menino não podia ter tanta desesperança dentro de si. Desajeitadamente, estendi os braços a ele. Thomas me abraçou com força, e o levei da UTI. Antes, dei uma olhada em Amèlie. Inerte como nunca sonhei em ver. Desejei francamente que ela melhorasse, pois tinha alguém muito especial esperando por ela. E certamente ela tinha consciência disto.

Levei-o para minha "nova casa". Ele não ligou para a falta de familiaridade com um lar, e demonstrou ter sono. Parecia ter dormido pouco – ou nada, até arriscaria – nas últimas noites.

- Está um pouco bagunçado, mas você pode dormir na minha cama.

- Tem cama aqui?

- Tem.

- Parece um lugar onde dentista trabalha...

- E é. Eu espero que um dia minha mulher venha trabalhar aqui, mas preciso terminar de comprar os instrumentos. Coloquei uma cama na sala ao lado, ela virou meu quarto.

- Legal. Mas eu não estou com sono.

- Claro. Essas olheiras são fruto da minha imaginação. Qual foi a última vez que dormiu a noite inteira?

A disposição dele para me responder era fraca. Sempre gostei de crianças, apesar de ter tido pouca oportunidade durante a vida para lidar com elas sem ser por motivos profissionais. Precisava me esforçar mais para convencê-lo a dormir, estava ficando preocupado.

- Não precisa dizer. E se quiser, pode ver algumas pessoas que chamei para entrevistar.

- As babás? – a idéia o desanimou ainda mais.

- Também. Mas com uma condição.

- Qual?

- Vai ficar no sofá fazendo seus deveres – ele ia começar a argumentar, mas cortei-o. – E nem tente dizer que não tem nenhum pra fazer.

- Sim, doutor Wilkins – disse, revirando os olhos, insatisfeito.

Pensei em como Mônica reagiria me vendo agir desta forma. Doeu-me notar a vontade de estar ao lado dela. Senti raiva do meu orgulho e da racionalidade. Porém, decidi que mudaria e não faria isso pela metade. Podia parece um plano estúpido, mas para mim fazia todo o sentido. Preferia imaginá-la sofrer pelo marido ridículo que me tornei ao invés de voltar todo arrependido e fazer outra bobagem em um curto espaço de tempo.

Olhar para Thomas reforçava o meu desejo de ter filhos. Mas entendia perfeitamente que ele tinha mãe, uma família. Apenas queria ajudá-lo, não tinha a mínima intenção de ficar com ele. Nem se quisesse, poderia. E enfiei isso na minha cabeça a partir daquele jogo de xadrez. Não projetaria meus anseios nele. Porém, podia dar um pouco do amor que não conseguiria aplicar naquele momento a um filho. O garoto merecia isso. Muito.

Uma das candidatas a secretária chegou. Thomas a olhou curioso inicialmente, mas depois desviou o olhar. Após uns minutos de conversa, pesquei o motivo: ela saberia obedecer ordens, mas entendê-las seria outra história.

Uma segunda apareceu ali antes da hora combinada. Até aí, sem problemas. O ponto era... ela veio para trabalhar no lugar errado. Meus costumes machistas era detestáveis, contudo eu duvido que um paciente se sentiria à vontade sendo recebido por uma criatura sem condições de disfarçar toda a extensão das pernas. Eu estava com vergonha por ela, francamente. Contudo, ainda deixei ela tentar me convencer.

Dados os argumentos da moça, prometi pensar no caso dela e recebi a primeira babá. Thomas ficou apavorado com ela, mas não me perguntem o motivo. Nem ele entendeu. E a mulher dava mesmo uma péssima impressão. Se alguém me dissesse que ela parou no lugar errado e queria extrair um dente, eu acreditaria tranquilamente. Semblante amargo. O ofício não parecia ter feito bem a ela.

Veio mais uma secretária. A última que me ligou. Era secretária de um advogado. Tinha alguns anos de experiência, nunca lidou com médicos. Mas administrar uma agenda ela sabia bem, era notável. Organizada, nem um fio de cabelo saía do lugar. Detalhe pífio, mas a visão da mulher de pouco pano e muito batom escuro me deixou um tanto perturbado procurando detalhes que valham para elogiar alguém.

Quando ela saiu, estava determinado a esperar mais três babás, mas nenhuma precisou vir.

- É hora do seu plantão, não é?

- Eu troquei de turno. É suficiente passar a tarde cuidando desse menino lindo?

- Tia Gi!

Thomas correu até ela. Abraçando o menino, ela me olhou em tom de agradecimento.

- Não sei se o salário será tão bom quanto o que você está acostumada no hospital, mas é seu, se quiser de verdade. Parece ser perfeito ter você cuidando dele, aliás.

- Eu não larguei o hospital. Terei duas rendas. E até não cobraria nada, se não fossem as contas pululando todo santo dia.

- Ela vai poder cuidar de mim, doutor?

Somente ali eu percebi como ele me chamava. Mas podia ver isto mais tarde.

- Com toda a certeza! – ele sorriu sinceramente para mim. Eu já não sabia como me portar e nem porque aquilo me acalmava tanto. – Mas antes...

- Eu tenho que dormir. Não precisa mandar de novo.

Crianças lêem pensamentos ou eu sou uma pessoa muito previsível?

- Acho muito bom. Essa carinha de sono precisa sumir daí agora! Onde ele vai dormir?

- Na minha cama, por enquanto. Vou explicar a você como vou mudar um pouco esse lugar até conseguir me mudar.

Pretendia arranjar um apartamento, mas pagar três aluguéis seria demais. No mínimo, precisava arrumar o consultório para ficar o melhor possível. Expliquei a situação toda para Virgínia. Senti que podia confiar nela. Ocultei a parte mais sentimentalista, porém queria demonstrar a minha real intenção de voltar com Mônica, o quanto acreditava nela e porque não disse tudo para ela até aquele momento.

- Você está arriscando muita coisa, Wendell. Ela pode e deve, aliás, pela sua atitude, estar tentando esquecê-lo. Seria o mais natural mesmo depois de tantos anos, acredito eu! Tem certeza de que seguirá esse plano? Não deixa de ser bonito, mas é perigoso.

- É. Mas eu preciso tentar acertar pelo menos uma vez. Desde que nos mudamos para cá, nossa vida virou de cabeça para baixo e boa parte disso é culpa minha. Não é fácil admitir, mas é verdade, não adianta ficar negando.

- Bem, é sua esposa, eu somente dei minha opinião a respeito.

- E agradeço por isto – estava quase para sair e voltar para minha casa de verdade com aquele incentivo todo dela. Contive-me.

- Quanto ao consultório, aqui não é lugar nem para você, que dirá para uma criança. Se acontece alguma emergência como a de hoje, de eu não poder cuidar dele, ficar aqui não é o ideal. Farei uma proposta a você. Amèlie está sem condições de decidir qualquer coisa, mas ela quereria o neto feliz, sem dúvida. Portanto, eu posso cuidar dele em minha casa, só não acho justo deixar você deste jeito. Estava disposto a pagar uma babá e depois que ela fosse embora, ficar com Thomas. Percebo, você não estava brincando comigo, falou sério. Poderia convidá-lo para ficar em casa se houvesse espaço para isso. Thomas dormir lá uma vez ou outra é normal, mas por dias chega a ser estranho. Não estamos acostumados a ter crianças, de noite eu vou trabalhar também. Enfim, aceitaria ficar na casa de Amèlie? Ela não ficará brava, asseguro.

- Sinto-me invadindo a privacidade dela mais ainda, Virgínia.

- Se vier bronca por aí, o que duvido, virá para cima de mim.

- É injusto.

- É mais lógico. O menino sentirá falta da casa dele, não acha?

Ela tinha razão. Contudo, isso não abrandava a minha sensação de invadir a vida de Amèlie sem permissão alguma. Já intervi na vida de seu neto e ainda me instalaria em sua casa. Absurdo e óbvio simultaneamente.

- Farei isto. Pelo bem do Thomas, somente. Por mim, ficar aqui por mais uns meses não seria um sacrifício.

- Eu sei. Você se apega rápido às pessoas, hein?

- Não normalmente, apesar de gostar de crianças.

- Quando digo que esse menino é especial, poucos me dão crédito.

- O que a fez mudar de idéia?

A pergunta a pegou de surpresa, pois ficou lívida.

- Se não pode responder, tudo bem...

- Você me contou da sua vida, foi sincero comigo. Serei assim com você, então. A mãe do Thomas virou uma pessoa bem difícil depois da morte do ex-marido. Eles nem chegaram a se separar legalmente, mas era assim que funcionava na prática. E desde o rompimento, ela passou a morar com a mãe. Linda tinha crises, estava entrando em depressão. Amèlie não conseguia socorrer a filha e o neto ao mesmo tempo, e naquela época eu tinha mais folga no trabalho. Cuidava dele quando o clima estava tenso. Linda começou a ter ciúmes de mim. Por isso, pensei duas vezes antes de deixar Thomas em casa até ela voltar. Estou cansada de ouvi-la me criticando, e sem Amèlie aqui fica pior ainda para encará-la. Ela contratou uma babá para cuidar de Thomas durante a tarde, mas a menina engravidou e já está sem condições de trabalhar. Nas últimas semanas, ele está comigo e ela nem sabe.

- A viagem tem feito bem a ela?

- Quando volta, aparenta a alegria de antes. Mas a antipatia comigo continua, ainda mais por estar longe.

- De qualquer forma, eu vou confrontá-la. Talvez se incomode por ter um estranho na casa de sua mãe e cuidando de seu filho. Eu até agora não sei exatamente como consegui me propor a fazer tudo isso, mas não posso voltar atrás.

- Pode. Mas confio que não irá.

Eu sempre acreditei em amizade sincera entre homens e mulheres. E aquela moça, jovem e determinada, seria uma amiga e tanto. Esperava um dia apresentá-la para Mônica e vê-las muito amigas, se fosse possível.

A campainha tocou. Eu tinha alguém para dispensar pessoalmente e outras duas por telefone. Depois disto, uma pequena mudança a fazer. O consultório ficaria pronto mais rápido do que eu imaginava.

Na semana seguinte, Amèlie saiu do coma e foi para a CTI. Antes de poder visitá-la, tinha de esperar a filha dela chegar. Ela ligou para Virgínia e segundo esta, disse friamente que viria e queria ver Thomas primeiro. Linda tinha consciência de que eu estava cuidando do garoto também e me encheu de perguntas. Achei natural, apesar de irritante o modo com que ela insinuava que eu tinha algum interesse escuso com minhas atitudes. Bem, minha nova amiga deve ter suportado perguntas piores.

Thomas se sentia melhor no lugar que lhe era familiar. Fiquei no quarto dos fundos, que julguei ser da antiga babá. Estava literalmente no meu posto, pelo menos o da noite. Ele voltava feliz da casa de Virgínia, então eu ficava mais tranqüilo por estar agindo corretamente.

Contratei a moça organizada para ser minha secretária, pois me sentia mais à vontade tendo alguém parecido comigo e Amèlie dando conta dos pacientes. Engraçado, somente quando perdemos as pessoas notamos como elas nos fazem falta. São quase insubstituíveis.

Quando fui visitar Amèlie durante a noite, havia uma mulher parada na porta do quarto. A expressão dura e o olhar forte rapidamente me levaram a identificá-la de pronto.

- Linda?

- Dr. Wilkins. Fiquei aqui somente para esperá-lo.

- Vim para visitar sua mãe.

- Eu sei. E pode fazer isto. Mas depois da visita, venha conversar comigo. Ou melhor, podemos conversar na casa de minha mãe, eu não quero Thomas ouvindo o que tenho a dizer para você.

- Afinal de contas, quem você pensa que eu sou? – já estava ficando ultrajado com tanta desconfiança, apesar de entender os motivos dela.

- Um homem nada idiota e bem ambicioso. Agora entre no quarto antes que mamãe ouça nossas vozes e fique preocupada.

Entrei sem responder nada a ela. De cara, uma pessoa insuportável. Pensei se não seria mais suave pagar um terceiro aluguel.

- Amèlie! Deu um susto em todos, hein?

- É a minha diversão favorita, dr. Wilkins!

- Sem formalidades, por favor. Não estamos no consultório.

- E fora dele você me mostrou que realmente é uma pessoa muito boa e íntegra. Obrigada por tudo o que está fazendo pelo meu neto.

- Não é ataque de santidade. Você sempre foi uma ótima secretária e nos entendíamos bem. Você me ajudou quando estive em um momento difícil, não custava nada retribuir. E Thomas não é uma criança rebelde nem birrenta, foi muito bem criado. Assim é fácil lidar com a situação.

- Mesmo assim, muito obrigada! Virgínia deve estar atolada com o trabalho, apesar de me dizer que está dando conta de cuidar de Thomas e trabalhar de manhã. Tente convencê-la de que não fiquei chateada com o fato de você estar pagando para ela ficar com ele. Eu sei da vida financeira perturbadora dela. Fiquei feliz de saber da outra renda. Fala com ela? Não posso contar com minha filha neste ponto.

- Virgínia me contou sobre sua filha.

- Linda não era assim. Está desconfiada de você, mas quando ela veio aqui, Thomas estava junto. Ainda quero conversar, ela não entende a dimensão real dos acontecimentos. Tenha paciência, ela vai recebê-lo melhor.

- Tudo bem. Mas ela é a mãe do menino, se ela pedir que eu não faça mais nada, não posso contrariá-la.

- Entendo perfeitamente.

- Está se sentindo melhor?

- Como se tivesse sido atropelada por um caminhão. Porém, viva! Isto é suficiente.

- Você e Virgínia são amigas, como não conseguiu convencê-la?

- Minha filha estava presente na conversa. Quis evitar discussões, então não prossegui com a argumentação quando notei a vergonha dela ao me contar do pagamento.

Beijei a testa dela e desejei melhoras. Ela me pediu para chamar sua filha no quarto, e esta me pediu para esperá-la em casa.

Quando Linda chegou, logo procurou pelo filho, chamando-o. Pedi para Thomas dormir e não esperar tanto, pois ele parecia bastante sonolento. Ver a avó melhorando deve tê-lo estimulado a descansar de verdade durante a noite. Então, ao ouvi-la, corri para a sala.

- Já o coloquei na cama, Linda.

- Ótimo. Vamos ao que interessa, dr. Wilkins. Sente-se.

Seu semblante estava mais brando. Mas isso não me acalmou nem um pouco, nem tirou minha má impressão.

- Perdoe as minhas desconfianças. Quando o senhor for pai, me entenderá. Eu não tenho uma relação muito amigável com a vizinha e pensei que vocês fossem amigos de longa data, então minhas idéias sobre o senhor ficaram ainda piores. Mas como diz minha mãe, a raiva que sinto de Virgínia não tem muito fundamento e você não precisa pagar por isto.

Finalmente, ela se sentou no sofá a minha frente e continuou:

- Fui injusta. Portanto, me desculpe. Mas ficarei aqui até mamãe melhorar, consegui trazer o que preciso para estudar sem precisar estar na universidade. Desta forma, sua presença não é mais necessária nesta casa. Pelo menos, não para cuidar do meu filho. Virgínia pode voltar ao seu antigo ofício completamente. E o senhor pode continuar morando nesta casa, pois é da vontade de minha mãe. E eu também quero retribuí-lo por ter se importado com minha família.

- Se não precisa mais da minha ajuda, fique descansada. Irei para onde estava antes. Fiquei aqui somente para cuidar de Thomas durante a noite e para levá-lo à escola. Não foi para me aproveitar de nada. A única retribuição que aceitaria é poder visitar Thomas de vez em quando.

- Está certo. Mas diga a minha mãe que eu não o expulsei daqui, senão sei o sermão dos próximos dias. Obrigada por tudo.

- Vou sair amanhã, porque já está tarde.

- Fique o tempo que quiser. E desculpe qualquer coisa.

- Está desculpada.

Fomos cordiais. Era suficiente. Mais do que aquilo seria bajulação ou falsidade. Não se tira uma antipatia imediata da cabeça tão rápido. Somente o tempo resolveria aquilo tanto para mim, quanto para ela.

No dia seguinte, expliquei para Thomas que precisava ir, mas voltaria nos finais de semana. Ele não acreditou muito a princípio, e entendi a atitude. Porém, quando apareci em sua casa no outro sábado, ele não conseguia esconder o sorriso e a surpresa. Levei-o para almoçar e depois brincar em um parque. Linda não fez objeções, nem quis nos acompanhar. Mas me olhava com mais admiração e eu correspondi o gesto. Afinal, ela estava sendo compreensiva comigo, então comecei a pensar nela com mais gentileza.

Quanto a Virgínia, eu paguei o salário prometido. Ela voltaria a trabalhar mais no hospital, mas era um mês perdido. Saí alguma vezes com ela e Thomas, porém considerei o fato dela também ser casada e não deixei o espírito de criança me contagiar tanto. Não queria causar problemas para ela.

Continuava a pensar em Mônica, querendo vê-la em todos os lugares comigo. Mas creio que o devaneio errou de endereço, pois encontrei Sienna em um dos passeios ao zoológico. Queria explicar tudo a ela, mas não era o momento. Os meses haviam se passado, o consultório estava praticamente pronto, somente faltavam poucos instrumentos – os mais caros, que estava terminando de juntar dinheiro para comprar – para completá-lo. E eu também me sentia melhor, apesar da saudade que muitas vezes me deixava evidentemente abatido.

Amèlie se recuperou rápido depois de ir para a CTI. Porém, seu lado esquerdo ficou um tanto comprometido. Ela teria de se aposentar, não havia jeito. Podia contratá-la de volta, pois ela era destra e ainda escreveria e atenderia telefones muito bem, como ela disse a mim. Mas eu não ficaria à vontade sabendo do esforço dela, tentando se virar com um braço que mal podia coordenar. Depois de muito explicar minha opinião, pois tinha receio dela pensar que não a queria mais trabalhando comigo, ela concordou.

Pelo menos uma vez por semana, depois de ter saído de casa, eu via Mônica indo para a escola. E me dividia entre a vontade dela me descobrir ali, e a de passar despercebido e continuar com minha meta. Já não era mais um simples plano. Havia mudanças em mim. Pareciam-me familiares, características minhas já desenvolvidas antes, mas a familiaridade era uma sensação parecida com aquelas que eram inexplicáveis e surgiram ainda em Londres. Desisti de entender, porque se fosse tentar, podia achar que estava perto da dupla personalidade.

Em uma noite, ansioso para dizer a ela sobre o término da reforma do consultório – e de certa forma, a feita dentro de mim –, fui para a casa dela e bati na porta. A luz do quarto estava acesa, certamente estava acordada. Toquei a campainha e perdi a noção do quanto fiz isso, na esperança de ver minha querida mulher de perto novamente. Thomas costumava me perguntar o porquê os adultos complicavam coisas que eram tão bonitas como o amor. E mais uma vez, me senti um idiota. Acho que eu merecia isso. Ou melhor, tenho certeza.

Ela não atendeu aos meus apelos. Não sei se me viu pela janela e resolveu se fingir de desentendida. Na dúvida, fiquei com essa opção. Afinal, eu a magoei muito. E me preocuparia demais pensando se estava acontecendo alguma coisa grave. Ela costumava se desligar do mundo quando tinha problemas sérios. Chorava até a exaustão. Eu esperava francamente não ser a causa daquilo, se ela realmente estivesse mal.

Dormi no carro. Acordei com o celular.

- Doutor, deu tudo certo?

Eu quis tirar esse hábito dele. Conversei, pedi que me chamasse pelo nome, mas ele disse que o apelido era "muito mais legal". Não pretendia discutir, aceitei como uma prova de amizade.

- Não, garotinho. Ela não me atendeu, acho que estava dormindo. Cheguei tarde aqui. Sua mãe deixou você ligar?

- Não. Mas a vovó sim, ela quer saber o que aconteceu também!

- Agora você já sabe. E falo isso porque tá na hora de você ir pra escola. Não deixe sua mãe contrariada.

- Ela nem sabe, estou no quarto da vovó – ele ria da travessura, eu me divertia com aquela risada tão sincera, mas me preocupava em levar um sermão da mãe dele.

- Então diga para sua avó que não aconteceu nada por enquanto. Se eu tiver novidades antes do final de semana, ligo.

- Promete?

- Prometo. Agora vá pra escola.

- Eu vou. Doutor, faz uma surpresa pra ela.

- Surpresa?

- É! Mostra o consultório pra ela, mas não vai buscar ela na sua casa. Aí ela vai ficar surpresa e feliz!

- Vou pensar nisso, mas a idéia é boa, rapaz. Não tente me distrair! – eu queria parecer sério, porém ele ria cada vez mais do esforço – Pare de enrolar.

- Tá. Você também!

Eu mal pude responder, pois ele desligou. Era engraçado e estranho ouvir conselhos amorosos de uma criança, mas aquilo deve ser a influência de Amèlie. Com seus olhares irritantemente precisos, ela sabia de tudo e mais um pouco. Certamente, havia dedo dela também naquelas idéias e no jeito irreverente de Thomas.

Assim, segui o pensamento dos dois. Mandei uma chave para Mônica. Tentei ser o mais sucinto possível no bilhete, porque senão estragaria a surpresa. Ela reconheceria minha caligrafia. Mas se implorasse ou me explicasse em uma carta não seria suficiente. Ela não teria motivo algum para acreditar nas minhas palavras. Precisava olhar para mim e sentir que tudo era verdade. Mesmo se desse tudo errado.

Virgínia, Amèlie e Thomas me ajudaram nos últimos detalhes. Linda comprou um livro que já vi Mônica namorando e esperando ser terminado, sobre condições raras de arcadas dentárias precárias de crianças na primeira infância. Quando ela me entregou o presente, fiquei impressionado. Comentei isto com ela numa visita, falando com Amèlie sobre alguns pacientes que ela queria saber como estavam, pois estava curiosa. Acabei lembrando de Mônica ao falar de uma criança e contei do livro. Nem supunha que Linda tinha prestado atenção.

Agradeci muito a gentileza, e ela me desejou sorte. Assim, somente me restava esperar Mônica aparecer. E eu pedia francamente que ela não demorasse, porque minha ansiedade e pressão estavam nas alturas desde quando a carta foi parar na caixa do correio.

Finalizei toda a explicação. Ouvia as pancadas do meu coração como se ele estivesse posto perto de meu ouvido ao invés de estar no peito. Mônica me fitava e quase não piscava por conta disso. Ela acompanhou cada movimento meu. Já tinha amanhecido, e somente notei isto por causa da luz na persiana da janela.

Os minutos passaram como se fossem horas. Ela não parecia disposta a falar comigo, apenas me olhar com aqueles profundos olhos castanhos. Eu estava nervoso demais para tentar entendê-los perfeitamente, se é que um dia consegui. Somente percebia sua respiração assumir um ritmo mais lento, ao contrário da minha. A calma dela era gradualmente evidente.

Já me sentia tonto, certamente por conta dos meus problemas com a hipertensão. Sentei-me, finalmente. Com isto, ela levantou, seguiu na minha direção e disse, decidida:

- Eu não quero retomar nosso casamento agora, Wendell. Preciso pensar. E não pretendo ter você me seguindo ou perto de mim enquanto isto. Se queria me dar o presente, está dado. Eu aceito. Mas você terá de sair daqui até amanhã. Quanto a minha decisão sobre nós, me dê um tempo. Não sei quanto, estou sendo muito sincera ao dizer.

Ela saiu e eu não conseguia me mexer. Esperava isto, mas ouvir era pior do que imaginar.

- A propósito, obrigada. O consultório ficou lindo. Não se preocupe com o aluguel, a partir de hoje, eu pago, como já disse e acho prudente repetir.

O barulho da porta se fechando demorou a acontecer. Nisto, hesitei em olhar para trás. Porém, não resisti e olhei de esguelha.

Encaramo-nos por algum tempo, ambos com os olhos marejados. Mais do que em qualquer momento de saudade, aquilo me matou por dentro. Porque só naquele instante, eu vi o sofrimento puro nela. Não era raiva ou orgulho. Era apenas tristeza. E mais alguma coisa que não consegui identificar. Ela quebrou o contato visual e foi embora correndo. Tive até receio de como ela dirigiria até em casa.

A única certeza em mim era meu amor por ela. Mantê-lo vivo era essencial, desde que quase perdi o amor dela. Se é que não tinha perdido.