Segurando os balões de gás junto ao corpo para que não incomodassem as pessoas que cruzavam com ela, Lily abriu a porta de vaivém da ala infantil do hospital e quase deu um encontrão com uma enfermeira.

— Opa, queira me desculpar. É que meus sapatos vivem atrapalhando.

A moça, amiga de Lene, logo lhe abriu um sorriso afetuoso.

— Tudo bem, Clara. É sempre um prazer vê-la por aqui. Com ou sem esses seus sapatões verde-turquesa!

— Há alguém a quem devo fazer uma visita especial após a apresentação?

— Deixe-me pensar... Oh, sim! Joey ainda está no aparelho de tração, no quarto sete. E temos também uma nova garota, com problemas no coração, no quarto número quatro da ala B.

— Quem é essa garota?

— Seu nome é Emily. Ela tem apenas sete anos e... parece que seu caso é sério.

Lily sentiu-se gelar. Emily, a menina de quem James lhe falara. De repente, uma onda de sucessivas lembranças apoderou-se dela, fazendo com que os últimos doze anos sumissem numa fração de segundo. Como se, na verdade, nunca tivessem existido. Como se o tempo não tivesse passado.

Imagens de Petúnia, sua irmã caçula, ocuparam-lhe todos os espaços da mente. A sofrida Petúnia, uma menininha franzina e frágil quê passava mais tempo no hospital do que em casa. Por um longo período, a jovem Lily chegou a imaginar que a irmãzinha acabasse melhorando e passasse a levar uma vida normal, como ela própria, Tess e as outras crianças da zona pobre onde moravam. Mas a pequenina jamais se recuperou da insidiosa enfermidade que acometera seu pequenino coração. E um dia se fora. Para sempre. Para nunca mais retornar.

Num ímpeto, Lily teve vontade de sair daquele hospital e não mais tornar a pisar ali. Em vez disso, deu à enfermeira o melhor sorriso da Palhacinha Clara e a resposta que lhe brotara na garganta com uma naturalidade que ela mesma, até então, desconhecia:

— Pode deixar. Não me esquecerei de passar nos quartos de Joey... e Emily.

Depois caminhou por longos corredores de paredes claras, que pareciam fechar-se sobre ela, sufocando-a com uma tristeza que parecia incrustada na argamassa. Junto à enfermaria, o ruído de instrumentos metálicos e o forte odor de substâncias curativas e anti-sépticas deixaram-na quase atordoada. Para onde quer que virasse a cabeça, chegavam-lhe aos ouvidos sons de campainha seguidos pelo eco de passos morosos, além de trechos de diálogos pontuados por observações melancólicas ou exclamações nervosas. De vez em quando, um choro de criança feria o ar pesado.

Lily parou e fechou os olhos por um instante, tentando afastar tantas sensações desagradáveis. Encostada no batente da porta de um dos quartos lembrou-se de que tinha evitado entrar num hospital por anos e anos a fio. Para ser mais exata, desde a morte de Petúnia. Mas o trabalho para a Shenanigans viera pôr um fim à sua determinação e ela precisara superar o trauma provocado pela perda da irmã caçula.

Escondida na sua fantasia de palhaço acabara percebendo que, o que antes lhe parecia um suplício, vinha tornando-se uma suportável rotina a cada sábado que se passava. Até aquele dia. Por que estava se sentindo tão deprimida? Por que sucumbia àquele terrível e repentino mal-estar? Por que se deixava contaminar pela atmosfera angustiante e cheia de expectativa daquele ambiente?

Bem, se a mulher Lily Evans desenvolvera um verdadeiro horror à proximidade com crianças seriamente enfermas, a Palhacinha Clara tinha por obrigação entretê-las e diverti-las. E foi com esse pensamento em mente que ela ajeitou o nariz de borracha vermelho, enterrou o chapéu na cabeça e, fingindo tropeçar nos próprios pés, encaminhou-se para o salão de atividades da ala infantil do hospital municipal. O show estava para começar!


Uma hora mais tarde, depois de uma apresentação da qual as crianças participaram com entusiasmo, cantando e batendo palmas, Lily deixou o salão após esfuziante troca de beijos e abraços com os pequenos e foi direto ao quarto de Joey. Como encontrasse o garoto adormecido, amarrou um balão de gás amarelo à cabeceira da cama dele, a fim de fazê-lo saber que a Palhacinha Clara tinha aparecido para uma visita. Segurando então o último balão que sobrara, o vermelho que havia separado especialmente para Emily, ela entreabriu a porta do quarto 4-B e colocou o narigão através do vão.

No instante seguinte uma vozinha ecoou pelo corredor:

— Um palhaço! E trouxe um balão vermelho para mim! ― Lily entrou no quarto e, executando alguns malabarismos e uns poucos e desajeitados passos de sapateado, foi amarrar o barbante do balão na grade metálica que formava a cabeceira da cama onde Emily estava deitada.

— Olá, sita. Emily! Meu nome é Clara e eu vim lhe trazer este singelo presentinho. Foi um grande amigo seu quem o mandou.

— Vovô?

— Não, o Dr. Potter. E ele me disse que o balão tinha que ser vermelho.

Erguendo o braço magro para acariciar o balão que pairava sobre sua cabeça, Emily comentou:

— Ah, eu gosto muito do Dr. Potter, só que não sabia que ele tinha amigas palhaças. Você também gosta dele?

— Oh, sim... Eu gosto... gosto muito do Dr. Potter.

— Que bom! Seremos todos amigos, então.

Por trás da pesada maquiagem, que fazia os cantos de sua boca praticamente alcançarem as orelhas, Renata deu um largo sorriso para a menininha de rabo-de-cavalo que apoiava as delicadas costas numa pilha de travesseiros. A palidez do rosto de Emily acentuava as sardas que se espalhavam sobre o narizinho dela; mesmo assim, seu olhar era alerta e brilhante.

Tentando evitar que os grandes olhos castanhos de Petúnia se sobrepusessem aos da garotinha, Lily perguntou:

— Como passou o dia?

— Mais ou menos. As enfermeiras não me deixam andar de patins pelo corredor, então não tenho nada para fazer o tempo todo.

Lily olhou para o par de patins que estava ao lado da cama e depois voltou a sorrir para Emily. Num canto do pequeno quarto, um aparelho monitorava os batimentos cardíacos da menina, ao mesmo tempo em que imprimia um eletrocardiograma sem fim numa folha de papel quadriculado. Oh, Mãe Natureza! Como aquela garotinha ainda tinha disposição para patinar pelos corredores do hospital?

Penalizada, ela perguntou:

— E você estava mesmo com vontade de andar de patins?

— Claro que sim! Ganhei esses patins do meu avô na semana passada, mas já estava quase voando com eles quando tive que ser internada de novo. Agora, vou ter que treinar tudo outra vez.

Sentindo os olhos se umedecerem, Lily teve que lembrar a si mesma de que palhaços não deixavam demonstrar suas lágrimas. Mas como evitar as recordações? Como esquecer o Natal que Petúnia, com oito anos de idade, ganhara uma bicicleta e não pudera desfrutar do brinquedo novo porque o quintal estava coberto de neve? Como tirar do peito a dor de saber que, quando a neve finalmente havia derretido, sua irmã não tinha como andar de bicicleta porque já estava morta?

Esforçando-se para manter a calma, ela colocou o par de patins debaixo da cama, longe do olhar desolado de Emily.

— Os patins ficarão à sua espera, para quando você puder usá-los novamente. Enquanto isso, o que acha de jogarmos um pouco?

— Palhaços sabem jogar?

— Sim, senhorita. Nós, palhaços, jogamos qualquer tipo de jogo.

— Então podemos jogar damas! O que acha?

— Ótima idéia!

Lily apanhou o tabuleiro que estava sobre a mesinha-de-cabeceira e colocou-o ao alcance de Emily. Depois, ofereceu-lhe um grande sorriso.

— Muito bem, Srta. Emily. Quer jogar com as pretas ou com as vermelhas?


James deu algumas passadas pelo hall de recepção do hospital, folheou uma revista, jogou-a sobre a mesa central e pôs-se a andar outra vez. Tentara entrar na ala infantil a fim de ver a pequena Emily, mas o horário de visitas tinha terminado. Mas, embora estivesse consciente do adiantado da hora, fizera questão de passar por ali para dar uma carona a Lily de volta ao apartamento.

Enquanto esperava, recitou mentalmente os motivos que tinha para prestar aquele pequeno favor à sua companheira de moradia: estava chovendo; ela não tinha dinheiro para o ônibus; seria uma longa e cansativa caminhada até o apartamento. De qualquer maneira, ele sabia que tudo isso eram apenas desculpas. A verdade era que... Qual era a verdade?

Sem uma resposta plausível para aquela pergunta, sentou-se numa cadeira e ficou olhando os pingos de chuva correrem pela vidraça da janela. Droga! Tivera até mesmo o cuidado de levar um guarda-chuva para Lily!

O elevador sinalizou que chegava ao térreo e James lançou um olhar cheio de expectativa através do saguão apinhado de gente. Ouviu, então, uma série de risadas; em questão de instantes, as pessoas estavam abrindo caminho para que a Palhacinha Clara passasse.

Lily parou alguns metros adiante, para conversar com um menino que tinha o braço engessado. Absolutamente sem jeito, James aproximou-se.

— Oi.

Ela levantou a cabeça. Não parecia nem um pouco surpresa por vê-lo ali.

— Oi.

— Passei para lhe dar uma carona até o apartamento.

Lily não respondeu. Seus belos olhos verdes, sempre radiantes, tinham um brilho sombrio e distante; o corpo bem-feito parecia exangue; o rosto delicado estava destituído de qualquer emoção. Ela devia ter esgotado todas as suas energias naquela apresentação.

Assim que alcançaram a porta, James disse:

— Eu trouxe seu guarda-chuva, mas acho que deveria esperar aqui, enquanto vou buscar o carro.

Ela não respondeu.

Minutos depois ambos estavam acomodados no Porsche preto, que tomava agora a Wilson Boulevard. Só então Lily tirou o nariz de borracha, o chapéu e a peruca, sacudindo a cabeça até que os cabelos ruivos pousassem em seus ombros em sedosas mechas onduladas. Como permanecesse calada, o único som a permear o interior do veículo era o ruído tranqüilo provocado pelo movimento dos limpadores de pára-brisa.

Temendo que, por algum motivo que não conseguia explicar, Lily estivesse zangada com ele, James puxou conversa:

— Havia muito internos na ala infantil hoje? ― A voz dela tinha tom estranho:

— Sim. Fui ver Emily e lhe dei um balão vermelho, como você havia me pedido.

— Obrigado.

— Ela tem olhos grandes e castanhos... como os de minha irmã.

— Aquela que estuda Medicina?

— Não. Quem estuda Medicina é Tess. Eu estava me referindo a Petúnia, minha irmã caçula.

Novamente Lily ficou em silêncio, mas alguma coisa no íntimo de James lhe disse para esperar. O vaivém dos limpadores continuou a ressoar entre ambos por um minuto ou dois, até que ela voltasse a falar:

— Petúnia morreu quando eu tinha quinze anos.

James calculou que a fatalidade ocorrera havia doze anos. Doze longos anos que se passaram e não foram capazes de aliviar o sofrimento de Lily ante uma perda tão atroz e irremediável. Condoído, ele estacionou o carro diante de um conjunto de edifícios e desligou o motor. A chuva mansa tamborilava no teto do automóvel, mas Lily Evans parecia não se dar conta do que acontecia ao seu redor naquele momento.

Por fim, James encheu-se de coragem e perguntou, seu tom de voz refletindo a ternura que tentava transmitir:

— Como foi que Petúnia morreu?

Como se tivesse saído de um transe, Lily olhou para ele.

— Minha irmã morreu de um problema congênito no coração. Ela sempre foi uma criança muito doente, mas esperávamos que...

— Visitas como a que fez hoje ao hospital devem ser bastante difíceis para você, não?

— Oh, James... Como é possível que criancinhas indefesas possam morrer assim?

No instante seguinte ela chorava copiosamente, e as lágrimas deixavam um estranho desenho sobre a pesada maquiagem que caracterizava a Palhacinha Clara.

Ao perceber que James estendia o braço na sua direção, Lily tratou de recompor-se e murmurou:

— Me desculpe. Não sei o que aconteceu... Nunca choro. Na verdade, sou eu quem mantém tudo sob controle, quem cuida dos outros e...

— Chorar faz bem, sabia? E eu acho que você precisa desabafar de vez em quando.

Ao sentir suas mãos entre as dele, Lily sucumbiu a doce sugestão daquelas palavras e deixou que o pranto, prisioneiro em seu peito havia tanto tempo, rompesse as barreiras da vergonha e da autodefesa. Chorou como não chorava desde... Nem ela se lembrava mais.

Percebendo que Lily se acalmava aos pouquinhos, James entregou-lhe o lenço que apanhara no bolso do jeans.

— Lily, me diga uma coisa: você está ajudando sua irmã com as despesas da faculdade, não está?

— Estou sim. Um dia, ela irá ajudar outras crianças com problemas cardíacos... como Petúnia.

— Sim, ela vai, sim. Estou certo disso.

Agora James compreendia outras coisas. Agora sabia por que ela trabalhava como uma doida e nunca tinha um tostão, às vezes exigindo de si mesma muito mais do que um ser humano normal tinha condições de dar. E, de repente, teve certa vergonha do dinheiro que gastara no seu curso de Odontologia e da quantia que investia para possuir um consultório dentário só seu.

Sem imaginar o que se passava pela cabeça dele, Lily deu-lhe um tapinha no ombro e um sorriso sincero.

— Obrigada, Riquinho. Obrigada por me ouvir.

— Sempre que você precisar... ou quiser...

Ainda sem graça, James desceu do carro, deu volta ao veículo e ajudou-a a saltar, oferecendo-lhe mãos quentes e fortes.

— Veja onde pisa com esses sapatões. Há poças d'água por toda a parte.

Abrigando-se sobre o guarda-chuva que ele empunhava, ambos rumaram para o apartamento, que ficava a meio quarteirão dali.

— Você foi muito gentil por ter ido me apanhar no hospital, James.

— Esqueça. O que pretende fazer com o seu carro?

— Mandar consertar, não tenho outra saída. Você conhece algum mecânico bem barateiro?

— Estarei mentindo se disser que o mecânico que cuida do meu carro não cobra os olhos da cara.

— Era de se esperar.

James teve raiva de si mesmo. Queria conhecer alguém que fizesse um preço camarada para arrumar o Fusquinha, queria entender de carros e motores e consertar o carro ele próprio. Afinal, era uma droga não ser capaz de prestar o único favor que Lily havia lhe pedido.

Ao abrir a porta do apartamento para ela, foi tomado por uma estranha mescla de sentimentos. A jovem mulher que julgara uma maluca mal-humorada, cheia de manias e com um guarda-roupas onde só havia lugar para fantasias absurdas tinha várias outras facetas que ele desconhecia completamente. Na realidade, Lily Evans era uma pessoa muito fácil de gostar.

Assim que entrou em casa, ela levou sua sacola para o banheiro. No corredor, a caminho do quarto, levou as mãos às costas à procura do zíper da fantasia de palhaço. Mais do que depressa, James ofereceu-se para ajudá-la:

— Deixe que eu faça isso.

Ao senti-lo tão próximo, Lily hesitou. Afinal, sempre se virará muito bem sem a ajuda de James Potter. Contudo, aquilo parecia tão natural... Percebeu, então, que o zíper descia até o fim de sua espinha e estremeceu com o contato dos dedos dele sobre sua pele.

— Está com frio, Lily?

— N-não... É que a fantasia ficou úmida por causa da chuva e...

— É melhor você trocá-la por roupas mais quentes e confortáveis. Não precisamos de uma palhacinha com gripe por aqui.

Ela empurrou o imenso macacão de seus ombros e deixou-o cair ao chão. Só se deu conta da bobagem que havia feito ao ouvir James prender a respiração, traindo a onda de desejo que o invadia naquele momento. Lily usava apenas uma espécie de maio preto em lycra que aderia ao seu corpo como uma segunda pele. Sentia-se nua e nem precisava olhar ao redor para saber que ele tinha os olhos fixos em cada movimento que fazia.

E James estava perturbado de verdade. Sua intuição lhe dizia que ela não usava sutiã ou calcinha por sob aquele tecido colante, e essa idéia o excitava de uma forma simplesmente torturante. Quando um arrepio fora de hora percorreu-lhe a espinha e foi concentrar-se entre suas virilhas, ele balbuciou:

— Lily...

Mas o que iria dizer a ela? Que não agüentava de vontade de levá-la para a cama?

— Sim, James?

Lily sabia o que ele queria: sexo. O seu lado racional lhe afirmava que não iria, de modo algum, fazer amor com aquele homem; a onda de lancinante desejo que a dominava, porém, lhe afigurava que não havia nada de mal se passassem um tempinho nos braços um do outro, trocando carícias e palavras afetuosas... Que fazer?

Ela percebeu que tinha as palmas das mãos úmidas e que seu coração batia aos saltos. Lá fora, a chuva continuava a cair mansamente de encontro à vidraça das janelas.

James sorriu e lhe colocou uma mecha de cabelos atrás da orelha.

— Lily, eu... pensei em beijá-la, mas... mas essa sua maquiagem...

— Oh, meu Deus, como fui me esquecer?!

Lily correu para o quarto e ele não hesitou em lhe seguir os passos. Ao vê-la apanhar um frasco de óleo infantil e um chumaço de algodão que estavam numa cestinha sobre a cômoda, antecipou-se:

— Deixe que eu cuido disso.

Ela, então, entregou-lhe o algodão e o óleo, indo sentar-se na beirada da cama. Fechou os olhos e, instantes depois, sentiu-o executar delicados movimentos para lhe limpar a pele, diminutos círculos que começavam em sua testa e se expandiam por toda a extensão do seu rosto. Mais alguns segundos e a voz já meio rouca de James penetrou-lhe os ouvidos:

— Sabe que tem sobrancelhas perfeitas? E que o seu nariz arrebitado parece o de uma criança levada?

— M-mesmo?

— Hum-hum... E a sua pele é de uma suavidade infinita. Mas o que mais gosto em você são os olhos, grandes e cheios de vida. E adoro também sua boca, carnuda como um pêssego maduro.

Com a ponta dos dedos, ele lhe passou um pouco de óleo sobre os lábios. Massageou-os com cuidado até livrá-los da pintura cor de amora e, por fim, retirou o restante da maquiagem com uma toalhinha seca que encontrara ao lado da cesta sobre a cômoda.

Lily abriu os olhos devagarzinho e olhou fundo nos olhos dele. James tinha um olhar sombrio, intenso, penetrante como uma lâmina.

Assim que suas bocas se encontraram, ela sentiu-se transportada por uma poderosa onda de emoções. Quando James a beijara pela primeira vez, tinha ficado tão surpresa e nervosa que mal se lembrava das sensações. Mas agora era diferente: iria, com certeza, recordar aquele beijo pelo restante da vida. Os lábios quentes dele, lembravam o gosto do mais fino e inebriante vinho, fazendo com que seu corpo fosse assolado por tremores incontroláveis e uma pulsante corrente de calor que se convergia para a região de seu sexo.

Aninhou-se de encontro ao tórax rígido, entreabrindo os lábios para que James lhes refizesse o contorno com a ponta da língua. Estava deliciada com o perfume másculo, levemente almiscarado, que se desprendia da pele dele. E não opôs resistência ao senti-lo abaixar as alças do maiô que vestia ao mesmo tempo em que a deitava, com suavidade, sobre a cama macia. Impaciente, esperava agora experimentar as carícias das mãos fortes em seus seios.

Só que James não se moveu.

Lily esperou alguns poucos instantes, que lhe pareceram uma verdadeira eternidade. Quando o desejo cedeu lugar à inquietação, abriu os olhos e viu que ele a observava atentamente.

— Por que está fazendo isto, Lily?

— Co-como assim?

Algo acontecia no íntimo de James, algo que ele mesmo não sabia definir. Estivera ávido por tê-la em seus braços; afinal, desde que a conhecera, considerava-a uma jovem bela e atraente. Mas assim que expôs o rosto da mulher que existia sob a teatral maquiagem, começara a vê-la com outros olhos. E começara também a sentir-se diferente em relação à sua companheira de moradia.

Por fim, ele conseguiu articular uma desculpa boba:

— Eu... eu mal a conheço.

Lily, que havia se entregado ao calor daquele contato de corpo e alma, esperando que ele pudesse lhe dar um pouco de carinho e fazê-la esquecer seus problemas por alguns momentos, levantou-se e foi encostar-se à velha cômoda. Sem se importar com o fato de que aquilo pudesse soar como uma acusação, disse:

— Você muda de idéia bem rapidinho, não?

— É... Acho que sim.

James também levantou-se. Que diabo estava lhe acontecendo? Ardia de desejo por Lily Evans e no entanto...

— Escute aqui, James, se pensa que sou algum tipo de joguete que você pode usar quando e como bem entender, está muito enganado.

— Não se trata disso.

E do que se tratava? Droga, ele próprio não sabia explicar! Ainda que continuasse louco de vontade de fazer amor com ela, James ouviu-se afirmar:

— Já está quase na hora do jantar. Não gostaria de comer fora?

— Tenho que trabalhar esta noite.

— Então quer que eu vá buscar algum prato no restaurante chinês que fica aqui perto? Não demoraria mais do que alguns minutos e... Bem, garanto que você não irá se atrasar para a sua apresentação.

Lily teve ímpetos de responder com um sonoro "Não!", de mandá-lo para o inferno e pedir-lhe que a deixasse em paz de uma vez por todas. Não demorou muito, porém, para que aquela raiva toda se dissipasse. No fundo, estivera à procura de uma forma de escape, alguns minutinhos longe das lembranças da morte da irmã caçula e dos momentos dolorosos que havia passado ao lado da pequena Emily no hospital. Na verdade, fazer amor com James era a última coisa que desejava no mundo!

Esforçando-se para soar gentil, falou:

— A idéia de apanhar um prato no restaurante chinês não é nada má. Vou me aprontar para a performance enquanto você vai até lá, está bem?

Tão logo ele saiu, contudo, Lily descobriu-se zanzando de um lado para o outro, perdendo a escova de cabelo por duas vezes, incapaz de se concentrar no que fazia. Oh, Deus do céu... Será que aquele dia não teria mais fim?

Jantaram num clima calmo, James tecendo elogios ao suave tempero do frango xadrez, ela contando sobre a festa aonde iria se apresentar naquela noite.

Foi só quando Lily colocou o casaco e estava prestes a sair que o desentendimento entre ambos voltou à tona. Já na porta, ela arriscou:

— James, quanto ao que aconteceu...

— E o que foi que aconteceu?

— Bem, nós... Quero dizer, eu...

— Vamos esquecer isso, Lily.

— É... Acho que é melhor.

Ela fechou a porta com cuidado atrás de si. Não acreditava que ele acreditasse que... Oh, maldição!

James seria o único problema a consumir as energias de Lily, se ela não tivesse que gastar sua massa cinzenta pensando num modo de administrar o dinheiro que não tinha. Apesar de todas as horas extras de trabalho que havia feito, lhe restara apenas uns poucos trocados para as refeições após a quitação da primeira parcela do empréstimo que pedira a Lew. Sendo assim, depois de calcular o mínimo de horas de sono de que precisava para continuar mantendo-se em pé, ela acrescentou à sua rotina algumas apresentações de dança do ventre e tratou de arrumar todas as performances extras de que conseguisse dar conta.

A quebra do Fusquinha transformou-se numa outra dor de cabeça. Lily passou mais de uma semana servindo-se do transporte público ou pedindo caronas até o trabalho quando, afinal, juntou o dinheiro necessário para rebocar seu carro até uma oficina mecânica. E o diagnóstico não foi dos mais animadores:

— Um defeito no motor de arranque acabou com a carga da bateria, senhorita.

Puxando o casaco sobre os ombros, ela tentou esconder melhor o sutiã dourado e a calça verde de odalisca que usava. Após passar uma mão nervosa entre os cabelos, perguntou ao mecânico:

— Em quanto vai ficar o serviço?

— Deixe-me ver... São noventa e dois dólares e cinqüenta centavos por um motor de arranque novo, mais seis dólares pela recarga da bateria e mão-de-obra.

— Oh, não!

Alheio à aflição dela, o mecânico prosseguiu:

— Com os impostos sobre as peças novas, temos um total de duzentos e quarenta dólares. Ah, eu ia me esquecendo de cobrar o guincho! São vinte e cinco dólares, mais uma taxa de cinco dólares por quilômetro após os dois primeiros quilômetros do socorro. Vejamos... Três quilômetros mais...

— Tudo isso dá duzentos e oitenta dólares, moço.

— Exato! E então, quer que eu conserte o carro?

Que alternativa lhe restava? Sem o Fusca, era impossível chegar às apresentações na hora marcada. Aliás, Lily já havia desistido de duas performances por estar sem condução: um dos locais para a apresentação ficava longe demais dos pontos de ônibus, e ela não conseguira uma carona para ir até o outro. E sem trabalho, era evidente, não haveria dinheiro para pagar as contas... e o maldito empréstimo.

Lembrando-se dos olhos de doninha de Lew, ela perguntou:

— Quando eu teria o meu carro de volta?

— Amanhã de manhã, pode ser?

— Está bem. Virei pegá-lo quando sair para o trabalho.


No interior do sacolejante ônibus que a levava para mais uma apresentação, Lily passou os quarenta minutos seguintes fazendo todo o tipo de conta. Por fim, acabou chegando a um conflitante resultado: ou pagava o conserto do Fusca, ou quitava a segunda parcela do empréstimo, pois não havia condições de arcar com as duas despesas ao mesmo tempo.

De volta do trabalho, ela saltou do ônibus dois pontos antes do seu, sem ligar para o fato de o relógio marcar dez para as três da madrugada ou para a garoa fininha que lhe umedecia os cabelos. Deixou um bilhete na caixa de correspondência da loja de crediário direto, explicando os problemas decorrentes da quebra do carro e avisando Lew de que iria atrasar o pagamento da segunda parcela do empréstimo.

Feliz por ter entregado o bilhete dois dias antes do vencimento da tal prestação, ao chegar em casa Lily jogou-se na cama sem ao menos trocar de roupa. E dormiu como uma pedra, de tão esgotada que estava.


Durante toda a semana, James viu-se perseguido por sentimentos duvidosos e cheios de conflito a respeito de Lily. Por várias noites, esperou até tarde que ela chegasse, para vê-la e trocarem algumas palavrinhas. Cansado de esperar em vão, colou um bilhete no espelho do banheiro:

"Você tem planos para a noite de sexta-feira? "

Lily viu o bilhete naquela mesma noite quando, morta de cansaço, ia abrir o armário para apanhar a escova de dente. Surpresa leu a mensagem três vezes até dar-se conta de que tratava-se de um convite. Droga! Queria tanto ver James e passar algumas horinhas na companhia dele! Contudo, tinha que fazer uma apresentação numa festa de despedida de solteiro na sexta e, mesmo que pudesse cancelar o compromisso, não podia abrir mão do dinheiro que receberia pela performance. Desolada, amassou o bilhete e deixou outro no lugar:

"Sinto muito, James, mas tenho que trabalhar na sexta."


Julia Menezes: Oi Juh um pouquinho de Petúnia neste cap e de sua curta vida. A Lily é pra lá de maluca, se antes estava difícil pagar os 300 dólares imagina agora com os gastos do fusquinha. A fic a qual você se referiu é A Esposa do Irmão, acabei de postar mais um cap dela também. Beijo e até o próximo cap.

Mirian Black Lupin: Oii flor, muita água vai rolar antes da Lily conseguir quitar a divida, se é que ela vai conseguir, beijos e até o próximo cap.

Fezinha Evans: Oi de novo Fezinha. Calminha, calminha, não bate em mim ^^ Como eu disse em A Esposa do Irmão vou tentar ao máximo postar rapidamente. Beijos e até o próximo cap.