Semanas depois, Gina observava suas filhas caminharem, de braços abertos, por uma linha imaginária que dividiria os dois terrenos.

Estava contente por ter conseguido mantê-las afasta das da casa de Harry, pelo menos por enquanto. Alice e Amanda ainda desconfiavam um pouco do que a mãe lhes dissera sobre Harry Potter. Procurara explicar-lhes que ele não era um monstro, mas sim um homem com cicatrizes de um terrível acidente. Gina também lhes dissera que Harry era alguém muito corajoso, que salvara várias pessoas de um incêndio.

A compaixão natural das garotas as tornava solidárias, e elas sempre prometiam fazendo o sinal da cruz que não se aproximariam da casa. Concordavam quando a mãe lhes dizia que o Sr. Potter gostava de ficar sozinho, e nas últimas semanas, Gina conseguira mantê-las obedientes.

Até então.

Embora estivesse satisfeita com o fato de Alice e Aman da não mais temerem Harry, deveria ter imaginado que a curiosidade infantil ultrapassaria qualquer advertência que fizera ou qualquer promessa das filhas.

A caminhonete dele não estava ali, o que indicava que não se encontrava em casa. Apesar disso, Gina cha mou as gêmeas, que correram na direção oposta, para longe da residência de Harry. Por enquanto.

Na verdade, ela sabia que mantê-las longe seria uma tarefa bastante árdua. Mas não tinha escolha. Havia se comprometido a ficar em Wayside pelo próximo ano e, se tivesse de brincar de brincar com as meninas no jardim, não hesitaria em fazê-lo. Imagine deixá-las dentro de casa!

Era um preço alto a pagar por sua independência. Uma buzina chamou-lhe a atenção. O veículo vinha pela estradinha. Era Hermione Granger, a corretora de imó veis. Gina abriu a porta e foi até a varanda, acenando para a jovem, que estacionou seu BMW.

- Olá, Gina! Já arrumou tudo?

- Quase - respondeu ela, apertando a mão de Gina.

- Ainda tenho algumas caixas para desempacotar.

- Vim ver se você precisava de ajuda.

- Sim, na verdade preciso.

- Fale, querida.

Um simples olhar de Gina para a casa de Harry deixou tudo bem claro.

- Ora, ora! Suponho que você tenha conhecido Harry...

- Acertou na mosca!

- O que ele fez? - perguntou Hermione, parecendo constrangida.

- O Sr. Potter disse para eu fazer minhas malas e sumir daqui com as minhas fedelhas.

- Era o que eu temia.

- Hermione, por que não me falou que ele não queria alugar a casa para uma pessoa com crianças?

- Porque é disso que ele precisa,

- Como?

- Sinto muito por tê-la colocado nessa posição, Gina, mas Harry é meu primo. Conheço-o desde que nas ci. É uma pessoa maravilhosa. Ele adorava crianças, ado rava as pessoas. Desde o acidente, passou a ficar recluso feito um eremita. Precisa de diversão, de uma vida social.

- O que acontecem, afinal?

- Houve uma explosão em uma fábrica de produtos químicos na cidade vizinha. Na ocasião, meu primo era voluntário do corpo de bombeiros e foi um dos primeiros a chegar ao local do acidente. Sem hesitar, ele correu para dentro do fogo e salvou cinco pessoas. Quando estava voltando, o telhado desabou. Harry ficou preso sob uma viga em brasa.

- Que horror!

- Sim. Foi terrível. Ele passou por inúmeras cirurgias plásticas, mas por fim decidiu conviver com as cicatrizes. - Hermione titubeou. - Algumas pessoas não compreen deram. Por isso ele se mudou de lá. Faz cinco anos.

- E, desde então, mora sozinho aqui?

- Sim. Harry construiu essa casa há três anos. Os Kelly moraram alguns anos no chalé e, como já lhe disse, eram pessoas de idade.

- E você me ofereceu a casa para tentar reabilitá-lo?

- Não, é lógico que não. Achei que ter uma família morando ao lado faria com que saísse da toca. Em especial por causa das garotas. Elas são uns doces. Duvido que Harry consiga resistir aos encantos de suas filhas.

- É aí que você se engana. Ele quase as matou de susto.

- Ah! As cicatrizes! Eu deveria ter lhe contado. Já nem reparo mais nelas. Só ele as enxerga. Harry as usa para manter as pessoas afastadas. Você ficou muito impressionada?

- Eu estaria mentindo se não dissesse que foi um grande choque. Mas a minha irritação com ele foi maior.

- Você lhe disse algumas verdades?

- Ele mereceu.

- Que maravilha!

- Harry não achou. Nem eu. Tremi feito uma vara verde.

Hermione abriu um belo sorriso.

- Mas ele se calou. E vocês ficarão aqui.

- Sim - concordou Gina. - Nós ficaremos. A menos que ele vá à Justiça.

- Duvido. O contrato está assinado. Quem mandou ele preferir pescar do que ir ao meu escritório ver a pa pelada? - Hermione não escondia o contentamento. - Isso é excelente!

A atenção da corretora voltou-se para a estradinha.

- Bem, acho melhor seguir meu caminho. Harry está chegando. Ele deixou um milhão de mensagens na minha secretária eletrônica e não retornei nenhum dos telefo nemas. - Hermione entrou no carro e ligou o motor antes mesmo de fechar a porta. - Vou esperar mais alguns dias até que ele se acalme.

- Covarde! - berrou Gina, acenando para Hermione.

- Eu lhe telefono durante a semana, querida - respondeu, sorrindo.

Harry só foi avistar o carro da prima quando ela passou ao seu lado na estradinha. Ele virou sua caminhonete para a direita evitando um acidente. Então percebeu quem era a motorista...

- Mas o que... Hermione! Hermione! Volte aqui! - berrou ele, brecando o carro. - Quero falar com você!

- Agora não, Harry! Estou muito ocupada! - Com um aceno e levantando uma nuvem de pó, ela sumiu.

Xingando sem parar, Harry estacionou direito a cami nhonete e desceu.

- Vamos, garoto!

Wilbur saltou da carroceria e correu para a varanda.

Harry deu um passo para segui-lo quando avistou Gina.

Ele parou. Por um longo instante apenas a fitou, mas a distância o impedia de discernir-lhe as feições. Todavia, as mãos na cintura e sua postura rígida lhe diziam que a ela estava pronta para discutir.

Mas Harry não queria saber de conversa. Passara mui tas noites em claro tentando imaginar uma solução para se livrar da viúva Weasley, mas nada lhe parecia coerente.

Sua mente preferia mostrar-lhe a imagem de quando a vira pela primeira vez, livre e muito feminina. E na escuridão de seu quarto, a fantasia de ter uma mulher como Gina deitada ao seu lado falava mais alto do que a vontade de mandá-la embora.

Mas agora ela parecia diferente, mais uma criança desamparada, não a mulher sensual que descera as es cadas da varanda com tanta graça. Gina o fitava como se soubesse que a imagem o rondaria durante a noite. Mesmo assim, Harry não conseguia desviar o olhar.

Ela era tão adorável! Magra, alta, com a quantidade perfeita de curvas. Harry imaginou o que encontraria por baixo da calça jeans e da camisa branca.

Gina permaneceu imóvel, permitindo o minucioso exame, como se quisesse dizer: "Vá em frente, meu se nhor, ouse chegar perto!".

Harry forçou-se a não sorrir, mesmo sabendo que ela não o enxergava direito.

Gina não tinha noção de quanto era bonita. Os cabelos avermelhados moldavam-lhe o rosto oval e caíam-lhe nos ombros. O erguer de seu queixo fez com que Harry sentisse vontade de chegar bem mais perto para analisar melhor aqueles olhos tão azuis.

Lembrava-se muito bem deles desde o primeiro encon tro, quando chispavam de raiva. Olhos que poderia ob servar para sempre. Olhos que poderia mergulhar e...

Wilbur lambeu-lhe a mão, fazendo com que as chaves da caminhonete caíssem ao chão. Harry abaixou-se para pegá-las e colocou-as no bolso. Já perdera tempo demais com essa mulher e suas filhas. Tinha muito trabalho a fazer.

Harry meneou a cabeça. "Não seja mais tolo do que você já está sendo... ".

Sem um gesto ou palavra, se virou e entrou na casa.

Que homem peculiar, pensou Gina. Nenhum cum primento, nenhum aceno, apenas uma hostilidade, para ela, sem fundamento.

Gina devia ter feito mais perguntas para Hermione sobre Harry. Não que se importasse. Seu instinto lhe dizia que ele fora um homem adorável no passado, bem dife rente do que se mostrava agora.

Ficou observando a paisagem por mais alguns momen tos, depois entrou em casa.

Contanto que Harry não assustasse suas filhas, não te ria motivos para perturbá-lo.

Harry observou o cão latir.

- O que foi, Wilbur? - perguntou, afastando-se da banqueta de trabalho. Dirigiu-se até a porta.

A resposta foi um rostinho sério, feminino, com um nariz levemente arrebitado. A pequena de cabelos avermelhados o olhava pela janela.

Então ela sorriu.

- Olá. Meu nome é Alice. E o seu?

Sem nem sequer abrir a boca, Harry voltou para o tra balho. Pegou a lixa e continuou a passá-la sobre o pé da mesa para dar os toques finais.

A primeira idéia foi afugentá-la dali, mas não tivera sucesso da última vez. Só conseguira atrair a mãe furiosa. E a última coisa que desejava era um novo encontro. com a viúva Weasley. Não queria perder mais uma noite de sono.

Talvez se a ignorasse, a menina fosse embora.

- O cachorro é bravo? Não gosto de cachorros bravos. Quando eu era pequena, quase fui mordida por um. Ele se chama Wilbur, não? Que simpático! Olhe, está olhando para mim. - Alice acenou. - Olá, Wilbur!

O cão latiu ao escutar seu nome. - Quieto - ordenou Harry.

O cachorro, pronto para se levantar, mudou de idéia ao ver a expressão do dono.

- Deixe-o sair para brincar comigo. Tenho uma irmã, mas ela prefere ficar olhando livros. Não gosto de livros velhos. Mamãe quer que eu a ajude na cozinha. Também não quero. Prefiro brincar no jardim. Wilbur não sabe pegar tocos de madeira?

- Não - respondeu Harry com firmeza, achando que conseguiria afastá-la.

- Então posso brincar aqui com ele? Poderia fazer cafuné no pêlo dele. Está bem?

- Não.

- Porque não?

- Porque não.

- Você fala isso toda hora, mas a mamãe diz que não resposta.

- É a única que tenho.

- O que você está fazendo? - insistiu Alice.

- Trabalhando.

Antes de Harry se dar conta do que acontecia, a menina entrou na casa e colocou-se a seu lado.

- O que é isso?

Harry a olhou com atenção. Era uma linda garotinha.

Não teria mais de cinco anos. - O pé de uma mesa.

- Posso pôr a mão?

- Vá em frente.

Alice tocou a madeira e sorriu.

- É lindo.

- Obrigado.

- Por nada. - A pequena se abaixou e começou a acariciar o animal. -Mamãe falou que você não é um homem-monstro. Você não é, mesmo?

- Não - respondeu Harry, quase sorrindo.

- Eu sabia. Mamãe nunca mente. Ela disse que você não é malvado e que está arrependido por ter nos as sustado. É verdade?

-Sim.

- Ela também nos contou que você é um herói...

-E?

- E que você é um homem triste. Falou também sobre o acidente.

Harry deixou o trabalho de lado. Colocou o pé da mesa em cima das coxas e olhou para a pequena.

- O que mais mamãe falou?

- Ela disse que você se machucou em um terrível acidente. - Alice levou as mãos à cabeça, depois as abaixou para continuar afagando Wilbur. - É verdade?

- Sim?

- Houve um incêndio?

-Sim.

- Você se queimou?

-Sim.

- Doeu?

-Sim.

- Mamãe tinha razão. Pediu que fôssemos boazinhas e não nos assustássemos com você. E que deveríamos sentir pena por você.

- Bem, garota, Você pode falar para a mamãe que eu não preciso...

- Alice!

A menina correu até a porta e olhou para fora.

- Lá vem mamãe! Preciso ir. - Alice parou e franziu o cenho. - Mamãe o chama de Sr. Potter, mas eu acho muito comprido.

- Harry.

- Até mais, Harry. Adeus, Wilbur - despediu-se Alice fazendo um afago na cabeça do cão .

A porta de tela bateu após sua passagem, e a menina saiu correndo. Harry pegou o pé da mesa e voltou a lixá-la, Viu Alice acenando e gesticulando para a irmã, que a esperava do outro lado do gramado.

Relutante, Harry aproximou-se da porta de tela. Não se surpreendeu com a presença de Gina no topo da escada da varanda. Deparou-se com um olhar cheia de remorso, o qual sustentou par um tempo. Ela mordeu o lábio, e Harry acompanhou o movimento.

- Sinto muito, Sr. Potter. Sei que prometi manter as meninas afastadas, mas Alice não é muito obediente.

Harry não respondeu. Não sabia o que dizer. Já se esquecera de como conversar com as pessoas, em especial com as mulheres. Em vez disso, mantinha-se seguro, a salvo. O silêncio começava a se tornar inconveniente. Observou o rosto de Gina enrubescer.

- Conversarei com ela de novo, Sr. Potter.

Harry a fitou através da porta de tela, mas, mais uma vez, não conseguiu responder. Sabia, porém, que tinha de dizer algo.

- Espero que ela não tenha incomodado muito. Alice é muito tagarela.

- Sim - concordou ele, forçando as palavras. - É mesmo.

A resposta calma pareceu minimizar o clima de tensão.

Gina sorriu, o que lhe transformou o rosto. Harry sen tiu um arrepio percorrer-lhe o corpo.

"Ela não faz a menor idéia de como me abala", pensou ele.

A mão de Harry pegou a maçaneta da porta e, por um instante, Gina achou que seria convidada a entrar. Teria recusado, é lógico, mas a simples idéia do convite deixou contente.

Gina queria que ele o fizesse, por inúmeros motivos. Em primeira lugar, queria analisá-lo melhor. O homem que confrontara semanas atrás era indefinível. O que vira na estrada hoje cedo estava bem longe disso.

Tinha vontade de estudá-la, de enxergar a pessoa que havia por trás daquelas cicatrizes. Queria conhecer a Harry Potter que Hermione dissera estar escondido, fingindo ser algo que não era.

Não soube por que o súbito impulso lhe pareceu tão importante. Hermione tinha razão, ele estava machucado. Sabia que a dor ia além dos ferimentos físicos. Gina sempre teve um lugar no coração para as pessoas mais necessitadas, e Harry parecia uma delas.

Compaixão, supôs Gina, era isso o que sentia. Sabia que Harry desprezaria tal sentimento, em especial se vindo dela. Fora um homem muito bonito antes do acidente, e ainda era. Com certeza, sempre estivera rodeado de mulhe res. Tornar-se objeto de piedade devia ter sido bastante difícil.

Não, não faria isso com Harry. Respeitaria seus desejos. Voltaria para casa. Tinha uma missão a cumprir: man ter as filhas afastadas. Respeitaria sua privacidade, um mundo que ele criara sozinho. Não o incomodaria mais.

- É... melhor eu ir andando, Sr. Potter. As meninas... Eu vou ao supermercado. Minha despensa está vazia. Ficaremos fora por um tempo...

- Até logo.

- Até logo. E mais uma vez, lhe peço desculpas. - Como não houve uma resposta, Gina virou-se, a fim de voltar para casa.

As gêmeas a esperavam na varanda. Em poucos ins tantes, as colocava dentro do carro.

"Que homem mais esquisito", pensou Gina. Era melhor agir como ele queria e ficar longe. Mas, assim que entrou na estradinha, não resistiu à tentação de olhar para a casa de Harry e ver se estava sendo observada.

Não estava.

(...)

Prévia do 5

- Venha, Amanda, está tudo bem. Não é mesmo, Harry?

A menina tinha os lábios da mãe. Por que não os vira em Alice? Talvez por ela não parar de falar, impedindo, assim, um estudo mais detalhado de suas feições. Apesar de idênticas, Amanda tinha algo de diferente.

- Posso pegar um cubo de gelo?

- Estou tão envergonhada, Sr. Potter... Nem sei o que dizer. Deve me achar uma péssima mãe, que não conse gue nem controlar as próprias filhas.

- E claro que não! E por que você haveria de ter biscoitos? - Gina respirou fundo. - Desça já daí, garota! Voltem para casa agora! Irei conversar com vocês dentro de um minuto!

Deliciada, percebeu que Harry lhe acariciava a parte interna do pulso. Assim que olhou para baixo, ele soltou-a. Levan tou-se bem depressa e foi para o outro canto da cozinha.

"Eu a toquei... "

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