Disclaimer:os personagens de Saint Seiya são propriedade de Kurumada, Toei, etc. Alguns elementos de algumas mitologias também poderão ser (na verdade provavelmente serão) meio que distorcidos mais para a frente.
Capítulo 6 - Acertos em família
Foi com imensa alegria que os habitantes da aldeia receberam os druidas que retornavam da busca na floresta, quatro dias após a fuga de Shaka. Este período havia sido um verdadeiro martírio para Ausriné, que rezara sem parar a todos os deuses, implorando que eles protegessem seu filho e também ao tal amigo dele. A mulher sentiu-se recompensada por sua fé ao ver o filho entrando em casa, acompanhado por Dohko e um menino muito bonito, de aparência exótica.
- Meu filho! Que susto você me deu! - exclamou Ausriné, apertando o garoto loiro em um abraço - Eu devia te acorrentar aqui em casa para que você não cometa mais uma loucura dessas! Quase me matou de preocupação!
- Eu sei mãe, peço perdão por isso. É que eu também fiquei tão preocupado quando soube que o Mu estava sozinho na floresta que na hora eu nem pensei direito no que estava fazendo...
- Que você não pensou direito está bem claro, Shaka. Aliás - disse a mãe do garoto gentilmente, dirigindo-se ao elfo - Os dois não parecem ter pensado direito no que estavam fazendo. Ou você avisou sua família que cruzaria a Floresta das Trevas para vir para cá sozinho, hein Mu? E esse seu nome então mocinho?
Mu estava receoso de que o mandassem de volta para sua casa e, por esta razão, omitira alguns detalhes sobre sua vida quando Dohko o interrogou, ainda na floresta. O elfo havia dito que seus pais morreram à alguns anos e que quase não tinha amigos no lugar de onde vinha, pois todos o considerevam "estranho". Mas em nenhum momento mencionara a existência de seu irmão mais velho e o fato deste ser o rei dos elfos. A verdade era que, apesar de conhece-lo a tão pouco tempo, havia gostado muito de Shaka e queria poder ficar perto dele, mas, se voltasse para casa, era pouco provável que conseguissem se encontrar novamente.
- É sim senhora - balbuciou Mu - e...hã...meus pais morreram...já faz um bom tempo.
- Mas você parece ser tão novinho, deve ter alguém que cuide de você. Algum outro parente, amigos da família talvez. - disse Ausriné, pensativa.
Mu podia sentir o olhar de Dohko sobre si quando Ausriné fez o último comentário. O menino tinha certeza de que o líder dos druidas havia percebido que ele escondia alguma coisa. Mu sabia que sua atitude em relação a Shion estava sendo egoísta, que o irmão provavelmente estava angustiado por causa de sua fuga, mas, ainda assim, não desejava voltar para a cidade dos elfos, onde sempre ficava preso no palácio e a maioria das pessoas tinha receio de se aproximar dele por causa de sua habilidade de prever algumas coisas. A maioria dos elfos achava que o príncipe só enxergava desgraças, que isso só podia ser algum tipo de maldição e que por isso o melhor era mantê-lo isolado, longe de todos, para não assustar ninguém. Perto do rei ninguém se atrevia a dizer nada, mas mesmo assim Shion não conseguia fazer com que seu irmão, a quem tanto amava, fosse aceito pelo seu povo.
A mãe de Shaka esperava que Mu dissesse alguma coisa. O elfo chegou a hesitar por um momento, pensando se não melhor contar tudo de uma vez, mas achou melhor repetir o que já havia dito aos druidas que foram resgata-los, quando Shaka, percebendo seu desconforto, respondeu por ele:
- Ah, não mãe, o Mu contou que não tem muitos amigos lá na cidade dele. Ele é meio sozinho...
- Mas mesmo assim, Shaka, deve haver alguém preocupado com ele, assim como eu estava me descabelando por sua causa...
- De qualquer modo, nós teremos que cuidar do Mu por enquanto, Ausriné. A floresta estava repleta de animais horrendos e já foi uma sorte estes dois terem sobrevivido só com alguns machucados, então não acho que seja seguro envia-lo para casa. – disse Dohko, pronunciando-se pela primeira vez desde que chegaram – De qualquer modo, vamos encontrar alguma forma de enviar uma mensagem para os conhecidos do Mu não se preocuparem tanto.
- Então está decidido, Dohko, o Mu fica morando aqui, comigo e com o Shaka. Afinal, nossa família é pequena mesmo, vai ser bom ter mais alguém aqui conosco. – falou Ausriné, sorrindo.
Os dois garotos ficaram radiantes com o que foi decidido. Shaka saiu puxando Mu pela mão em direção à porta e disse, animado:
- Vem, Mu, que eu vou te mostrar a aldeia e te apresentar para todo mundo! Tenho certeza de que vão gostar muito de você...
- Nem pensar, vocês dois! Agora eu quero que vocês vão tomar banho e dormir.Esses últimos dias foram complicados e vocês precisam descansar. – disse a mãe de Shaka, agora em tom severo.
- Está tudo bem, mãe. Nós não estamos muito cansados, não é verdade Mu?
- Não senhora, nos acampamos quando ficamos muito cansados, o Mestre Dohko mandou. – concordou o elfo.
- Acamparam...Até parece...É para obedecer, andem logo! – replicou a mulher.
- Mãe, não fique me tratando como se eu fosse criança... – protestou Shaka.
- Eu vou te tratar como criança enquanto você se comportar feito criança. Agora podem ir, ou será que eu vou ter que mandar de novo? – disse Ausriné, com as mãos na cintura.
Contrariado, Shaka saiu, ainda segurando a mão do elfo, e foram os dois até o poço buscar água. Quando os dois adultos se viram sozinhos, Ausriné se virou para Dohko, que sorria, levemente divertido com a cena que acabara de presenciar, e falou:
- É tubo bem estranho, não acha, Mestre Dohko? Eles se apegaram um ao outro tão rápido. Os dois mal se conhecem, aliás, até uns dias atrás eles nem se conheciam e ficaram naquele desespero tão grande para se encontrarem.E o Mu até estava usando o claddagh que o Shaka herdou do pai, o senhor percebeu? O Shaka nunca deixa ninguém encostar nas coisas que o pai lhe deixou...
- Realmente, tudo aconteceu muito rápido – respondeu Dohko – E você percebeu que o Mu foi um tanto reticente ao falar sobre a vida dele? Acho que há alguém responsável por ele, que com certeza está sentindo uma enorme aflição a uma hora dessas.
- É, ele não me pareceu um menino completamente sem família. Na verdade, ele parece pertencer a uma família nobre, não? Ele tem uma postura tão, não sei, altiva...Mas ao mesmo tempo, ele parece um bom menino. Será que teria coragem de deixar alguém se consumir de preocupação por ele?
- Não sei mesmo, Ausriné, mas por enquanto o que podemos fazer é observar. Não consigo deixar de pensar que há uma espécie de propósito nisso tudo, ou o Shaka não teria ido parar na cidade dos elfos, dentro do quarto do Mu durante o sonho.
Dohko então foi em direção à porta, mas antes de sair virou-se para a mulher e disse:
- Bem, de qualquer maneira, eu vou enviar uma mensagem para a cidade dos elfos. Acredito que o meu falcão dê conta da tarefa e assim, eles ficam sabendo que o Mu está bem.
Ausriné concordou com um aceno de cabeça e os dois se despediram. A mulher sentou-se em uma cadeira e suspirou longamente. Estava esgotada mentalmente. Os últimos dias haviam sido tão cansativos...
- E aqueles dois que sumiram, por Dannan. Pelo visto ainda vão me dar trabalho – resmungou enquanto saia para procurar os dois adolescentes.
Capítulo 7 – Um Pedido Do Príncipe ElfoMu sabia que não era correto de sua parte deixar Shion sem notícias. Imaginava como o irmão mais velho estaria se sentindo. "Se fosse o contrário eu estaria muito aflito" pensou Mu. Olhou para o lado e viu Shaka adormecido na cama vizinha à sua. Não conseguiu deixar de sorrir com a visão. Tudo naquele lugar era tão simples, mas fazia o príncipe elfo se sentir tão bem. Não era justo com Shion, ele sabia, mas também não queria deixar a aldeia dos druidas. E não queria se afastar de Shaka, seu amigo tão precioso. Era como se o tivesse conhecido durante toda sua vida.
Mas a imagem do irmão não lhe saia da cabeça. Após alguns momentos imerso em reflexões, Mu decidiu que avisaria ao irmão que estava bem, mas também tentaria convencer Shion a deixa-lo ficar na aldeia. O elfo sentou-se a cama e se concentrou. Deixou a mente vagar, ia longe, cada vez mais longe, era um pouco difícil, mas então sentiu, como se estivesse perto de si, a sua casa, o palácio da cidade dos elfos. Pode sentir as consciências de pessoas conhecidas, habitantes do palácio. Após alguns instantes de procura, sua mente entrou em contato com quem ele procurava, Shion, seu irmão.
O rei dos elfos havia passado os últimos dias na mais completa agonia. Desde que Mu fugira não havia conseguido entrar em contato telepaticamente com o garoto, que parecia ter fechado as portas de sua consciência para não ser encontrado. Mas ainda assim, Shion continuou tentando e pode sentir, em certo momento, que a mente do irmão havia escurecido, como se ele houvesse desmaiado. Mas depois voltou a haver uma espécie de "barreira" entre eles, ainda mais forte, como se alguém de fora também estivesse interferindo.
Um grupo de caçadores do reino havia sido enviado para a floresta em busca do príncipe, mas não retornaram. Shion podia sentir que seus servos estavam vivos, mas era como se houvesse algo que os impedissem de se comunicar. Sempre que seus pensamentos tomavam este rumo, o elfo sentia-se invadido por uma impressão ruim, como se houvesse algo nefasto pairando sobre todos. Shion havia reunido seus conselheiros, mas todos acharam que seria imprudente enviar outro grupo de buscas para a floresta, pois o lugar era amaldiçoado e provavelmente esta atitude só serviria para por em risco as vidas de mais homens. Na verdade, em segredo, muitos achavam que era até melhor que o príncipe tivesse desaparecido e só lamentavam pelas vidas dos caçadores do reino.
Naquela noite, apesar das horas já estarem avançadas, o rei encontrava-se em sua biblioteca, perto de uma janela, com o olhar perdido em direção à floresta, quando um jovem elfo, mais ou menos da idade de seu irmão, entrou na sala e, após uma breve reverência, disse:
- Majestade, perdoe-me por incomodá-lo tão tarde, mas acontece que eu tive uma...impressão, por falta de palavra melhor senhor, a respeito do príncipe Mu...
- Sim Camus, o que foi? – interrompeu o rei, voltando-se em direção ao adolescente, com uma expressão ansiosa no rosto – diga-me por favor.
- Claro, Majestade. É que eu senti a consciência do príncipe, vagando por perto, como se procurasse por alguém, mas ao mesmo tempo... – o garoto hesitou, como se tentasse formular direito o que ia dizer.
- Sim Camus, continue.
- Mas ele tem dificuldades para... Se manter no caminho acho. Parece que ele está hesitando e ao mesmo tempo parece haver alguém, de fora, interferindo sem se dar conta.
Camus era filho de um dos nobres da corte de Shion. Era um elfo ainda jovem, muito bonito, com longos cabelos escuros, esverdeados e olhos da mesma cor. Também era um menino com uma telepatia aguçada, quase tanto quanto a de Mu, mas, por sua postura fria e calma e também pelo fato de sua posição social não ser tão elevada quanto a do outro menino, as pessoas pareciam não se sentir tão desconfortáveis em sua presença. Não que Camus se importasse muito com o que os outros pensavam. Mas ele se preocupava com o príncipe, que era a pessoa mais próxima do que ele poderia considerar um amigo.
- E faz muito tempo que você teve essas impressões, Camus? – perguntou Shion.
Não senhor, não faz muito tempo. – respondeu o garoto.
Shion então se concentrou, tentando encontrar a consciência errante do irmão. Após alguns momentos conseguiu entrar em contato com o príncipe. O rei elfo suspirou aliviado, pode perceber que Mu estava bem, e estava até mesmo...alegre? Que bom, o irmão sempre fora um menino tão melancólico...Mas essa não era a questão no momento. Ia dizer algo, quando Mu começou:
- Meu irmão, eu entendo se estiver bravo comigo e sei que se preocupou muito nestes últimos dias. Peço que me perdoe por não ter lhe dado notícias antes.
- Mu, sua atitude foi muito irresponsável. Você é um príncipe, não pode agir de maneira tão leviana, se arriscando dessa maneira. Mas pelo menos você está bem. Agora precisamos arranjar um meio de trazê-lo de volta para casa em segurança. Você viu como aquela floresta maldita é perigosa e...
- É exatamente sobre isso que eu quero conversar, Shion. É que...Eu não desejo voltar. Eu quero ficar aqui onde eu estou e também sinto que isso é importante, por alguma razão.
- E a razão por acaso seria o tal anjo que você saiu procurando? Nem precisa responder, eu imagino que seja isso mesmo. Mu, você tem responsabilidades e não pode se esquivar delas. Entendo como se sente e entendo que goste do lugar onde está, mas você tem idéia do que nossos pais diriam se vissem você tomando uma atitude dessas? – disse o rei, exasperado.
- Eu sei que está decepcionado comigo, Shion, mas peço-lhe que respeite essa minha vontade. Pode parecer só um capricho tolo de minha parte, mas, não sei explicar, desde que eu vi o Shaka, eu tive o pressentimento de que precisava ficar perto dele, que isso é importante. Além disso, como você mesmo falou, eu estou bem, então não vale arriscar a vida de mais ninguém, pois você provavelmente iria enviar uma escolta para me buscar. Por favor, tente compreender. – pediu o príncipe elfo.
Shion decidiu atender o desejo do irmão, pelo menos por um tempo. Pode sentir que Mu se alegrara com isso. Agora só restava rezar para que o menino ficasse bem. Achou melhor não preocupar o príncipe com a questão dos elfos desaparecidos, pois conhecendo o temperamento do irmão, sabia que ele ficaria se sentindo culpado e poderia fazer algo estúpido. Como sair sozinho pela floresta novamente. Era melhor que aquele problema não preocupasse o menino.
O rei despertou de seu transe. Camus o observava em silêncio. Shion então murmurou, como se falasse consigo mesmo:
- Tantas coisas, acontecendo tão rápido, mas ele me pareceu tão seguro de suas decisões...E essa sombra que eu não sei o que é... – então Shion suspirou e sentou-se em uma poltrona, e disse, agora mais alto – Bem, jovem Camus, acredito que agora só nos reste observar para ver como estes eventos inusitados continuam, não é mesmo?
Olá para quem estiver lendo! Espero que este capítulo tenha ficado bom, ele é mais explicação e tal, por isso deve estar um pouco cansativo. Eu vou pedir um pouquinho de paciência tá ok? Ah sim, e mais uma vez eu quero agradecer a quem estiver lendo e também a quem deixou reviews. Muito obrigada mesmo!
