A UM PASSO DA EXECUÇÃO
Arashi Kaminari
Capítulo 4
Aguardava o momento em que a sua companhia iniciasse a conversa. Não que eles já não estivessem se falando, mas aquilo parecia tão ilógico... Um amontoado de palavras saindo de ambos os lábios e os próprios donos sabendo que elas não valiam de nada. Não diziam nada de concreto, nada insinuavam. Não havia conexão ao que realmente queriam dizer. Falavam tudo enquanto falavam sobre nada. Aquilo estava se tornando enfadonho e o outro parecia nem perceber.Heero esperava que o seminarista abrisse sua doce boca e começasse a se expressar. Aquele joguinho já estava lhe dando nos nervos.
- É... Mas o que a gente pode fazer, não é mesmo? - havia algo que o japonês não sabia e o próprio tinha consciência disso. Aquilo não era bom. Não poderia atuar perfeitamente se não soubesse todas as cartas que possuía na manga. Porém, parecia-lhe que o americano sabia menos ainda. E aquilo era totalmente perfeito. - Quando vamos acabar com essa brincadeira e você vai me dizer o que aconteceu lá?
Pretencioso demais. Heero não daria as respostas de forma tão fácil como aquela. Não diria as palavras certas, se não obtivesse algo em troca, mesmo que nada valesse.
- Quando conseguir me enganar e fingir que merece saber.
As feições de Duo se tornaram duras. Heero adorava apreciá-las daquela forma. Eram tão mais convidativas do que a feição angelical de um puro seminarista. Observando o olhar que lhe era direcionado, podia perceber toda a raiva latente descansando bem no fundo dos orbes violetas. Sabia que o americano apenas estava se controlando perante ele.
Sentia-se um miserável por ser o responsável de tamanha dor. Ainda não havia visto os familiares das vítimas, mas tinha certeza que nenhum olhar que recebesse seria pior do que o que estava recebendo de Duo naquele momento. Era a primeira vez que se sentia oprimido desde a sua prisão. Arrependimento não era uma palavra cujo significado pesava em sua cabeça. Apenas mudaria o passado se pudesse, mas como não era possível, conformavasse com o presente. Mas sabia que as outras pessoas assim não o fariam. Assim como Duo não o estava fazendo.
Depois da visita a qual despachara Duo com um ultimato, sentiu as horas passarem mais devagar do que elas já passavam. As visitas da irmã Helen então... Como aquela mulher falava. E falava de Deus, Deus, Deus... e Deus. Estava cansado de escutar falar sobre ele. Nem mesmo sua mãe havia tentado tanto mudar suas convicções quanto a certos assuntos. Se ela aparecesse mais uma vez na sua frente e começasse a dizer o quanto Deus era bom, que Ele havia mandando o filho para redimir nossos pecados e que Ambos o amavam e que o mínimo que ele poderia fazer era se arrepender, mandaria-a para lugares nada santos. Foi tomado por esse tédio que, depois de quase dois meses desde o ultimato, anunciou de forma fria e calma que só voltaria a aceitar visitas da Igreja, caso sua companhia fosse Duo Maxwell, o jovem seminarista. E somente ele era aceito. Nenhum outro.
O episódio havia ocorrido há cinco exatos meses e ambos continuavam na mesma fase. Passavam a maior parte do tempo conversando sobre a semana de Heero e Duo contando sobre as novidades do "mundo superior". Evitavam falar abertamente sobre o assunto que os havia feito se conhecerem. Desde então sentia-se estranho. Não sabia se era fingimento, mas Duo o tratava bem e ele gostava disso. E agora ele recebia aquele tratamento gélido quase que de graça.
Desde quando pensava sobre tais coisas daquela forma? Não devia mudar o rumo. Devia continuar no jogo. Eram dois jogadores. O primeiro que errasse, perderia. Não podia dar trégua. Na primeira falha, a derrota seria dele. Sem dúvidas, ali não havia espaço para erros e deslizes.
Duo parecia gostar de quebrar regras assim como ele. Havia sido por isso que o tinha escolhido. Mas as interrogações não deixavam de ser várias: Ele sabia quando o réu dizia algo verdadeiro ou não? Sempre ficava na dúvida ou se deixava levar? O que estava realmente fazendo ali? Heero queria saber. Exatamente. Será que além daquele jogo, o seminarista estava brincando de outra coisa e ele não sabia.
- Diga as palavras certas ou seu amigo se revirará no túmulo por você não ter conseguido a verdadeiro justiça. - o japonês disse, recebendo um olhar cheio de desprezo.
Ops! Aquele era um terreno minado. Ele não podia falar sobre aquilo. A ferida ainda estava aberta. Não tinha a intenção, mas não pudia evitar. Além do mais, o rapaz de vestido de negro sabia como era o gênio do réu. Era o velho vício. Não devia brincar com o jovem visitante, mas era tudo o que sabia fazer. Não podia prendê-lo para sempre e sabia que também não podia se ver livre do lugar. Já havia tentado de todas as formas e naquele momento, ele desistia. O dono dos orbes violetas havia ganho. Mas não por muito tempo, porque ele sabia que o que ele sentia, o jovem também sentia em seu peito.
- Por que você não diz logo o que sabe? Nem que seja para um padre. Pelo menos sua alma poderá ser salva.
Será, que para alguém como ele, haveria iluminação? Ele mentia e mentia. Tinha consciência e não tinha vergonha de admitir. Diria certas palavras. Restava ao americano acreditar ou não. Se olhasse em seus olhos, o japonês lhe daria as costas. Se fizesse as perguntas e ele lhe daria as respostas. Bastava não forçá-lo a dizer nada.
- Você terá suas verdades na hora certa.
Duo ainda o fitava daquela forma que tentava desvendá-lo. Parecia ter percebido que qualquer passo em falso o levaria a estaca zero novamente. O réu não era um quebra-cabeça fácil de se montar e isso todos já haviam percebido. Seria capaz de morrer sem merecer, se fosse preciso.
- Conheci alguém que não prestava. - continuou o dono dos olhos azuis colbato - Você acredita em mim ou não?
O jogo já havia começado. A memória era só dele. Somente ele sabia o que realmente havia acontecido. Bastava mentir que ninguém iria saber. Ops! Será que ele seria um garoto tão mau? Será que nunca deixaria o seminarista saber a verdade?
- Isso faz diferença?
- Talvez... Da cena do crime, apenas eu restei.
- Está dizendo que se você quiser mentir, você o fará e eu não perceberei? - indagou, quase a ponto de acusar o preso formalmente.
- Continuando... Esse alguém não me ajudou como prometeu. Me meteu nessa confusão que você vê e sente agora. Mentiu na minha cara e olha onde o otário está agora.
Tinha seus medos, mas os usava para quebrar as regras e agora seria punido. Era atraente, ele sabia que era. Se dissesse a verdade, Duo acreditaria nele. Mas se ele brincasse um pouco, o jovem de negro entraria em seu jogo.
- Quer que eu sinta pena de você? - perguntou, cheio de sarcasmo.
- Não. Eu não preciso de ajuda. Na verdade, eu sou a ajuda.
- Você ainda n...
Queria falar sobre o americano. Talvez até jogasse como ele queria. Isso se a sua beleza permitisse. Deus que o perdoasse, mas agradecia por ter sido aquele rapaz ao jovem a sua frente naquela noite. Poderia ter sido qualquer um...
- Como você consegue ser tão bonito? - Heero o interrompeu de propósito. Não queria ouvir mais improprérios vindos da suave boca.
- Está tentando me seduzir? Porque se a intenção é essa, você errou feio. Tenho meus próprios princípios. - Duo avisou, sentindo repulsa pela última declaração.
Não! Não poderia. O falecido era um alvo e ele, um álibi idiota. Além do mais tinha suas dúvidas. Achava que haviam sido descobertos. Duo ficaria do seu lado no fim? Quando não houvesse mais nada para contar história, o seminarista ainda iria dele lembrar?
- Quando isso tudo acabar, você ainda se lembrará de mim?
29 de setembro e 8 de outubro
Notas da autora:
"Mundo superior" é como os detentos chamam o mundo além dos muros das prisôes.
Ilia-chan: Como o povo sabe, eu não sei. Mas que eles sabem, eles sabem. rs Eu vi esse filme, mas eu não me inspirei nele. Me inspirei num filme que tem o Sean Penn no elenco e que o nome é parecido com o título dessa fanfiction. Na verdade, eu só vi o final do filme no qual estou me inspirando, mas já foi o bastante para a história vir. E sim, a morte do Quatre foi por um bom motivo.
Serennity LeFay: Sem problema. Obrigada pelos elogios. E não mata o Heero, não. Senão eu não termino a fic. rs
Yukii: Espero que tenha gostado da continuação.
